Os eventos do final da
vida de Jesus são reais e
históricos, tendo sido relatados
pelos Evangelistas Mateus,
Marcos, Lucas e João. Nos
Evangelhos batizados com seus
respectivos nomes, eles
descrevem a vida de Jesus
Cristo, desde seu humilde
nascimento até seu sofrimento
injusto e sua morte, coroada por
sua gloriosa ressurreição.
Eles
nos ensinam o verdadeiro
significado da vida de Nosso
Senhor - o sacrifício por todos
os seres humanos de todos os
tempos. Com sua morte, todos nós
podemos ser perdoados e salvos.
Sua ressurreição nos assegura a
vitória sobre o pecado, a morte
e o diabo.
Por que Jesus derramou Seu
sangue na cruz?
"Porque a vida da carne está no
sangue. Eu vo-lo tenho dado
sobre o altar, para fazer
expiação pela vossa alma,
porquanto é o sangue que fará
expiação [um sacrifício que paga
a culpa] em virtude da vida" (Levítico
17.11).
"Com efeito, quase todas as
coisas, segundo a lei, se
purificam com sangue; e, sem
derramamento de sangue, não há
remissão [perdão dos pecados]"
(Hebreus 9.22).
Por que a crucificação foi tão
traumática?
"Certamente, ele [Jesus] tomou
sobre si as nossas enfermidades
e as nossas dores levou sobre
si; e nós o reputávamos por
aflito, ferido de Deus e
oprimido. Mas ele foi
traspassado pelas nossas
transgressões [pecados] e moído
pelas nossas iniquidades; o
castigo que nos traz a paz
estava sobre ele, e pelas suas
pisaduras fomos sarados" (Isaías
53.4-5).
De quem foram os pecados que
pregaram Jesus na cruz?
"Todos nós andávamos desgarrados
como ovelhas; cada um se
desviava pelo caminho, mas o
SENHOR fez cair sobre ele a
iniquidade [pecado] de nós
todos" (Isaías 53.6).
A morte brutal de Cristo foi
profetizada?
"Como pasmaram muitos à vista
dele [Jesus] (pois o seu aspecto
estava mui desfigurado, mais do
que o de outro qualquer, e a sua
aparência, mais do que a dos
outros filhos dos homens)"
(Isaías 52.14).
Obediência
Por que a crucificação de Cristo
foi necessária?
"E do modo por que Moisés
levantou a serpente no deserto,
assim importa que o Filho do
Homem seja levantado [na cruz],
para que todo o que nele crê
tenha a vida eterna" (João
3.14-15).
O que Jesus quis dizer ao clamar
"Está consumado!"?
"Quando, porém, veio Cristo como
sumo sacerdote dos bens já
realizados, mediante o maior e
mais perfeito tabernáculo
[templo], não feito por mãos,
quer dizer, não desta criação,
não por meio de sangue de bodes
e de bezerros, mas pelo seu
próprio sangue, entrou no Santo
dos Santos, uma vez por todas,
tendo obtido eterna redenção"
(Hebreus 9.11-12).
Jesus é o único caminho para
Deus?
"Respondeu-lhe Jesus. Eu sou o
caminho, e a verdade, e a vida;
ninguém vem ao Pai senão por
mim" (João 14.6).
O que Deus pensou da
crucificação do Seu Filho?
"Todavia, ao SENHOR agradou
moê-lo, fazendo-o enfermar;
quando der ele a sua alma como
oferta pelo pecado, verá a sua
posteridade e prolongará os seus
dias; e a vontade do SENHOR
prosperará nas suas mãos"
(Isaías 53.10).
Perdão
Qual foi o resultado do
derramamento do sangue de Jesus?
"No qual [em Jesus] temos a
redenção [resgate da culpa do
pecado], pelo seu sangue, a
remissão dos pecados, segundo a
riqueza da sua graça" (Efésios
1.7).
Por que a crucificação de Cristo
é importante?
"Pois também Cristo morreu, uma
única vez, pelos pecados, o
justo pelos injustos, para
conduzir-vos a Deus; morto, sim,
na carne, mas vivificado no
espírito" (1 Pedro 3.18).
O sacrifício individual de
Cristo é suficiente?
"E ele [Jesus] é a propiciação
[satisfação da justiça de Deus]
pelos nossos pecados e não
somente pelos nossos próprios,
mas ainda pelos do mundo
inteiro" (1 João 2.2).
O sacrifício de Cristo deve ser
repetido?
"Assim também Cristo, tendo-se
oferecido uma vez para sempre
para tirar os pecados de muitos,
aparecerá segunda vez, sem
pecado, aos que o aguardam para
a salvação" (Hebreus 9.28).
Por que a cruz provoca divisões?
"Certamente, a palavra da cruz é
loucura para os que se perdem,
mas para nós, que somos salvos,
poder de Deus" (1 Coríntios
1.18).
As Relíquias da Paixão de Cristo
Como sabem os católicos,
assim como todos aqueles
interessados na vida e obra de
nosso Avatar Jesus, existem um
grande número de relíquias
relacionadas à paixão de Cristo
espalhadas pelo mundo. Número
este que chega à casa do milhar.
Qualquer um que tenha uma
noção de Sua vida e da Sua
Paixão, pode intuir que este
número é tão absurdo quanto
impossível.
Na Basílica de
Saint-Denis, em Argentenil - ao
norte de Paris, conserva-se por
exemplo, uma suposta "túnica
sagrada". E outro tanto ocorre
na catedral de Trévaux. Com o
devido respeito aos que crêem em
ambas as túnicas, é pouco
provável que uma delas possa ser
a que usou o Mestre Jesus. Na
primeira, não obstante as
dimensões serem aceitáveis
(1.45m de comprimento por 1.15m
de largura) e não exibir
costuras, o cânhamo nada tem a
ver com a natureza das
vestimentas usadas habitualmente
pelos hebreus à época - que
basicamente se utilizavam de
algodão, lã e linho. Quanto à
segunda, ainda é mais difícil de
identificar. Trata-se de uma
série de fragmentos de um tecido
muito fino e pardacento, envolto
e protegido das traças em dois
panos. Um destes é de seda
adamascada, fabricado
possivelmente no Oriente, entre
os séculos VI e IX.
Quanto aos cravos e à
Cruz de Cristo, ocorre algo
ainda mais berrante. Há uma
tradição que conta que a
Imperatriz Santa Helena
desenterrou os cravos utilizados
para prender O Cristo à Cruz no
século IV. Segundo esta lenda, a
Imperatriz teria mandado
confeccionar um freio para o
cavalo de seu filho com um dos
cravos (que se encontra hoje em
Carpentras).
Com outro fez um círculo
para o capacete de Constantino,
e diz-se que este círculo faz
parte hoje da coroa de ferro dos
reis lombardos, em Monza.
O terceiro cravo teria
servido para acalmar uma
tempestade no mar Adriático... O
caso é que na atualidade, em
diversas igrejas da Europa, se
veneram supostos cravos da
Paixão de Cristo, totalizando
dez(!) destes. Surpreendente, se
partirmos do suposto que eram
quatro os cravos para prender os
crucificados - um em cada pulso
e um em cada pé. Outros se
encontram em Veneza, Trévaux,
Florença, Sena, Paris e em Arras.
O mesmo ocorre com
respeito à madeira da Cruz de
Jesus. Existem pedaços da Cruz
de praticamente todos os
tamanhos. Todas, é claro,
extraídas da verdadeira Cruz.
Talvez o maior fragmento seja o
que se encontra na Espanha - em
São Toríbio de Liébana, na
província de Santarém, ao norte.
A tradição afirma que este
lignum crucis foi levado de
Jerusalém por São Toríbio, bispo
de Astorga, na Espanha, e
contemporâneo de São Leão I, o
Grande. Sua autenticidade nunca
foi comprovada...
Se pararmos para pensar
sobre esta tradição, veremos que
tende ao absurdo imaginar que os
soldados perdessem seu tempo
enterrando os cravos e as cruzes
utilizados em cada execução,
como pretendem alguns exegetas
em defesa da história da
mencionada mãe do Imperador
Constantino. De fato, é mais
provável que as cruzes e os
próprios cravos fossem
re-utilizados em diversas
execuções.
Particularmente, acho que
isso é "providencial". Tenho
comigo o sentimento que o Filho
do Homem não queria - nem
gostaria - que objectos Seus
fossem venerados ao longo dos
tempos. Jesus veio à Terra como
um Mensageiro - Mensageiro da
Paz e do Amor - e sofreu por
nós. Infelizmente não estávamos
preparados para receber e
assimilar estas mensagens à
época (e a pergunta fica: e se
tudo acontecesse agora, será que
estaríamos prontos?...).
Ao invés de ficarmos
venerando objectos materiais que
podem ou não ter pertencido a
este Espírito Iluminado,
devíamos única e exclusivamente
nos preocupar em praticar seus
ensinamentos.
Na Semana Santa celebram-se os
mistérios da salvação operada
por Jesus nos últimos anos da
sua vida na terra, desde a
entrada triunfal em Jerusalém,
até à sua sacratíssima Paixão e
gloriosa Ressurreição. A Semana
Santa contém os factos centrais
da vida de Jesus, aquilo que Ele
definiu como a “Sua Hora”.
A antiga liturgia de Milão
classificava esta Semana
Autêntica por ser a semana dos
verdadeiros “trabalhos de
Jesus”. O anterior Missal romano
chamava-lhe Semana Maior, não
pelo número de dias, mas pelo
conteúdo salvífico.
O conjunto das celebrações da
Semana Santa forma o Mistério
Pascal, revelador da plenitude
do amor de Deus ao mundo. As
cores liturgias são a roxa, a
encarnada e a branca, cores do
amor e dor como o duplo sentido
da paixão.
A tarde de Sexta-feira Santa
apresenta o drama imenso da
morte de Cristo no Calvário. A
cruz erguida sobre o mundo segue
de pé como sinal de salvação e
de esperança. Com a Paixão de
Jesus segundo o Evangelho de
João contemplamos o mistério do
Crucificado, com o coração do
discípulo Amado, da Mãe, do
soldado que lhe traspassou o
lado.
São João, teólogo e cronista da
paixão nos leva a contemplar o
mistério da cruz de Cristo como
uma solene liturgia. Tudo é
digno, solene, simbólico em sua
narração: cada palavra, cada
gesto. A densidade de seu
Evangelho agora se faz mais
eloquente. E os títulos de Jesus
compõem uma formosa Cristologia.
Jesus é Rei. O diz o título da
cruz, e o patíbulo é o trono
onde ele reina. É a uma só vez,
sacerdote e templo, com a túnica
sem costura com que os soldados
tiram a sorte. É novo Adão junto
à Mãe, nova Eva, Filho de Maria
e Esposo da Igreja. É o sedento
de Deus, o executor do
testamento da Escritura. O
Doador do Espírito. É o Cordeiro
imaculado e imolado, o que não
lhe romperam os ossos. É o
Exaltado na cruz que tudo o
atrai a si, quando os homens
voltam a ele o olhar.
A Mãe estava ali, junto à Cruz.
Não chegou de repente no Gólgota,
desde que o discípulo amado a
recordou em Caná, sem ter
seguido passo a passo, com seu
coração de Mãe no caminho de
Jesus. E agora está ali como mãe
e discípula que seguiu em tudo a
sorte de seu Filho, sinal de
contradição como Ele, totalmente
ao seu lado. Mas solene e
majestosa como uma Mãe, a mãe de
todos, a nova Eva, a mãe dos
filhos dispersos que ela reúne
junto à cruz de seu Filho.
Maternidade do coração, que
infla com a espada de dor que a
fecunda.
A palavra de seu Filho que
prolonga sua maternidade até os
confins infinitos de todos os
homens. Mãe dos discípulos, dos
irmãos de seu Filho. A
maternidade de Maria tem o mesmo
alcance da redenção de Jesus.
Maria contempla e vive o
mistério com a majestade de uma
Esposa, ainda que com a imensa
dor de uma Mãe. São João a
glorifica com a lembrança dessa
maternidade. Último testamento
de Jesus. Última dádiva.
Segurança de uma presença
materna em nossa vida, na de
todos. Porque Maria é fiel à
palavra: Eis aí o teu filho.
O soldado que traspassou o lado
de Cristo no lado do coração,
não se deu conta que cumpria uma
profecia realizava um último,
estupendo gesto litúrgico. Do
coração de Cristo brota sangue e
água. O sangue da redenção, a
água da salvação. O sangue é
sinal daquele maior amor, a vida
entregue por nós, a água é sinal
do Espírito, a própria vida de
Jesus que agora, como em uma
nova criação derrama sobre nós.
A SEMANA SANTA EM BRAGA
Braga (Minho – Portugal)
Santuário Bom Jesus do Monte e
Catedral
As cerimónias da Semana Santa,
em Braga, começam com a
tradicional Benção dos Ramos e a
Procissão do Senhor dos Passos.
A cidade vive, sete dias de
intensa actividade religiosa,
com os tradicionais ritos e
procissões, que culminam no
Domingo de Páscoa, a atrair
muitos milhares de fiéis e de
turistas. Os visitantes são
sobretudo atraídos pelas grandes
procissões que registam a
participação de centenas de
figurantes vestidos a rigor para
simbolizar o calvário de Cristo.
Será o caso, por exemplo, da
tradicional procissão de Nossa
Senhora da «burrinha», que
incorpora cerca de setecentos
figurantes. Na quinta-feira à
noite, decorre a procissão de «Ecce
Homo» e, na Sexta-feira Santa, a
solene Procissão do Enterro do
Senhor, talvez a mais aguardada
pelos turistas. Já no Domingo de
Páscoa, o tradicional compasso
percorre as aldeias, vilas e
cidades minhotas.
Com tradições que remontam aos
primórdios do século, a Semana
Santa em Braga é o expoente
máximo das solenidades pascais
do país e do norte da Península
Ibérica. Durante uma semana, a
cidade de Braga acolhe milhares
de peregrinos oriundos de todo o
país e da vizinha Galiza, para
participar numa das
manifestações que constitui um
dos mais notáveis cartazes do
turismo religioso.
Os archotes, as velas e os
milhares de pessoas que se
dispõem ao longo das ruas para
ver passar as procissões, em
especial as do Senhor Ecce-Homo
e do Enterro do Senhor,
configuram um quadro ímpar das
festividades e transmitem uma
tradição enraizada num ritual
dominado pelo conjunto de
procissões nocturnas envoltas
numa forte intensidade
dramática.
A procissão de Endoenças, também
conhecida por procissão do
Senhor da Cana Verde ou mais
popularmente conhecida como
procissão do Senhor Ecce-Homo,
tem lugar na noite de
Quinta-Feira Santa. Com origens
na visita que outrora se
efectuava às sete igrejas,
inspirada nas Sete Estações
Romanas, que, como reza o
Compromisso Cerimonial da Santa
Casa da Misericórdia de Braga,
reflectia «a penitência aos
fiéis cristãos que reconheceram
seus pecados, e por eles
quiseram fazer alguma satisfação
penal nos dias em que o mesmo
Filho de Deus quis pagar por nós
derramando Seu precioso sangue».
Quem chamou a si a realização
desta procissão foram, por isso,
as Santas Casas da Misericórdia,
instituídas em Portugal pela
rainha D. Leonor, em 1498. Ainda
hoje, é a estas instituições que
cabe a tarefa de promover e
organizar esta solenidade e por
isso considerada a Festa da
Irmandade, à qual todos os
irmãos eram então obrigados a
assistir. O papel desempenhado
outrora pelos irmãos foi hoje
parcialmente substituído pelo
figurado que integram o cortejo
religioso.
Na cidade de Braga, a procissão
da noite de Quinta-Feira Santa
tem como figura central a imagem
do Senhor Jesus Cristo coroado
de espinhos, com as mãos atadas,
segurando um ceptro, figurado
numa cana verde.
Esta procissão, pelas suas
características, é uma das
solenidades da Semana Santa mais
participada pelos bracarenses e
por muitos milhares de fiéis de
todo o país e da vizinha Galiza
que nesta noite "invadem" a
cidade de Braga para assistir.
No dia seguinte, na Sexta-Feira
Santa, é a vez de se realizar a
procissão do Enterro do Senhor.
Este cortejo religioso é o mais
solene de todos os que na Semana
Santa se organizam. Os mesários
e irmãos da Misericórdia e Santa
Cruz, encapuzados, as varas a
rasto, os Reverendo Cónegos com
os mantos e varas arrastados
pelos lajedos, os figurados,
também arrastando as cruzes,
como os pendões, bandeiras das
congregações, juízes com varas,
provocam como que um gemido de
consternação, tal é a impressão
que o "surdo" arrastar das varas
nos provoca. De longe a longe,
este sussurro é quebrado pelo
som entoado por uma personagem
que segue o Esquife do Senhor: «Heu
Heu Damine Heu Salvador noster!
(Ai! Ai! Senhor Salvador
Nosso!).
O rugir das matracas dos
farricocos, o bater das varas
dos irmãos da misericórdia que
se ouvem na procissão da
Quinta-Feira Santa, dão lugar a
um silêncio avassalador na
procissão do Enterro do Senhor.
O cortejo religioso sai da Sé
Catedral, a onde regressa depois
de percorrer as principais
artérias do centro da cidade.
(Excerto da Obra)
Da especificidade da música
sacra portuguesa nos séculos XVI
e XVII
José Maria Pedrosa Cardoso
Universidade de Coimbra
Música da Paixão. E vou
aproveitar o mesmo documento de
Mogi das Cruzes para introduzir
uma nova temática, porventura o
traço mais profundo na
identidade de uma música sacra
portuguesa no princípio da era
moderna. Na realidade o achado
de Jaelson Trindade, já estudado
por Paulo Castagna, apresenta
também um trecho de música da
paixão, mais concretamente três
espécimes com Turbas da Paixão
segundo S. Mateus e segundo S.
João. Este dado não tem nada de
supreendente, uma vez que se
trata de uma prática universal,
mas o reconhecimento nesta
espécie polifónica do Cantus
firmus tradicional português
constitui, definitivamente, um
documento a comprovar a
dependência natural da música
litúrgica brasileira da sua
congénere portuguesa.
[Efectivamente, na parte do
Tiple das Turbas de Mt, aparece
no meio das frases polifónicas a
reprodução de duas frases
gregorianas – os chamados ditos
da ancilla: Et tu cum Jesu
Nazareno eras e Et hic erat cum
Jesu Nazareno - com a música
rigorsamente igual à do modelo
tradicional português. O mesmo
vai acontecer na parte do Tiple
das Turbas de Jo, com
transcrição da frase novamente
da ancilla Nunquid et tu ex
discipulis es hominis istius?
Independentemente do valor da
composição em causa, da sua
autoria, sabendo-se que se trata
muito provavelmente de uma cópia
setecentista de uma composição
anterior, o importante é
constatar que no Brasil colonial
o modelo de cantochão utilizado
para o canto da Paixão era o
tradicional português.
Igualmente importante é a
constatação de que, numa destas
espécies de Turbas, se encontram
algumas frases de Cristo
musicadas a várias vozes (sendo
o Ms incompleto, não foi
possível, em primeira análise,
deduzir a quantas vozes eram
essas frases musicais). De
qualquer forma, estamos diante
de documentos que testemunham
uma dependência natural da
prática cultual brasileira dos
modelos importados directamente
de Portugal, e não da Europa
genericamente como é frequente
afirmar-se.
Regressando, pois, a Portugal,
sabe-se que a Semana Santa era o
tempo privilegidado para todas
as devoções. Entre o reportório
próprio deste tempo, sobressai o
canto do Ofício das Trevas, com
os célebres responsórios e
lamentações, os cânticos das
procissões, com o impresionante
Heu, heu Domine durante o
enterro do Senhor, e o canto
litúrgico da Paixão
(entendendo-se, assim, o canto
do texto canónico durante a
celebração das missas de Domingo
de Ramos, Terça e Quarta Feira
Santas e na celebração litúrgica
da Morte do Senhor, na Sexta
Feira Santa). Não havia
vilancicos, não se representavam
dramas litúrgicos, que o drama
da Paixão e Morte de Cristo era
suficientemente galvanizador
para reter os fiéis longas horas
nas igrejas, embora de uma forma
muitas vezes passiva: mais uma
razão para o poder motivador de
uma boa execução musical.
A este propósito, também vale a
pena chamar a atenção para o
impacto que a celebração da
Paixão, sobretudo na Sexta Feira
Santa, despertou nas primitivas
comunidades cristãs brasílias.
As cartas dos primeiros Jesuítas
no Brasil são bom documento a
este respeito. Apenas um
exemplo:
«12. O oficio da Semana Santa se
fez nesta nossa Casa com grande
devação dos que a ele se
acharão; forão cantados, os
quaes o Padre Brás Lourenço fez
muito bem, tomando pera isso os
moços da escola, que ensayou
alguns dias antes, e outras
pessoas devotas, que se lhe
offerecerão pera isso....
Pregou-se a Paixão com muita
devação e sentimento e lágrimas
dos ouvintes, e certifico-lhes
que nunqua vi tantas lágrimas em
Paixão como vi nesta, porque des
ho principio até ao cabo foi
huma continua grita, e não avia
quem pudesse ouvir o que o Padre
dizia; e isto assim em homens
como em molheres, e sairão
algumas cinquo ou seis pessoas
quasi mortas, as quaes por muito
espaço não tornarão em sy e
outras com medo do mesmo não
aousarão de esperar toda a
preguação, por mais que o Padre
abreviava com ver estas cousas.
... A sexta-feria seguinte se
fez o officio do desenterramento
do Senhor com o mesmo
sentimento, e devação, levando
dous Padres vestidos com suas
alvas e descalços ao Santissimo
Sacramento em huma tumba toda
cuberta de preto que pera isso
era feita, indo diante as Tres
Marias, cantando Heu, Heu,
Salvator noster» (Porto Seguro
15 de Fevereiro de 1566, Carta
do P. Antonio Gonçalves aos
Padres e Irmãos de Portugal, in
Serafim Leite, Monumenta
Brasiliae. Roma: Monumenta
Historica Societatis Jesu,
1956-1960, 4 vols, IV vol.
(1563-1568), pp. 315-318).
A explicação histórica para tal
entusiasmo na vivência do drama
da Paixão, na Semana Santa, só
pode estar numa espiritualidade
da Cruz profundamente enraizada
na sociedade portuguesa, o que
pode derivar da presença
qualificada das Ordens
mendicantes, da propagação em
Portugal da devotio moderna e da
mentalidade dos Místicos do
Norte, da divulgação da
Via-sacra, etc. Consequência e
estímulo para esta mesma
espiritualidade é a proliferação
por todas as igrejas e capelas
portuguesas de grandes obras de
arte - concretamente em quadros,
pietás e calvários - e ainda a
abundância de edições da
Imitação de Cristo e de
publicações sobre a vida de
Cristo e concretamente sobre a
Paixão do Senhor.
Trabalho e pesquisa de Carlos
Leite Ribeiro – Marinha Grande –
Portugal