Elizabeth
Misciasci - Delegada do
Estado de
São Paulo


Jornalista, humanista,
pesquisadora, escritora,
poetisa, crítica literária,
jurada de diversos concursos
de literatura, participante
de vários grupos culturais e
de intelectos, palestrante,
empresária, uma das
Idealizadoras fundadoras e
hoje Presidente do Projeto
zaP!
O zaP! É um trabalho
voluntário desenvolvido nos
Presídios Femininos.
Atividade profissional
Jornalista
Formação
Mestrando
Cidade em que moro
São Paulo
Estado e país em que moro
São Paulo - Brasil
Sites:
Mulheres X Crimes- Em
Flagrante Delito©
Por: Elizabeth Misciasci
Passava do meio dia
e a intensa luz que entrava pela fresta da janela do quarto, despertou Lucileide,
fato incomum, já que costumeiramente, nunca acordava antes das três da tarde.
Contrariando seu exacerbado mau humor, sorrindo e cantarolando, como se fosse um
dia especial, se levantou, e em passos lentos, dirigiu-se até o fogão para
preparar seu café. -“Fumar sem café nada feito”! -Dizia ela com a voz ainda
rouca de sono. A água já borbulhava na trempe do antigo fogão, quando um
choro agudo e elevado de criança rompeu o silencio. Era Antonio Marcos, seu
filho. Embora já tivesse três anos de idade, o menino franzino, ainda não
andava, nem falava, apenas chorava muito. Exaltada com o barulho da criança,
Lucileide voltou para o quarto e bruscamente arrancou o menino de um velho
berço. - “Cala a boca desgraçado, se não te jogo no lixo!” - Esbravejava ela,
completamente irada. A criança que não falava, demonstrava que entendia
perfeitamente o que a mãe estava a dizer, cessando o choro imediatamente. Já
jogado em um pano sujo no chão, Antonio Marcos brincava com um carrinho sem
rodas e uma bolinha de pano, feita de meia. A criança praticamente sem roupas,
ficava em um canto da casa, que também era visivelmente carente de higiene, pois
a mãe não se importava com muita coisa, principalmente afazeres domésticos.
Depois do tradicional “gole de café” e alguns cigarros, Lucileide resolveu
preparar um mingau de fubá para o menino que nunca demonstrava estar com fome.
A mamadeira pronta e encardida, fora colocada ao lado de Antonio Marcos, que
aparentemente amedrontado, esticou os bracinhos esforçadamente e a pegou,
colocando próxima ao seu corpo, porém, não tomou. Enquanto isso na cozinha,
Lucileide, que já havia consumido várias doses de cachaça se preparava para
almoçar. Servindo-se em um prato de plástico, completamente engordurado, a
refeição era composta de uma porção de arroz e um pouco de abobrinha, sem
refrigeração alguma, estava lá, no mínimo há uns dois dias. Alcoolizada,
alimentada e não muito satisfeita, passou pelo cômodo onde deixara Antonio
Marcos, foi quando percebeu que a mamadeira de mingau permanecia intacta. Sem
hesitar, e em meio a uma avalanche de palavrões partiu para cima do menino aos
gritos, totalmente descontrolada, sacudia a criança com tamanha força que
parecia querer desmontá-lo, ou quebra-lo ao meio... Os moradores da
redondeza, mesmo omissos, viviam agoniados com o tratamento desumano e os
constantes berros de Lucileide com o filho. No entanto, em virtude das suspeitas
visitas que freqüentavam a casa da “mal feitora” acabava por inibir qualquer
envolvimento, pois existia o medo de posteriores represálias. Assim sendo, a
vizinhança mesmo repudiando contrariada, era unânime em fazer de conta que nada
viam ou ouviam... Ninguém tinha coragem de se envolver, nem denunciar, porém, a
revolta diante da intolerável crueldade, motivou a mais antiga moradora do
lugar, dona Mirtes, a tomar uma postura e o apoio da comunidade, foi geral.
Sem pedido de licença ou permissão, a anciã, adentrou a casa de Lucileide e se
deparou com um insólito e inédito cenário. Antes deste episódio, dona Mirtes
afirmava orgulhosa que aos 84 anos, já havia visto e vivido de tudo na vida...
–“Eu estava enganada” - Posteriori confessou. Sem se preocupar com a presença
da vizinha, e depois de surrar Antonio Marcos, Lucileide ignorou os apelos de
dona Mirtes, jogou o filho em uma bacia de água gelada e saiu do cômodo. O
choro cessou, substituído pelo incontrolável tremor dos dentinhos de leite
daquela criança, pressupondo todo o frio que sentia e que seus lábios roxos
salientavam, na pele já seca e pálida. Dona Mirtes, tratou de cuidar do
menino, não viu o tempo passar e lá ficou por horas a fio. Até que ele
adormecesse, foi sua atenta e carinhosa guardiã, com a sensação de ter cumprido
dentro do possível sua missão, - momento de voltar pra casa. Já quase na
porta de saída, sentiu um forte cheiro de álcool, foi então que percebeu
Lucileide caída numa poltrona, embriagadamente dormindo com uma garrafa nas
mãos, dona Mirtes indignada, cansada e entristecida, foi embora.
Definitivamente, aquela mãe, repudiava a maternidade e sua prole... Lucileide
quando ainda menina, fora vítima de abuso sexual pelo tio, razão pela qual
escondeu a pior parte do ocorrido e nunca pensou em denunciar quem a violentou.
Na verdade, tinha medo da tia que a criou, e por ser esta, esposa de seu
estuprador, jurou jamais revelar a dor daquela atrocidade. Para agravar o drama,
a violência sofrida resultou em uma indesejada gravidez. A tia, mulher severa,
beata fanática e conservadora, a fim de preservar os costumes e nome da família,
lhe jogou na rua. -“Tempos difíceis!”... Um dia dormia ao relento, em outro
arrumava uma faxina e na maioria das vezes, almas bondosas lhe estendiam as mãos
em caridade. Enfim, Antonio Marcos nasceu! Apenas um bebezinho, sem
qualquer responsabilidade ou culpa, uma criança inocente e indefesa, mais que
seria punida a cada dia de sua vida, simplesmente por ter nascido. Na
concepção de Lucileide, aquele nato, não passava de um tormento, a seqüela
continuada de uma violência vivida. Antonio Marcos, nada mais era que um fardo
pesado, o resultado podre de um fato, uma dolorosa e doentia lembrança, assim,
aquela pequena criatura deveria e seria punida, toda a responsabilidade da
tormenta, fora transferida ao filho indesejado. Com o tempo, Lucileide passou
a se prostituir e se embebedar, até tornar-se dependente do álcool, um litro de
cachaça pura, era aperitivo... Enquanto “afundava a cara” na bebida, entregue a
promiscuidade, Antonio Marcos, se arrastava pela casa. Sobrevivendo não se sabe
como, sem nenhum cuidado, o menino resistia, estando todo tempo sujo e mal
alimentado, razão pela qual parecia que já nem sentia fome. O circulo vicioso
de maus tratos e violências, era rotineiro. Ninguém entendia como aquela
criança agüentava tanta brutalidade... Um novo dia se inicia e a intensa luz
que entrava pela fresta da janela, desta vez não desperta quem não dormiu.
Lucileide passou as claras se embriagando, não sabe bem o quanto bebeu... De
repente, Antonio Marcos engatinhando, se aproxima da mãe, que fora de si, lhe
chuta. Num forte ponta-pé, o menino sai do chão, depois desliza, e cai para
longe dela... Ao ver que a criança fora arremessada, para bem distante,
Lucileide cai na gargalhada, e com a garrafa de pinga na mão, da mais uma virada
no próprio gargalo. De gole em gole, e como se fosse possível, ela esta mais
bêbada... Antonio Marcos caído após o chute que levara muito assustado e
engolindo o choro, parece passar mal. De repente começa a tossir interruptamente.
Lucileide já furiosa vira o resto da bebida na boca, partindo em seguida para
cima da criança, e com a própria garrafa o agride. A mistura de sons, onde os
gritos de Lucileide predominavam, ia alertando e mobiliando a vizinhança.
Enquanto os vizinhos chamavam a polícia, Dona Mirtes muito angustiada não se
conteve, precisava averiguar de imediatamente e de perto o que estaria
acontecendo. Foram várias tentativas de entrar na casa, porém em vão, pois
estava trancada com chave e trincos. No entanto, a boa e antiga moradora da
região, com astúcia e vasta experiência de vida, conseguiu uma "brecha" para
assistir o que nunca pensou um dia poder presenciar... Naquele momento, Dona
Mirtes lamentou ter vivido tanto, para ver o que nunca gostaria de ter visto...
A viatura policial dobrou a rua... Mas era tarde... Tarde demais... Mesmo com
a chegada da policia, Lucileide ainda gritava! Após três chamados não atendidos,
os policiais arrombaram e invadiram a casa. O semblante de dona Mirtes, que
tudo presenciou, era de uma tristeza inenarrável... Antonio Marcos, caído ao
lado de uma mesa velha de madeira, com a pequenina cabeça estourada, enquanto
Lucileide insaciável, ainda socava ferozmente, com as mãos em punho, aquela
criança já morta... Algemada, sendo conduzida até a viatura, parecia não
saber o que havia feito, pois continuava a ameaçar insistentemente e aos
berros:- -"Antonio Marcos! Seu desgraçado, eu juro, que um dia ainda vou te
matar"... Lucileide fora presa em flagrante delito, processada e condenada
nas formas da lei. Hoje cumpre a sentença imposta, 19 (dezenove) anos. Não
vislumbra futuro, sua vida é onde está! Mas sonha em sair nem que seja por
algumas horas, pra ela, por fim, na vida daquele que com suas próprias mãos e há
muito, ela já "trucidou". Seu filho!
*Nota da Autora: - Este texto foi produzido com base em Fatos Reais.
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Ser Poeta (Perdidamente)
Música: João Gil
Letra: Florbela Espanca
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