Novela " A Deusa e o Mar" 

de Carlos Leite Ribeiro

 

Arte Final: Iara Melo

 

 

 


"A Deusa e o Mar" - Apreciação de Lígia Leivas

A palavra é a dona do coração - Lígia Leivas


E assim é para Carlos Leite Ribeiro que sabe trabalhar a palavra de modo a privilegiar a si próprio e a todos que o lêem. Carlos chega fácil e ternamente ao coração do seu público leitor.
A criatividade brota em Carlos como a água que desce a cachoeira...
Em sua novela "A Deusa e o Mar", Carlos conta uma história de amor, uma história humana, de altruísmo, de dedicação, de expectativas. A dor de uma moça linda que tivera sério problema ao sofrer um acidente, a presença do médico abnegado, o amor incondicional de Luis por Sandra... enfim, a trama em si é sobretudo enternecedora!
Muitos são os personagens que se 'encontram' e cada qual tem sua participação com destino certo e com desígnios que serão desvendados à medida que a leitura cresce e prende a atenção e o interesse do leitor.
Há situações conflituosas, muitos mistérios, mas, ao final, a história é um brinde a quem com ela se envolve e nela deposita confiança... Sandra, Luiz, Antonio das Ondas... e mais tantos outros personagens sabem dar conta do recado.
E Carlos Leite Ribeiro, com seu desempenho brilhante na arte da palavra, conquista mais um significativo número de leitores com "A Deusa e o Mar"!!!
Boa leitura!
Parabéns, Carlos!
Lígia Antunes Leivas
Pelotas - RS, BR

 


 
COMENTÁRIO de Ilda Maria Costa Brasil


        Em "A DEUSA e o MAR", Carlos Leite Ribeiro trabalha, com magnificência, emoções, sentimentos, imaginação e sonhos, levando-nos a percorrer caminhos diferentes para chegarmos ao amor idealizado, puro e verdadeiro.
         No desenrolar da narrativa, virtudes como temperança e fraternidade tornam-se a expressão do amor, sendo o substrato para o personagem Luis Carlos vivenciar e refletir diferentes estados de espírito. Esse, embora tenha ficado magoado e triste ao ver Sandra Cristina na companhia de outro rapaz, deixou a cidade com discrição e polidez. O autor, com tom entre melancólico, sonhador, crítico e esperançoso, revela-nos a complexidade do pintor e da jovem na busca pela felicidade e por um futuro melhor.
         "A DEUSA e o MAR" caracteriza-se pelo domínio do diálogo sobre a narração, permitindo que o leitor transite e acompanhe situações de desencanto, insegurança, amizade e realização. Sem dúvida, uma obra em que o amor transcende o imaginário, constituindo-se parte importantíssima da realidade numa linguagem afinada, espontânea, fluente e agradável.
Parabéns e muito sucesso!
Ilda Maria Costa Brasil

 


 

COMENTÁRIO de Glória Marreiros


 Querido Amigo Carlos L. Ribeiro
Li e reli este excelente e maravilhoso romance. Não fiquei muito surpreendida, porque já me habituei à beleza e à sua culta escrita, nos textos que tenho lido e saboreado, e onde está bem patente o seu dom de escrever, de comunicar e de transmitir a sua sabedoria e a sua grandeza de alma.
"A Deusa e o Mar" transporta-nos para uma dimensão tão vasta e tão extensa, onde o verdadeiro amor toma forma. Faz-se alma e corpo. Toma dimensões que exalta ou amaina, os espíritos sensíveis. Eleva-se e eleva-nos.
É uma história calma e arrebatadora, triste e alegre, amarga e doce, pura  e voluptuosa. Tem os condimentos necessários para nos banquetearmos com uma saborosa refeição intelectual.
É sublime a forma como descreve os sítios, os lugares e as personagens. Os "discursos directos" enriquecem a escrita e os "adjectivos" também. Depois, é a história, em si, porque tem conteúdo e belíssimas imagens poéticas.
Só lhe posso dizer: PARABÉNS!
Um beijinho.
Glória Marreiros – (Portimão / Algarve / Portugal)

 


 
 
“A DEUSA e o MAR” – de  Carlos Leite Ribeiro 
 

Estávamos em princípios de Julho, na tarde de um dia muito quente.
A esplanada de São Pedro de Moel, estava apinhada de gente. “Sentadas numa mesa, duas senhoras brasileiras conversavam, fazendo renda ao mesmo tempo...
Lígia: - A que horas é que vais para a praia?
Ilda: - Lá mais para a tardinha, pois agora está um calor insuportável.
Lígia: -  Vá lá que aqui na esplanada, com este agradável ventinho, estamos bem.
Ilda: - O mar hoje está muito calmo, e esta beleza... Oh São Pedro de Moel, tu és de uma beleza  incomparável, és uma das "jóias" deste velho Portugal!
Lígia: - Olha quem vem ali, é o Sr. António das Ondas... Boa tarde, Sr. António!
António das Ondas: -    Olá, minhas senhoras! Fizeram boa viagem desde o Sul desse belo país que é o Brasil? ... Posso sentar-me? É que estas minhas pernas já não são o que eram. 
Ilda: - Com certeza que se pode sentar, Sr. António das Ondas. Fizemos uma boa viagem. Combinámos encontro no aeroporto de São Paulo e só parámos em Lisboa; depois, ônibus até aqui à também nossa São Pedro de Moel. Senhor está com um óptimo aspecto, e cada vez parece mais novo!
António: - Ora, ora é muita gentileza vossa essa apreciação...

Olhando em redor, António das Ondas viu numa mesa afastada, um casal ainda jovem.

António - As senhoras, por acaso não conhecem aquele casalinho que está ali sentado, junto daquela janela da esplanada? 
Ilda: - Eu só os conheço de vista. Ele é o célebre pintor Luís Carlos, e aquela moça será a sua esposa?...
António: - É sim. É a Sandra Cristina, uma moça natural cá de São Pedro de Moel. Casaram  vai para três anos…
Lígia: - Então o Sr. António das Ondas, conhece-os bem?
António: - Conheço-os muito bem mesmo... 
Ilda: - O Sr. António está hoje muito misterioso, que se passa, hoje, consigo?
Lígia: - E também não tira os olhos do pintor e da mulher. Vê-se que são seus amigos.
António: - Muito amigos, mesmo. E têm uma bela história de amor!
Ilda: - E o Sr. António tem cá um jeitinho para contar histórias...
António: - Concordo com as senhoras, mas esta é muito especial. É uma bela história de amor...
Lígia: - Senhor António das Ondas, conte-nos a história deles, a que diz que é uma bela "história de amor”.
António: - É uma história muito comprida, e dava bem para um mês...
Ilda: - Mas isso é formidável para nós, pois contamos ficar cá durante todo este mês.
Lígia: - Comece lá a contar a história, Sr. António das Ondas!
António: - Então, se me dão licença, começarei amanhã. De acordo?
Ilda: - Mas aqui está sempre muito barulho, se nós pudéssemos ir para outro lado...
António: -  De acordo. Então, por exemplo, podemos encontramos no café da Ladeira, amanhã pelas 10 horas. As senhoras concordam?
Lígia: - Estamos plenamente de acordo!
António: - Então, minhas senhoras, até amanhã!

Luís Carlos era um jovem pintor algarvio, a quem a crítica previa um futuro brilhante na arte, chegara três dias antes a São Pedro de Moel. A beleza da paisagem e das suas gentes haviam-no conquistado, e sendo assim, até se felicitava por ter escolhido aquele recanto privilegiado da Natureza... Não era ainda a época do ano em que os turistas desembarcavam em massa, vindos de "expressos" de todos os pontos do país, passeando e saboreando a sua curiosidade, pelos recantos de São Pedro. A antiga residência de veraneio de Afonso Lopes Vieira, hoje colónia de férias de crianças da Marinha Grande, é um atestado do requinte de vida, de alguns anos atrás, quando os "Algarves" ainda não tinham sido descobertos pelo grande turismo.
- Realmente - pensava Luís Carlos - os antigos sabiam viver.
Demorava horas e horas na contemplação daquele milagre de cores e tons, em que a vegetação e o mar, os acidentes do terreno e a luminosidade do céu, se conjugavam para tudo espiritualizar, emprestando à existência esse "quê" de evasão da vulgaridade que ela vai perdendo, cada vez mais nos nossos tempos de mecanização. Ao chegar à estação da Rodoviária, vindo no "expresso" que o trouxera de Lisboa, cidade onde residia, Luís Carlos teve a ajuda de uma encantadora rapariga, que o ajudou a transportar a sua bagagem até ao alto, para os lados da piscina, onde alugara um quarto.

Ana Maria: - O senhor é pintor?... 
Luís Carlos: - Sou sim, garota. Porque perguntas?
Ana: - Com estes aparelhos todos, só podia ser pintor!

A garota chamava-se Ana Maria e tinha 18 anos. Era uma tentação da carne morena rosada, algo tisnada pelo sol, de formas elegantes e graciosas. Todas as outras raparigas de São Pedro de Moel rivalizavam entre si em beleza e graciosidade, emprestando aquele recanto da Natureza, o atractivo da sua presença e da sua voz, dos seus corpos fibroses e jovens, que eram promessas de carinho, destino apetecido de todas as carícias dos homens.

Luís: - Um dia destes, pinto o teu retrato, queres, Ana Maria?
Ana: -  Não sei para quê, pois eu até nem sou bonita. Era bem capaz de lhe estragar a pintura!
Luís: - Vaidosa é que tu és garota!

Nesse dia, também conheceu um bondoso e interessante velhote: o António das Ondas. Antigo piloto do "bacalhau" e dos "paquetes" e por fim dos "petróis", como ele por graça dizia. Durante mais de quarenta e cinco anos, andou por cima das ondas, conhecendo todos os oceanos e "meio mundo". Ninguém em São Pedro de Moel tinha segredos para ele, e quase sempre sugeria a melhor maneira para qualquer situação, tal como tinha sempre a melhor palavra para cada um e, na sua vida, nunca tinha mentido. Luís Carlos gostava do bondoso velhote, especialmente pela sua bonomia e pela sua aguda inteligência, não isenta de fina e compreensiva ironia. Nessa tarde e depois de aceitar o convite do António das Ondas para tomar uma bica (café), no café da subida, perto do chafariz, Luís Carlos foi passear sozinho pela beira mar. Começara a pintar uma garota da terra, mas ela era tão apetecível, tão provocante, mesmo que involuntariamente, que o nosso pintor decidira espaçar as sessões, e andava enchendo os olhos por aquela paisagem de sonho, povoada de gente simples e bonita, gozando profundamente a paz daquelas encostas alcantiladas, que se erguiam sobre o Atlântico, azul e revolto, rebrilhante como uma imensa gema preciosa.
Subitamente, Luís Carlos estacou surpreendido: defronte dele, mas em plano inferior na encosta que descia para o mar, ali bem perto da varanda da esplanada, acabava de descobrir o vulto airoso de uma rapariga que olhava o oceano. Estava quase de costas para ele e, um lindíssimo cabelo alourado ondulava brandamente na aragem da manhã. Não podia ver-lhe as feições, mas a sua silhueta, desenhando-se com nitidez e elegância, sobre o mar, dava-lhe um ar de estátua proporcionada e delicada, assim sentada no alto daquela rocha, de tons escuros. Sem fazer qualquer ruído, Luís Carlos, foi-se aproximando da rapariga, desviando-se o suficiente para poder vê-la de perfil. Era lindíssima, e tinha as mãos entrelaçadas na ponta dos braços, onde prendia um dos joelhos.
Tirando da sua pasta, um lápis e papel, o pintor começou a fazer um esboço daquela beleza estranha, que parecia sofrer. Quando o esboço ia quase no fim, ela deu pela presença dele, e fitou-o com certa surpresa...

Luís: - Bom dia, menina. Peço-lhe desculpa... Não pretendia perturbar-lhe os seus pensamentos, mas a tentação foi maior…
Sandra Cristina: - Olá, bom dia! Parece que já o conheço, pois no outro dia encontrei-o junto da Ana Maria. O senhor também costuma conversar com o Sr. António das Ondas. Estou certa?
Luís: - Sim costumo e gosto de falar com o Sr. António. Pelos vistos também conhece esse senhor.
Sandra: - Toda a gente aqui o conhece. Mas, o Sr. Esteve a ocupar-se de mim? Pintou o meu retrato?!
Luís: - É verdade. A beleza que você dava a este quadro era tão forte, tão comunicativa que me permitiu fixá-la num pequeno esboço. Com o mar lá em baixo, era bem "A Deusa e o Mar!..." Não se ofendeu por isso, não é verdade?

Enquanto falava, Luís Carlos ia-se enfeitiçando com a impressão que lhe provocara aquela rapariga, tão estranha, de olhos claros e distantes, e cujo sortilégio, era fascinante e inquietante ao mesmo tempo.

Sandra: - Não, não me importo, Deixe-me ver esse esboço…

Luís Carlos entregou-lhe o papel e sentiu-se mais tranquilo, quando percebeu na expressão dela, uma verdadeira admiração pelo seu trabalho. Quando a rapariga levantou os olhos, ele mais pediu que perguntou:

Luís: - Deixa-me pintar um retrato seu?
Sandra: - Tem mesmo a certeza que me quer pintar?!
Luís: - Claro que tenho a certeza! Você é uma das raparigas mais belas que vi em toda a minha vida!

Um vago sorriso indefinível perpassou pelo da jovem. Um sorriso que queria ser trocista, mas era profundamente triste. Por fim disse apenas iludindo a resposta.

Sandra: - Ainda nem sei o seu nome...
Luís: - Chamo-me Luís Carlos, sou pintor de profissão e algarvio de nascimento.
Sandra: - Eu sou a Sandra Cristina Mendes e vivo com os meus pais, numa pequena quinta que possuímos aqui em São Pedro de Moel.
Luís: - Então se me permitir procurarei seus pais, para pedir-lhe licença para pintar o seu retrato.
Sandra: - Se achar que vale a pena, não me oponho. Mas creio que brevemente mudará de opinião!

E dizendo estas palavras, saiu de cima da rocha, e caminhou vagarosamente diante dele. Luís Carlos verificou então que uma das pernas daquela beldade era sensivelmente mais curta que a outra, e que o pé não pousava normalmente no chão. O seu andar não era cadenciado, e até as ancas apresentavam uma evidente assimetria. “A voz dela soou como uma chicotada:
Sandra: -  Vê!... eu bem o preveni que decerto mudaria de opinião...
Luís: -   Mas...

Não teve tempo para articular nem uma palavra, porque ela deitou a correr subindo o carreiro que ele antes descera, com uma agilidade muito notável para o seu defeito físico... Chegada lá a cima, parou e encarou-o, dizendo numa voz patética, em que não se adivinhava nem uma lágrima.

Sandra: - Será melhor pintar qualquer dessas raparigas sadias, que há em São Pedro de Moel, do que perder tempo com uma aleijada...

Luís Carlos encarava-a alcandorada lá em cima, na beira do caminho, e não encontrava qualquer palavra acertada para dizer, que lhe tivesse ocorrido a frase certa. Entretanto, mesmo que a disse-se, ela já não a teria ouvido, pois desaparecera dos seus olhos, como que misteriosamente. Verificou então que não encontrava a folha de papel, onde esboçara a sua donairosa figurinha encavalitada na rocha. E, como não havia vento, o desaparecimento do papel, apenas podia a explicação de ela o ter guardado. E esta hipótese confortou-o. Nessa tarde, encontrando o António das Ondas, numa esquina de São Pedro de Moel, o pintor Luís Carlos, dirigiu-se-lhe a ele precipitadamente. O bom velhote acolheu-o com um sorriso, e pareceu esperar quaisquer palavras, que, aliás, não demoraram:

Luís: - Diga-me, Sr. António das Ondas, conhece uma família Mendes, que tem uma Quinta aqui em São Pedro de Moel? 
António: -   Conheço sim, meu rapaz! Têm uma pequena Quinta, e uma filha linda como os amores, não é verdade?... Encontrei a Sandra Cristina, que levava o esboço que lhe fizeste sem ela dar por isso. É um encanto de menina, mas muito infeliz...
Luís: -  Estou a ver... Mas diga-me como lhe aconteceu aquilo...
António: -  Foi um acidente de automóvel, quando a pobre tinha doze anos. Se tivesse acontecido mais cedo, teria sido melhor, pois os pais eram (pode-se dizer ricos), mas há cerca de cinco anos, sofreram um terrível incêndio, e ficaram praticamente arruinados... e assim, na altura em que se deu o desastre, já eles não tinham posses para levar a pequena ao estrangeiro, e fazê-la operar por algum desses grandes especialistas.
Luís: - Mas... Quase não se nota!...
António: -  Isso dizes tu com o teu entusiasmo, mas a verdade é que toda a gente a trata por coxa, ou com mais ternura, pela coxinha. E repara, para uma rapariga formosa, de dezoito anos, é um drama que eu tenho tentado atenuar, na minha qualidade de "amigo de família". Mas é difícil e delicado, pois a Sandra Cristina, é de uma personalidade riquíssima, até excessivamente sensível... Diz-me lá uma coisa, Luís Carlos, sempre queres pintar o retrato dela? 
Luís: - Claro que quero. É o rosto de mulher mais belo que vi em toda a minha vida !
António: -  Mas mesmo sendo coxa?!
Luís: -  Pelos vistos, chamam-lhe assim, mas ela, não é bem coxa. E esse aspecto em nada vai alterar o meu propósito de pintar o seu retrato!
António: -  Estás a falar verdade, Luís Carlos?
Luís: -  É verdade, Sr. António das Ondas! Muito lhe agradecia que me dissesse aonde é que fica a quinta deles, para eu ir lá pedir aos pais autorização, para lhe fazer o retrato.
António: -  Sendo assim, até calha bem, porque eu vou agora a casa dos Mendes. Se quiseres, podes vir comigo.
Luís: -  Fico-lhe muito agradecido.
António: -  Espera aí, rapaz, não andes tão rápido ... Que pressa essa! Eu quero prevenir-te que aquela gente é muito boa, e que não deves brincar com o coração de Sandra Cristina, pois ela é uma pequena de uma sensibilidade fora do comum, e aquele acidente marcou-a para toda a vida. Por favor, não vás encher a cabeça da mocinha de coisas bonitas, para depois lhe dares um desengano - prometes?! ...
Luís: -  Mas eu só quero pintá-la!
António: -  Ora, ora... Estás em São Pedro de Moel há mais de uma semana, já começaste quatro ou cinco retratos de outras tantas raparigas, e ainda não acabaste nenhum.
Luís: -  Mas hei-de acabá-los. O Senhor Sabe bem que muitas vezes, ao iniciar uma pintura, estamos convencidos de qualquer coisa, mas por vezes essa mesma pintura nos afasta. Não sei explicar porquê ... Não sei expressar o que sinto...
António: -  Nem é preciso que expliques. São os teus vinte e oito anos, o teu anseio de beleza. Bem, eu não estou a censurar-te, de maneira nenhuma, o que tens feito. Estou só a pedir-te que não o repitas com a Sandra Cristina.
Luís: -  Se eu conseguir pintá-la prometo que acabarei o quadro, e ele será a grande obra-prima da minha vida!
António: -  Assim é que é falar! E olha que também não será preciso que beijes (de certa maneira...) o teu modelo, durante as sessões de pintura - percebes, não percebes?...
Luís: -  Eu só gostava de saber como é que o Sr. António das Ondas consegue saber tudo o que se passa cá na terra!
António: -  Não te esqueças que sou amigo de toda a gente! Sinceramente, gostava muito que tu e a Sandra Cristina se entendessem bem, até para lhe tirar ideias tontas que ela tem na cabecita, e que só podem fazê-la infeliz. E tu talvez sejas um homem capaz disso...
Luís: - Pode crer que tudo farei para consegui-lo!
António: - E com esta conversa toda, chegámos a casa dos Mendes. Vamos entrar... 
 
A casa ficava um pouco distante do portão de entrada, e até havia um caminho sombreado de pequenos pinheiros bravos, acácias e medronheiros, com pequenos mirantes de pedra, que se abriam sobre o mar. As apresentações foram simples e despidas de qualquer cerimonial, e Luís Carlos ficou encantado com os pais de Sandra Cristina, que eram educadas e simples. Ela esteve sempre presente, mas como a marcar uma ostensiva distância do pintor. Foi a única pessoa que destoou do ambiente de simpatia que o acolheu.

Luís: - Escute Sandra Cristina, eu vim pedir autorização a seus pais, para pintar o seu retrato, pois sem essa autorização, não me atreveria a pintá-la. Mas, se não quiser...
Sandra: - Bem sei, se eu não quiser deixar-me retratar, você ficaria muito satisfeito, porque se livraria de cumprir a sua promessa - não é assim?!
Luís: - Não é verdade, Sandra Cristina, se você não quiser, perco a grande oportunidade da minha vida de poder fazer uma obra de grande arte !

No tom de voz em que falara, transparecia sinceridade, o que impressionou todos os presentes. A mãe da pequena e o António das Ondas encararam-se num olhar de compreensão. O pai tossiu sobre o seu cachimbo, e Sandra Cristina, pareceu sacudida pela veemência com que o rapaz falara...

Sandra: - Se é assim... Se verdadeiramente, me quer pintar, mesmo depois de saber que eu não passo de uma coxa, agradeço-lhe que me tenha escolhido, para o seu quadro, pois sei que já tentou com algumas das mais bonitas raparigas de São Pedro de Moel.
Luís: -  Muito obrigado. Você não tem nada que me agradecer, antes pelo contrário!
 
André, pai de Sandra Cristina, interveio…

 André: - Vamos então festejar o acordo entre o pintor e o modelo, bebendo um copo do bom vinho da região de Leiria.
António: -  Que por sinal é um excelente vinho!

Luís Carlos vivia em pleno contentamento. Havia já quinze dias que começara a pintar a sua enorme tela, em que Sandra Cristina, aparecia tal como sempre a via diante de si: sentada num mirante que se debruçava sobre a poesia incomparável do Atlântico, e, sobretudo sobre São Pedro de Moel. À medida que o quadro se aproximava do fim, Luís Carlos, vivia intensamente essa estranha sensação que antecede a glória. Estava realizando uma autêntica obra-prima, na qual, para mais, eram evidentes os seus profundos sentimentos perante o modelo... Se o amor, o êxtase administrativo, tivesse traços ou cores próprios, decerto seriam aqueles que Luís Carlos traçara e coloria na sua tela. Por isso pretextara uma superstição sua, e assim ninguém ainda vira o quadro, pois ele declarava que sempre que trabalhava numa obra de responsabilidade, não gostava que a admirasse, antes de estar concluída. O contrário dava-lhe azar. Sandra Cristina permanecia tão desconcertante para ele, como no primeiro dia que a  conhecera. Havia dias que estava carinhosa e quase provocante, e outros em que era distante e fria, como um iceberg. Ela modificava-se de tal ordem, que ele voltava a nada entender dos seus verdadeiros sentimentos. Era certo que nunca dissera que lhe tinha amor, mas tinha sido tão evidentes e tão inequívocas as provas que lhe dera sucessivamente, dos quais, dos seus mais profundos anseios, que a rapariga não podia albergar a menor dúvida quanto a eles...
Apesar disso, ou por isso mesmo, a verdade é que o procedimento de Sandra Cristina seguia, era surpreendente e até inexplicável. Nessa manhã, ela perguntou-lhe:

Sandra: - Então, Luís Carlos, quando é que está pronto o meu retrato? ... E quando é que o posso ver?...
Luís: - Será amanhã, Sandra Cristina, e tenho muita pena...
Sandra: - Pena de quê?!...
Luís: -  De acabar o seu retrato...
Sandra: -  Não sei porquê?! 
Luís: - Porque... Porque depois não a poderei mais tê-la tantas horas sozinha comigo, com a tenho tido até agora ...
Sandra: - O que é que quer dizer com isso?!
Luís: - Quer dizer que gosto de estar sozinho com a Sandra Cristina.
Sandra: -  Duvido, pois sempre se comportou, digamos, como se não estivéssemos sozinhos!
Luís: - Não seja injusta, Sandra Cristina, pois eu...
Sandra: -  Você... Costuma beijar os seus modelos logo à segunda sessão. Ora, eu tenho posado para si há mais de três semanas, e você nunca tentou beijar-me...
Luís: -  É certo, mas deixe-me explicar...
Sandra: -  Ah, não tente agora convencer-me de que gosta de mim e por isso nem tentou fazê-lo!
Luís: - Por favor, Sandra Cristina...
Sandra: - Claro, se você gostasse de mim, um pouquito que fosse já me teria beijado. Ou melhor, já teria tentado beijar-me, sim, porque eu não o consentiria que me beijasse. Porque você está aqui para me fazer o retrato, e não para me beijar!
Luís: - Mas que disparate vem a ser essa Sandra Cristina?!
Sandra: - Não é disparate nenhum, pois bem sei que beijou a Ana Maria, logo no segundo dia que ela pousou para si!
Luís: - Mas, Sandra...
Sandra: -  E a mim?! Sim, a mim... Porque é que nunca tentou beijar-me? ... Será que eu seja feia?... 
Luís: -  A Sandra não é nada feia, antes pelo contrário!
Sandra: - Então, é porque sou aleijada, porque sou uma coxa, não é verdade, Sr. Luís Carlos?!

Enquanto falava, fora caminhando, e já estava muito próximo dela, que, entretanto se levantara para impedir que ela visse o quadro.

Sandra: - Mas fale Luís Carlos, diga alguma coisa... É por eu ser aleijada, o motivo porque nunca me beijou? ... Estou a ver que para si também sou a coxa, ou por piedade, a coxinha!

Chegara-se tanto a ele, que Luís Carlos sentia as formas duras dos seios dela, comprimidos contra o seu peito arfante, e os braços de Sandra Cristina, envolveram-lhe o pescoço. E o rosto encantador de Sandra Cristina, como um grande primeiro plano de cinema, foi-se aproximando do dele... Até que Luís Carlos sentiu que a rapariga o abraçava e o beijava.

Luís: -  Por favor, Sandra Cristina... Por favor...
Sandra: -  Vê como você tem repugnância de mim?! Da aleijada... Da coxinha!

E disto isto, deu uma enorme gargalhada e afastou-se a correr, em direcção a casa. Luís Carlos ficou emparvecido com aquele sabor delicioso a arde-lhe na boca, e uma estranha perplexidade a percorrer-lhe o corpo.  O seu primeiro impulso foi de deitar a correr atrás dela, entrar em casa onde a Sandra se refugiara como que envergonhada pelo seu gesto, e obrigá-la então a ser beijada realmente, beijada por ele, com ardor, para não mais se esquecer desses beijos que lhe desse. Mas, lembrou-se de que os pais dela tinham saído para a Marinha Grande, e não lhe pareceu correcto corresponder assim, à total confiança que nele depositavam...

Luís: -  Ainda agora ela saiu de ao pé de mim, e já sinto saudades dela. Meu Deus, como eu a amo! Sandra Cristina, não me estás a ouvir, mas eu gosto muito de ti!

Embrulhou o quadro quase concluído na tela que sempre o protegia, e arrumou tudo sobre um alpendre próximo.  Pensativo, retirou-se a caminho do restaurante, onde habitualmente almoçava...

Luís: -  Ela gostará de mim? ... é tão linda, que pena ter aquele defeito. Mas ela gostará realmente de mim? ... Logo à tarde, na sessão final de acabamento, terei oportunidade de averiguar os verdadeiros motivos da atitude dela. Mas, Sandra Cristina gostará mesmo de mim?! ...

Nessa tarde, quando voltou a tocar à campainha do portão da família Mendes, a criada que ocorreu a abri-lo, parecia indecisa e quase trémula. Luís Carlos, porque vinha preocupado com os seus pensamentos, nem o notou e apenas ouviu o que ela lhe dizia:

Criada: -  Os senhores estão neste momento recolhidos nos seus aposentos a descansar...
Luís: -  E a menina Sandra Cristina, está?...
Criada: -  A menina Sandra saiu... E disse-me se o Sr. Luís Carlos viesse, o prevenisse de que fora passear...

Luís Carlos encarou a criadita, sem a ver, limitando-se a dizer-lhe depois, enquanto voltava as costas e começava a caminhar sobre os seus passos :"Voltarei mais tarde...". Era demais, era demasiado descaramento. Tanta pressa para ver o quadro acabado, tanta curiosidade e tanta ansiedade por conhecer a obra que ele estava realizando com ela, e agora, apetecera-lhe passear. E justamente no momento em que ele devia começar a sessão final...  Irritado, furioso, Luís Carlos, caminhava pela alameda atapeada de agulhas de pinheiro. Uma ruga vincava-lhe a testa. Com as mãos encafuadas nos bolsos das calças, enfim, muito mal humorado. À sua esquerda, o terreno desvia abruptamente para o mar, numa sucessão irregular de rochas e árvores, que lá em baixo, eram beijadas pelas espumas brancas do oceano. Subitamente, o pintor estancou. Estava no local onde vira, pela primeira vez, a Sandra Cristina. E naquele momento estava novamente a vê-la novamente. A rapariga estava de pé, encostada à rocha, de onde ele a desenhara. Mas agora estava de pé e abraçada a um homem.! A sua cabeça quase que rebentava; ela estava ali, de pé e abraçada a um homem, um rapaz novo, vestido à moda da cidade, que a apertava desvairadamente nos braços, e os seus dois rostos confundiam-se num só, na violência daquele beijo interminável. Luís Carlos, pensou ainda que ele a estivesse forçando, mas era evidente que não. Desprenderam-se por instantes, e foi ela quem de novo a abraçou e colocou a sua boca à dele, tal como fizera nessa manhã com ele. Uma decepção cruel estampou-se no rosto do rapaz. Pensou ainda em chamá-la, apenas para a cumprimentá-la, mas teve pena dela... "Até parece impossível - que infeliz eu sou!". Regressou apressadamente, com os olhos a arderem-lhe, com se os tivesse queimado com aquela cena inesperada a que assistira. Lembrou-se confusamente de pormenores, de detalhes cruéis. O rapaz que abraçava e beijava a Sandra Cristina, era um desses "bonecos", que mesmo na praia, vestia como um galã, e não passava de um meninote, um pouco mais velho do que ela. Custava-lhe a acreditar naquilo que os seus olhos viram: a Sandra Cristina, a perfeita, a imaculada, que ele se habituara a respeitar e a adorar "Com certeza que sonhei... não, não é possível!".
Voltou pelo caminho que tinha percorrido. Tocou violentamente a campainha do portão, e apareceu-lhe outra vez aquela criadita atarantada, como a quer dizer-lhe qualquer coisa, mas ele nem lhe deu tempo.   Dirigiu-se logo para o alpendre onde guardara os seus apetrechos de pintura. Uma vez aí, sobraçou-os todos, o cavalete e a tela, a caixa das tintas e a paleta, e voltou a sair com a sua preciosa carga. A criadita ainda lhe perguntou: "O Sr. Luís Carlos vai-se embora?!".  Não lhe respondeu.
Mas o pintor não sabia que o coração da Sandra, tinha um segredo... Mortificada pela sua deficiência física, a rapariga conhecera nesse Inverno, na cidade do Porto, um tal Januário. O rapaz mostrara-se sensível à sua beleza, e fora amável com ela. Chegando a convidá-la para irem ao cinema. Esta simples prova de deferência ecoara estrondosamente no coração infeliz e retraído da Sandra, de modo quando os pais regressaram a São Pedro de Moel, ela acompanhara-os com tristeza, por se separar do único rapaz que tivera com ela, atenções que até aí nunca recebera. Por isso é que Luís Carlos a surpreendera naquele dia, sentada e solitária naquela rocha, pensando: "O meu "sebastião" há-de chegar numa manhã...". Januário prometera-lhe ir a São Pedro de Moel, passar dez dias de férias. Depois, conhecera Luís Carlos e nunca passara pela cabeça, que um homem tão viajado e tão querido das mulheres, já com perto de trinta anos, se pudesse interessar por ela. As intenções iniciais de Luís Carlos interpretara-os como sendo prelúdio, de um abuso que ele pacientemente preparava e que ela repelaria com violência. Depois, pouco a pouco, aquela permanente correcção do pintor, acabara por irritá-la, e tomara-a como sendo um insulto: como se ela fosse capaz de excitar e apaixonar um homem como Luís Carlos...  Por isso, decidira naquela manhã, beijá-lo ostensivamente, para se aperceber da sua reacção. E foi essa reacção que compreendera em Luís Carlos, tremendo dos pés à cabeça, e tentando segurá-la quando lhe fugira, encantando-a e garantia-lhe que bem podia ser verdadeiro o amor que Januário lhe testemunhava nas suas cartas. Exactamente depois de fugir dos braços de Luís Carlos, nessa manhã, a criadita que estava dentro do seu segredo, entregara-lhe uma carta procedente do Porto. E assim, Sandra Cristina, ficara, a saber, que nesse dia, ao princípio da tarde, no "expresso" do Norte, chegaria o seu amigo Januário... Acabado o almoço, logo que os seus pais foram descansar, aproveitara e correra à estação da Rodoviária, e lá encontrou o seu amigo, que, entretanto chegara. Durante mais de dois meses, sonhara com aquele momento em que voltaria a encontrá-lo. As cartas dele, cheias de promessas e projectos, tinha contribuído e significado aquele encontro. Caminhando ao acaso, a certa altura Januário, tomou-a nos braços e dera-lhe o seu primeiro beijo. Ela exaltara-se com a carícia inesperada, e repetira-a...
Foi nessa altura que Luís Carlos a surpreendera e decidira partir... No quarto que alugara Luís Carlos, disse à dona que recebera um telegrama com notícias que impunham a sua presença imediata, em Lisboa, e que para tal, ia-se partir para a Capital. Fez a sua mala em poucos minutos, e pediu que apresentasse as suas despedidas ao Sr. António das Ondas. Carregando os seus poucos haveres, entre os quais se contava um cavalete embrulhado numa tela cosida, o pintor embarcou no mesmo autocarro em que horas antes, desembarcara o Januário.
Quando António das Ondas foi prevenido do que acontecera, ou seja, a partida inesperada de Luís Carlos, já o "expresso" ia longe a caminho de Lisboa. O bondoso velhote coçou pensativamente o queixo, e ficou a reflectir por alguns momentos, depois se dirigiu Estação dos Correios. Mercê das informações que ali obteve o bom do António, apressou-se a percorrer o caminho que o separava da casa dos Mendes. Numa curva da pequenina estrada, deparou-se com a Sandra Cristina, que era levada pela mão, por um jovem de feições viciosas e ar petulante. Parou, encarando ambos e com um olhar, que dirigiu à rapariga, como uma censura muda e pesada:

Januário: -  Sandra, tu conheces este homem? ...
Sandra: -  Conheço sim. É o Sr. António das Ondas, um grande amigo da minha família.
António: -  Olha lá Sandra, que fazes por aqui?!...
Sandra: -  Fui esperar este amigo que veio do Norte...
António: -  Este que te acompanha? ...
Sandra: -  Sim este... Amigo. Recebi, hoje, uma carta de ele a anunciar a sua chegada depois do almoço.
António: -   Estou a ver que esse teu amigo veio no mesmo autocarro que levou para Lisboa, o Luís Carlos, com o teu retrato inacabado!
Sandra: -  O quê?! O Luís Carlos foi-se embora?! ...
António: -  Sim, foi-se embora, e deixou-me um recado a dizer que recebera um telegrama de Lisboa, a reclamar a sua presença. Mas já sei que não é verdade, pois nos Correios informaram-me que não veio nenhum telegrama para ele. Sandra Cristina, como é que explicas isto? ...

O choque daquela notícia inesperada pareceu sobrepor-se a tudo o resto, no ânimo da rapariga, que ficou pálida, e uma série de revelações fez-se, nesse momento, no seu espírito. Como se estivesse a adivinhar que estava a perder terreno foi quando, com certa petulância que o amigo dela, o Januário interveio:

Januário: -  Olhe lá, amigo (que eu não conheço), posso saber que conversa é essa que está a ter com a minha noiva, parecendo que me quer ignorar?!
António: -  Parece que não ouvi bem... Sua quê...?! 
Januário: -  Minha noiva - ouviu bem desta vez?... Não estou  compreendo essa sua admiração toda...
Sandra: -  Nós não somos noivos, Sr. António das Ondas. Ele escrevia-me do Porto, onde reside, e eu esperá-lo simplesmente como amigo. Mas diga-me, é verdade que o Luís Carlos se foi embora?
António: -  Já te disse que ele partiu, só não sei exactamente porquê. Escuta Sandra Cristina, podes dizer-me onde estiveste desde que te encontraste com esse moço que te acompanha... E a fazer o quê?

Um pensamento súbito rasgou o cérebro de Sandra - se Luís Carlos a tivesse visto nos braços do Januário. Sim, não podia ser outra coisa!
Uma onda de vergonha ruborizou o rosto da rapariga, que logo rompeu em soluços, escondendo o rosto nas mãos.

António: -  Bem, vai andando para casa, Sandra Cristina, que eu irei lá ainda esta tarde. Quanto a este senhor... Senhor, Januário, não é verdade? ... Devo informá-lo de que aqui em São Pedro de Moel, nenhum rapaz se intitula noivo de uma rapariga, sem antes ter obtido o consentimento dos pais dela, e como neste caso a mulher ser menor...
Januário: -  Mas como o Sr. sabe, eu não sou de cá.
António: -  Que não é desta terra vê-se, logo, meu amigo, mas vamos conversar... E tu, minha filha, podes ir, que eu ficarei com o teu, teu "noivo???" como ele diz...

Ao ouvir falar o António das Ondas, o rapaz ficou muito surpreendido. Este, tomando-lhe o braço e caminhando com ele em direcção ao farol, começou por lhe dizer: "Como você deve saber muito bem, o coração das mulheres é muito complicado, e por vezes, nem elas próprias o entendem! os rapazes de vinte anos é que não o entendem nunca".
Só naquele momento é que Sandra Cristina compreendeu o que Luís Carlos representava para ela, como ele era insubstituível na sua vida, como ela fora uma perfeita idiota com aquele romance com o Januário... Arrependia-se agora da sua conduta, das cartas que escrevera ao Januário e da sua leviandade, ao não reconhecer que era o verdadeiro amor o daquele que a pintara. Que saudades já tinha da sua presença, que falta lhe fazia a sua voz compassada e calma, a sua presença máscula, o seu olhar leal, que sabia encobrir o desejo e onde só brilhava a dedicação e lealdade... Mas tudo isto só agora é que se apercebera. Agora que já era tarde e ele partira para Lisboa, sem ou menos ter deixado a sua morada, ou outra qualquer indicação. Ela receava que Luís Carlos, não voltaria a aparecer.
O seu orgulho de homem feito, o seu amor-próprio, não consentiria que se rebaixasse a procurá-la depois do que sucedera. Ainda se ela não o tivesse beijado naquela manhã, ou se não fosse naquele rochedo, onde ele a conhecera e que afinal a fora surpreender nos braços do Januário. Depois do que a criadita lhe contara, da chegada de Luís Carlos e da sua ida, para regressar pouco depois, transtornado e nervoso a buscar tudo sem lhe dar uma palavra, não lhe restavam agora quaisquer dúvidas, do que o pintor a surpreendera nos braços do Januário. Agora sofria as consequências do seu erro, já que os pais, por sugestão de António das Ondas, tinha decidido não lhe falar em nada, sem que ela procurasse esclarecer o que se passara realmente, e o que se estava a passando no seu íntimo de rapariga infeliz, que errara e estava arrependida.
Um dia, o correio trouxe endereçado a seus pais, mas sem remetente, um enorme embrulho de forma cilíndrica. Ela sobressaltou-se. Pelo formato, logo lhe pareceu que seria o seu retrato.
E, com efeito, não se enganara, mas só ela não partilhou da alegria dos pais e de António das Ondas... É que, e apesar dos seus conhecimentos de pintura ser mais do que rudimentares, não acreditou que fosse aquela tela, que durante quase um mês Luís Carlos, pintara defronte a si... O traço parecia-lhe fácil e o colorido vulgar, embora Sandra Cristina nunca tivesse visto o quadro que Luís Carlos pintara, tinha a certeza de que se tratava de uma obra-prima. E aquele, não sendo mau, não era de modo algum aquilo que o seu coração, carregado de remorsos e arrependimento, imaginava que devia ser...
Entretanto...
Em Lisboa, o pintor algarvio alcançava um êxito assinalável, logo na sua primeira grande exposição. A crítica e o público ocorriam à mais célebre galeria de arte da cidade das sete colinas, a admirar as telas ousadas do jovem pintor, e uma sensação de moderno e de novo se estampava em todas as sensibilidades, desde logo subjugadas pelo talento do artista. Entre todos os quadros expostos, havia um que chamava a atenção geral, perante o qual, nenhum visitante deixara de demorar em êxtase. Chamava-se o quadro: "A DEUSA e o MAR".
É que Sandra Cristina tivera razão, quando sentira que aquela tela que os pais tinham recebido, não podia ser a que Luís Carlos, a pintara junto dela. O cartão simples e cerimonioso que acompanhava o trabalho garantia-lhe que o pintor continuava gostando dela, pois de outro modo, não seria tão frio e reservado no cumprimento de um dever social, como esse de enviar o seu trabalho aos pais. Mas, tratava-se de uma cópia que lhe fizera, do seu próprio quadro, pois o original era aquele que ali estava na exposição, exposto em lugar de honra e constituindo a admiração de todos os visitantes. Era evidente que só um artista apaixonado pelo seu modelo, poderia ter traçado e colorido aquele belo quadro. O amor, com tudo quanto há de espiritual e entusiástico nesse sentido sublime, estava ali como que retratado plasticamente, na poesia do ambiente, uma espécie de santidade que aureolava a figura central, e no carinhoso acabamento de cada pormenor.
Aliada a esta impressão poderosa que o quadro transmitia a toda a gente, estava a circunstância de terem oferecido por aquela pintura, autênticas somas fabulosas, e o quadro continuar no catálogo, com esta indicação: "Sem Preço - Não é para Venda". Isto queria dizer que Luís Carlos não venderia a sua obra-prima, por nenhum preço. Ora, quando um pintor se nega a vender um dos seus quadros, isso só pode acontecer por uma fortíssima razão sentimental. E assim a lenda do quadro "A Deusa e o Mar", logo começou a correr de boca em boca.
Até no desejo de evitar as constantes perguntas e entrevistas sobre os motivos por que não vendia aquele quadro, Luís Carlos pouco aparecia na galeria, deixando o encargo das vendas, que já ao quinto dia eram quase totais, ao seu amigo e algarvio como ele, de nome Daniel, que lhe tinha conseguido o aluguer da galeria para expor.
Nessa noite, porém, e sem saber porque o fazia, o pintor entrou na galeria, deviam de ser umas dez horas da noite. A galeria estava literalmente cheia de visitantes, e havia um sussurro geral de admiração.
Daniel, orientador da exposição, em determinada altura, correu para ele dizendo-lhe:

Daniel: -  Ainda bem que apareces-te! Tu nem calculas quem está interessado em comprar o quadro “A Deusa e o Mar”?
Luís: -  Não faço a menor ideia, nem quero saber.
Daniel: -  Escuta, Luís Carlos... É certo que toda a gente quer comprar aquele quadro, mas este cliente é muito especial...
Luís: -  Por favor, não insistas, pois sabes muito bem que eu não mudo de opinião. Só por curiosidade, e devido à tua grande excitação, diz lá quem é que o pretendeu comprar o quadro?
Daniel: -  Nem mais nem menos que o Dr. Roger Richter! Que esteve aqui ontem com a esposa e ficaram ambos embasbacados diante da tela!
Luís: -  Sei lá quem é esse Roger Richter!
Daniel: -  Claro que sabes quem é!... Olha, ali vem ele com a mulher. É que eu disse-lhe que passassem por cá esta noite, porque talvez tu aparecesses...
Luís: -  Até parece impossível, em vez de me facilitares as coisas, atiras-me para a cabeça do "touro". Tu queres é que eu enfrente os clientes, para tu poderes receber a tua comissão...

Mas calou-se a olhar para aquele casal que acabara de entrar na sala, e que o seu amigo Daniel lhe indicara como sendo o Dr. Roger Richter e a esposa. Sim, conhecia o rosto daquele homem, mas de onde?...
Nesse momento foram feitas as apresentações e antes que alguém pudesse dizer fosse o que fosse a senhora Jodie Richter, disse-lhe com desenvoltura:

Jodie Richter: -  Senhor Luís Carlos, quero dizer-lhe que o considero um dos melhores pintores do nosso tempo, senão o melhor. Mas também quero igualmente dizer-lhe que eu, e o meu marido, o Dr. Roger Richter, decidimos romper com esse mistério do quadro "A Deusa e o Mar"! O senhor vai vender-nos esse quadro, não é verdade?!
Luís: -  Receio que a vá desapontá-la, minha senhora, pois eu não vendo aquele quadro. Aliás, toda a gente o sabe...

Nesse momento, Luís Carlos lembrou-se de onde conhecera aquele rosto, o rosto do Dr. Roger Richter, e assim disse-lhe de uma maneira desconcertante, que fez a admiração das pessoas a quem se dirigia directamente, e também de todos os outros visitantes que, entretanto tinham rodeado o grupo.

Luís: -  Como sabe, não vendo aquele quadro por preço nenhum, minha senhora. Mas, se a senhora e o seu marido têm grande interesse nele, talvez possamos chegar acordo...
Dr. Roger: -  Sim, sim estou até muito interessado. Passo por um dos maiores coleccionadores de Nova Iorque, e estou na disposição de pagar o preço que pedir. Para mais creio que o conheço, não me recordo é de onde?...
Luís: -  Eu também estou a reconhecê-lo, doutor, não me lembro de onde, ou será de onde o doutor me conheceu?... Mas continuo a dizer-lhe que aquele quadro não tem preço em dinheiro, e por isso não o vendo. No entanto, o quadro pode ser seu e de sua esposa...
Dr. Roger: -  Não o estou a compreender, se não vende o quadro...
Luís: -  Eu ofereço-lhe aquele quadro, se o doutor quiser prestar-me um alto favor, que mais ninguém no mundo me poderá fazer, senão o senhor!
Dr. Roger: -  Cada vez compreendo menos. Então o Luís Carlos oferece-me o quadro, em troco de quê?!

O Dr. Roger Richter entreolhou-se sem compreender o alcance das palavras de Luís Carlos. À volta do grupo, estabeleceu-se um burburinho, pois a decisão do pintor espantou toda a gente. Por fim o doutor perguntou-lhe:

Dr. Roger: -  Concretamente, o que precisa que eu faça, para merecer a oferta daquela obra de arte?!
Luís: -  Doutor está aqui muita gente e segundo me informou o meu associado, tanto o senhor como sua esposa, já visitaram a exposição.
Dr. Roger: -  Sim, só passamos por cá para ver se o encontrava pessoalmente.
Luís: -  Então que diz se fossemos dar um pequeno passeio?... Está uma noite maravilhosa e Lisboa, é uma cidade maravilhosa à noite. Aceita?...

O casal apressou-se a dizer que se tratava de uma boa ideia, e os três abandonaram a sala de exposições. O Daniel, o associado do pintor, foi então literalmente submerso por perguntas, vindas de todos os lados. Mas não sabia realmente como responder à curiosidade daquela gente indiscreta, que pensava que ele devia de estar no segredo das actividades do seu amigo. Bem garantia a toda a gente que nada sabia do que se estava a passar entre Luís Carlos e os americanos, mas ninguém acreditava nele.
Entretanto, passeando na noite lisboeta, mais apetecível que possa imaginar, caminhavam vagarosamente, o casal americano e Luís Carlos.
Em determinada altura, o pintor perguntou ao médico:

Luís: -  Então, doutor, ainda não se lembra ainda de onde nos conhecemos?
Dr. Roger: -  Luís Carlos confesso que não me lembro...
Luís: -  Pois eu, logo que entrou na exposição, o reconheci logo. Não admira, porque para mim, houve só um Dr. Roger Richter. Para o senhor, houve já milhares de Luís Carlos...
Dr. Roger: -  Não estou a compreender, ou o senhor já foi meu doente? Espere, espere, já sei: Bombaim, durante aquele terrível terremoto! O pintor, "o Português" como lhe chamavam. Agora bem me lembro só o nome é que não fixei, mas ainda tenho presente o meu diagnóstico: esmagamento da clavícula e do fémur e também a fractura de quatro costelas. Eram quatro não era Sr. Luís Carlos?
Luís: -  Exactamente foram quatro costelas partidas quer perfuram os pulmões. Foram momentos horríveis aqueles que lá passei, mas tive a sorte do doutor, também se encontrar na Índia e em ter ido parar às suas mãos. Caso contrário, andaria hoje por esse mundo, arrastando a minha invalidez, se não tivesse morrido.
Dr. Roger: -  Ora, ora. Fiz apenas a minha obrigação
Luís: -  O doutor não tinha qualquer obrigação, pois, por mero acaso é que nesse momento trágico se encontrava em Bombaim. Eu encontrava-me lá a aprender a pintar. Nessa altura ainda tinha o coração cheio de beleza...
Jodie: -  Ah sim?! ... E agora, já não tem o coração cheio de beleza?! ... Eu atrevo-me a pensar que o seu coração está agora mais cheio de beleza, como nunca esteve e não devo estar enganada.
Dr. Roger: -  Bem, meu amigo, uma vez que já nos apresentámos, não encontro qualquer motivo para não falarmos francamente. Então, quais são as condições para que aquele quadro ser meu?
Luís: -  É simples: basta que o doutor opere uma pessoa de umas fracturas antigas, parece que são na bacia e numa perna.
Dr. Roger: -  E se eu a operar, dá-me aquele quadro?!
Luís: -  È exactamente com diz.
Dr. Roger: -  Vamos lá ver, eu não conheço o caso, além disso, se operação não tiver êxito?
Luís: -  Tenho absoluta confiança em suas mãos e no seu brio profissional!
Dr. Roger: -  E, a pessoa em questão tem muita idade?
Luís: -  É uma jovem de 18 anos.
Jodie: -  Luís Carlos desculpe-me a indiscrição, mas a pessoa em causa, por acaso é o modelo do seu quadro "A Deusa e o Mar"? ... Adivinhei?!
Luís: -  Sim, a senhora adivinhou, é ela!
Dr. Roger: -  Mas eu não posso aceitar intervir, sem primeiro fazer uma observação à doente...
Luís: -  O doutor fará todas as observações que precisar. Apenas lhe peço que me dê a sua palavra de honra, de nunca mencionar o meu nome a Sandra Cristina, nem a seus pais.
Dr. Roger: -  Então a pequena chama-se Sandra Cristina. Sim, pode contar com a minha discrição.
Luís: -  Então, dar-lhe-ei o endereço onde ela e os pais moram... 
Dr. Roger: -  Mora cá em Portugal?
Luís: -  Mora e numa linda terra, que se chama São Pedro de Moel, e é uma das mais belas praias de Portugal.
Dr. Roger: -  Está certo. Em princípio aceito...
Luís: -  O doutor arranjará maneira de comunicar com ela, e de lhe propor a operação, sem lhe levar dinheiro. Feito isso, e sem esperar pelos resultados finais da sua intervenção, eu remeter-lhe-ei o quadro "A Deusa e o Mar" para a sua casa em Nova Iorque. Combinado? ...
Dr. Roger -  Está combinado!

Os dois homens apertaram as mãos, o acordo estava feito.  Luís Carlos quando nessa noite entrou no seu apartamento, no moderno bairro do Restelo, ia sem se conter nas pernas, pois estava completamente embriagado.
Bebia muito desde que regressara de São Pedro de Moel, na esperança de se esquecer da presença, do riso e da voz, do perfume e da beleza de Sandra Cristina. Cada dia mais e mais era vencido e dominado pelo poderoso encanto da rapariga que o traíra. Melhor, que ele julgava que o traíra com requintes de malvadez. Nessa noite, porém, a sua bebedeira era de esperança, se é que se pode classificar assim uma bebedeira. Ele tinha a esperança de poder arrancar Sandra Cristina ao seu grande e tremendo complexo. O seu imenso amor por ela, não exigia nada em troca, nem sequer que ela soubesse que ele interviera no milagre da sua cura. Tinha fé, pois o Dr. Richter era o maior especialista do mundo, em enxertos ósseos. A sua voz e a sua autoridade, eram bem conhecidas na Europa e nas Américas, e Luís Carlos dava-se por feliz, que o grande especialista fosse um admirador da pintura. Poderia assim proporcionar a Sandra Cristina, a possibilidade de uma cura radical. Não queria nada em troca, nem mesmo se detinha no pensamento mesquinho de se ela merecia ou não, aquilo que pensava. Amava-a, reconhecia-o a cada momento, e, quando alguém ama alguém, deve ser bom para esse alguém.
Decerto, que ela não pensaria assim a seu respeito, e sendo assim, era sinal que o não tinha amado! Mas que culpa teria ela de o destino ter sido assim?... Lembrou-se ainda de que na última Primavera, fora ao Porto, e, quando o autocarro passou por São Pedro de Moel, pudesse ter oportunidade de vê-la. Gostava de vê-la, ao menos uma vez, pois o seu coração rebentava de dor e de saudade. E conseguiu por sorte vê-la.
Mas, mais valia que a não tivesse visto. Vira-a ao pé da estação da Rodoviária, de braço dado com um rapaz que a tratava familiarmente por tu. Estaria já casada?... Mas casada ou não, ela havia de sofrer muito pelo seu defeito físico. E, se ele conseguira subir ao cume da fama e da fortuna pelas suas pinturas, isso em parte devia-o a ela, pela sua incomparável beleza, e pelo nobilíssimo sentimento que ela soubera inspirar-lhe e ele conseguira transpor para a tela.
Por isso, casada ou solteira, Sandra Cristina teria a sua quota-parte nos efeitos produzidos pelo seu quadro. Já fora suficiente que não lho tivesse mandado, e o houvesse substituído por aquela cópia apressada...

Sandra Cristina e seus pais estavam sentados na esplanada de um café, na chamada varanda de São Pedro de Moel, tomando um refresco.
Estávamos no meio da tarde e todas as mesas estavam ocupadas, quando um casal de estrangeiros, de ar distinto, acercou-se deles e o homem delicadamente perguntou:
Dr. Roger: -  Seriam tão amáveis que nos dessem licença de ficarmos na vossa mesa? ... é que não existe nenhum lugar vago, e estamos a "morrer" de sede?... 
André: - Para nós até será uma honra. Por favor, sentem-se  estejam à vontade.
Dr. Roger: -  Então, se nos dão licença, nós somos o casal Richter, americanos de Nova Iorque.
André: -  Nós somos os Mendes, aqui de São Pedro de Moel. Os senhores são turistas, não é verdade?

Entretanto, tinham-se sentado todos, e o pai de Sandra Cristina, encomendou mais dois refrescos. Sua filha teve a percepção, por uma misteriosa sensibilidade de que alguma coisa estranha se iria passa na sua vida. Uma espécie de ansiedade tomava-a toda, quase impedindo de ver a sua curiosidade fosse disfarçada, para mais, a senhora Jodie Richter a observava de quando em vez.
Em determinado momento, André Mendes, pensativo desabafou:

André: -  Richter... Richter... Escuta, Sandra Cristina, este nome não te diz nada?
Sandra: -  Não sei paizinho? ...
André: -  A minha filha anda sempre na Lua. Também não admira, pois são os seus dezoito anos...
Emília: -  Minha filha, pois eu ia jurar que já li este nome muitas vezes...
Dr. Roger: -  É natural que sim, pois tenho trabalhado muito...
Emília: -  Por acaso o senhor não é médico?
Dr. Roger: -  Sou sim.
Sandra: -  Papás, eu conheço o nome sim, e até já via a fotografia deste senhor, naquela revista alemã, sobre as sumidades do nosso século! É ele, sim, o maior especialista em enxertos ósseos do nosso tempo! ...é o senhor, não é?! Diga lá... 
Dr. Roger: -  Não sei se serei o maior especialista, como a menina, amavelmente me classifica, mas lá que sou médico, sou. Chamo-me Roger Richter, e sou especialista em ossos. Mas porquê? 
Sandra: -  Porquê?! ... Ainda pergunta porquê?...

Sandra Cristina rompeu então num pranto convulsivo, embora chorasse muito baixinho. A mãe da pequena, explicou ao casal a insólita atitude da rapariga.
Os Richter fizeram-se de muito admirados, e o médico, em certa altura, deixou escapar a frase milagrosa:

Dr. Roger: -  Pois é, realmente uma pena que, uma rapariga tão nova e tão fascinante, como a vossa filha, sofra desse defeito. Há quanto anos teve o acidente, Sandra Cristina?
Sandra: -  Quase há sete anos, Sr. Doutor. É tempo demais para se tentar qualquer coisa, não é?
Dr. Roger: -  Depende... Olhe Sandra, tenho muito interesse em observá-la.
Sandra: -  Oh Sr. Doutor, que feliz eu seria, se…
Jodie: -  Vamos lá, não é caso para a Sandra se excitar assim. Meu marido não pode prometer-lhe nada, mas olhe que ele é quase mágico...
Sandra: -  É por isso mesmo que me sinto tão feliz!

O casal Mendes tinha trocado um rápido olhar de compreensão, e o pai de Sandra, numa voz pesada, disse como um criminoso a confessar o seu delito:

André: -  Mas, como lhe hei-de dizer Doutor... Nós não temos meios materiais para pagar uma operação dessas, para mais feita por um especialista como o senhor.
Sandra: -  Pois é verdade, Sr. Doutor, os meus pais não têm meios financeiros…
Dr. Roger: -  Vocês, portugueses, são todos de uma grande precipitação, que até vos estraga a alegria de viver! São Pedro de Moel é uma das mais belas praias de Portugal, e vocês parecem apostados em viver em tragédia. Ninguém vos falou em dinheiro, não é verdade?
Emília: -  Pois não, mas nós...
Dr. Roger: -  Também não fizemos nenhum contrato, não é verdade? Eu disse apenas que gostaria de observar a sua filha, e isto, se ela e os senhores estiverem de acordo. Valeu?
André: -  O pior é que...
Dr. Roger: -  Deixem-me falar, por favor. Ando em férias pela Europa, e recebi uma gentileza de um casal desconhecido, que me proporcionou o mais saboroso refresco que tomei em toda a minha vida. Talvez possa recompensá-los desta vossa amabilidade, pedindo-vos que me deixem observar Sandra Cristina.

Houve um silêncio feliz, ou, mais exactamente, um silêncio em que os Mendes recearam entender o que ouvira. Mas logo ficou combinada a hora matinal, no dia seguinte, o Dr. Richter os visitaria, para uma primeira observação da perna e da anca de Sandra. A pequena, durante toda a noite, não conseguiu dormir. No mais íntimo da sua alma, agradecia à providência Divina que tivesse colocado no seu caminho, aquele casal bondoso, que se condoera da sua desgraça.
Nem por sombras poderia lembrar-se de uma possível intervenção de Luís Carlos, naquele processo, se bem que fosse o pintor, a pessoa pela qual mais lhe interessava melhorar do seu defeito físico.
Sentindo-a inquieta e a remexer-se na cama, a mãe enfiou um roupão e foi ter com ela ao quarto:

Emília: -  Porque não dormes minha filha? 
Sandra: -  E tu, porque estás acordada?

As duas sorriram, com os olhos brilhantes de esperança. Momentos depois, também o pai da Sandra, o André Mendes, estava presente. O seu rosto, normalmente calmo, apresentava um colorido e uma excitação excepcional:

Sandra: -  Papá, não é um momento maravilhoso?
Emília: -  Não te agarres já a esperanças tão grandes, minha filha.
Sandra: -  Concordo plenamente contigo, mas seria como um grande e maravilhoso milagre.
Emília: -  Lembra-te que o acidente já foi há muito tempo, e que os ossos já solidificaram.
Sandra: -  Eu sei isso tudo, mas deixa-me sonhar com um milagre que me possa acontecer.
André: -  Mas deves pensar que já é um pouco tarde. Mulher não vem pra a cama que daqui a pouco começa a anoitecer?
Emília: -  Vai indo tu, pois eu ficarei um pouco mais com a Sandra.
André: -  Então um bom resto de noite, e procura sossegar.
Emília: -  Agora que o pai se foi embora, diz-me lá, tu ainda pensas no Luís Carlos, não é verdade?  Não estranhes a minha pergunta, mas as mães sabem tudo a respeito das filhas, especialmente das filhas da tua idade.
Sandra: -  Não te sei responder, mãe…
Emília: -  Tenho a sensação de que tu não te excitarias tanto, se o Luís Carlos não tivesse passado pela tua vida!
Sandra: -  Talvez tenhas razão. Não sei porquê, mas tenho a esperança de que ainda um dia o encontrarei ... E então...
Emília: -  Tem calma, minha filha, e escuta-me.
Sandra: -  Sou toda ouvidos, mãe.
Emília: - De todos os homens que existem no mundo, o Luís Carlos, é aquele que eu reputo ser mais indiferente a teu respeito, melhor, à falta de respeito. 
Sandra: -  Pode ser que tenhas razão, e é por isso que eu muito queria estar curada, quando ele me reencontrar!
Emília: -  És uma alma nobre, minha filha. Mas não deves ficar com essa ideia fixa, de que voltarás a encontrar o Luís Carlos. Até pode ser que ele não volte a São Pedro de Moel.
Sandra: -  Ainda agora ele fez uma exposição em Lisboa. Li nos jornais, e só por vergonha é que não pedi ao pai que fossemos lá...
Emília: -  Vergonha de quê? 
Sandra: -  De lhe aparecer ainda com este defeito.
Emília: -  Só por isso? Olha lá, tu fizeste alguma coisa de indecoroso e que te possa envergonhar?
Sandra: -  Bem sabes que não!
Emília: -  Então, não te entendo...
Sandra: - Oh, nem eu sou capaz de te explicar, mas portei-me como se tivesse feito tudo o que há de pior.
Emília: -  Bem, com esta conversa toda, já são mais do que horas para ir dormir, para podermos estar bem dispostas quando o Sr. Doutor chegar.
Sandra: -  Ele disse que vinha às nove horas... Achas que ele vai faltar e nunca mais o vamos ver?
Emília: -  Não, minha filha! Que disparate de pensamento.
Sandra: -  Desculpa, mas estou muito nervosa!
Emília: -  O Dr. Roger Richter é uma celebridade mundial, não é um troca-tinta qualquer.
Sandra: -  Oh mãe, não te zangues com a tua filhinha que está muito nervosa.
Emília: -  Se ele se comprometeu a fazer uma coisa, sem que ninguém lhe pedisse, decerto que não faltará. Dorme descansada, vá. Um beijinho...

Na manhã seguinte, logo pelas nove horas, retiniu a campainha do portão. Sandra Cristina, atarantada, nem conseguiu esperar que a criadita fosse abrir o portão, e correu logo a abri-lo ela. Ofegante, o seu adorável rosto empalideceu de emoção, ao encontrar-se em frente do médico que lhe sorria calmamente, segurando nas mãos uma pasta e um magnífico ramo de rosas que lhe estendeu, enquanto lhe dizia:

Dr. Roger: -  Bom dia, Sandra Cristina. Minha mulher manda-me pedir desculpa de não poder vir, mas tinha umas voltas a dar na Marinha Grande. Então como passou a menina a sua noite?
Sandra: -  Oh Sr. Doutor, que gentileza a sua! Muito obrigada. Mamã, olhe o que o Sr. Doutor me trouxe!
Emília: -  Bom dia, Sr. Doutor. Que belas flores. Agradeço-lhe muito a sua gentileza!
Dr. Roger: -  Bem, agora que tanto a filha como os pais, já estão mais serenos, vamos lá fazer o exame. Antes de tudo, deixe-me vê-la andar. Ora faça favor de ir até àquela porta e voltar. Devagarzinho e bem direita; vamos, mais uma voltinha...

A mocinha obedeceu, enquanto o cirurgião se transformava de homem da Sociedade, em homem de Ciência. Os olhos fixos como se a tivesse a fuzilar, não querendo perder o mais insignificante pormenor, que lhe fosse fornecido pelos movimentos da rapariga, e foi com voz algo rude, lhe disse:

Dr. Roger: -  Basta! ... Fractura da bacia na região exterior e fractura da tíbia e do peróneo, com encurtamento por solidificação errada; além de esmagamento de alguns ossos: o tarso e o metatarso, não foi isso?
Sandra: -  Exactamente, Sr. Doutor!
Dr. Roger:  -  Bem, passemos a um quarto, onde eu possa examinar directamente, os locais das fracturas, e mais exactamente, os locais das solidificações.
Emília: -  Então, por aqui, Sr. Doutor. Se faz favor...
Dr. Roger: -  A sua filha coxeia pela forma como deixaram solidificar as fracturas que apresenta. Hoje em dia, não têm qualquer importância, quando tratadas convenientemente. Foi uma pena, direi mesmo que foi um crime! Bem, preciso da senhora junto de mim...

O exame foi demorado. Quando terminou, o médico voltou à saleta, sentou e pediu:

Dr. Roger: -  Senhor André Mendes, por acaso não tem aqui em casa uma garrafa de vinho do Porto? É que gostaria muito que bebesse-mos, ao êxito da operação que vou fazer à sua filha!
Emília -  Oh Sr. Doutor, nem pode calcular o bem que me faz as suas palavras !
André: -  Senhor doutor, eu, como mãe da Sandra Cristina... Nem sei como hei-de agradecer-lhe.

Atarantados e chorosos, o pai e a mãe de Sandra abriram uma garrafa do precioso vinho do Porto, que estava guardado para uma qualquer ocasião especial.
Os cristais, os belos cristais da Marinha Grande - tocaram-se e o Dr. Roger Richter, esclareceu:

Dr. Roger: -   Ao contrário do que possam pensar isto não quer dizer que eu esteja seguro da minha intervenção. Compreendam por favor.
André: -  Mas só a sua boa vontade, nem sabemos como havemos de lhe agradecer!
Dr. Roger: -  Prevejo que a idade da nossa doentinha, me ajudará decisivamente. Se fosse mais velha, já nada havia a tentar, mas assim e com a ajuda de Deus, vamos a ver o que podemos fazer.

Conforme ficara estabelecido em Lisboa, a senhora Jodie Richter não acompanhara nessa manhã o marido a São Pedro de Moel, para a primeira consulta a Sandra Cristina, para assim poder escrever uma longa carta a Luís Carlos, pondo-o minuciosamente ao corrente do que ia acontecendo em São Pedro. Mas não fechou a carta antes de o marido regressar, para poder juntar o seu diagnóstico. Feito isso, acrescentou que partiriam no dia seguinte para Lisboa, já acompanhados de Sandra Cristina e de seus pais.
Tal como Luís Carlos combinara, todas as despesas inerentes à operação, seriam pagas por ele, e no fim, o doutor Roger Richter lhe diria esse montante.
Quando na manhã seguinte, o pintor recebeu a carta, o seu rosto distendeu-se num sorriso feliz. As frases em que ela falava da excitação e do alvoroço da pequena, bem como da impressão que lhe produzira a ela, e ao marido, e estonteante beleza da jovem, fizeram um imenso bem à alma de homem amargurado, cujo amor tinha sido (julgava ele...) ostensivamente escarnecido e desrespeitado.
E nada lhe dizia que confirmasse a sua suspeita de que Sandra Cristina tivesse casado. Bem pelo contrário, pela forma como Jodie Richter lhe escrevia, depreendia-se que a mocinha vivia em casa dos pais, como uma filha solteira.
Quem seria então, aquele rapaz que a acompanhava tão naturalmente, no dia em que ele fora espiá-la a São Pedro de Moel?
Luís Carlos interrompeu as suas meditações, para rapidamente fazer as suas malas. Ainda não sabia para onde iria, pois ainda não tinha pensado nisso. Só sabia que não queria permanecer em Lisboa, sabendo que Sandra Cristina e seus pais, ali estavam também. Estava certo de que não teria coragem necessária para se fazer encontrado com eles, e não queria voltar a vê-la, nunca mais!
Foi no avião que o transportava a Paris, que se interrogou sobre aquela sua estranha atitude. Então, se a rapariga já não lhe interessava se nunca mais a queria encontrar, porque é que se teria empenhado em que ela ficasse curada do seu defeito físico? E como se arriscava a não ganhar somas fabulosas, que decerto ganharia com a venda do seu quadro "A Deusa e o Mar"?
Mas, Luís Carlos era um temperamental fora do comum, e chegou a aceitar que o seu amor por ela, e o seu consequente desejo que ela vivesse feliz, sem qualquer complexo, tinham sido suficientes para que tomasse aquela atitude...
Agora, vê-la outra vez, encará-la e ouvir-lhe a voz, é que nunca, nunca mais!
Em Paris, exactamente para se convencer daquele violento "nunca mais", andou por todos os cabarés, boates e discotecas, procurando afogar em prazeres fáceis e bem pagos, o grande amor da sua vida, de homem e de artista.
De lá, recebeu o primeiro relatório do Dr. Roger Richter, redigido depois da primeira intervenção cirúrgica, a que sujeitara Sandra Cristina. Mas o médico não se mostrava optimista, antes pelo contrário, o prevenira para a hipótese muito provável, de um fracasso.
Eram necessárias ainda mais duas ou três operações, mas em qualquer caso, só depois da segunda, se poderia prever exactamente, o estado em que poderia ficar a doente.
Teimosamente, porém, Luís Carlos aceitava como certa a cura da rapariga. Nem por momentos lhe passou pela cabeça, que fosse possível vir a sofrer uma desilusão, e saber que se desfizera do seu precioso quadro, para nada.
Para nada?...
Pior que nada, pois teria sido preferível que Sandra Cristina, não se tivesse sujeitado ao tormento operatório, nem tivesse passado aquele alvoroço de esperanças, que tudo isso acontecesse sem qualquer proveito! Luís Carlos interrogou-se sobre se teria tido alguma vez de estabelecer, com o famoso cirurgião, o espantoso contrato que estabelecera.
Verdadeiramente, ele não tinha qualquer direito de intervir na vida de Sandra, e uma vez que decidira, nunca mais devia de procurá-la, ou mais ainda: nunca mais a ver, tendo até por vontade própria de desaparecer de Lisboa, no mesmo dia, em que ela chegasse à Capital.
Parecia-lhe agora, perante o velado pessimismo do médico, que a sua intervenção, na vida de Sandra Cristina, ultrapassara os limites do que era aceitável.
Se, depois de todo o martírio que passou, e depois do traumatismo psíquico, que fatalmente estaria passando, se ela não melhorasse aquela intervenção cirúrgica, apesar de gratuita, teria efeitos devastadores, na moral da rapariga.
Este pensamento transtornou-o e deixou-o preocupado.
Ele sabia que fora o mais puro e o mais desinteressado dos sentimentos, que o levara a fazer aquela proposta ao Dr. Roger Richter. E, toda a gente que pudesse saber do caso, o felicitaria se a operação viesse a ter êxito. Mas, se fosse um fracasso, ninguém deixaria de lhe dizer que não tinha tido o direito de se intrometer, numa vida que lhe era em tudo estranha à sua, e que não queria, de modo algum, ligar-se.
Mas não queria, não queria, realmente ligar-se a Sandra Cristina?...
Amedrontado com a resposta que a sua consciência lhe ditasse, Luís Carlos, bebeu mais um Whisky e mais outro ...

Entretanto, na sala de operações, do melhor e mais bem apetrechado hospital de Lisboa, o Dr. Roger Richter, terminara a segunda operação, a Sandra Cristina. Na ante-sala, esperavam-no o pai e a mãe da paciente. O médico saiu da sala das operações, com o sombracenho carregado. Os Mendes encararam-se, preocupados.
Encarando com eles, o Dr. Roger Richter disse, com aquela rudeza quase agressiva, que o caracterizava, quando estava enfronhado nos seus trabalhos profissionais:

Dr. Roger: -  A vossa filha vai ficar curada. Cheguei a recear que apenas pudesse fazê-la coxear um pouco menos. Mas a verdade, é que Deus me ajudou, e agora, posso garantir-lhes que dentro de três a seis meses, a nossa gentil Sandra Cristina, correrá e dançará, como qualquer rapariga que nunca tenha sofrido qualquer acidente!
Emília: -  Oh, Sr. Doutor!

A mãe da rapariga rompeu num pranto silencioso e feliz, enquanto o marido caminhava para o Dr. Roger Richter, e estendeu-lhe a mão, com os olhos marejados de lágrimas. O médico apertou-a e com um sorriso. Já perdera aquele ar carrancudo que tinha, quando prestava a sua atenção profissional, e disse-lhe:

Dr. Roger: Não tem nada que me agradecer, Sr. André Mendes. Fiz o que pude. Mas olhe que a sua mulher precisa de si…

Efetivamente, Emília Mendes tacteava o ar, procurando onde se pudesse apoiar. Na sua perturbação, aquela mãe ainda duvidava das palavras claríssimas que acabara de ouvir!
Depois do marido a ter amparado e a levado até a uma cadeira, a pobre senhora levantou os olhos para o médico, e nesse olhar endereçou-lhe o mais eloquente agradecimento que ele poderia ter recebido. Sensibilizado, o Dr. Roger Richter disse-lhe então:

Dr. Roger: -  Dentro de uma hora, podem fazer companhia à vossa menina, mas por poucos minutos, dez o máximo. E não se esqueçam que ficam completamente proibidos de lhes dizer o que eu lhes contei do êxito da intervenção cirúrgica. 
Emília: -  Assim faremos, Sr. Doutor. Até parece um sonho, o melhor sonho de minha vida!
Dr. Roger: - Se lhe dissessem isso lhe provocaria um choque nervoso, que poderia ser-lhe prejudicial na evolução no processo de recuperação, que agora deve ser rápido.
Emília: -  Faremos tudo o que o Sr. Doutor nos mandar ...
Dr. Roger: -  Digam-lhe que não estiveram comigo, depois da operação.
Emília: -  Pode estar descansado, Sr. Doutor.
Dr. Roger: -  E para terminar, também vos quero dizer que os convido para jantarem comigo e com a minha mulher, esta noite.
 
Eles sorriram envergonhados, mas o médico receou que não o tivessem compreendido que lhes estava a fazer um convite formal, pelo que se apressou a acrescentar:

Dr. Roger: -  Esta será a última parte da mentira, que peçam que não digam a Sandra... Bem, não é rigorosamente uma mentira, pois, minha mulher e eu, esperamos que nos dêem o prazer da vossa companhia, hoje, ao jantar - está bem ?!
Emília: -  Temos todo o prazer em aceitar o seu amável convite!
Dr. Roger: -  Então até logo às oito horas no hotel.

No final do jantar, o Dr. Roger Richter esclareceu o casal Mendes:

Dr. Roger: -  Convidei-os com um determinado fim, ou seja, o caso de Sandra Cristina. Em princípio, ela deveria de precisar de outra intervenção cirúrgica, mas que talvez seja desnecessária, se durante estes meses mais próximos, for vigiada com toda a atenção e competência. Nós temos de partir de avião para Nova Iorque, na próxima semana, pois não posso de modo algum protelar a data da minha partida, por compromissos anteriormente assumidos.
André: -  E o que nós podemos para ajudar a nossa querida filha?
Dr. Roger: -  Tenham calma e escutem a minha mulher vos tem para vos dizer.
Jodie: -  Por isso pensei, ou melhor, pensamos eu e meu marido, em pedir emprestada a vossa filha por uns meses. Autorizem que a Sandra venha connosco, pois lhe faria muito bem mudar de ambiente. Em Nova Iorque, temos muitos amigos, e ela recompor-se-á noutro meio ambiente, de modo que, quando regressar será outra rapariga, tendo inclusive já perdido todos os seus complexos, que sempre a têm atormentado. Que me dizem?
Emília: -  Nós gostaríamos que ela fosse, mas compreendem as saudades... E, além disso, financeiramente, não podemos suportar tanta despesa,
Jodie: -  Mas atenção, pois tratasse de um pedido nosso, sem qualquer encargo financeiro para vós.
Dr. Roger: -  Reforçando a ideia de minha mulher, lhes direi que não vos fiz qualquer pedido em proveito próprio, a não ser aquele de cederem parte da vossa mesa, na esplanada, no primeiro dia que nos conhecemos!
Jodie: -  É um convite que fazemos com todo o prazer, e que não representa para vocês, repito qualquer despesa financeira.

Dias depois, Sandra Cristina, acompanhada pelo casal Richter, partia de avião rumo a Nova Iorque.
Quando o carro particular do casal parou, de fronte a um enorme arranha-céus onde moravam, o Dr. ajudou Sandra a descer do automóvel, e a rapariga, também amparada a sua mulher, caminhou devagarzinho até ao ascensor.
Estava radiante de felicidade. Chegados ao último andar, o ascensor parou. Um mordomo veio-os receber e cumprimentou-os respeitosamente. A senhora Jodie Richter, perguntou-lhe então:

Jodie: -  Antony, anteontem recebeu um telegrama meu?
Mordomo: -  Recebi sim, minha senhora!
Jodie: -  Então, está tudo conforme as indicações que lhe dei?
Mordomo: -  Segui todas as suas indicações, minha senhora.
Jodie: -  Muito bem... Sandra Cristina venha agora ver a cidade de Nova Iorque, do alto de um centésimo quinto andar.

Devagarzinho, com mil precauções e carinhosamente, a mulher do Dr. Roger Richter levou a Sandra, até a uma grande janela que se abria sobre o coração da cidade. O espectáculo que daí se avistava, era simplesmente maravilhoso!
O Dr. Roger Richter, veio reunir-se a ela e a sua mulher.

Dr. Roger: -  O que se avista daqui é de facto esmagador! Mas vim aqui convidá-las a passarem à biblioteca. Venha, Sandra Cristina, que nós a ajudaremos.
Jodie: -  Eu vou à frente abrir a porta, e a Sandra vai entrar sozinha, sem estar amparada a nós. Serão os primeiros passos que dará, sem coxear, valeu?
Sandra: -  Vamos lá a ver se conseguirei…

A porta abriu-se e a rapariga viu-se num dos topos de uma grande sala, confortável e forrada com estantes cheias de livros. Não estava ninguém na biblioteca, apenas, na grande parede do fundo, estava uma tela...
Ao ver a tela, Sandra Cristina caminhou sozinha para a frente, com o corpo direito e sem coxear, com o olhar brilhante e fixo naquele quadro, como se estivesse sonhando.
Era ela a retratada, era ela que estava ali, numa técnica de pintura como nunca vira, e em que cada traço lhe falava de um amor, que ela não soubera compreender a tempo...
Sim, ela tinha razão quando argumentou com os pais, que o quadro recebido do Luís Carlos, não poderia ser o original. O seu coração não a enganara!
E foi os seus olhos brilhantes, que fizeram a pergunta, que os seus lábios não se atreveram a formular.
Então, conscientemente e pela primeira vez na sua vida, o Dr. Roger Richter faltou à sua palavra, e explicou a Sandra, como é que aquele precioso quadro, que o autor nunca quisera vender por preço algum, se encontrava ali em sua casa, na sua biblioteca.
A Sandra Cristina teve uma inevitável crise de lágrimas e logo quis saber onde se encontrava Luís Carlos.

Jodie: -  Isso também nós queríamos saber, Sandra. Até porque o meu marido tem de fazer contas com ele, pois todas as despesas extras da operação deviam ser pagas por ele. Ora, para isso mandou-nos um cheque com uma importância muito superior àquela que despendemos, mesmo contando com esta sua viagem a Nova Iorque. E o meu marido, quer-lhe devolver-lhe o excedente.
Sandra: -  Mas então têm o endereço dele de Paris?
Jodie: -   Também não temos esse endereço, e só sabemos que ele partiu da capital francesa, sem deixar rasto.

Sandra Cristina ficou pensativa, mordendo os lábios. Foi o Dr. Roger Richter quem lhe indicou o que ela devia de fazer:

Dr. Roger: -  Para mim, não pode haver quaisquer dúvidas sobre o que vai acontecer. Mais dia, menos dia, Luís Carlos vai quer saber o resultado da operação, e então terá de comunicar comigo para poder saber o que aconteceu, ou, então, vai aparecer em São Pedro de Moel, visto que daqui a dois meses, fará dois anos que vocês ali se conheceram, não é verdade?
Sandra: -  É verdade. Estou a ver que o Sr. Doutor sabe tudo a nosso respeito. Mas que posso eu fazer?
Dr. Roger: -  Por enquanto, minha boa amiga, ainda está sob a alçada do clínico, que está a vigiar a sua convalescença.
Sandra: -  E ainda terei que ficar por cá muito tempo?
Jodie: -  Daqui a dois meses e meio ou três, regressará a Portugal e a São Pedro de Moel, novinha em folha e capaz de amar sem qualquer complexo, o mais generoso e bondoso coração de homem que palpita sobre a terra, ou seja, o Luís Carlos! E vai ver que ele aparecer-lhe-á, disso não tenha a menor dúvida, minha amiga!
Sandra: -  Se me pudesse garantir isso...
Dr. Roger: -  O que minha mulher lhe disse, é rigorosamente verdade, pois nada sabemos de Luís Carlos. Mas quase lhe podemos garantir-lhe o seguinte: cuide-se de si, pois com certeza que ele a procurará... e a encontrará!
Sandra: -  Se eu tivesse a certeza...
Jodie: -  Quase lhe posso dar a minha palavra de honra que ele a procurará!
Sandra: -  A sua palavra de honra?! ... Então, deve saber mais algumas coisas, além do que me disse...
Dr. Roger: -  Pode crer que  nem eu nem minha mulher sabemos mais nada, a não ser que o amor dos homens honrados, é a maior força que os impele neste mundo!

Três meses mais tarde, Luís Carlos desembarcava no aeroporto de Lisboa, vindo desta vez da Suíça.
Ainda nada sabia do resultado da operação da Sandra Cristina, pois nunca mais comunicara com o Dr. Richter, e passara o tempo por várias capitais da Europa, embebedando-se para esquecer a razão de ser da sua própria vida.
Por fim, convencido de que seria inútil continuar naquelas liberações, que o impossibilitavam para o trabalho, lhe arruinavam a saúde, e pior do que isso não lhe arrancava do seu coração a imagem de Sandra Cristina. Foi assim que decidiu, repentinamente, voltar a São Pedro de Moel, para visitar o seu amigo António das Ondas, e também, saber alguma coisa da Sandra.
Ao chegar à linda praia de São Pedro de Moel, logo encontrou o António das Ondas, que se encontrava sentado no chamado "banco dos reformados", que fica numa rua íngreme que vai dar ao varandim da esplanada, e logo os dois homens caíram nos braços um do outro.

Luís: -  Ah... Ah quanto tempo não o via e que saudades já tinha disto tudo, incluindo o Sr. António!
António: -  Eu já tinha quase esquecido a tua cara e a tua pessoa. Tu é que te esqueceste dos amigos…
Luís: - Olhe que nunca me esqueci, não... Mas diga-me: como está a Sandra Cristina?
António: -  Ela... Ela está completamente curada, e por acaso chega amanhã aqui. Foi um milagre, um verdadeiro milagre, a sua cura total!
Luís: - Completamente curada?!... Decerto que foi... Foi um grande milagre, Deus seja louvado por mais este milagre... A Sandra completamente curada!!!
António: - Não te excites tanto, Luís Carlos. Mas chora à vontade, pois nem sempre é feio um homem chorar. Mas, por favor, acalma-te!
Luís: -  Mas aquela linda mocinha completamente curada, até parece um sonho!
António: - Mas olha lá, tudo bem, mas não é razão par ficarmos para aqui os dois, agarrados um ao outro, a chorar como duas "madalenas arrependidas"!
Luís: - Tem toda a razão, Sr. António.
António: -  Vamos a casa dos Mendes, e pelo caminho, tenho que passar pelos Correios, para saber se tenho lá alguma coisa para mim...

Luís Carlos ficou passeando pelo largo dos autocarros, enquanto o António das Ondas apressou-se a expedir um telegrama urgente para Nova Iorque e dirigido a Sandra Cristina, dizendo apenas isto:

"Luís Carlos chegou. Perguntou por ti. Disse-lhe que chegavas amanhã. Regressa rápido. António das Ondas".

Ao sair dos Correios, o bom velhote pensava e comentava com os seus botões:
"A verdade é que foi a primeira vez que menti na minha vida - mas foi por bem. Sim, porque senão guardo aqui este maluco do Luís Carlos à espera da Sandra Cristina, ele ainda é bem capaz de arranjar mais "macaquinhos" na sua cabeça, e sendo assim, ainda a nossa Sandra fica mais um ano à espera dele!”.
No outro dia e no último “expresso” que vinha de Lisboa, chegava a Sandra Cristina. Luís Carlos e o António das Ondas, assim como seus pais e alguns amigos, estavam à espera da moça…

Sandra: - Olá queridos papás! Graças a Deus que me encontro completamente curada!
Emília: - Minha querida filha, ainda me parece um sonho, um sonho lindo!
André: - Oh filha querida, como estás linda!
António: - Olá querida mocinha, tu cada vez estás mais bela, e agora, completamente curada!
Sandra: - Estou tão feliz! Mas... Mas o Luís Carlos, não me veio esperar?...
Luís: - Pois claro que sim, por isso estou aqui!...
Sandra: - Oh Luís Carlos, como estou feliz, meu amor! ... Perdoas-me?...
Luís: - O passado morreu minha querida. Mas como estás linda…
E um beijo uniu aquele grande amor...

Dois meses depois a capela de São Pedro de Moel estava linda...
Nesse dia, Luís Carlos e Sandra Cristina, dentro das suas convicções religiosas, iam-se unir para sempre.
São Pedro de Moel estava em festa, e toda a gente feliz com o evento.

Luís: - Olha, minha querida Sandra Cristina, temos de ir fazendo as nossas despedidas, antes de partirmos para a nossa lua-de-mel...
Sandra: - Vamos então. Podemos começar aqui pelo Sr. António das Ondas... Ora diga-me: como é que você sabia que eu ia chegar naquele dia e àquela hora?

O bom velhote levantou-se e calmamente encarou os dois jovens que estavam ali à sua frente, e com um sorriso nos lábios, respondeu-lhe:

António: - Olha lá Sandra, tu por acaso não recebeste o meu telegrama?
Sandra: -  Telegrama?! ... Ah, pois, claro que recebi. Ahahahahah! 
António - Então, minha boa e querida amiga, por vossa causa, menti, pela primeira vez na vida. Vão lá à vossa vida e sejam muito felizes!



F I M

 


Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

   

 

 

 

 

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