"A Deusa e o Mar" -
Apreciação de Lígia
Leivas
A palavra é a dona do
coração - Lígia Leivas
E assim é para Carlos
Leite Ribeiro que sabe
trabalhar a palavra de
modo a privilegiar a si
próprio e a todos que o
lêem. Carlos chega fácil
e ternamente ao coração
do seu público leitor.
A criatividade brota em
Carlos como a água que
desce a cachoeira...
Em sua novela "A Deusa e
o Mar", Carlos conta uma
história de amor, uma
história humana, de
altruísmo, de dedicação,
de expectativas. A dor
de uma moça linda que
tivera sério problema ao
sofrer um acidente, a
presença do médico
abnegado, o amor
incondicional de Luis
por Sandra... enfim, a
trama em si é sobretudo
enternecedora!
Muitos são os
personagens que se
'encontram' e cada qual
tem sua participação com
destino certo e com
desígnios que serão
desvendados à medida que
a leitura cresce e
prende a atenção e o
interesse do leitor.
Há situações
conflituosas, muitos
mistérios, mas, ao
final, a história é um
brinde a quem com ela se
envolve e nela deposita
confiança... Sandra,
Luiz, Antonio das
Ondas... e mais tantos
outros personagens sabem
dar conta do recado.
E Carlos Leite Ribeiro,
com seu desempenho
brilhante na arte da
palavra, conquista mais
um significativo número
de leitores com "A Deusa
e o Mar"!!!
Boa leitura!
Parabéns, Carlos!
Lígia Antunes Leivas
Pelotas - RS, BR

COMENTÁRIO de Ilda Maria
Costa Brasil
Em "A DEUSA e o
MAR", Carlos Leite
Ribeiro trabalha, com
magnificência, emoções,
sentimentos, imaginação
e sonhos, levando-nos a
percorrer caminhos
diferentes para
chegarmos ao amor
idealizado, puro e
verdadeiro.
No desenrolar
da narrativa, virtudes
como temperança e
fraternidade tornam-se a
expressão do amor, sendo
o substrato para o
personagem Luis Carlos
vivenciar e refletir
diferentes estados de
espírito. Esse, embora
tenha ficado magoado e
triste ao ver Sandra
Cristina na companhia de
outro rapaz, deixou a
cidade com discrição e
polidez. O autor, com
tom entre melancólico,
sonhador, crítico e
esperançoso, revela-nos
a complexidade do pintor
e da jovem na busca pela
felicidade e por um
futuro melhor.
"A DEUSA e o
MAR" caracteriza-se pelo
domínio do diálogo sobre
a narração, permitindo
que o leitor transite e
acompanhe situações de
desencanto, insegurança,
amizade e realização.
Sem dúvida, uma obra em
que o amor transcende o
imaginário,
constituindo-se parte
importantíssima da
realidade numa linguagem
afinada, espontânea,
fluente e agradável.
Parabéns e muito
sucesso!
Ilda Maria Costa Brasil

COMENTÁRIO de Glória
Marreiros
Querido Amigo Carlos L.
Ribeiro
Li e reli este excelente
e maravilhoso romance.
Não fiquei muito
surpreendida, porque já
me habituei à beleza e à
sua culta escrita, nos
textos que tenho lido e
saboreado, e onde está
bem patente o seu dom de
escrever, de comunicar e
de transmitir a sua
sabedoria e a sua
grandeza de alma.
"A Deusa e o Mar"
transporta-nos para uma
dimensão tão vasta e tão
extensa, onde o
verdadeiro amor toma
forma. Faz-se alma e
corpo. Toma dimensões
que exalta ou amaina, os
espíritos sensíveis.
Eleva-se e eleva-nos.
É uma história calma e
arrebatadora, triste e
alegre, amarga e doce,
pura e voluptuosa. Tem
os condimentos
necessários para nos
banquetearmos com uma
saborosa refeição
intelectual.
É sublime a forma como
descreve os sítios, os
lugares e as
personagens. Os
"discursos directos"
enriquecem a escrita e
os "adjectivos" também.
Depois, é a história, em
si, porque tem conteúdo
e belíssimas imagens
poéticas.
Só lhe posso dizer:
PARABÉNS!
Um beijinho.
Glória Marreiros – (Portimão
/ Algarve / Portugal)

“A DEUSA
e o MAR” – de Carlos
Leite Ribeiro
Estávamos em princípios
de Julho, na tarde de um
dia muito quente.
A esplanada de São Pedro
de Moel, estava apinhada
de gente. “Sentadas numa
mesa, duas senhoras
brasileiras conversavam,
fazendo renda ao mesmo
tempo...
Lígia: - A que horas é
que vais para a praia?
Ilda: - Lá mais para a
tardinha, pois agora
está um calor
insuportável.
Lígia: - Vá lá que aqui
na esplanada, com este
agradável ventinho,
estamos bem.
Ilda: - O mar hoje está
muito calmo, e esta
beleza... Oh São Pedro
de Moel, tu és de uma
beleza incomparável, és
uma das "jóias" deste
velho Portugal!
Lígia: - Olha quem vem
ali, é o Sr. António das
Ondas... Boa tarde, Sr.
António!
António das Ondas: -
Olá, minhas senhoras!
Fizeram boa viagem desde
o Sul desse belo país
que é o Brasil? ...
Posso sentar-me? É que
estas minhas pernas já
não são o que eram.
Ilda: - Com certeza que
se pode sentar, Sr.
António das Ondas.
Fizemos uma boa viagem.
Combinámos encontro no
aeroporto de São Paulo e
só parámos em Lisboa;
depois, ônibus até aqui
à também nossa São Pedro
de Moel. Senhor está com
um óptimo aspecto, e
cada vez parece mais
novo!
António: - Ora, ora é
muita gentileza vossa
essa apreciação...
Olhando em redor,
António das Ondas viu
numa mesa afastada, um
casal ainda jovem.
António - As senhoras,
por acaso não conhecem
aquele casalinho que
está ali sentado, junto
daquela janela da
esplanada?
Ilda: - Eu só os conheço
de vista. Ele é o
célebre pintor Luís
Carlos, e aquela moça
será a sua esposa?...
António: - É sim. É a
Sandra Cristina, uma
moça natural cá de São
Pedro de Moel. Casaram
vai para três anos…
Lígia: - Então o Sr.
António das Ondas,
conhece-os bem?
António: - Conheço-os
muito bem mesmo...
Ilda: - O Sr. António
está hoje muito
misterioso, que se
passa, hoje, consigo?
Lígia: - E também não
tira os olhos do pintor
e da mulher. Vê-se que
são seus amigos.
António: - Muito amigos,
mesmo. E têm uma bela
história de amor!
Ilda: - E o Sr. António
tem cá um jeitinho para
contar histórias...
António: - Concordo com
as senhoras, mas esta é
muito especial. É uma
bela história de amor...
Lígia: - Senhor António
das Ondas, conte-nos a
história deles, a que
diz que é uma bela
"história de amor”.
António: - É uma
história muito comprida,
e dava bem para um
mês...
Ilda: - Mas isso é
formidável para nós,
pois contamos ficar cá
durante todo este mês.
Lígia: - Comece lá a
contar a história, Sr.
António das Ondas!
António: - Então, se me
dão licença, começarei
amanhã. De acordo?
Ilda: - Mas aqui está
sempre muito barulho, se
nós pudéssemos ir para
outro lado...
António: - De acordo.
Então, por exemplo,
podemos encontramos no
café da Ladeira, amanhã
pelas 10 horas. As
senhoras concordam?
Lígia: - Estamos
plenamente de acordo!
António: - Então, minhas
senhoras, até amanhã!
Luís Carlos era um jovem
pintor algarvio, a quem
a crítica previa um
futuro brilhante na
arte, chegara três dias
antes a São Pedro de
Moel. A beleza da
paisagem e das suas
gentes haviam-no
conquistado, e sendo
assim, até se felicitava
por ter escolhido aquele
recanto privilegiado da
Natureza... Não era
ainda a época do ano em
que os turistas
desembarcavam em massa,
vindos de "expressos" de
todos os pontos do país,
passeando e saboreando a
sua curiosidade, pelos
recantos de São Pedro. A
antiga residência de
veraneio de Afonso Lopes
Vieira, hoje colónia de
férias de crianças da
Marinha Grande, é um
atestado do requinte de
vida, de alguns anos
atrás, quando os
"Algarves" ainda não
tinham sido descobertos
pelo grande turismo.
- Realmente - pensava
Luís Carlos - os antigos
sabiam viver.
Demorava horas e horas
na contemplação daquele
milagre de cores e tons,
em que a vegetação e o
mar, os acidentes do
terreno e a luminosidade
do céu, se conjugavam
para tudo
espiritualizar,
emprestando à existência
esse "quê" de evasão da
vulgaridade que ela vai
perdendo, cada vez mais
nos nossos tempos de
mecanização. Ao chegar à
estação da Rodoviária,
vindo no "expresso" que
o trouxera de Lisboa,
cidade onde residia,
Luís Carlos teve a ajuda
de uma encantadora
rapariga, que o ajudou a
transportar a sua
bagagem até ao alto,
para os lados da
piscina, onde alugara um
quarto.
Ana Maria: - O senhor é
pintor?...
Luís Carlos: - Sou sim,
garota. Porque
perguntas?
Ana: - Com estes
aparelhos todos, só
podia ser pintor!
A garota chamava-se Ana
Maria e tinha 18 anos.
Era uma tentação da
carne morena rosada,
algo tisnada pelo sol,
de formas elegantes e
graciosas. Todas as
outras raparigas de São
Pedro de Moel
rivalizavam entre si em
beleza e graciosidade,
emprestando aquele
recanto da Natureza, o
atractivo da sua
presença e da sua voz,
dos seus corpos fibroses
e jovens, que eram
promessas de carinho,
destino apetecido de
todas as carícias dos
homens.
Luís: - Um dia destes,
pinto o teu retrato,
queres, Ana Maria?
Ana: - Não sei para
quê, pois eu até nem sou
bonita. Era bem capaz de
lhe estragar a pintura!
Luís: - Vaidosa é que tu
és garota!
Nesse dia, também
conheceu um bondoso e
interessante velhote: o
António das Ondas.
Antigo piloto do
"bacalhau" e dos
"paquetes" e por fim dos
"petróis", como ele por
graça dizia. Durante
mais de quarenta e cinco
anos, andou por cima das
ondas, conhecendo todos
os oceanos e "meio
mundo". Ninguém em São
Pedro de Moel tinha
segredos para ele, e
quase sempre sugeria a
melhor maneira para
qualquer situação, tal
como tinha sempre a
melhor palavra para cada
um e, na sua vida, nunca
tinha mentido. Luís
Carlos gostava do
bondoso velhote,
especialmente pela sua
bonomia e pela sua aguda
inteligência, não isenta
de fina e compreensiva
ironia. Nessa tarde e
depois de aceitar o
convite do António das
Ondas para tomar uma
bica (café), no café da
subida, perto do
chafariz, Luís Carlos
foi passear sozinho pela
beira mar. Começara a
pintar uma garota da
terra, mas ela era tão
apetecível, tão
provocante, mesmo que
involuntariamente, que o
nosso pintor decidira
espaçar as sessões, e
andava enchendo os olhos
por aquela paisagem de
sonho, povoada de gente
simples e bonita,
gozando profundamente a
paz daquelas encostas
alcantiladas, que se
erguiam sobre o
Atlântico, azul e
revolto, rebrilhante
como uma imensa gema
preciosa.
Subitamente, Luís Carlos
estacou surpreendido:
defronte dele, mas em
plano inferior na
encosta que descia para
o mar, ali bem perto da
varanda da esplanada,
acabava de descobrir o
vulto airoso de uma
rapariga que olhava o
oceano. Estava quase de
costas para ele e, um
lindíssimo cabelo
alourado ondulava
brandamente na aragem da
manhã. Não podia ver-lhe
as feições, mas a sua
silhueta, desenhando-se
com nitidez e elegância,
sobre o mar, dava-lhe um
ar de estátua
proporcionada e
delicada, assim sentada
no alto daquela rocha,
de tons escuros. Sem
fazer qualquer ruído,
Luís Carlos, foi-se
aproximando da rapariga,
desviando-se o
suficiente para poder
vê-la de perfil. Era
lindíssima, e tinha as
mãos entrelaçadas na
ponta dos braços, onde
prendia um dos joelhos.
Tirando da sua pasta, um
lápis e papel, o pintor
começou a fazer um
esboço daquela beleza
estranha, que parecia
sofrer. Quando o esboço
ia quase no fim, ela deu
pela presença dele, e
fitou-o com certa
surpresa...
Luís: - Bom dia, menina.
Peço-lhe desculpa... Não
pretendia perturbar-lhe
os seus pensamentos, mas
a tentação foi maior…
Sandra Cristina: - Olá,
bom dia! Parece que já o
conheço, pois no outro
dia encontrei-o junto da
Ana Maria. O senhor
também costuma conversar
com o Sr. António das
Ondas. Estou certa?
Luís: - Sim costumo e
gosto de falar com o Sr.
António. Pelos vistos
também conhece esse
senhor.
Sandra: - Toda a gente
aqui o conhece. Mas, o
Sr. Esteve a ocupar-se
de mim? Pintou o meu
retrato?!
Luís: - É verdade. A
beleza que você dava a
este quadro era tão
forte, tão comunicativa
que me permitiu fixá-la
num pequeno esboço. Com
o mar lá em baixo, era
bem "A Deusa e o Mar!..."
Não se ofendeu por isso,
não é verdade?
Enquanto falava, Luís
Carlos ia-se
enfeitiçando com a
impressão que lhe
provocara aquela
rapariga, tão estranha,
de olhos claros e
distantes, e cujo
sortilégio, era
fascinante e inquietante
ao mesmo tempo.
Sandra: - Não, não me
importo, Deixe-me ver
esse esboço…
Luís Carlos entregou-lhe
o papel e sentiu-se mais
tranquilo, quando
percebeu na expressão
dela, uma verdadeira
admiração pelo seu
trabalho. Quando a
rapariga levantou os
olhos, ele mais pediu
que perguntou:
Luís: - Deixa-me pintar
um retrato seu?
Sandra: - Tem mesmo a
certeza que me quer
pintar?!
Luís: - Claro que tenho
a certeza! Você é uma
das raparigas mais belas
que vi em toda a minha
vida!
Um vago sorriso
indefinível perpassou
pelo da jovem. Um
sorriso que queria ser
trocista, mas era
profundamente triste.
Por fim disse apenas
iludindo a resposta.
Sandra: - Ainda nem sei
o seu nome...
Luís: - Chamo-me Luís
Carlos, sou pintor de
profissão e algarvio de
nascimento.
Sandra: - Eu sou a
Sandra Cristina Mendes e
vivo com os meus pais,
numa pequena quinta que
possuímos aqui em São
Pedro de Moel.
Luís: - Então se me
permitir procurarei seus
pais, para pedir-lhe
licença para pintar o
seu retrato.
Sandra: - Se achar que
vale a pena, não me
oponho. Mas creio que
brevemente mudará de
opinião!
E dizendo estas
palavras, saiu de cima
da rocha, e caminhou
vagarosamente diante
dele. Luís Carlos
verificou então que uma
das pernas daquela
beldade era
sensivelmente mais curta
que a outra, e que o pé
não pousava normalmente
no chão. O seu andar não
era cadenciado, e até as
ancas apresentavam uma
evidente assimetria. “A
voz dela soou como uma
chicotada:
Sandra: - Vê!... eu bem
o preveni que decerto
mudaria de opinião...
Luís: - Mas...
Não teve tempo para
articular nem uma
palavra, porque ela
deitou a correr subindo
o carreiro que ele antes
descera, com uma
agilidade muito notável
para o seu defeito
físico... Chegada lá a
cima, parou e encarou-o,
dizendo numa voz
patética, em que não se
adivinhava nem uma
lágrima.
Sandra: - Será melhor
pintar qualquer dessas
raparigas sadias, que há
em São Pedro de Moel, do
que perder tempo com uma
aleijada...
Luís Carlos encarava-a
alcandorada lá em cima,
na beira do caminho, e
não encontrava qualquer
palavra acertada para
dizer, que lhe tivesse
ocorrido a frase certa.
Entretanto, mesmo que a
disse-se, ela já não a
teria ouvido, pois
desaparecera dos seus
olhos, como que
misteriosamente.
Verificou então que não
encontrava a folha de
papel, onde esboçara a
sua donairosa figurinha
encavalitada na rocha.
E, como não havia vento,
o desaparecimento do
papel, apenas podia a
explicação de ela o ter
guardado. E esta
hipótese confortou-o.
Nessa tarde, encontrando
o António das Ondas,
numa esquina de São
Pedro de Moel, o pintor
Luís Carlos,
dirigiu-se-lhe a ele
precipitadamente. O bom
velhote acolheu-o com um
sorriso, e pareceu
esperar quaisquer
palavras, que, aliás,
não demoraram:
Luís: - Diga-me, Sr.
António das Ondas,
conhece uma família
Mendes, que tem uma
Quinta aqui em São Pedro
de Moel?
António: - Conheço
sim, meu rapaz! Têm uma
pequena Quinta, e uma
filha linda como os
amores, não é
verdade?... Encontrei a
Sandra Cristina, que
levava o esboço que lhe
fizeste sem ela dar por
isso. É um encanto de
menina, mas muito
infeliz...
Luís: - Estou a ver...
Mas diga-me como lhe
aconteceu aquilo...
António: - Foi um
acidente de automóvel,
quando a pobre tinha
doze anos. Se tivesse
acontecido mais cedo,
teria sido melhor, pois
os pais eram (pode-se
dizer ricos), mas há
cerca de cinco anos,
sofreram um terrível
incêndio, e ficaram
praticamente
arruinados... e assim,
na altura em que se deu
o desastre, já eles não
tinham posses para levar
a pequena ao
estrangeiro, e fazê-la
operar por algum desses
grandes especialistas.
Luís: - Mas... Quase não
se nota!...
António: - Isso dizes
tu com o teu entusiasmo,
mas a verdade é que toda
a gente a trata por
coxa, ou com mais
ternura, pela coxinha. E
repara, para uma
rapariga formosa, de
dezoito anos, é um drama
que eu tenho tentado
atenuar, na minha
qualidade de "amigo de
família". Mas é difícil
e delicado, pois a
Sandra Cristina, é de
uma personalidade
riquíssima, até
excessivamente
sensível... Diz-me lá
uma coisa, Luís Carlos,
sempre queres pintar o
retrato dela?
Luís: - Claro que quero.
É o rosto de mulher mais
belo que vi em toda a
minha vida !
António: - Mas mesmo
sendo coxa?!
Luís: - Pelos vistos,
chamam-lhe assim, mas
ela, não é bem coxa. E
esse aspecto em nada vai
alterar o meu propósito
de pintar o seu retrato!
António: - Estás a
falar verdade, Luís
Carlos?
Luís: - É verdade, Sr.
António das Ondas! Muito
lhe agradecia que me
dissesse aonde é que
fica a quinta deles,
para eu ir lá pedir aos
pais autorização, para
lhe fazer o retrato.
António: - Sendo assim,
até calha bem, porque eu
vou agora a casa dos
Mendes. Se quiseres,
podes vir comigo.
Luís: - Fico-lhe muito
agradecido.
António: - Espera aí,
rapaz, não andes tão
rápido ... Que pressa
essa! Eu quero
prevenir-te que aquela
gente é muito boa, e que
não deves brincar com o
coração de Sandra
Cristina, pois ela é uma
pequena de uma
sensibilidade fora do
comum, e aquele acidente
marcou-a para toda a
vida. Por favor, não vás
encher a cabeça da
mocinha de coisas
bonitas, para depois lhe
dares um desengano -
prometes?! ...
Luís: - Mas eu só quero
pintá-la!
António: - Ora, ora...
Estás em São Pedro de
Moel há mais de uma
semana, já começaste
quatro ou cinco retratos
de outras tantas
raparigas, e ainda não
acabaste nenhum.
Luís: - Mas hei-de
acabá-los. O Senhor Sabe
bem que muitas vezes, ao
iniciar uma pintura,
estamos convencidos de
qualquer coisa, mas por
vezes essa mesma pintura
nos afasta. Não sei
explicar porquê ... Não
sei expressar o que
sinto...
António: - Nem é
preciso que expliques.
São os teus vinte e oito
anos, o teu anseio de
beleza. Bem, eu não
estou a censurar-te, de
maneira nenhuma, o que
tens feito. Estou só a
pedir-te que não o
repitas com a Sandra
Cristina.
Luís: - Se eu conseguir
pintá-la prometo que
acabarei o quadro, e ele
será a grande obra-prima
da minha vida!
António: - Assim é que
é falar! E olha que
também não será preciso
que beijes (de certa
maneira...) o teu
modelo, durante as
sessões de pintura -
percebes, não
percebes?...
Luís: - Eu só gostava
de saber como é que o
Sr. António das Ondas
consegue saber tudo o
que se passa cá na
terra!
António: - Não te
esqueças que sou amigo
de toda a gente!
Sinceramente, gostava
muito que tu e a Sandra
Cristina se entendessem
bem, até para lhe tirar
ideias tontas que ela
tem na cabecita, e que
só podem fazê-la
infeliz. E tu talvez
sejas um homem capaz
disso...
Luís: - Pode crer que
tudo farei para
consegui-lo!
António: - E com esta
conversa toda, chegámos
a casa dos Mendes. Vamos
entrar...
A casa ficava um pouco
distante do portão de
entrada, e até havia um
caminho sombreado de
pequenos pinheiros
bravos, acácias e
medronheiros, com
pequenos mirantes de
pedra, que se abriam
sobre o mar. As
apresentações foram
simples e despidas de
qualquer cerimonial, e
Luís Carlos ficou
encantado com os pais de
Sandra Cristina, que
eram educadas e simples.
Ela esteve sempre
presente, mas como a
marcar uma ostensiva
distância do pintor. Foi
a única pessoa que
destoou do ambiente de
simpatia que o acolheu.
Luís: - Escute Sandra
Cristina, eu vim pedir
autorização a seus pais,
para pintar o seu
retrato, pois sem essa
autorização, não me
atreveria a pintá-la.
Mas, se não quiser...
Sandra: - Bem sei, se eu
não quiser deixar-me
retratar, você ficaria
muito satisfeito, porque
se livraria de cumprir a
sua promessa - não é
assim?!
Luís: - Não é verdade,
Sandra Cristina, se você
não quiser, perco a
grande oportunidade da
minha vida de poder
fazer uma obra de grande
arte !
No tom de voz em que
falara, transparecia
sinceridade, o que
impressionou todos os
presentes. A mãe da
pequena e o António das
Ondas encararam-se num
olhar de compreensão. O
pai tossiu sobre o seu
cachimbo, e Sandra
Cristina, pareceu
sacudida pela veemência
com que o rapaz
falara...
Sandra: - Se é assim...
Se verdadeiramente, me
quer pintar, mesmo
depois de saber que eu
não passo de uma coxa,
agradeço-lhe que me
tenha escolhido, para o
seu quadro, pois sei que
já tentou com algumas
das mais bonitas
raparigas de São Pedro
de Moel.
Luís: - Muito obrigado.
Você não tem nada que me
agradecer, antes pelo
contrário!
André, pai de Sandra
Cristina, interveio…
André: - Vamos então
festejar o acordo entre
o pintor e o modelo,
bebendo um copo do bom
vinho da região de
Leiria.
António: - Que por
sinal é um excelente
vinho!
Luís Carlos vivia em
pleno contentamento.
Havia já quinze dias que
começara a pintar a sua
enorme tela, em que
Sandra Cristina,
aparecia tal como sempre
a via diante de si:
sentada num mirante que
se debruçava sobre a
poesia incomparável do
Atlântico, e, sobretudo
sobre São Pedro de Moel.
À medida que o quadro se
aproximava do fim, Luís
Carlos, vivia
intensamente essa
estranha sensação que
antecede a glória.
Estava realizando uma
autêntica obra-prima, na
qual, para mais, eram
evidentes os seus
profundos sentimentos
perante o modelo... Se o
amor, o êxtase
administrativo, tivesse
traços ou cores
próprios, decerto seriam
aqueles que Luís Carlos
traçara e coloria na sua
tela. Por isso
pretextara uma
superstição sua, e assim
ninguém ainda vira o
quadro, pois ele
declarava que sempre que
trabalhava numa obra de
responsabilidade, não
gostava que a admirasse,
antes de estar
concluída. O contrário
dava-lhe azar. Sandra
Cristina permanecia tão
desconcertante para ele,
como no primeiro dia que
a conhecera. Havia dias
que estava carinhosa e
quase provocante, e
outros em que era
distante e fria, como um
iceberg. Ela
modificava-se de tal
ordem, que ele voltava a
nada entender dos seus
verdadeiros sentimentos.
Era certo que nunca
dissera que lhe tinha
amor, mas tinha sido tão
evidentes e tão
inequívocas as provas
que lhe dera
sucessivamente, dos
quais, dos seus mais
profundos anseios, que a
rapariga não podia
albergar a menor dúvida
quanto a eles...
Apesar disso, ou por
isso mesmo, a verdade é
que o procedimento de
Sandra Cristina seguia,
era surpreendente e até
inexplicável. Nessa
manhã, ela
perguntou-lhe:
Sandra: - Então, Luís
Carlos, quando é que
está pronto o meu
retrato? ... E quando é
que o posso ver?...
Luís: - Será amanhã,
Sandra Cristina, e tenho
muita pena...
Sandra: - Pena de
quê?!...
Luís: - De acabar o seu
retrato...
Sandra: - Não sei
porquê?!
Luís: - Porque... Porque
depois não a poderei
mais tê-la tantas horas
sozinha comigo, com a
tenho tido até agora ...
Sandra: - O que é que
quer dizer com isso?!
Luís: - Quer dizer que
gosto de estar sozinho
com a Sandra Cristina.
Sandra: - Duvido, pois
sempre se comportou,
digamos, como se não
estivéssemos sozinhos!
Luís: - Não seja
injusta, Sandra
Cristina, pois eu...
Sandra: - Você...
Costuma beijar os seus
modelos logo à segunda
sessão. Ora, eu tenho
posado para si há mais
de três semanas, e você
nunca tentou
beijar-me...
Luís: - É certo, mas
deixe-me explicar...
Sandra: - Ah, não tente
agora convencer-me de
que gosta de mim e por
isso nem tentou fazê-lo!
Luís: - Por favor,
Sandra Cristina...
Sandra: - Claro, se você
gostasse de mim, um
pouquito que fosse já me
teria beijado. Ou
melhor, já teria tentado
beijar-me, sim, porque
eu não o consentiria que
me beijasse. Porque você
está aqui para me fazer
o retrato, e não para me
beijar!
Luís: - Mas que
disparate vem a ser essa
Sandra Cristina?!
Sandra: - Não é
disparate nenhum, pois
bem sei que beijou a Ana
Maria, logo no segundo
dia que ela pousou para
si!
Luís: - Mas, Sandra...
Sandra: - E a mim?!
Sim, a mim... Porque é
que nunca tentou
beijar-me? ... Será que
eu seja feia?...
Luís: - A Sandra não é
nada feia, antes pelo
contrário!
Sandra: - Então, é
porque sou aleijada,
porque sou uma coxa, não
é verdade, Sr. Luís
Carlos?!
Enquanto falava, fora
caminhando, e já estava
muito próximo dela, que,
entretanto se levantara
para impedir que ela
visse o quadro.
Sandra: - Mas fale Luís
Carlos, diga alguma
coisa... É por eu ser
aleijada, o motivo
porque nunca me beijou?
... Estou a ver que para
si também sou a coxa, ou
por piedade, a coxinha!
Chegara-se tanto a ele,
que Luís Carlos sentia
as formas duras dos
seios dela, comprimidos
contra o seu peito
arfante, e os braços de
Sandra Cristina,
envolveram-lhe o
pescoço. E o rosto
encantador de Sandra
Cristina, como um grande
primeiro plano de
cinema, foi-se
aproximando do dele...
Até que Luís Carlos
sentiu que a rapariga o
abraçava e o beijava.
Luís: - Por favor,
Sandra Cristina... Por
favor...
Sandra: - Vê como você
tem repugnância de mim?!
Da aleijada... Da
coxinha!
E disto isto, deu uma
enorme gargalhada e
afastou-se a correr, em
direcção a casa. Luís
Carlos ficou emparvecido
com aquele sabor
delicioso a arde-lhe na
boca, e uma estranha
perplexidade a
percorrer-lhe o corpo.
O seu primeiro impulso
foi de deitar a correr
atrás dela, entrar em
casa onde a Sandra se
refugiara como que
envergonhada pelo seu
gesto, e obrigá-la então
a ser beijada realmente,
beijada por ele, com
ardor, para não mais se
esquecer desses beijos
que lhe desse. Mas,
lembrou-se de que os
pais dela tinham saído
para a Marinha Grande, e
não lhe pareceu correcto
corresponder assim, à
total confiança que nele
depositavam...
Luís: - Ainda agora ela
saiu de ao pé de mim, e
já sinto saudades dela.
Meu Deus, como eu a amo!
Sandra Cristina, não me
estás a ouvir, mas eu
gosto muito de ti!
Embrulhou o quadro quase
concluído na tela que
sempre o protegia, e
arrumou tudo sobre um
alpendre próximo.
Pensativo, retirou-se a
caminho do restaurante,
onde habitualmente
almoçava...
Luís: - Ela gostará de
mim? ... é tão linda,
que pena ter aquele
defeito. Mas ela gostará
realmente de mim? ...
Logo à tarde, na sessão
final de acabamento,
terei oportunidade de
averiguar os verdadeiros
motivos da atitude dela.
Mas, Sandra Cristina
gostará mesmo de mim?!
...
Nessa tarde, quando
voltou a tocar à
campainha do portão da
família Mendes, a criada
que ocorreu a abri-lo,
parecia indecisa e quase
trémula. Luís Carlos,
porque vinha preocupado
com os seus pensamentos,
nem o notou e apenas
ouviu o que ela lhe
dizia:
Criada: - Os senhores
estão neste momento
recolhidos nos seus
aposentos a descansar...
Luís: - E a menina
Sandra Cristina,
está?...
Criada: - A menina
Sandra saiu... E
disse-me se o Sr. Luís
Carlos viesse, o
prevenisse de que fora
passear...
Luís Carlos encarou a
criadita, sem a ver,
limitando-se a dizer-lhe
depois, enquanto voltava
as costas e começava a
caminhar sobre os seus
passos :"Voltarei mais
tarde...". Era demais,
era demasiado
descaramento. Tanta
pressa para ver o quadro
acabado, tanta
curiosidade e tanta
ansiedade por conhecer a
obra que ele estava
realizando com ela, e
agora, apetecera-lhe
passear. E justamente no
momento em que ele devia
começar a sessão
final... Irritado,
furioso, Luís Carlos,
caminhava pela alameda
atapeada de agulhas de
pinheiro. Uma ruga
vincava-lhe a testa. Com
as mãos encafuadas nos
bolsos das calças,
enfim, muito mal
humorado. À sua
esquerda, o terreno
desvia abruptamente para
o mar, numa sucessão
irregular de rochas e
árvores, que lá em
baixo, eram beijadas
pelas espumas brancas do
oceano. Subitamente, o
pintor estancou. Estava
no local onde vira, pela
primeira vez, a Sandra
Cristina. E naquele
momento estava novamente
a vê-la novamente. A
rapariga estava de pé,
encostada à rocha, de
onde ele a desenhara.
Mas agora estava de pé e
abraçada a um homem.! A
sua cabeça quase que
rebentava; ela estava
ali, de pé e abraçada a
um homem, um rapaz novo,
vestido à moda da
cidade, que a apertava
desvairadamente nos
braços, e os seus dois
rostos confundiam-se num
só, na violência daquele
beijo interminável. Luís
Carlos, pensou ainda que
ele a estivesse
forçando, mas era
evidente que não.
Desprenderam-se por
instantes, e foi ela
quem de novo a abraçou e
colocou a sua boca à
dele, tal como fizera
nessa manhã com ele. Uma
decepção cruel
estampou-se no rosto do
rapaz. Pensou ainda em
chamá-la, apenas para a
cumprimentá-la, mas teve
pena dela... "Até parece
impossível - que infeliz
eu sou!". Regressou
apressadamente, com os
olhos a arderem-lhe, com
se os tivesse queimado
com aquela cena
inesperada a que
assistira. Lembrou-se
confusamente de
pormenores, de detalhes
cruéis. O rapaz que
abraçava e beijava a
Sandra Cristina, era um
desses "bonecos", que
mesmo na praia, vestia
como um galã, e não
passava de um meninote,
um pouco mais velho do
que ela. Custava-lhe a
acreditar naquilo que os
seus olhos viram: a
Sandra Cristina, a
perfeita, a imaculada,
que ele se habituara a
respeitar e a adorar
"Com certeza que
sonhei... não, não é
possível!".
Voltou pelo caminho que
tinha percorrido. Tocou
violentamente a
campainha do portão, e
apareceu-lhe outra vez
aquela criadita
atarantada, como a quer
dizer-lhe qualquer
coisa, mas ele nem lhe
deu tempo. Dirigiu-se
logo para o alpendre
onde guardara os seus
apetrechos de pintura.
Uma vez aí, sobraçou-os
todos, o cavalete e a
tela, a caixa das tintas
e a paleta, e voltou a
sair com a sua preciosa
carga. A criadita
ainda lhe perguntou: "O
Sr. Luís Carlos vai-se
embora?!". Não lhe
respondeu.
Mas o pintor não sabia
que o coração da Sandra,
tinha um segredo...
Mortificada pela sua
deficiência física, a
rapariga conhecera nesse
Inverno, na cidade do
Porto, um tal Januário.
O rapaz mostrara-se
sensível à sua beleza, e
fora amável com ela.
Chegando a convidá-la
para irem ao cinema.
Esta simples prova de
deferência ecoara
estrondosamente no
coração infeliz e
retraído da Sandra, de
modo quando os pais
regressaram a São Pedro
de Moel, ela
acompanhara-os com
tristeza, por se separar
do único rapaz que
tivera com ela, atenções
que até aí nunca
recebera. Por isso é que
Luís Carlos a
surpreendera naquele
dia, sentada e solitária
naquela rocha, pensando:
"O meu "sebastião" há-de
chegar numa manhã...".
Januário prometera-lhe
ir a São Pedro de Moel,
passar dez dias de
férias. Depois,
conhecera Luís Carlos e
nunca passara pela
cabeça, que um homem tão
viajado e tão querido
das mulheres, já com
perto de trinta anos, se
pudesse interessar por
ela. As intenções
iniciais de Luís Carlos
interpretara-os como
sendo prelúdio, de um
abuso que ele
pacientemente preparava
e que ela repelaria com
violência. Depois, pouco
a pouco, aquela
permanente correcção do
pintor, acabara por
irritá-la, e tomara-a
como sendo um insulto:
como se ela fosse capaz
de excitar e apaixonar
um homem como Luís
Carlos... Por isso,
decidira naquela manhã,
beijá-lo ostensivamente,
para se aperceber da sua
reacção. E foi essa
reacção que compreendera
em Luís Carlos, tremendo
dos pés à cabeça, e
tentando segurá-la
quando lhe fugira,
encantando-a e
garantia-lhe que bem
podia ser verdadeiro o
amor que Januário lhe
testemunhava nas suas
cartas. Exactamente
depois de fugir dos
braços de Luís Carlos,
nessa manhã, a criadita
que estava dentro do seu
segredo, entregara-lhe
uma carta procedente do
Porto. E assim, Sandra
Cristina, ficara, a
saber, que nesse dia, ao
princípio da tarde, no
"expresso" do Norte,
chegaria o seu amigo
Januário... Acabado o
almoço, logo que os seus
pais foram descansar,
aproveitara e correra à
estação da Rodoviária, e
lá encontrou o seu
amigo, que, entretanto
chegara. Durante mais de
dois meses, sonhara com
aquele momento em que
voltaria a encontrá-lo.
As cartas dele, cheias
de promessas e projectos,
tinha contribuído e
significado aquele
encontro. Caminhando ao
acaso, a certa altura
Januário, tomou-a nos
braços e dera-lhe o seu
primeiro beijo. Ela
exaltara-se com a
carícia inesperada, e
repetira-a...
Foi nessa altura que
Luís Carlos a
surpreendera e decidira
partir... No quarto que
alugara Luís Carlos,
disse à dona que
recebera um telegrama
com notícias que
impunham a sua presença
imediata, em Lisboa, e
que para tal, ia-se
partir para a Capital.
Fez a sua mala em poucos
minutos, e pediu que
apresentasse as suas
despedidas ao Sr.
António das Ondas.
Carregando os seus
poucos haveres, entre os
quais se contava um
cavalete embrulhado numa
tela cosida, o pintor
embarcou no mesmo
autocarro em que horas
antes, desembarcara o
Januário.
Quando António das Ondas
foi prevenido do que
acontecera, ou seja, a
partida inesperada de
Luís Carlos, já o
"expresso" ia longe a
caminho de Lisboa. O
bondoso velhote coçou
pensativamente o queixo,
e ficou a reflectir por
alguns momentos, depois
se dirigiu Estação dos
Correios. Mercê das
informações que ali
obteve o bom do António,
apressou-se a percorrer
o caminho que o separava
da casa dos Mendes. Numa
curva da pequenina
estrada, deparou-se com
a Sandra Cristina, que
era levada pela mão, por
um jovem de feições
viciosas e ar petulante.
Parou, encarando ambos e
com um olhar, que
dirigiu à rapariga, como
uma censura muda e
pesada:
Januário: - Sandra, tu
conheces este homem? ...
Sandra: - Conheço sim.
É o Sr. António das
Ondas, um grande amigo
da minha família.
António: - Olha lá
Sandra, que fazes por
aqui?!...
Sandra: - Fui esperar
este amigo que veio do
Norte...
António: - Este que te
acompanha? ...
Sandra: - Sim este...
Amigo. Recebi, hoje, uma
carta de ele a anunciar
a sua chegada depois do
almoço.
António: - Estou a ver
que esse teu amigo veio
no mesmo autocarro que
levou para Lisboa, o
Luís Carlos, com o teu
retrato inacabado!
Sandra: - O quê?! O
Luís Carlos foi-se
embora?! ...
António: - Sim, foi-se
embora, e deixou-me um
recado a dizer que
recebera um telegrama de
Lisboa, a reclamar a sua
presença. Mas já sei que
não é verdade, pois nos
Correios informaram-me
que não veio nenhum
telegrama para ele.
Sandra Cristina, como é
que explicas isto? ...
O choque daquela notícia
inesperada pareceu
sobrepor-se a tudo o
resto, no ânimo da
rapariga, que ficou
pálida, e uma série de
revelações fez-se, nesse
momento, no seu
espírito. Como se
estivesse a adivinhar
que estava a perder
terreno foi quando, com
certa petulância que o
amigo dela, o Januário
interveio:
Januário: - Olhe lá,
amigo (que eu não
conheço), posso saber
que conversa é essa que
está a ter com a minha
noiva, parecendo que me
quer ignorar?!
António: - Parece que
não ouvi bem... Sua
quê...?!
Januário: - Minha noiva
- ouviu bem desta
vez?... Não estou
compreendo essa sua
admiração toda...
Sandra: - Nós não somos
noivos, Sr. António das
Ondas. Ele escrevia-me
do Porto, onde reside, e
eu esperá-lo
simplesmente como amigo.
Mas diga-me, é verdade
que o Luís Carlos se foi
embora?
António: - Já te disse
que ele partiu, só não
sei exactamente porquê.
Escuta Sandra Cristina,
podes dizer-me onde
estiveste desde que te
encontraste com esse
moço que te acompanha...
E a fazer o quê?
Um pensamento súbito
rasgou o cérebro de
Sandra - se Luís Carlos
a tivesse visto nos
braços do Januário. Sim,
não podia ser outra
coisa!
Uma onda de vergonha
ruborizou o rosto da
rapariga, que logo
rompeu em soluços,
escondendo o rosto nas
mãos.
António: - Bem, vai
andando para casa,
Sandra Cristina, que eu
irei lá ainda esta
tarde. Quanto a este
senhor... Senhor,
Januário, não é verdade?
... Devo informá-lo de
que aqui em São Pedro de
Moel, nenhum rapaz se
intitula noivo de uma
rapariga, sem antes ter
obtido o consentimento
dos pais dela, e como
neste caso a mulher ser
menor...
Januário: - Mas como o
Sr. sabe, eu não sou de
cá.
António: - Que não é
desta terra vê-se, logo,
meu amigo, mas vamos
conversar... E tu, minha
filha, podes ir, que eu
ficarei com o teu, teu
"noivo???" como ele
diz...
Ao ouvir falar o António
das Ondas, o rapaz ficou
muito surpreendido.
Este, tomando-lhe o
braço e caminhando com
ele em direcção ao
farol, começou por lhe
dizer: "Como você deve
saber muito bem, o
coração das mulheres é
muito complicado, e por
vezes, nem elas próprias
o entendem! os rapazes
de vinte anos é que não
o entendem nunca".
Só naquele momento é que
Sandra Cristina
compreendeu o que Luís
Carlos representava para
ela, como ele era
insubstituível na sua
vida, como ela fora uma
perfeita idiota com
aquele romance com o
Januário...
Arrependia-se agora da
sua conduta, das cartas
que escrevera ao
Januário e da sua
leviandade, ao não
reconhecer que era o
verdadeiro amor o
daquele que a pintara.
Que saudades já tinha da
sua presença, que falta
lhe fazia a sua voz
compassada e calma, a
sua presença máscula, o
seu olhar leal, que
sabia encobrir o desejo
e onde só brilhava a
dedicação e lealdade...
Mas tudo isto só agora é
que se apercebera. Agora
que já era tarde e ele
partira para Lisboa, sem
ou menos ter deixado a
sua morada, ou outra
qualquer indicação. Ela
receava que Luís Carlos,
não voltaria a aparecer.
O seu orgulho de homem
feito, o seu
amor-próprio, não
consentiria que se
rebaixasse a procurá-la
depois do que sucedera.
Ainda se ela não o
tivesse beijado naquela
manhã, ou se não fosse
naquele rochedo, onde
ele a conhecera e que
afinal a fora
surpreender nos braços
do Januário. Depois do
que a criadita lhe
contara, da chegada de
Luís Carlos e da sua
ida, para regressar
pouco depois,
transtornado e nervoso a
buscar tudo sem lhe dar
uma palavra, não lhe
restavam agora quaisquer
dúvidas, do que o pintor
a surpreendera nos
braços do Januário.
Agora sofria as
consequências do seu
erro, já que os pais,
por sugestão de António
das Ondas, tinha
decidido não lhe falar
em nada, sem que ela
procurasse esclarecer o
que se passara
realmente, e o que se
estava a passando no seu
íntimo de rapariga
infeliz, que errara e
estava arrependida.
Um dia, o correio trouxe
endereçado a seus pais,
mas sem remetente, um
enorme embrulho de forma
cilíndrica. Ela
sobressaltou-se. Pelo
formato, logo lhe
pareceu que seria o seu
retrato.
E, com efeito, não se
enganara, mas só ela não
partilhou da alegria dos
pais e de António das
Ondas... É que, e apesar
dos seus conhecimentos
de pintura ser mais do
que rudimentares, não
acreditou que fosse
aquela tela, que durante
quase um mês Luís
Carlos, pintara defronte
a si... O traço
parecia-lhe fácil e o
colorido vulgar, embora
Sandra Cristina nunca
tivesse visto o quadro
que Luís Carlos pintara,
tinha a certeza de que
se tratava de uma
obra-prima. E aquele,
não sendo mau, não era
de modo algum aquilo que
o seu coração, carregado
de remorsos e
arrependimento,
imaginava que devia
ser...
Entretanto...
Em Lisboa, o pintor
algarvio alcançava um
êxito assinalável, logo
na sua primeira grande
exposição. A crítica e o
público ocorriam à mais
célebre galeria de arte
da cidade das sete
colinas, a admirar as
telas ousadas do jovem
pintor, e uma sensação
de moderno e de novo se
estampava em todas as
sensibilidades, desde
logo subjugadas pelo
talento do artista.
Entre todos os quadros
expostos, havia um que
chamava a atenção geral,
perante o qual, nenhum
visitante deixara de
demorar em êxtase.
Chamava-se o quadro: "A
DEUSA e o MAR".
É que Sandra Cristina
tivera razão, quando
sentira que aquela tela
que os pais tinham
recebido, não podia ser
a que Luís Carlos, a
pintara junto dela. O
cartão simples e
cerimonioso que
acompanhava o trabalho
garantia-lhe que o
pintor continuava
gostando dela, pois de
outro modo, não seria
tão frio e reservado no
cumprimento de um dever
social, como esse de
enviar o seu trabalho
aos pais. Mas,
tratava-se de uma cópia
que lhe fizera, do seu
próprio quadro, pois o
original era aquele que
ali estava na exposição,
exposto em lugar de
honra e constituindo a
admiração de todos os
visitantes. Era evidente
que só um artista
apaixonado pelo seu
modelo, poderia ter
traçado e colorido
aquele belo quadro. O
amor, com tudo quanto há
de espiritual e
entusiástico nesse
sentido sublime, estava
ali como que retratado
plasticamente, na poesia
do ambiente, uma espécie
de santidade que
aureolava a figura
central, e no carinhoso
acabamento de cada
pormenor.
Aliada a esta impressão
poderosa que o quadro
transmitia a toda a
gente, estava a
circunstância de terem
oferecido por aquela
pintura, autênticas
somas fabulosas, e o
quadro continuar no
catálogo, com esta
indicação: "Sem Preço -
Não é para Venda". Isto
queria dizer que Luís
Carlos não venderia a
sua obra-prima, por
nenhum preço. Ora,
quando um pintor se nega
a vender um dos seus
quadros, isso só pode
acontecer por uma
fortíssima razão
sentimental. E assim a
lenda do quadro "A Deusa
e o Mar", logo começou a
correr de boca em boca.
Até no desejo de evitar
as constantes perguntas
e entrevistas sobre os
motivos por que não
vendia aquele quadro,
Luís Carlos pouco
aparecia na galeria,
deixando o encargo das
vendas, que já ao quinto
dia eram quase totais,
ao seu amigo e algarvio
como ele, de nome
Daniel, que lhe tinha
conseguido o aluguer da
galeria para expor.
Nessa noite, porém, e
sem saber porque o
fazia, o pintor entrou
na galeria, deviam de
ser umas dez horas da
noite. A galeria estava
literalmente cheia de
visitantes, e havia um
sussurro geral de
admiração.
Daniel, orientador da
exposição, em
determinada altura,
correu para ele
dizendo-lhe:
Daniel: - Ainda bem que
apareces-te! Tu nem
calculas quem está
interessado em comprar o
quadro “A Deusa e o
Mar”?
Luís: - Não faço a
menor ideia, nem quero
saber.
Daniel: - Escuta, Luís
Carlos... É certo que
toda a gente quer
comprar aquele quadro,
mas este cliente é muito
especial...
Luís: - Por favor, não
insistas, pois sabes
muito bem que eu não
mudo de opinião. Só por
curiosidade, e devido à
tua grande excitação,
diz lá quem é que o
pretendeu comprar o
quadro?
Daniel: - Nem mais nem
menos que o Dr. Roger
Richter! Que esteve aqui
ontem com a esposa e
ficaram ambos
embasbacados diante da
tela!
Luís: - Sei lá quem é
esse Roger Richter!
Daniel: - Claro que
sabes quem é!... Olha,
ali vem ele com a
mulher. É que eu
disse-lhe que passassem
por cá esta noite,
porque talvez tu
aparecesses...
Luís: - Até parece
impossível, em vez de me
facilitares as coisas,
atiras-me para a cabeça
do "touro". Tu queres é
que eu enfrente os
clientes, para tu
poderes receber a tua
comissão...
Mas calou-se a olhar
para aquele casal que
acabara de entrar na
sala, e que o seu amigo
Daniel lhe indicara como
sendo o Dr. Roger
Richter e a esposa. Sim,
conhecia o rosto daquele
homem, mas de onde?...
Nesse momento foram
feitas as apresentações
e antes que alguém
pudesse dizer fosse o
que fosse a senhora
Jodie Richter, disse-lhe
com desenvoltura:
Jodie Richter: - Senhor
Luís Carlos, quero
dizer-lhe que o
considero um dos
melhores pintores do
nosso tempo, senão o
melhor. Mas também quero
igualmente dizer-lhe que
eu, e o meu marido, o
Dr. Roger Richter,
decidimos romper com
esse mistério do quadro
"A Deusa e o Mar"! O
senhor vai vender-nos
esse quadro, não é
verdade?!
Luís: - Receio que a vá
desapontá-la, minha
senhora, pois eu não
vendo aquele quadro.
Aliás, toda a gente o
sabe...
Nesse momento, Luís
Carlos lembrou-se de
onde conhecera aquele
rosto, o rosto do Dr.
Roger Richter, e assim
disse-lhe de uma maneira
desconcertante, que fez
a admiração das pessoas
a quem se dirigia
directamente, e também
de todos os outros
visitantes que,
entretanto tinham
rodeado o grupo.
Luís: - Como sabe, não
vendo aquele quadro por
preço nenhum, minha
senhora. Mas, se a
senhora e o seu marido
têm grande interesse
nele, talvez possamos
chegar acordo...
Dr. Roger: - Sim, sim
estou até muito
interessado. Passo por
um dos maiores
coleccionadores de Nova
Iorque, e estou na
disposição de pagar o
preço que pedir. Para
mais creio que o
conheço, não me recordo
é de onde?...
Luís: - Eu também estou
a reconhecê-lo, doutor,
não me lembro de onde,
ou será de onde o doutor
me conheceu?... Mas
continuo a dizer-lhe que
aquele quadro não tem
preço em dinheiro, e por
isso não o vendo. No
entanto, o quadro pode
ser seu e de sua
esposa...
Dr. Roger: - Não o
estou a compreender, se
não vende o quadro...
Luís: - Eu ofereço-lhe
aquele quadro, se o
doutor quiser prestar-me
um alto favor, que mais
ninguém no mundo me
poderá fazer, senão o
senhor!
Dr. Roger: - Cada vez
compreendo menos. Então
o Luís Carlos oferece-me
o quadro, em troco de
quê?!
O Dr. Roger Richter
entreolhou-se sem
compreender o alcance
das palavras de Luís
Carlos. À volta do
grupo, estabeleceu-se um
burburinho, pois a
decisão do pintor
espantou toda a gente.
Por fim o doutor
perguntou-lhe:
Dr. Roger: -
Concretamente, o que
precisa que eu faça,
para merecer a oferta
daquela obra de arte?!
Luís: - Doutor está
aqui muita gente e
segundo me informou o
meu associado, tanto o
senhor como sua esposa,
já visitaram a
exposição.
Dr. Roger: - Sim, só
passamos por cá para ver
se o encontrava
pessoalmente.
Luís: - Então que diz
se fossemos dar um
pequeno passeio?... Está
uma noite maravilhosa e
Lisboa, é uma cidade
maravilhosa à noite.
Aceita?...
O casal apressou-se a
dizer que se tratava de
uma boa ideia, e os três
abandonaram a sala de
exposições. O Daniel, o
associado do pintor, foi
então literalmente
submerso por perguntas,
vindas de todos os
lados. Mas não sabia
realmente como responder
à curiosidade daquela
gente indiscreta, que
pensava que ele devia de
estar no segredo das
actividades do seu
amigo. Bem garantia a
toda a gente que nada
sabia do que se estava a
passar entre Luís Carlos
e os americanos, mas
ninguém acreditava nele.
Entretanto, passeando na
noite lisboeta, mais
apetecível que possa
imaginar, caminhavam
vagarosamente, o casal
americano e Luís Carlos.
Em determinada altura, o
pintor perguntou ao
médico:
Luís: - Então, doutor,
ainda não se lembra
ainda de onde nos
conhecemos?
Dr. Roger: - Luís
Carlos confesso que não
me lembro...
Luís: - Pois eu, logo
que entrou na exposição,
o reconheci logo. Não
admira, porque para mim,
houve só um Dr. Roger
Richter. Para o senhor,
houve já milhares de
Luís Carlos...
Dr. Roger: - Não estou
a compreender, ou o
senhor já foi meu
doente? Espere, espere,
já sei: Bombaim, durante
aquele terrível
terremoto! O pintor, "o
Português" como lhe
chamavam. Agora bem me
lembro só o nome é que
não fixei, mas ainda
tenho presente o meu
diagnóstico: esmagamento
da clavícula e do fémur
e também a fractura de
quatro costelas. Eram
quatro não era Sr. Luís
Carlos?
Luís: - Exactamente
foram quatro costelas
partidas quer perfuram
os pulmões. Foram
momentos horríveis
aqueles que lá passei,
mas tive a sorte do
doutor, também se
encontrar na Índia e em
ter ido parar às suas
mãos. Caso contrário,
andaria hoje por esse
mundo, arrastando a
minha invalidez, se não
tivesse morrido.
Dr. Roger: - Ora, ora.
Fiz apenas a minha
obrigação
Luís: - O doutor não
tinha qualquer
obrigação, pois, por
mero acaso é que nesse
momento trágico se
encontrava em Bombaim.
Eu encontrava-me lá a
aprender a pintar. Nessa
altura ainda tinha o
coração cheio de
beleza...
Jodie: - Ah sim?! ... E
agora, já não tem o
coração cheio de
beleza?! ... Eu
atrevo-me a pensar que o
seu coração está agora
mais cheio de beleza,
como nunca esteve e não
devo estar enganada.
Dr. Roger: - Bem, meu
amigo, uma vez que já
nos apresentámos, não
encontro qualquer motivo
para não falarmos
francamente. Então,
quais são as condições
para que aquele quadro
ser meu?
Luís: - É simples:
basta que o doutor opere
uma pessoa de umas
fracturas antigas,
parece que são na bacia
e numa perna.
Dr. Roger: - E se eu a
operar, dá-me aquele
quadro?!
Luís: - È exactamente
com diz.
Dr. Roger: - Vamos lá
ver, eu não conheço o
caso, além disso, se
operação não tiver
êxito?
Luís: - Tenho absoluta
confiança em suas mãos e
no seu brio
profissional!
Dr. Roger: - E, a
pessoa em questão tem
muita idade?
Luís: - É uma jovem de
18 anos.
Jodie: - Luís Carlos
desculpe-me a
indiscrição, mas a
pessoa em causa, por
acaso é o modelo do seu
quadro "A Deusa e o
Mar"? ... Adivinhei?!
Luís: - Sim, a senhora
adivinhou, é ela!
Dr. Roger: - Mas eu não
posso aceitar intervir,
sem primeiro fazer uma
observação à doente...
Luís: - O doutor fará
todas as observações que
precisar. Apenas lhe
peço que me dê a sua
palavra de honra, de
nunca mencionar o meu
nome a Sandra Cristina,
nem a seus pais.
Dr. Roger: - Então a
pequena chama-se Sandra
Cristina. Sim, pode
contar com a minha
discrição.
Luís: - Então,
dar-lhe-ei o endereço
onde ela e os pais
moram...
Dr. Roger: - Mora cá em
Portugal?
Luís: - Mora e numa
linda terra, que se
chama São Pedro de Moel,
e é uma das mais belas
praias de Portugal.
Dr. Roger: - Está
certo. Em princípio
aceito...
Luís: - O doutor
arranjará maneira de
comunicar com ela, e de
lhe propor a operação,
sem lhe levar dinheiro.
Feito isso, e sem
esperar pelos resultados
finais da sua
intervenção, eu
remeter-lhe-ei o quadro
"A Deusa e o Mar" para a
sua casa em Nova Iorque.
Combinado? ...
Dr. Roger - Está
combinado!
Os dois homens apertaram
as mãos, o acordo estava
feito. Luís Carlos
quando nessa noite
entrou no seu
apartamento, no moderno
bairro do Restelo, ia
sem se conter nas
pernas, pois estava
completamente
embriagado.
Bebia muito desde que
regressara de São Pedro
de Moel, na esperança de
se esquecer da presença,
do riso e da voz, do
perfume e da beleza de
Sandra Cristina. Cada
dia mais e mais era
vencido e dominado pelo
poderoso encanto da
rapariga que o traíra.
Melhor, que ele julgava
que o traíra com
requintes de malvadez.
Nessa noite, porém, a
sua bebedeira era de
esperança, se é que se
pode classificar assim
uma bebedeira. Ele tinha
a esperança de poder
arrancar Sandra Cristina
ao seu grande e tremendo
complexo. O seu imenso
amor por ela, não exigia
nada em troca, nem
sequer que ela soubesse
que ele interviera no
milagre da sua cura.
Tinha fé, pois o Dr.
Richter era o maior
especialista do mundo,
em enxertos ósseos. A
sua voz e a sua
autoridade, eram bem
conhecidas na Europa e
nas Américas, e Luís
Carlos dava-se por
feliz, que o grande
especialista fosse um
admirador da pintura.
Poderia assim
proporcionar a Sandra
Cristina, a
possibilidade de uma
cura radical. Não queria
nada em troca, nem mesmo
se detinha no pensamento
mesquinho de se ela
merecia ou não, aquilo
que pensava. Amava-a,
reconhecia-o a cada
momento, e, quando
alguém ama alguém, deve
ser bom para esse
alguém.
Decerto, que ela não
pensaria assim a seu
respeito, e sendo assim,
era sinal que o não
tinha amado! Mas que
culpa teria ela de o
destino ter sido
assim?... Lembrou-se
ainda de que na última
Primavera, fora ao
Porto, e, quando o
autocarro passou por São
Pedro de Moel, pudesse
ter oportunidade de
vê-la. Gostava de vê-la,
ao menos uma vez, pois o
seu coração rebentava de
dor e de saudade. E
conseguiu por sorte
vê-la.
Mas, mais valia que a
não tivesse visto.
Vira-a ao pé da estação
da Rodoviária, de braço
dado com um rapaz que a
tratava familiarmente
por tu. Estaria já
casada?... Mas casada ou
não, ela havia de sofrer
muito pelo seu defeito
físico. E, se ele
conseguira subir ao cume
da fama e da fortuna
pelas suas pinturas,
isso em parte devia-o a
ela, pela sua
incomparável beleza, e
pelo nobilíssimo
sentimento que ela
soubera inspirar-lhe e
ele conseguira transpor
para a tela.
Por isso, casada ou
solteira, Sandra
Cristina teria a sua
quota-parte nos efeitos
produzidos pelo seu
quadro. Já fora
suficiente que não lho
tivesse mandado, e o
houvesse substituído por
aquela cópia
apressada...
Sandra Cristina e seus
pais estavam sentados na
esplanada de um café, na
chamada varanda de São
Pedro de Moel, tomando
um refresco.
Estávamos no meio da
tarde e todas as mesas
estavam ocupadas, quando
um casal de
estrangeiros, de ar
distinto, acercou-se
deles e o homem
delicadamente perguntou:
Dr. Roger: - Seriam tão
amáveis que nos dessem
licença de ficarmos na
vossa mesa? ... é que
não existe nenhum lugar
vago, e estamos a
"morrer" de sede?...
André: - Para nós até
será uma honra. Por
favor, sentem-se
estejam à vontade.
Dr. Roger: - Então, se
nos dão licença, nós
somos o casal Richter,
americanos de Nova
Iorque.
André: - Nós somos os
Mendes, aqui de São
Pedro de Moel. Os
senhores são turistas,
não é verdade?
Entretanto, tinham-se
sentado todos, e o pai
de Sandra Cristina,
encomendou mais dois
refrescos. Sua filha
teve a percepção, por
uma misteriosa
sensibilidade de que
alguma coisa estranha se
iria passa na sua vida.
Uma espécie de ansiedade
tomava-a toda, quase
impedindo de ver a sua
curiosidade fosse
disfarçada, para mais, a
senhora Jodie Richter a
observava de quando em
vez.
Em determinado momento,
André Mendes, pensativo
desabafou:
André: - Richter...
Richter... Escuta,
Sandra Cristina, este
nome não te diz nada?
Sandra: - Não sei
paizinho? ...
André: - A minha filha
anda sempre na Lua.
Também não admira, pois
são os seus dezoito
anos...
Emília: - Minha filha,
pois eu ia jurar que já
li este nome muitas
vezes...
Dr. Roger: - É natural
que sim, pois tenho
trabalhado muito...
Emília: - Por acaso o
senhor não é médico?
Dr. Roger: - Sou sim.
Sandra: - Papás, eu
conheço o nome sim, e
até já via a fotografia
deste senhor, naquela
revista alemã, sobre as
sumidades do nosso
século! É ele, sim, o
maior especialista em
enxertos ósseos do nosso
tempo! ...é o senhor,
não é?! Diga lá...
Dr. Roger: - Não sei se
serei o maior
especialista, como a
menina, amavelmente me
classifica, mas lá que
sou médico, sou.
Chamo-me Roger Richter,
e sou especialista em
ossos. Mas porquê?
Sandra: - Porquê?! ...
Ainda pergunta
porquê?...
Sandra Cristina rompeu
então num pranto
convulsivo, embora
chorasse muito baixinho.
A mãe da pequena,
explicou ao casal a
insólita atitude da
rapariga.
Os Richter fizeram-se de
muito admirados, e o
médico, em certa altura,
deixou escapar a frase
milagrosa:
Dr. Roger: - Pois é,
realmente uma pena que,
uma rapariga tão nova e
tão fascinante, como a
vossa filha, sofra desse
defeito. Há quanto anos
teve o acidente, Sandra
Cristina?
Sandra: - Quase há sete
anos, Sr. Doutor. É
tempo demais para se
tentar qualquer coisa,
não é?
Dr. Roger: - Depende...
Olhe Sandra, tenho muito
interesse em observá-la.
Sandra: - Oh Sr.
Doutor, que feliz eu
seria, se…
Jodie: - Vamos lá, não
é caso para a Sandra se
excitar assim. Meu
marido não pode
prometer-lhe nada, mas
olhe que ele é quase
mágico...
Sandra: - É por isso
mesmo que me sinto tão
feliz!
O casal Mendes tinha
trocado um rápido olhar
de compreensão, e o pai
de Sandra, numa voz
pesada, disse como um
criminoso a confessar o
seu delito:
André: - Mas, como lhe
hei-de dizer Doutor...
Nós não temos meios
materiais para pagar uma
operação dessas, para
mais feita por um
especialista como o
senhor.
Sandra: - Pois é
verdade, Sr. Doutor, os
meus pais não têm meios
financeiros…
Dr. Roger: - Vocês,
portugueses, são todos
de uma grande
precipitação, que até
vos estraga a alegria de
viver! São Pedro de Moel
é uma das mais belas
praias de Portugal, e
vocês parecem apostados
em viver em tragédia.
Ninguém vos falou em
dinheiro, não é verdade?
Emília: - Pois não, mas
nós...
Dr. Roger: - Também não
fizemos nenhum contrato,
não é verdade? Eu disse
apenas que gostaria de
observar a sua filha, e
isto, se ela e os
senhores estiverem de
acordo. Valeu?
André: - O pior é
que...
Dr. Roger: - Deixem-me
falar, por favor. Ando
em férias pela Europa, e
recebi uma gentileza de
um casal desconhecido,
que me proporcionou o
mais saboroso refresco
que tomei em toda a
minha vida. Talvez possa
recompensá-los desta
vossa amabilidade,
pedindo-vos que me
deixem observar Sandra
Cristina.
Houve um silêncio feliz,
ou, mais exactamente, um
silêncio em que os
Mendes recearam entender
o que ouvira. Mas logo
ficou combinada a hora
matinal, no dia
seguinte, o Dr. Richter
os visitaria, para uma
primeira observação da
perna e da anca de
Sandra. A pequena,
durante toda a noite,
não conseguiu dormir. No
mais íntimo da sua alma,
agradecia à providência
Divina que tivesse
colocado no seu caminho,
aquele casal bondoso,
que se condoera da sua
desgraça.
Nem por sombras poderia
lembrar-se de uma
possível intervenção de
Luís Carlos, naquele
processo, se bem que
fosse o pintor, a pessoa
pela qual mais lhe
interessava melhorar do
seu defeito físico.
Sentindo-a inquieta e a
remexer-se na cama, a
mãe enfiou um roupão e
foi ter com ela ao
quarto:
Emília: - Porque não
dormes minha filha?
Sandra: - E tu, porque
estás acordada?
As duas sorriram, com os
olhos brilhantes de
esperança. Momentos
depois, também o pai da
Sandra, o André Mendes,
estava presente. O seu
rosto, normalmente
calmo, apresentava um
colorido e uma excitação
excepcional:
Sandra: - Papá, não é
um momento maravilhoso?
Emília: - Não te
agarres já a esperanças
tão grandes, minha
filha.
Sandra: - Concordo
plenamente contigo, mas
seria como um grande e
maravilhoso milagre.
Emília: - Lembra-te que
o acidente já foi há
muito tempo, e que os
ossos já solidificaram.
Sandra: - Eu sei isso
tudo, mas deixa-me
sonhar com um milagre
que me possa acontecer.
André: - Mas deves
pensar que já é um pouco
tarde. Mulher não vem
pra a cama que daqui a
pouco começa a
anoitecer?
Emília: - Vai indo tu,
pois eu ficarei um pouco
mais com a Sandra.
André: - Então um bom
resto de noite, e
procura sossegar.
Emília: - Agora que o
pai se foi embora,
diz-me lá, tu ainda
pensas no Luís Carlos,
não é verdade? Não
estranhes a minha
pergunta, mas as mães
sabem tudo a respeito
das filhas,
especialmente das filhas
da tua idade.
Sandra: - Não te sei
responder, mãe…
Emília: - Tenho a
sensação de que tu não
te excitarias tanto, se
o Luís Carlos não
tivesse passado pela tua
vida!
Sandra: - Talvez tenhas
razão. Não sei porquê,
mas tenho a esperança de
que ainda um dia o
encontrarei ... E
então...
Emília: - Tem calma,
minha filha, e
escuta-me.
Sandra: - Sou toda
ouvidos, mãe.
Emília: - De todos os
homens que existem no
mundo, o Luís Carlos, é
aquele que eu reputo ser
mais indiferente a teu
respeito, melhor, à
falta de respeito.
Sandra: - Pode ser que
tenhas razão, e é por
isso que eu muito queria
estar curada, quando ele
me reencontrar!
Emília: - És uma alma
nobre, minha filha. Mas
não deves ficar com essa
ideia fixa, de que
voltarás a encontrar o
Luís Carlos. Até pode
ser que ele não volte a
São Pedro de Moel.
Sandra: - Ainda agora
ele fez uma exposição em
Lisboa. Li nos jornais,
e só por vergonha é que
não pedi ao pai que
fossemos lá...
Emília: - Vergonha de
quê?
Sandra: - De lhe
aparecer ainda com este
defeito.
Emília: - Só por isso?
Olha lá, tu fizeste
alguma coisa de
indecoroso e que te
possa envergonhar?
Sandra: - Bem sabes que
não!
Emília: - Então, não te
entendo...
Sandra: - Oh, nem eu sou
capaz de te explicar,
mas portei-me como se
tivesse feito tudo o que
há de pior.
Emília: - Bem, com esta
conversa toda, já são
mais do que horas para
ir dormir, para podermos
estar bem dispostas
quando o Sr. Doutor
chegar.
Sandra: - Ele disse que
vinha às nove horas...
Achas que ele vai faltar
e nunca mais o vamos
ver?
Emília: - Não, minha
filha! Que disparate de
pensamento.
Sandra: - Desculpa, mas
estou muito nervosa!
Emília: - O Dr. Roger
Richter é uma
celebridade mundial, não
é um troca-tinta
qualquer.
Sandra: - Oh mãe, não
te zangues com a tua
filhinha que está muito
nervosa.
Emília: - Se ele se
comprometeu a fazer uma
coisa, sem que ninguém
lhe pedisse, decerto que
não faltará. Dorme
descansada, vá. Um
beijinho...
Na manhã seguinte, logo
pelas nove horas,
retiniu a campainha do
portão. Sandra Cristina,
atarantada, nem
conseguiu esperar que a
criadita fosse abrir o
portão, e correu logo a
abri-lo ela. Ofegante, o
seu adorável rosto
empalideceu de emoção,
ao encontrar-se em
frente do médico que lhe
sorria calmamente,
segurando nas mãos uma
pasta e um magnífico
ramo de rosas que lhe
estendeu, enquanto lhe
dizia:
Dr. Roger: - Bom dia,
Sandra Cristina. Minha
mulher manda-me pedir
desculpa de não poder
vir, mas tinha umas
voltas a dar na Marinha
Grande. Então como
passou a menina a sua
noite?
Sandra: - Oh Sr.
Doutor, que gentileza a
sua! Muito obrigada.
Mamã, olhe o que o Sr.
Doutor me trouxe!
Emília: - Bom dia, Sr.
Doutor. Que belas
flores. Agradeço-lhe
muito a sua gentileza!
Dr. Roger: - Bem, agora
que tanto a filha como
os pais, já estão mais
serenos, vamos lá fazer
o exame. Antes de tudo,
deixe-me vê-la andar.
Ora faça favor de ir até
àquela porta e voltar.
Devagarzinho e bem
direita; vamos, mais uma
voltinha...
A mocinha obedeceu,
enquanto o cirurgião se
transformava de homem da
Sociedade, em homem de
Ciência. Os olhos fixos
como se a tivesse a
fuzilar, não querendo
perder o mais
insignificante pormenor,
que lhe fosse fornecido
pelos movimentos da
rapariga, e foi com voz
algo rude, lhe disse:
Dr. Roger: - Basta! ... Fractura
da bacia na região
exterior e fractura da
tíbia e do peróneo, com
encurtamento por
solidificação errada;
além de esmagamento de
alguns ossos: o tarso e
o metatarso, não foi
isso?
Sandra: - Exactamente,
Sr. Doutor!
Dr. Roger: - Bem,
passemos a um quarto,
onde eu possa examinar
directamente, os locais
das fracturas, e mais
exactamente, os locais
das solidificações.
Emília: - Então, por
aqui, Sr. Doutor. Se faz
favor...
Dr. Roger: - A sua
filha coxeia pela forma
como deixaram
solidificar as fracturas
que apresenta. Hoje em
dia, não têm qualquer
importância, quando
tratadas
convenientemente. Foi
uma pena, direi mesmo
que foi um crime! Bem,
preciso da senhora junto
de mim...
O exame foi demorado.
Quando terminou, o
médico voltou à saleta,
sentou e pediu:
Dr. Roger: - Senhor
André Mendes, por acaso
não tem aqui em casa uma
garrafa de vinho do
Porto? É que gostaria
muito que bebesse-mos,
ao êxito da operação que
vou fazer à sua filha!
Emília - Oh Sr. Doutor,
nem pode calcular o bem
que me faz as suas
palavras !
André: - Senhor doutor,
eu, como mãe da Sandra
Cristina... Nem sei como
hei-de agradecer-lhe.
Atarantados e chorosos,
o pai e a mãe de Sandra
abriram uma garrafa do
precioso vinho do Porto,
que estava guardado para
uma qualquer ocasião
especial.
Os cristais, os belos
cristais da Marinha
Grande - tocaram-se e o
Dr. Roger Richter,
esclareceu:
Dr. Roger: - Ao
contrário do que possam
pensar isto não quer
dizer que eu esteja
seguro da minha
intervenção. Compreendam
por favor.
André: - Mas só a sua
boa vontade, nem sabemos
como havemos de lhe
agradecer!
Dr. Roger: - Prevejo
que a idade da nossa
doentinha, me ajudará
decisivamente. Se fosse
mais velha, já nada
havia a tentar, mas
assim e com a ajuda de
Deus, vamos a ver o que
podemos fazer.
Conforme ficara
estabelecido em Lisboa,
a senhora Jodie Richter
não acompanhara nessa
manhã o marido a São
Pedro de Moel, para a
primeira consulta a
Sandra Cristina, para
assim poder escrever uma
longa carta a Luís
Carlos, pondo-o
minuciosamente ao
corrente do que ia
acontecendo em São
Pedro. Mas não fechou a
carta antes de o marido
regressar, para poder
juntar o seu
diagnóstico. Feito isso,
acrescentou que
partiriam no dia
seguinte para Lisboa, já
acompanhados de Sandra
Cristina e de seus pais.
Tal como Luís Carlos
combinara, todas as
despesas inerentes à
operação, seriam pagas
por ele, e no fim, o
doutor Roger Richter lhe
diria esse montante.
Quando na manhã
seguinte, o pintor
recebeu a carta, o seu
rosto distendeu-se num
sorriso feliz. As frases
em que ela falava da
excitação e do alvoroço
da pequena, bem como da
impressão que lhe
produzira a ela, e ao
marido, e estonteante
beleza da jovem, fizeram
um imenso bem à alma de
homem amargurado, cujo
amor tinha sido (julgava
ele...) ostensivamente
escarnecido e
desrespeitado.
E nada lhe dizia que
confirmasse a sua
suspeita de que Sandra
Cristina tivesse casado.
Bem pelo contrário, pela
forma como Jodie Richter
lhe escrevia,
depreendia-se que a
mocinha vivia em casa
dos pais, como uma filha
solteira.
Quem seria então, aquele
rapaz que a acompanhava
tão naturalmente, no dia
em que ele fora espiá-la
a São Pedro de Moel?
Luís Carlos interrompeu
as suas meditações, para
rapidamente fazer as
suas malas. Ainda não
sabia para onde iria,
pois ainda não tinha
pensado nisso. Só sabia
que não queria
permanecer em Lisboa,
sabendo que Sandra
Cristina e seus pais,
ali estavam também.
Estava certo de que não
teria coragem necessária
para se fazer encontrado
com eles, e não queria
voltar a vê-la, nunca
mais!
Foi no avião que o
transportava a Paris,
que se interrogou sobre
aquela sua estranha
atitude. Então, se a
rapariga já não lhe
interessava se nunca
mais a queria encontrar,
porque é que se teria
empenhado em que ela
ficasse curada do seu
defeito físico? E como
se arriscava a não
ganhar somas fabulosas,
que decerto ganharia com
a venda do seu quadro "A
Deusa e o Mar"?
Mas, Luís Carlos era um
temperamental fora do
comum, e chegou a
aceitar que o seu amor
por ela, e o seu
consequente desejo que
ela vivesse feliz, sem
qualquer complexo,
tinham sido suficientes
para que tomasse aquela
atitude...
Agora, vê-la outra vez,
encará-la e ouvir-lhe a
voz, é que nunca, nunca
mais!
Em Paris, exactamente
para se convencer
daquele violento "nunca
mais", andou por todos
os cabarés, boates e
discotecas, procurando
afogar em prazeres
fáceis e bem pagos, o
grande amor da sua vida,
de homem e de artista.
De lá, recebeu o
primeiro relatório do
Dr. Roger Richter,
redigido depois da
primeira intervenção
cirúrgica, a que
sujeitara Sandra
Cristina. Mas o médico
não se mostrava
optimista, antes pelo
contrário, o prevenira
para a hipótese muito
provável, de um
fracasso.
Eram necessárias ainda
mais duas ou três
operações, mas em
qualquer caso, só depois
da segunda, se poderia
prever exactamente, o
estado em que poderia
ficar a doente.
Teimosamente, porém,
Luís Carlos aceitava
como certa a cura da
rapariga. Nem por
momentos lhe passou pela
cabeça, que fosse
possível vir a sofrer
uma desilusão, e saber
que se desfizera do seu
precioso quadro, para
nada.
Para nada?...
Pior que nada, pois
teria sido preferível
que Sandra Cristina, não
se tivesse sujeitado ao
tormento operatório, nem
tivesse passado aquele
alvoroço de esperanças,
que tudo isso
acontecesse sem qualquer
proveito! Luís Carlos
interrogou-se sobre se
teria tido alguma vez de
estabelecer, com o
famoso cirurgião, o
espantoso contrato que
estabelecera.
Verdadeiramente, ele não
tinha qualquer direito
de intervir na vida de
Sandra, e uma vez que
decidira, nunca mais
devia de procurá-la, ou
mais ainda: nunca mais a
ver, tendo até por
vontade própria de
desaparecer de Lisboa,
no mesmo dia, em que ela
chegasse à Capital.
Parecia-lhe agora,
perante o velado
pessimismo do médico,
que a sua intervenção,
na vida de Sandra
Cristina, ultrapassara
os limites do que era
aceitável.
Se, depois de todo o
martírio que passou, e
depois do traumatismo
psíquico, que fatalmente
estaria passando, se ela
não melhorasse aquela
intervenção cirúrgica,
apesar de gratuita,
teria efeitos
devastadores, na moral
da rapariga.
Este pensamento
transtornou-o e deixou-o
preocupado.
Ele sabia que fora o
mais puro e o mais
desinteressado dos
sentimentos, que o
levara a fazer aquela
proposta ao Dr. Roger
Richter. E, toda a gente
que pudesse saber do
caso, o felicitaria se a
operação viesse a ter
êxito. Mas, se fosse um
fracasso, ninguém
deixaria de lhe dizer
que não tinha tido o
direito de se
intrometer, numa vida
que lhe era em tudo
estranha à sua, e que
não queria, de modo
algum, ligar-se.
Mas não queria, não
queria, realmente
ligar-se a Sandra
Cristina?...
Amedrontado com a
resposta que a sua
consciência lhe ditasse,
Luís Carlos, bebeu mais
um Whisky e mais outro
...
Entretanto, na sala de
operações, do melhor e
mais bem apetrechado
hospital de Lisboa, o
Dr. Roger Richter,
terminara a segunda
operação, a Sandra
Cristina. Na ante-sala,
esperavam-no o pai e a
mãe da paciente. O
médico saiu da sala das
operações, com o
sombracenho carregado.
Os Mendes encararam-se,
preocupados.
Encarando com eles, o
Dr. Roger Richter disse,
com aquela rudeza quase
agressiva, que o
caracterizava, quando
estava enfronhado nos
seus trabalhos
profissionais:
Dr. Roger: - A vossa
filha vai ficar curada.
Cheguei a recear que
apenas pudesse fazê-la
coxear um pouco menos.
Mas a verdade, é que
Deus me ajudou, e agora,
posso garantir-lhes que
dentro de três a seis
meses, a nossa gentil
Sandra Cristina, correrá
e dançará, como qualquer
rapariga que nunca tenha
sofrido qualquer
acidente!
Emília: - Oh, Sr.
Doutor!
A mãe da rapariga rompeu
num pranto silencioso e
feliz, enquanto o marido
caminhava para o Dr.
Roger Richter, e
estendeu-lhe a mão, com
os olhos marejados de
lágrimas. O médico
apertou-a e com um
sorriso. Já perdera
aquele ar carrancudo que
tinha, quando prestava a
sua atenção
profissional, e
disse-lhe:
Dr. Roger: Não tem nada
que me agradecer, Sr.
André Mendes. Fiz o que
pude. Mas olhe que a sua
mulher precisa de si…
Efetivamente, Emília
Mendes tacteava o ar,
procurando onde se
pudesse apoiar. Na sua
perturbação, aquela mãe
ainda duvidava das
palavras claríssimas que
acabara de ouvir!
Depois do marido a ter
amparado e a levado até
a uma cadeira, a pobre
senhora levantou os
olhos para o médico, e
nesse olhar
endereçou-lhe o mais
eloquente agradecimento
que ele poderia ter
recebido. Sensibilizado,
o Dr. Roger Richter
disse-lhe então:
Dr. Roger: - Dentro de
uma hora, podem fazer
companhia à vossa
menina, mas por poucos
minutos, dez o máximo. E
não se esqueçam que
ficam completamente
proibidos de lhes dizer
o que eu lhes contei do
êxito da intervenção
cirúrgica.
Emília: - Assim
faremos, Sr. Doutor. Até
parece um sonho, o
melhor sonho de minha
vida!
Dr. Roger: - Se lhe
dissessem isso lhe
provocaria um choque
nervoso, que poderia
ser-lhe prejudicial na
evolução no processo de
recuperação, que agora
deve ser rápido.
Emília: - Faremos tudo
o que o Sr. Doutor nos
mandar ...
Dr. Roger: - Digam-lhe
que não estiveram
comigo, depois da
operação.
Emília: - Pode estar
descansado, Sr. Doutor.
Dr. Roger: - E para
terminar, também vos
quero dizer que os
convido para jantarem
comigo e com a minha
mulher, esta noite.
Eles sorriram
envergonhados, mas o
médico receou que não o
tivessem compreendido
que lhes estava a fazer
um convite formal, pelo
que se apressou a
acrescentar:
Dr. Roger: - Esta será
a última parte da
mentira, que peçam que
não digam a Sandra...
Bem, não é rigorosamente
uma mentira, pois, minha
mulher e eu, esperamos
que nos dêem o prazer da
vossa companhia, hoje,
ao jantar - está bem ?!
Emília: - Temos todo o
prazer em aceitar o seu
amável convite!
Dr. Roger: - Então até
logo às oito horas no
hotel.
No final do jantar, o
Dr. Roger Richter
esclareceu o casal
Mendes:
Dr. Roger: -
Convidei-os com um
determinado fim, ou
seja, o caso de Sandra
Cristina. Em princípio,
ela deveria de precisar
de outra intervenção
cirúrgica, mas que
talvez seja
desnecessária, se
durante estes meses mais
próximos, for vigiada
com toda a atenção e
competência. Nós temos
de partir de avião para
Nova Iorque, na próxima
semana, pois não posso
de modo algum protelar a
data da minha partida,
por compromissos
anteriormente assumidos.
André: - E o que nós
podemos para ajudar a
nossa querida filha?
Dr. Roger: - Tenham
calma e escutem a minha
mulher vos tem para vos
dizer.
Jodie: - Por isso
pensei, ou melhor,
pensamos eu e meu
marido, em pedir
emprestada a vossa filha
por uns meses. Autorizem
que a Sandra venha
connosco, pois lhe faria
muito bem mudar de
ambiente. Em Nova
Iorque, temos muitos
amigos, e ela
recompor-se-á noutro
meio ambiente, de modo
que, quando regressar
será outra rapariga,
tendo inclusive já
perdido todos os seus
complexos, que sempre a
têm atormentado. Que me
dizem?
Emília: - Nós
gostaríamos que ela
fosse, mas compreendem
as saudades... E, além
disso, financeiramente,
não podemos suportar
tanta despesa,
Jodie: - Mas atenção,
pois tratasse de um
pedido nosso, sem
qualquer encargo
financeiro para vós.
Dr. Roger: - Reforçando
a ideia de minha mulher,
lhes direi que não vos
fiz qualquer pedido em
proveito próprio, a não
ser aquele de cederem
parte da vossa mesa, na
esplanada, no primeiro
dia que nos conhecemos!
Jodie: - É um convite
que fazemos com todo o
prazer, e que não
representa para vocês,
repito qualquer despesa
financeira.
Dias depois, Sandra
Cristina, acompanhada
pelo casal Richter,
partia de avião rumo a
Nova Iorque.
Quando o carro
particular do casal
parou, de fronte a um
enorme arranha-céus onde
moravam, o Dr. ajudou
Sandra a descer do
automóvel, e a rapariga,
também amparada a sua
mulher, caminhou
devagarzinho até ao
ascensor.
Estava radiante de
felicidade. Chegados ao
último andar, o ascensor
parou. Um mordomo
veio-os receber e
cumprimentou-os
respeitosamente. A
senhora Jodie Richter,
perguntou-lhe então:
Jodie: - Antony,
anteontem recebeu um
telegrama meu?
Mordomo: - Recebi sim,
minha senhora!
Jodie: - Então, está
tudo conforme as
indicações que lhe dei?
Mordomo: - Segui todas
as suas indicações,
minha senhora.
Jodie: - Muito bem...
Sandra Cristina venha
agora ver a cidade de
Nova Iorque, do alto de
um centésimo quinto
andar.
Devagarzinho, com mil
precauções e
carinhosamente, a mulher
do Dr. Roger Richter
levou a Sandra, até a
uma grande janela que se
abria sobre o coração da
cidade. O espectáculo
que daí se avistava, era
simplesmente
maravilhoso!
O Dr. Roger Richter,
veio reunir-se a ela e a
sua mulher.
Dr. Roger: - O que se
avista daqui é de facto
esmagador! Mas vim aqui
convidá-las a passarem à
biblioteca. Venha,
Sandra Cristina, que nós
a ajudaremos.
Jodie: - Eu vou à
frente abrir a porta, e
a Sandra vai entrar
sozinha, sem estar
amparada a nós. Serão os
primeiros passos que
dará, sem coxear, valeu?
Sandra: - Vamos lá a
ver se conseguirei…
A porta abriu-se e a
rapariga viu-se num dos
topos de uma grande
sala, confortável e
forrada com estantes
cheias de livros. Não
estava ninguém na
biblioteca, apenas, na
grande parede do fundo,
estava uma tela...
Ao ver a tela, Sandra
Cristina caminhou
sozinha para a frente,
com o corpo direito e
sem coxear, com o olhar
brilhante e fixo naquele
quadro, como se
estivesse sonhando.
Era ela a retratada, era
ela que estava ali, numa
técnica de pintura como
nunca vira, e em que
cada traço lhe falava de
um amor, que ela não
soubera compreender a
tempo...
Sim, ela tinha razão
quando argumentou com os
pais, que o quadro
recebido do Luís Carlos,
não poderia ser o
original. O seu coração
não a enganara!
E foi os seus olhos
brilhantes, que fizeram
a pergunta, que os seus
lábios não se atreveram
a formular.
Então, conscientemente e
pela primeira vez na sua
vida, o Dr. Roger
Richter faltou à sua
palavra, e explicou a
Sandra, como é que
aquele precioso quadro,
que o autor nunca
quisera vender por preço
algum, se encontrava ali
em sua casa, na sua
biblioteca.
A Sandra Cristina teve
uma inevitável crise de
lágrimas e logo quis
saber onde se encontrava
Luís Carlos.
Jodie: - Isso também
nós queríamos saber,
Sandra. Até porque o meu
marido tem de fazer
contas com ele, pois
todas as despesas extras
da operação deviam ser
pagas por ele. Ora, para
isso mandou-nos um
cheque com uma
importância muito
superior àquela que
despendemos, mesmo
contando com esta sua
viagem a Nova Iorque. E
o meu marido, quer-lhe
devolver-lhe o
excedente.
Sandra: - Mas então têm
o endereço dele de
Paris?
Jodie: - Também não
temos esse endereço, e
só sabemos que ele
partiu da capital
francesa, sem deixar
rasto.
Sandra Cristina ficou
pensativa, mordendo os
lábios. Foi o Dr. Roger
Richter quem lhe indicou
o que ela devia de
fazer:
Dr. Roger: - Para mim,
não pode haver quaisquer
dúvidas sobre o que vai
acontecer. Mais dia,
menos dia, Luís Carlos
vai quer saber o
resultado da operação, e
então terá de comunicar
comigo para poder saber
o que aconteceu, ou,
então, vai aparecer em
São Pedro de Moel, visto
que daqui a dois meses,
fará dois anos que vocês
ali se conheceram, não é
verdade?
Sandra: - É verdade.
Estou a ver que o Sr.
Doutor sabe tudo a nosso
respeito. Mas que posso
eu fazer?
Dr. Roger: - Por
enquanto, minha boa
amiga, ainda está sob a
alçada do clínico, que
está a vigiar a sua
convalescença.
Sandra: - E ainda terei
que ficar por cá muito
tempo?
Jodie: - Daqui a dois
meses e meio ou três,
regressará a Portugal e
a São Pedro de Moel,
novinha em folha e capaz
de amar sem qualquer
complexo, o mais
generoso e bondoso
coração de homem que
palpita sobre a terra,
ou seja, o Luís Carlos!
E vai ver que ele
aparecer-lhe-á, disso
não tenha a menor
dúvida, minha amiga!
Sandra: - Se me pudesse
garantir isso...
Dr. Roger: - O que
minha mulher lhe disse,
é rigorosamente verdade,
pois nada sabemos de
Luís Carlos. Mas quase
lhe podemos garantir-lhe
o seguinte: cuide-se de
si, pois com certeza que
ele a procurará... e a
encontrará!
Sandra: - Se eu tivesse
a certeza...
Jodie: - Quase lhe
posso dar a minha
palavra de honra que ele
a procurará!
Sandra: - A sua palavra
de honra?! ... Então,
deve saber mais algumas
coisas, além do que me
disse...
Dr. Roger: - Pode crer
que nem eu nem minha
mulher sabemos mais
nada, a não ser que o
amor dos homens
honrados, é a maior
força que os impele
neste mundo!
Três meses mais tarde,
Luís Carlos desembarcava
no aeroporto de Lisboa,
vindo desta vez da
Suíça.
Ainda nada sabia do
resultado da operação da
Sandra Cristina, pois
nunca mais comunicara
com o Dr. Richter, e
passara o tempo por
várias capitais da
Europa, embebedando-se
para esquecer a razão de
ser da sua própria vida.
Por fim, convencido de
que seria inútil
continuar naquelas
liberações, que o
impossibilitavam para o
trabalho, lhe arruinavam
a saúde, e pior do que
isso não lhe arrancava
do seu coração a imagem
de Sandra Cristina. Foi
assim que decidiu,
repentinamente, voltar a
São Pedro de Moel, para
visitar o seu amigo
António das Ondas, e
também, saber alguma
coisa da Sandra.
Ao chegar à linda praia
de São Pedro de Moel,
logo encontrou o António
das Ondas, que se
encontrava sentado no
chamado "banco dos
reformados", que fica
numa rua íngreme que vai
dar ao varandim da
esplanada, e logo os
dois homens caíram nos
braços um do outro.
Luís: - Ah... Ah quanto
tempo não o via e que
saudades já tinha disto
tudo, incluindo o Sr.
António!
António: - Eu já tinha
quase esquecido a tua
cara e a tua pessoa. Tu
é que te esqueceste dos
amigos…
Luís: - Olhe que nunca
me esqueci, não... Mas
diga-me: como está a
Sandra Cristina?
António: - Ela... Ela
está completamente
curada, e por acaso
chega amanhã aqui. Foi
um milagre, um
verdadeiro milagre, a
sua cura total!
Luís: - Completamente
curada?!... Decerto que
foi... Foi um grande
milagre, Deus seja
louvado por mais este
milagre... A Sandra
completamente curada!!!
António: - Não te
excites tanto, Luís
Carlos. Mas chora à
vontade, pois nem sempre
é feio um homem chorar.
Mas, por favor,
acalma-te!
Luís: - Mas aquela
linda mocinha
completamente curada,
até parece um sonho!
António: - Mas olha lá,
tudo bem, mas não é
razão par ficarmos para
aqui os dois, agarrados
um ao outro, a chorar
como duas "madalenas
arrependidas"!
Luís: - Tem toda a
razão, Sr. António.
António: - Vamos a casa
dos Mendes, e pelo
caminho, tenho que
passar pelos Correios,
para saber se tenho lá
alguma coisa para mim...
Luís Carlos ficou
passeando pelo largo dos
autocarros, enquanto o
António das Ondas
apressou-se a expedir um
telegrama urgente para
Nova Iorque e dirigido a
Sandra Cristina, dizendo
apenas isto:
"Luís Carlos chegou.
Perguntou por ti.
Disse-lhe que chegavas
amanhã. Regressa rápido.
António das Ondas".
Ao sair dos Correios, o
bom velhote pensava e
comentava com os seus
botões:
"A verdade é que foi a
primeira vez que menti
na minha vida - mas foi
por bem. Sim, porque
senão guardo aqui este
maluco do Luís Carlos à
espera da Sandra
Cristina, ele ainda é
bem capaz de arranjar
mais "macaquinhos" na
sua cabeça, e sendo
assim, ainda a nossa
Sandra fica mais um ano
à espera dele!”.
No outro dia e no último
“expresso” que vinha de
Lisboa, chegava a Sandra
Cristina. Luís Carlos e
o António das Ondas,
assim como seus pais e
alguns amigos, estavam à
espera da moça…
Sandra: - Olá queridos
papás! Graças a Deus que
me encontro
completamente curada!
Emília: - Minha querida
filha, ainda me parece
um sonho, um sonho
lindo!
André: - Oh filha
querida, como estás
linda!
António: - Olá querida
mocinha, tu cada vez
estás mais bela, e
agora, completamente
curada!
Sandra: - Estou tão
feliz! Mas... Mas o Luís
Carlos, não me veio
esperar?...
Luís: - Pois claro que
sim, por isso estou
aqui!...
Sandra: - Oh Luís
Carlos, como estou
feliz, meu amor! ...
Perdoas-me?...
Luís: - O passado morreu
minha querida. Mas como
estás linda…
E um beijo uniu aquele
grande amor...
Dois meses depois a
capela de São Pedro de
Moel estava linda...
Nesse dia, Luís Carlos e
Sandra Cristina, dentro
das suas convicções
religiosas, iam-se unir
para sempre.
São Pedro de Moel estava
em festa, e toda a gente
feliz com o evento.
Luís: - Olha, minha
querida Sandra Cristina,
temos de ir fazendo as
nossas despedidas, antes
de partirmos para a
nossa lua-de-mel...
Sandra: - Vamos então.
Podemos começar aqui
pelo Sr. António das
Ondas... Ora diga-me:
como é que você sabia
que eu ia chegar naquele
dia e àquela hora?
O bom velhote
levantou-se e calmamente
encarou os dois jovens
que estavam ali à sua
frente, e com um sorriso
nos lábios,
respondeu-lhe:
António: - Olha lá
Sandra, tu por acaso não
recebeste o meu
telegrama?
Sandra: - Telegrama?!
... Ah, pois, claro que
recebi. Ahahahahah!
António - Então, minha
boa e querida amiga, por
vossa causa, menti, pela
primeira vez na vida.
Vão lá à vossa vida e
sejam muito felizes!
F I M
Carlos Leite Ribeiro
– Marinha Grande –
Portugal