Paulo Roberto
Bornhofen, nascido em São
José-SC, em 03/02/1964. Casado
com Taisa Adriana Cardoso
Bornhofen. É Major da Polícia
Militar do Estado de Santa
Catarina, atualmente exercendo
as funções de Sub Comandante do
10º BPM, em Blumenau. É
integrante da Academia de Letras
Blumenauense e da Sociedade de
Escritores de Blumenau. Bacharel
em Ciências Contábeis, possui
duas especializações,
Administração em Segurança
Pública e Gestão Estratégica de
Organizações. É Mestre em
Desenvolvimento Regional.
Representa o 10º BPM no Conselho
Municipal de Turismo. Possui
publicações na área da segurança
pública, também participa de
antologias com crônicas e do
Projeto Pão e Poesia. Publicou
algumas de suas crônicas através
dos mini-livros Crônicas
Deliciosas volumes 1, 2 e 3. Tem
publicado textos de segurança
pública em jornais locais e
revistas especializadas de
circulação nacional, sendo
alguns deles, Segurança Pública
no Brasil – Quatro Décadas de
Equívocos; Segurança Pública e
Segurança Privada – Uma Parceria
de Sucesso; Segurança Pública e
Participação da Comunidade e
Programas de Prevenção ao Crime,
entre outros. Como pesquisador
tem produções científicas
publicadas, e apresentadas, em
congressos nacionais que
envolvem a temática do turismo e
da segurança pública. Na área da
segurança pública publicou os
livros Gestão Estratégica na
Segurança Pública, em
co-autoria; Gestão da Prevenção
e Repressão à Violência, como
organizador e Sobrevivência
Urbana. Foi premiado no
primeiro concurso Talentos do
Servidor, promovido pelo Governo
do Estado de Santa Catarina, com
a crônica “O celular”. Possui,
entre outras, as seguintes
condecorações: Medalha de Mérito
Intelectual Major Ildefonso
Juvenal, Polícia Militar de
Santa Catarina; Prêmio Escola
Policial de Estudos Superiores,
Escuela Nacional de Polícia
“Juan Carlos Gomes Folle” da
República Oriental del Uruguay;
Brasão do Mérito Pessoal 3ª, 2ª
e 1ª categorias; Medalha por
Mérito de Tempo de Serviço,
Bronze e Prata.
Folia de Reis
A Folia de Reis é
uma tradição de origem
portuguesa que, lamentavelmente,
vem se perdendo com o tempo e
quase não é mais praticada.
Mesmo nas comunidades
descendentes dos colonizadores
da terra de Camões, os mais
jovens já não a conhecem. Mas,
acontece que em alguns redutos
ela resiste bravamente. Resiste
graças à insistência de alguns
audazes que teimam em manter
viva esta bela tradição. De
forma bem simplista, podemos
descrever a Folia de Reis como
sendo a representação da
peregrinação feita por Gaspar,
Baltazar e Belchior, os Reis
Magos, há mais de dois mil anos
em busca daquele que ficou
popularmente conhecido como o
Menino Jesus. Por esta razão,
acontece no período de Natal.
A última vez que eu havia
presenciado uma apresentação
desta manifestação folclórica,
já não lembrava mais. Forçando a
memória, me vinham pequenos
fragmentos como que em um “flash
back” mal feito. Até que, para
nossa surpresa, fomos acordados,
em certa madrugada, após a
terceira badalada do cuco, por
uma cantoria. Começou meio que
ao longe, mas na verdade era bem
perto, apenas Morfeu, um tanto
quanto zangado, se recusa a ir
embora. Como vingança, provocava
uma leve confusão. Fiquei
quieto, iria resistir, pois a
companhia de Morfeu me era
agradável. Passados alguns
instantes, ouvi uma voz que
brandia “acorda, acorda”!
Pulamos da cama como em
perfeita coreografia. O que
fazer? O que fazer? O que fazer?
Lavar o rosto foi a primeira
coisa que me veio, e assim fiz.
Ainda estava meio perdido, mas
corri para a porta e ao abri-la,
fiquei maravilhado. Melhor
dizendo, fiquei bestificado. Em
frente ao portão um grupo de
músicos, bem uniformizado e
muito bem treinado, entoava
cânticos e ao redor deles um
outro grupo, que eram os amigos
e os amigos dos amigos.
Continuava perdido, não sabia o
que fazer. Voltei para dentro e
fui me vestir, tirar aquele
pijama, já que o mesmo não era
condizente com a grandeza do
momento.
Abri o portão e eles muito
cerimoniosamente foram entrando.
Primeiro no jardim e, após, em
casa. E a cantoria continuava.
Ainda sem saber o que fazer, fui
para fora, deixando a casa para
eles. Não foi uma situação
premeditada de desrespeito, mas
sim uma reação natural de quem
de repente percebeu não estar à
altura de tamanha cortesia. Não
sei por que, mas continuava
perdido.
Talvez vendo meu estado,
ou pela experiência, meu amigo,
o César, foi me orientando sobre
como proceder. Improvisamos uma
recepção, que por mais que nos
esforçássemos, nunca seria um
banquete à altura daquela corte
real. Era o que conseguíamos
fazer, diante da completa
ausência de raciocínio. Mas meu
amigo, o César, estava
preparado. Em seu carro havia
cerveja gelada e algumas
centenas de salgadinhos para
suprir aos desavisados; isto sim
era realeza.
Feita uma pausa na
cantoria, passamos a conversar
com os integrantes daquele grupo
folclórico e pudemos notar que
eram pessoas alegres,
descontraídas, assumidamente
felizes, e que se esforçavam ao
máximo, não apenas para manter
viva a tradição, mas para
amenizar ao máximo o trauma
inicial que de certa forma causa
em algumas pessoas, os
desavisados. Trauma que se
transforma em felicidade, não
por imposição de decreto real,
mas pela magia do momento que se
revelou maravilhoso.
Quando o grupo partiu, não
sem antes entoar uma cantoria de
despedida, conjugada com um
discreto, mas certeiro pedido de
ajuda para que a tradição possa
ser mantida, fiquei por alguns
instantes me revirando na cama,
procurando onde Morfeu tinha ido
se esconder e me veio uma
certeza. A certeza de que quem
ao menos uma vez na vida for
visitado pela corte dos três
Reis Magos, pode dizer que tem
amigos. No nosso caso, a corte
de Baltazar, Belchior e Gaspar
era capitaneada pelo não menos
nobre César, não o imperador,
mas o amigo. Ave César! Habemus
César, habemus Amigos.
Paulo Roberto Bornhofen