A
entrevista começou a ser
preparada uns dias antes
quando da sua marcação, pelo
telefone, pedi ao
entrevistado, Altair Pimpão
que me falasse um pouco de
Blumenau SC (Brasil):
Pimpão: - Carlos, é um
prazer falar de Blumenau,
Santa Catarina, Brasil.
Cidade de 300 mil
habitantes, fundada por
Hermann Otto Bruno Blumenau
em 1850. Antiga colônia
alemã que preserva em sua
arquitetura e em suas
tradições traços marcantes
do povo germânico. Celebra a
Oktoberfest, a Festa da
Cerveja, que é a segunda
maior do mundo e tem 17 dias
de duração. Tem também forte
influência étnica italiana.
Os italianos realizem
anualmente a Settimana
Italiana, com música e
gastronomia peninsular. A
terceira etnia, que nunca se
considerou colona, posto que
dona da terra, é a lusitana.
Hoje pode até ser a maior no
município. Nos últimos anos
tem-se destacado em todos os
setores de atividades pelo
seu dinamismo. Este ano
realizaremos a 4a. Noite de
Portugal, cujo escopo é
justamente valorizar a nossa
etnia. É uma noite para
mostrar que aqui também se
cultua e também se fomenta
as tradições vindas nas náus
portuguesas. Uma noite de
fados, de vira-vira, de boa
comida e de vinho verde. O
Carlos verá.
Na
longa viagem
Lisboa/Florianópolis (via
São Paulo), fui recordando
passagens da minha meninice
e, o nome do meu
entrevistado veio-me à
memória. Teria uns seis ou
sete anos e nas chamadas
férias grandes de Verão ia
sempre passá-las com uns
tios perto de
Albergaria-a-Velha Aveiro).
Meu tio Manuel
entusiasmou-me a aprender a
pescar e depois de saber
empancar anzóis, lá fomos
para a primeira sessão de
aprendizado de saber pescar,
no rio Antuã, perto de
Estarreja. Quando chegou a
altura de prender a minhoca
no dito cujo anzol, fiquei
algo incomodado olhando as
minhas mãos sujas, mas
rapidamente ultrapassei a
situação.
Uma
vara comprida, uma linha de
algodão (ainda não havia o
nylon) com um anzol preso
numa das pontas; num gesto
desajeitado consegui atirara
linha ao rio. Quando estava
a lavar as mãos, meu tio
gritou-me: “Carlinhos,
apanhas-te um peixe ! És o
meu orgulho, pescas-te um
pimpão ! retira-o da água”.
Depois de retirado,
exclamei: “Tio, o peixe é
vermelho e eu sou do
Sporting. O que vou fazer
com isto?. Respondeu o tio:
“Retira-o do anzol”. Mirei e
remirei o peixe e depois de
o cheirar, disse-lhe: “Tio,
mas ele cheira a peixe …
Anos depois, quando ia ao
Sobreiro (nome da aldeia),
as mulheres diziam que eu
era (ou estava) todo pimpão,
o que quer dizer, todo
elegante.
Quando cheguei ao aeroporto
de Florianópolis, o meu
amigo Dr. Luiz Eduardo
Caminha, me esperava. Carlos
– disse-me ele – vou levá-lo
a Blumenau, para que você
entreviste o meu particular
e querido amigo Altair
Pimpão. Quando chegámos a
esta cidade, parámos na Rua
Uruguai, 127 onde estava
escrito TVGalega. “Carlos
chegámos. Vai ver que o
Pimpão é um cara legal”.
Sorri com aquela expressão,
o que levou o meu
interlocutor a perguntar-me
por estava a rir.
Respondi-lhe: “ É que em
Portugal, cara legal é “gajo
porreiro !”.
O
Caminha foi à sua vida
enquanto eu entrei nas
instalações do TV e procurei
pelo meu entrevistado. Pouco
tempo depois apareceu e,
depois dos cumprimentos da
praxe, foi-me dizendo que
gosta mais de ser
entrevistador do que
entrevistado. Respondi-lhe
que me acontece o mesmo.
Quando chegámos a seu
gabinete, logo aproveitei
para lhe lançar a primeira
pergunta:
CEN:
- Então o Altair Pimpão aqui
na TV é ?...
Pimpão: - Diretor Geral da
TV Galega. Podemos
sentar-nos.
CEN:
- Qual a característica que
mais aprecia em si, e também
nos outros ?
Pimpão: - Em mim a
popularidade e nos outros a
modéstia.
CEN:
- De que mais se orgulha ?
Pimpão: - De ter vencido na
vida por conta própria e sem
roubar nem prejudicar
alguém.
CEN:
- Altair, qual foi o maior
desafio que aceitou até hoje
?
Pimpão: - Ir para a Alemanha
com mulher grávida e dois
filhos pequenos, sem falar
alemão.
CEN:
- Quando você era criança …
?
Pimpão: - Queria ser médico.
CEN:
- Hoje, como se auto-define
?
Pimpão: - Um menino pobre
que, graças à voz
radiofônica e à facilidade
de redação conseguiu vencer
na vida e conhecer a maioria
dos países europeus, vivendo
12 anos em Colônia, fazendo
programas em português para
a Deutsche Welle e
escrevendo para jornais como
o Correio da Manhã (extinto
pela ditadura militar),
Folha de São Paulo e outros
menores.
CEN:
- Então, qual a sua melhor
qualidade e, seu maior
defeito ?
Pimpão: - Qualidade, não sei
se a tenho - talvez o
otimismo; defeito… talvez
desorganização, pois vivo
procurando coisas.
CEN:
- Como vai o Altair de
amores ?
Pimpão: - No próximo ano vou
comemorar 50 anos de casado
com a mulher que foi e
continua sendo o grande amor
da minha vida.
CEN:
- Uma imagem do passado que
não quer esquecer no futuro
?
Pimpão: A primeira vez que
vi o Rio de Janeiro.
CEN:
- Qual a personagem que mais
admira ?
Pimpão: - João Paulo II, que
foi à penitenciária levar
seu perdão ao homem que
quase o matou.
CEN:
- Pelo já exposto, que
género de filme daria sua
vida ?
Pimpão: - Um filme de
motivação, pois sou um
otimista incorrigível.
CEN:
- É de opinião que o
arrependimento mata ?
Pimpão: - Carlos, acredito
que sim, embora não me
arrependa de tudo o que fiz
e faço.
CEN: - Altair, para você,
qual o cúmulo da beleza, e
também, da fealdade ?
Pimpão: - Beleza, o natural
do Rio de Janeiro, feita
pela mão do homem Paris;
fealdade, ver mulheres
asfaltando ruas em Moscou
(Moscovo).
CEN: - Que vício gostaria de
não ter ?
Pimpão: - Ler na toalete
(quarto de banho), para não
ouvir o sermão de minha
mulher.
CEN: - Seu prato preferido,
e a bebida preferida ?
Pimpão: - Caldo verde e
gnocchi com molho de carne
assada; bebida, um bom
cabernet sauvignon.
Carlos, como falámos em
comida, aproveito para o
convidar a almoçar comigo, e
vamos mesmo para o gnocchi,
acompanhado por vinho tinto,
aromático e de bom paladar
do Alentejo.
À
saída e antes de entra no
carro, vi uma senhora loura
e não resisti à pergunta:
CEN
– Altair, para você, as
piadas às louras são
injustas ?
Pimpão: - São mesmo Carlos,
pois há louras muito
espertas !
Fomos almoçar a um
restaurante perto da Rua 15
de Novembro. Enquanto
esperávamos pela refeição,
aproveitámos para continuar
a entrevista.
CEN: - Para você, o dia
começa bem se … ?
Pimpão: - O céu está azul e
o sol brilhando.
CEN: - Que influência tem em
si a queda da folha e a
chegada do frio ?
Pimpão: - No Brasil as
árvores quase não perdem as
folhas. Na Europa eu achava
o outono a mais bela das
estações, quando as folhas
ficavam douradas. O inverno
é bom para trabalhar. Eu
rendo mais. Sobretudo quando
escrevo.
CEN:
- O imaginário será um sonho
da realidade ?
Pimpão: - Muitas vezes sim.
São muitas as Cinderelas e
também os Júlios Verne.
CEN: - Acredita em histórias
fantásticas ?
Pimpão: - Gosto de escrever
histórias fantásticas porque
impressionam os leitores. A
maioria dos meus contos são
em tal linha.
CEN: - E em fantasmas ou em
“almas do outro mundo” ?
Pimpão: - Não. Os mortos não
me assustam tanto quanto os
vivos.
CEN: - O que é para você o
termo Esoterismo ?
Pimpão: - Yo no creo en las
brujas, pero que las hay,
hay!
CEN: - Acredita na
reencarnação ?
Pimpão: - Como católico
apostólico romano tenho a
convicção de que
reencarnaremos.
CEN: - Que livro anda a ler
?
Pimpão: - Você nunca ouviu
nada igual. Trata-se de um
livro sobre o rádio, escrito
por um jovem comunicador
aqui de Blumenau. Como minha
carreira de radialista é
longa e o rádio é uma
cachaça, estou gostando de
ver o pensamento de um
radialista com apenas 10
anos de experiência.
CEN: - A cultura será uma
botija de oxigénio ?
Pimpão: - É. Pena que sempre
mantida com tão pouco
oxigênio para o grosso da
população.
CEN:
- Autores e livros
preferidos ?
Pimpão: - Alexandre Dumas
Pai (Os 3 Mosqueteiros) e
Júlio Verne (20.000 léguas
submarinas)
CEN: - Música e autores
preferidos ?
Pimpão: - Dos clássicos
todas as composições de
Wolfgang Amadeus Mozart. Dos
populares as composições de
Adelino Moreira (português
que virou boêmio carioca) e
destaco A Deusa da Minha
Rua.
CEN: - O filme comercial que
mais gostou ?
Pimpão: - O Cisne Negro.
Gosto de filmes de capa e
espada.
Depois do almoço e antes de
regressarmos às instalações
da TV Galiza, demos uma
volta pela bela cidade de
Blumenau. Já na TV,
finalizámos a entrevista.
CEN: Altair, vamos falar da
sua obra Literária ?
Pimpão: - “Vieram em Busca
da Liberdade” (livro sobre a
imigração alemã, calcado em
pesquisas feitas nos 12 anos
em que vivi na Alemanha); “A
Alemanha que eu vivi” (livro
sobre as minhas experiências
naquele país, um guia para
quem quer viver na ou
conhecer a Alemanha);
“Crônicas de Blumenau”
(livro de crônicas sobre o
cotidiano, pessoas, coisas e
fatos da cidade) e “Minha
Viagem a Budapeste” (um
relato de viagem para o
lazer e a informação do
leitor). Para serem
publicados pela editora da
coleção “Troque Lixo por
Livro” tenho 10 histórias
infantis misturando ficção
com realidade de personagens
de construíram Blumenau ou
que fizeram parte da sua
história.
CEN:
- Tem Home Page ?
CEN:
- Para finalizar. Altair,
para você, Deus existe ?
Pimpão: - Existe e tem-me
abençoado dando-me muito
mais do que mereço.
E
assim falámos de Altair
Carlos Pimpão
Nascido a 28 de Junho de
1939
Residente em Blumenau SC
Director Geral da TV Galiza
História Infantil - Altair
Pimpão
Há
muitos anos atrás, ainda no
tempo em que os navios não
tinham motor e andavam
apenas pelo vapor de lenha
ou de carvão mineral
queimado, vivia em Hamburgo,
na Alemanha, um gato preto
chamado Mirko. Ele era preto
e alemão, porque entre os
animais não existe diferença
de cor. Nasça onde nascer
poderá ter pelo preto ou
seja lá qual for a sua cor.
Os animais também tem uma
outra vantagem sobre nós,
eles falam a mesma língua. A
gente vai à Alemanha e não
entende o que eles falam, a
não ser que tenha estudado
alemão. O gato, como
qualquer outro bichinho,
não. Onde quer que ele
chegue, o seu miado é
compreendido pelos demais
gatos e ele entende o que os
outros miam. O cachorro
brasileiro late igual o
alemão, italiano, espanhol,
francês, japonês ou
americano.
Mirko morava bem perto do
porto e tinha um velho
hábito. Ia diariamente para
o cais e sentava-se na
amurada junto ao Rio Elba,
que leva ao Mar do Norte.
Ficava ali olhando as
gaivotas voando num
vai-e-vem bonito, dando
rasantes para apanhar
peixes. Ficava sonhando com
como seria bom poder voar,
poder apanhar um peixe
quando estivesse com fome e
ainda poder sentar lá em
cima, no galho de uma
árvore, ou ficar boiando na
água, quando se sentisse
cansado. Gostaria muito de
ser uma gaivota e sair em
viagem para conhecer outros
lugares distantes. Outras
vezes ficava pensando em
como seria legal ser um
peixe grande, para não ser
apanhado pelas gaivotas e
poder nadar pelos rios e
mares do mundo inteiro. Mas
por fim achava que o bom
mesmo era se conseguisse
viajar como gato, mesmo. Aí
teria como passear pelas
ruas e praças, pular nas
árvores e caminhar pelos
telhados. Tudo isso sem
precisar trabalhar, nem
pagar. E gato ele já era!
Correr o mundo, este era o
maior sonho de Mirko. Ah! se
ele pudesse viajar, como
faziam os alegres
marinheiros, que ali
embarcavam, e atravessar os
oceanos. Ah! se pudesse ir
conhecer as terras dos
outros continentes. Como
gostaria de ir à China, à
terra daqueles homens
amarelos, de olhinhos quase
fechados, muitas vezes
parecendo olhos de gato. Era
de lá que vinha o prato de
porcelana no qual tomava
leite. Como não seria bonita
a África, a terra daqueles
homens que tinham a cor
igual a dele próprio e que
viviam sempre cantando,
alegres ou tristes. E a
América, então? Sabia que
muitos navios, já no tempo
só dos navios a vela, saíam
dali de Hamburgo em direção
aos Estados Unidos e ao
Brasil. Levavam gente que
foi e que nunca mais voltou.
Será que estavam tão felizes
lá, que nem quiseram mais
voltar a Hamburgo? Hamburgo
era uma cidade muito bonita
e tinha muito peixe. Ele
nunca passara fome. Frau
Mueller, a sua dona, era
viúva de um pescador e o
tratava com todo carinho.
Até na cama dela ele podia
dormir. A pobre mulher não
tinha crianças e o
considerava como se fosse um
filho dela. Conversava com
ele, contava-lhe histórias,
comentava os acontecimentos
que ouvia das vizinhas ou
que lia no jornal e tudo o
deixava cada vez com maior
vontade de viajar. Ele
estava mesmo possuído por
aquilo que os alemães chamam
de “Fernweh”, uma palavra
que parece que só existe na
língua deles e que significa
sentir saudade da distância,
de lugares desconhecidos.
O tempo passava e Mirko
todos os dias ali no cais
sonhando com viagens
maravilhosas pelos sete
mares. Um dia, porém, por
sorte ou azar, um marinheiro
viu o gato ali
escarrapachado e comentou
com os seus companheiros:
“Olha lá um gato! Poderíamos
leva-lo conosco no nosso
navio. O porão está cheio de
ratos e ele seria muito
útil. Acabaria com estes
roedores miseráveis, que
estragam a nossa carga e nos
fazem correr o perigo de uma
doença como a peste bubônica.”
Os outros logo concordaram e
um plano foi rapidamente
traçado e executado. Mirko
estava absorto em seus
pensamentos e não se
importou com a aproximação
dos homens, nem reagiu
quando estes o apanharam,
colocaram num saco e
levaram-no para dentro do
navio.
Foi solto lá no interior do
veleiro e sentiu uma
felicidade imensa. Ia
conhecer o mundo. Ia
realizar o seu grande sonho.
Nem se lembrou de Frau
Mueller, que passou dias e
noites chamando por ele e a
sua procura, quase morrendo
de tristeza. Achava que ele
teria sido vítima de um
destino trágico, tal qual
seu marido, que comandava um
navio e afundara com ele,
numa noite de tempestade, no
Mar do Norte.
Mirko andava para cima e
para baixo fazendo o
reconhecimento da sua nova
casa. O navio balançava ao
sabor das ondas e dava-lhe
uma sensação agradável. Seu
faro denunciou-lhe logo a
presença de camundongos por
todos os lados. Iria ter
muito trabalho, mas comida
não lhe faltaria. Logo
encontrou um local onde
podia dormir sossegado e de
onde podia ver tudo o que se
passava a sua volta.
Os marinheiros não eram
alemães, mas leram a
plaqueta que tinha na
coleira em volta do pescoço
e assim descobriram o seu
nome: Mirko.
Pareciam estar contentes com
o novo companheiro. Um deles
até lhe jogou uma espinha de
peixe, como presente de boas
vindas. Mirko tratou de
comê-la, mais para
demonstrar que sabia ser
agradecido do que por estar
com fome. Além do mais, na
Casa de Frau Mueller ,ele
jamais foi alimentado com
uma simples espinha de
peixe. Lá ganhava um
filezinho de peixe ou alguma
das guloseimas que ela tão
bem preparava, até bolo de
chocolate com morangos em
cima.
Chegou finalmente o dia da
partida. O navio estava
carregado, soltaram as
amarras, jogaram mais carvão
na fornalha e o barco
partiu. Hamburgo foi ficando
para trás. Mirko só com um
olho aberto, para ver o que
aconteceria. O cais do porto
foi ficando pequenino, de
repente só via a ponta da
torre da igreja e por fim
nada mais daquela cidade
onde nasceu e viveu até
aquele dia. Seu coração
batia mais forte. Para onde
estariam navegando, agora?
Quanta novidade, quanta
coisa bonita teria a
oportunidade de ver! Nada
como ser um gato marinheiro!
Agora era um lobo do mar, ou
melhor, um gato do mar.
Mirko era muito inteligente
e logo começou a aprender a
língua dos novos donos.
Muita coisa era parecida com
a língua que conhecia bem, a
de Frau Mueller. Bem
depressa ficou sabendo que a
bandeira que tremulava lá no
alto do mastro era a da
Holanda. Eram holandeses,
portanto, os seus novos
amigos e companheiros de
aventuras.
A viagem estava sendo
tranqüila, embora ele sempre
tivesse pensado que seria
mais rápida.
O navio parecia que não saía
do lugar. Ou será que era o
tamanho do mar,, que ele
tinha imaginado menor do que
era na realidade? De
repente, quando estavam num
ponto em que não se via
outra coisa a não ser água
por todos os lados, eis que
o céu se tornou escuro,
mesmo sem ser noite, o mar
se agitou e o navio
enfrentou uma tempestade
terrível. Mirko encolheu-se
todo e pensou que ia
enfrentar a morte por
afogamento, até porque gato
não sabe nadar e tem um medo
de água que se pela todo.
O navio subia e descia, as
coisas rolavam de um lado
para o outro, os marinheiros
corriam e gritavam ordens.
Parecia que o navio ía virar
ou quebrar ao meio a
qualquer momento. Mirko,
naqueles instantes, sentiu
saudade de Hamburgo, da casa
aconchegante de Frau Mueller.
Lá estava sempre bem
protegido e quando sentia
frio corria para a boca do
fogão, ou para o seu
bercinho, numa almofada da
sala.
Ali no Oranien, este era o
nome do navio, escrito bem
grande na proa, estava tendo
que se agarrar com unhas e
dentes e sentia um frio
cortante, além de já estar
todo molhado pelos respingos
das ondas gigantescas que
quebravam contra o casco do
navio. E ninguém importou-se
com ele. Bem diferente do
que acontecia com sua antiga
dona, Frau Mueller, que por
qualquer coisinha corria
para pegá-lo no colo.
Como diz um velho ditado,
também conhecido pelos
gatos, não há bem que sempre
dure, nem mal que nunca se
acabe. A tempestade passou
e os prejuízos foram
mínimos. Para Mirko, o nosso
marinheiro de primeira
viagem, foi tão somente um
grande susto. E veio a
bonança! Nascia o Sol, o Sol
se punha, surgia a Lua, a
Lua descia dentro do mar e o
navio flutuando. Mirko não
sabia contar o tempo em
horas, dias e meses, já que
os gatos não usam relógio e
nem se preocupam com o
passar do tempo, até porque
dizem que gato tem sete
vidas. Mas a verdade é que
muito tempo passou até que
lá de cima alguém gritou:
“Terra à vista!”
Terra à vista! Eles estavam
chegando. Já seria o destino
final da viagem? Onde
estariam chegando? Ele não
via a hora de ver o navio
atracar e descer para dar
uma volta. Correu para a
cobertura da cabine de
comando e ficou observando
com os olhos bem abertos.
Apareceu-lhe então a figura
de uma moça enorme,
segurando uma tocha. Frau
Mueller falara dela. Era a
Estátua da Liberdade. Eles
estavam chegando ao porto de
Nova York. Fosse hoje, ele
iria querer encontrar o Tom,
o Frajola, ou o Felix, gatos
que o cinema e a televisão
tornaram famosos no mundo
inteiro. Mas naquele tempo
não havia nem rádio, quanto
mais filmes e TV.
O barco atracou no porto e
Mirko já estava todo
faceiro, esticando-se todo,
pronto para descer, quando o
Comandante ordenou: “Prendam
o Mirko, para que ele não
fuja!” Não deu nem tempo
para pensar alguma saída
estratégica. Pegaram o gato
sonhador e colocaram-no num
baú, só com alguns furos de
ventilação. De nada adiantou
ficar miando e arranhando
por dentro a tampa da mala.
Os marinheiros desceram e
foram se divertir, enquanto
os estivadores descarregavam
a carga. Mirko, que estava
louco para conhecer a cidade
de Nova York, ficou lá
lamentando a sua sorte.
Por que será que não haviam
permitido que ele descesse
para dar um passeio pela
cidade? Haveria alguma
proibição para gatos
estrangeiros? Faltava-lhe
algum documento? Mas, gato
nunca teve documento ou
necessidade de papeis de
autorização para alguma
coisa. Sempre foram muito
livres e andaram por onde
quiseram, até no quintal dos
vizinhos. Não esperava
tamanha ingratidão do
Comandante. Afinal estava
dando fim aos ratos e
comportara-se muito bem
durante toda a viagem. Fora
bastante obediente,
inclusive fazendo cocô e
xixi exatamente ali onde
haviam determinado. Nunca
reclamara da comida, embora
a de sua antiga dona fosse
muito melhor. O pobrezinho
estava desapontado e
desolado. Depois de tanto
tempo de viagem, a bordo,
não conseguir sair para dar
uma voltinha, bater um papo
com os gatos locais, quem
sabe arrumar uma namorada
norte-americana e conhecer
um pouco da vida daquela
cidade diferente de Hamburgo
era um castigo que não
merecia.
O pior é que zarparam de
Nova York, seguiram para
outros portos, fizeram uma
centena de viagens ao redor
do mundo e o pobre Mirko
trancado toda vez que
pensava em sair. O destino
havia-lhe sido cruel. Agora
sentia saudade de Hamburgo,
onde era livre para passear
e onde podia sonhar com as
coisas belas do outro lado
do mar. Ali a bordo do
Oranien chegava ao outro
lado do mar e não conseguia
ver coisa alguma. Era um
verdadeiro prisioneiro. Por
infelicidade o navio teimava
em não voltar a Hamburgo. Lá
ele miaria bem alto, até que
Frau Mueller o ouvisse, ou
tentaria saltar, antes do
navio atracar, mesmo que
caísse dentro do Rio Elba e
pegasse uma pneumonia. Se
pelo menos tivesse mais um
gato a bordo, para poder
conversar e desabafar um
pouco a sua mágoa.
Um dia, porém, o navio deve
ter atracado em Bremen,
porque Hamburgo não era, mas
ouviu que estavam falando
alemão. Ali embarcaram a
carga, uma mudança e uma
moça muito bonita.
Ela, pelo jeito, gostava
bastante de gatos. Assim que
o viu tratou de pegá-lo no
colo e de fazer-lhe um
carinho. Mirko logo gostou
dela e bancou o mais dengoso
possível. Arquitetou
imediatamente um plano para
escapar do navio. Iria
conquistar o coração daquela
bela mulher e tentar fazer
com que ela o levasse junto,
no final da viagem. Nem que
fosse escondido na sua caixa
de chapéu.
Ronronava, esfregava-se em
suas pernas, saltava no seu
colo, levantava as patinhas,
fazia mesuras. A moça era
atriz e estava vindo de
Berlim. Estava voltando e ía
morar na casa do tio que
havia ido colonizar um
pedaço de terra no Brasil.
Gostava de fato de gatos e
apaixonou-se pelo Mirko.
Decidiu pedir ao Comandante
para que ele lhe desse o
gato de presente. O rude
homem do mar não teve como
escapar do pedido daquela
jovem bonita, que tão bem
sabia representar. Quando
chegaram ao Rio de Janeiro,
Mirko viu como era linda
aquela cidade cheia de
morros. Embora não tenha
recebido licença para
correr por suas ruas, embora
tenha ficado preso no quarto
do hotel, estava novamente
em terra firme e na
companhia de uma mulher que,
por certo, iria trata-lo
como outrora Frau Mueller.
Depois de uma longa viagem,
Edith, este era o nome da
nova dona, chegou ao
lugarejo que seu parente, um
sisudo senhor de óculos,
chamado Dr. Blumenau, havia
fundado. Mirko foi morar com
ela numa aconchegante casa
de enxaimel, bem no centro,
numa rua onde nasciam
palmeiras, nas quais, mais
tarde, volta e meia, ia
afiar as unhas. Para sua
alegria, deixou de ser um
gato solitário. Edith
arrumou uma gata brasileira,
descendente de gatos
italianos, que se tornou
sua companheira. Tiveram
vários gatinhos e Edith
adotou todos eles. Mirko
tornou-se um gato muito
feliz . Ele e sua família
faziam companhia à dona e
brincavam num belo jardim
que ainda hoje existe.
Edith gostou tanto dele e de
toda a sua família, que à
medida em que os bichanos
foram morrendo, ela os
enterrou no seu jardim.
Mandou fazer pequenas
sepulturas para cada um
deles. E em cada uma colocou
o nome do gato ali
enterrado. Se você não
acredita nesta história,
peça ao papai ou à mamãe
para levar você lá no jardim
da Casa da Edith Gaertner e
procure pelo Cemitério de
Gatos. Você vai encontrar o
túmulo do Mirko, da sua
companheira e de seus
filhos. Mirko era o gato de
Hamburgo, que sonhava viajar
pelo mundo. Ele viveu em
Blumenau, onde morreu bem
velhinho. Gostou muito da
cidade, onde muitas vezes ía
para a margem do Rio Itajaí
esperar a chegada do vapor e
recordava a sua cidade
natal, Hamburgo, e de sua
antiga dona, Frau Mueller.
Sei que ainda hoje existem
gatos descendentes do gato
Mirko. É pena que os gatos
entendam a nossa língua, mas
não a falem. Por isso não
podemos saber quais os gatos
que são tataranetos do gato
preto que veio parar aqui
graças ao amor que Edith
Gaertner nutria pelos
bichanos.
Se não fosse ela, Mirko
teria morrido a bordo, sem
nunca mais ter pisado em
terra firme, e seu
sepultamento seria como o
dos velhos lobos do mar:
seria lançado às águas
profundas do oceano. Como
morreu em Blumenau e foi
enterrado na pequena
sepultura que Edith Gaertner
mandou preparar para ele,
Mirko tornou-se um
personagem histórico. Foi o
gato preto de Hamburgo que
veio ajudar a construir a
Cidade de Blumenau. Os mais
velhos afirmam que no seu
tempo não existiam ratos por
estas bandas. Mirko e a sua
prole davam fim a todos.
Hoje a coisa mudou. Já se vê
muitos ratos roendo por aí e
os gatos não se importam, ou
não dão mais conta do
recado.
Dizem que lá em Hamburgo
também existe uma estátua de
um gato, que teria sido
mandada fazer por Frau
Mueller, no jardim de sua
casa, em homenagem ao seu
Mirko, que desapareceu para
todo o sempre. Não sei se é
verdade, pois andei por lá e
não vi. O que sei é que os
gatinhos pretos que você vê
em Blumenau podem ser
descendentes do herói da
nossa história. Por isso
trate bem deles e não deixe
que um marinheiro os leve
para seu navio.
(Esta história escrevi para
minha neta Inês Maria, como
presente pelo seu segundo
aniversário, em 1994. Ainda
não foi publicada. Será
lançada na coleção Troque
Lixo por Livro, da editora
Cristina Marques, já
internacionalmente premiada
pela idéia. As crianças
juntam lixo, levam para a
escola e trocam por livros).
Formato de Carlos Leite
Ribeiro – Marinha Grande -
Portugal