Grande Entrevista

 

Altair Carlos Pimpão

 

Formato de Carlos Leite Ribeiro

 

 

 

 

 

 Formatação e Arte: Iara Melo

 

 

 

  

 

A entrevista começou a ser preparada uns dias antes quando da sua marcação, pelo telefone, pedi ao entrevistado, Altair Pimpão que me falasse um pouco de Blumenau SC (Brasil):

 

Pimpão: - Carlos, é um prazer falar de Blumenau, Santa Catarina, Brasil. Cidade de 300 mil habitantes, fundada por Hermann Otto Bruno Blumenau em 1850. Antiga colônia alemã que preserva em sua arquitetura e em suas tradições traços marcantes do povo germânico. Celebra a Oktoberfest, a Festa da Cerveja, que é a segunda maior do mundo e tem 17 dias de duração. Tem também forte influência étnica italiana. Os italianos realizem anualmente a Settimana Italiana, com música e gastronomia peninsular. A terceira etnia, que nunca se considerou colona, posto que dona da terra, é a lusitana. Hoje pode até ser a maior no município. Nos últimos anos tem-se destacado em todos os setores de atividades pelo seu dinamismo. Este ano realizaremos a 4a. Noite de Portugal, cujo escopo é justamente valorizar a nossa etnia. É uma noite para mostrar que aqui também se cultua e também se fomenta as tradições vindas nas náus portuguesas. Uma noite de fados, de vira-vira, de boa comida e de vinho verde. O Carlos verá.

 

Na longa viagem Lisboa/Florianópolis (via São Paulo), fui recordando passagens da minha meninice e, o nome do meu entrevistado veio-me à memória. Teria uns seis ou sete anos e nas chamadas férias grandes de Verão ia sempre passá-las com uns tios perto de Albergaria-a-Velha Aveiro). Meu tio Manuel entusiasmou-me a aprender a pescar e depois de saber empancar anzóis, lá fomos para a primeira sessão de aprendizado de saber pescar, no rio Antuã, perto de Estarreja. Quando chegou a altura de prender a minhoca no dito cujo anzol, fiquei algo incomodado olhando as minhas mãos sujas, mas rapidamente ultrapassei a situação.

Uma vara comprida, uma linha de algodão (ainda não havia o nylon) com um anzol preso numa das pontas; num gesto desajeitado consegui atirara linha ao rio. Quando estava a lavar as mãos, meu tio gritou-me: “Carlinhos, apanhas-te um peixe ! És o meu orgulho, pescas-te um pimpão ! retira-o da  água”. Depois de retirado, exclamei: “Tio, o peixe é vermelho e eu sou do Sporting. O que vou fazer com isto?. Respondeu o tio: “Retira-o do anzol”. Mirei e remirei o peixe e depois de o cheirar, disse-lhe: “Tio, mas ele cheira a peixe …

Anos depois, quando ia ao Sobreiro (nome da aldeia), as mulheres diziam que eu era (ou estava) todo pimpão, o que quer dizer, todo elegante.

 

Quando cheguei ao aeroporto de Florianópolis, o meu amigo Dr. Luiz Eduardo Caminha, me esperava. Carlos – disse-me ele – vou levá-lo a Blumenau, para que você entreviste o meu particular e querido amigo Altair Pimpão. Quando chegámos a esta cidade, parámos na Rua Uruguai, 127 onde estava escrito TVGalega. “Carlos chegámos. Vai ver que o Pimpão é um cara legal”. Sorri com aquela expressão, o que levou o meu interlocutor a perguntar-me por estava a rir. Respondi-lhe: “ É que em Portugal, cara legal é “gajo porreiro !”.

O Caminha foi à sua vida enquanto eu entrei nas instalações do TV e procurei pelo meu entrevistado. Pouco tempo depois apareceu e, depois dos cumprimentos da praxe, foi-me dizendo que gosta mais de ser entrevistador do que entrevistado. Respondi-lhe que me acontece o mesmo. Quando chegámos a seu gabinete, logo aproveitei para lhe lançar a primeira pergunta:

 

CEN: - Então o Altair Pimpão aqui na TV é ?...

Pimpão: - Diretor Geral da TV Galega. Podemos sentar-nos.

 

CEN: - Qual a característica que mais aprecia em si, e também nos outros ?

Pimpão: - Em mim a popularidade e nos outros a modéstia.

 

CEN: - De que mais se orgulha ?

Pimpão: - De ter vencido na vida por conta própria e sem roubar nem prejudicar alguém.

 

CEN: - Altair, qual foi o maior desafio que aceitou até hoje ?

Pimpão: - Ir para a Alemanha com mulher grávida e dois filhos pequenos, sem falar alemão.

 

CEN: - Quando você era criança … ?

Pimpão: - Queria ser médico.

 

CEN: - Hoje, como se auto-define ?

Pimpão: - Um menino pobre que, graças à voz radiofônica e à facilidade de redação conseguiu vencer na vida e conhecer a maioria dos países europeus, vivendo 12 anos em Colônia, fazendo programas em português para a Deutsche Welle e escrevendo para jornais como o Correio da Manhã (extinto pela ditadura militar), Folha de São Paulo e outros menores.

 

CEN: - Então, qual a sua melhor qualidade e, seu maior defeito ?

Pimpão: - Qualidade, não sei se a tenho - talvez o otimismo; defeito… talvez desorganização, pois vivo procurando coisas.

 

CEN: - Como vai o Altair de amores ?

Pimpão: - No próximo ano vou comemorar 50 anos de casado com a mulher que foi e continua sendo o grande amor da minha vida. 

 

CEN: - Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro ?

Pimpão: A primeira vez que vi o Rio de Janeiro.

 

CEN: - Qual a personagem que mais admira ?

Pimpão: - João Paulo II, que foi à penitenciária levar seu perdão ao homem que quase o matou.

 

CEN: - Pelo já exposto, que género de filme daria sua vida ?

Pimpão: - Um filme de motivação, pois sou um otimista incorrigível.

 

CEN: - É de opinião que o arrependimento mata ?

Pimpão: - Carlos, acredito que sim, embora não me arrependa de tudo o que fiz e faço.

 

CEN: - Altair, para você, qual o cúmulo da beleza, e também, da fealdade ?

Pimpão: - Beleza, o natural do Rio de Janeiro, feita pela mão do homem Paris; fealdade, ver mulheres asfaltando ruas em Moscou (Moscovo).

 

CEN: - Que vício gostaria de não ter ?

Pimpão: - Ler na toalete (quarto de banho), para não ouvir o sermão de minha mulher.

 

CEN: - Seu prato preferido, e a bebida preferida ?

Pimpão: - Caldo verde e gnocchi com molho de carne assada; bebida, um bom cabernet sauvignon.

Carlos, como falámos em comida, aproveito para o convidar a almoçar comigo, e vamos mesmo para o gnocchi, acompanhado por vinho tinto, aromático e de bom paladar do Alentejo.

 

À saída e antes de entra no carro, vi uma senhora loura e não resisti à pergunta:

 

CEN – Altair, para você, as piadas às louras são injustas ?

Pimpão: - São mesmo Carlos, pois há louras muito espertas !

 

Fomos almoçar a um restaurante perto da Rua 15 de Novembro. Enquanto esperávamos pela refeição, aproveitámos para continuar a entrevista.

 

CEN: - Para você, o dia começa bem se … ?

Pimpão: - O céu está azul e o sol brilhando.

 

CEN: - Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio ?

Pimpão: - No Brasil as árvores quase não perdem as folhas. Na Europa eu achava o outono a mais bela das estações, quando as folhas ficavam douradas. O inverno é bom para trabalhar. Eu rendo mais. Sobretudo quando escrevo.

 

CEN: - O imaginário será um sonho da realidade ?

Pimpão: - Muitas vezes sim. São muitas as Cinderelas e também os Júlios Verne.

 

CEN: - Acredita em histórias fantásticas ?

Pimpão: - Gosto de escrever histórias fantásticas porque impressionam os leitores. A maioria dos meus contos são em tal linha.

 

CEN: - E em fantasmas ou em “almas do outro mundo” ?

Pimpão: - Não. Os mortos não me assustam tanto quanto os vivos.

 

CEN: - O que é para você o termo Esoterismo ?

Pimpão: - Yo no creo en las brujas, pero que las hay, hay!

 

CEN: - Acredita na reencarnação ?

Pimpão: - Como católico apostólico romano tenho a convicção de que reencarnaremos.

 

CEN: - Que livro anda a ler ?

Pimpão: - Você nunca ouviu nada igual. Trata-se de um livro sobre o rádio, escrito por um jovem comunicador aqui de Blumenau. Como minha carreira de radialista é longa e o rádio é uma cachaça, estou gostando de ver o pensamento de um radialista com apenas 10 anos de experiência.

 

CEN: - A cultura será uma botija de oxigénio ?

Pimpão: - É. Pena que sempre mantida com tão pouco oxigênio para o grosso da população.

 

CEN: - Autores e livros preferidos ?

Pimpão: - Alexandre Dumas Pai (Os 3 Mosqueteiros) e Júlio Verne (20.000 léguas submarinas)

 

CEN: - Música e  autores preferidos ?

Pimpão: - Dos clássicos todas as composições de Wolfgang Amadeus Mozart. Dos populares as composições de Adelino Moreira (português que virou boêmio carioca) e destaco A Deusa da Minha Rua.

 

CEN: - O filme comercial que mais gostou ?

Pimpão: - O Cisne Negro. Gosto de filmes de capa e espada.

 

Depois do almoço e antes de regressarmos às instalações da TV Galiza, demos uma volta pela bela cidade de Blumenau. Já na TV, finalizámos a entrevista.

 

CEN: Altair, vamos falar da sua obra Literária ?

Pimpão: - “Vieram em Busca da Liberdade” (livro sobre a imigração alemã, calcado em pesquisas feitas nos 12 anos em que vivi na Alemanha); “A Alemanha que eu vivi” (livro sobre as minhas experiências naquele país, um guia para quem quer viver na ou conhecer a Alemanha); “Crônicas de Blumenau” (livro de crônicas sobre o cotidiano, pessoas, coisas e fatos da cidade) e “Minha Viagem a Budapeste” (um relato de viagem para o lazer e a informação do leitor). Para serem publicados pela editora da coleção “Troque Lixo por Livro” tenho 10 histórias infantis misturando ficção com realidade de personagens de construíram Blumenau ou que fizeram parte da sua história.

 

CEN: - Tem Home Page ?

Pimpão: - tenho. www.tvgalega.com.br

 

CEN: - Para finalizar. Altair, para você, Deus existe ?

Pimpão: - Existe e tem-me abençoado dando-me muito mais do que mereço.

 

 

E assim falámos de Altair Carlos Pimpão

Nascido a 28 de Junho de 1939

Residente em Blumenau SC

Director Geral da TV Galiza

 


História Infantil - Altair Pimpão

 

Há muitos anos atrás, ainda no tempo em que os navios não tinham motor e andavam apenas pelo vapor de lenha ou de carvão mineral queimado, vivia em Hamburgo, na Alemanha, um gato preto chamado Mirko. Ele era preto e alemão, porque entre os animais não existe diferença de cor. Nasça onde nascer poderá ter pelo preto ou seja lá qual for a sua cor. Os animais também tem uma outra vantagem sobre nós, eles falam a mesma língua. A gente vai à Alemanha e não entende o que eles falam, a não ser que tenha estudado alemão. O gato, como qualquer outro bichinho, não. Onde quer que ele chegue, o seu miado é compreendido pelos demais gatos e ele entende o que os outros miam. O cachorro brasileiro late igual o alemão, italiano, espanhol, francês, japonês ou americano.
Mirko morava bem perto do porto e tinha um velho hábito. Ia diariamente para o cais e sentava-se na amurada junto ao Rio Elba, que leva ao Mar do Norte. Ficava ali olhando as gaivotas voando num vai-e-vem bonito, dando rasantes para apanhar peixes. Ficava sonhando com como seria bom poder voar, poder apanhar um peixe quando estivesse com fome e ainda poder sentar lá em cima, no galho de uma árvore, ou ficar boiando na água, quando se sentisse cansado. Gostaria muito de ser uma gaivota e sair em viagem para conhecer outros lugares distantes. Outras vezes ficava pensando em como seria legal ser um peixe grande, para não ser apanhado pelas gaivotas e poder nadar pelos rios e mares do mundo inteiro. Mas por fim achava que o bom mesmo era se conseguisse viajar como gato, mesmo. Aí teria como passear pelas ruas e praças, pular nas árvores e caminhar pelos telhados. Tudo isso sem precisar trabalhar, nem pagar. E gato ele já era!
Correr o mundo, este era o maior sonho de Mirko. Ah! se ele pudesse viajar, como faziam os alegres marinheiros, que ali embarcavam, e atravessar os oceanos. Ah! se pudesse ir conhecer as terras dos outros continentes. Como gostaria de ir à China, à terra daqueles homens amarelos, de olhinhos quase fechados, muitas vezes parecendo olhos de gato. Era de lá que vinha o prato de porcelana no qual tomava leite. Como não seria bonita a África, a terra daqueles homens que tinham a cor igual a dele próprio e que viviam sempre cantando, alegres ou tristes. E a América, então? Sabia que muitos navios, já no tempo só dos navios a vela,  saíam dali de Hamburgo  em direção aos Estados Unidos e ao Brasil. Levavam gente que foi e que nunca mais voltou. Será que estavam tão felizes lá, que nem quiseram mais voltar a Hamburgo? Hamburgo era uma cidade muito bonita e tinha muito peixe. Ele nunca passara fome. Frau Mueller, a sua dona, era viúva de um pescador e o tratava com todo carinho. Até na cama dela ele podia dormir. A pobre mulher não tinha crianças e o considerava como se fosse um filho dela. Conversava com ele, contava-lhe histórias, comentava os acontecimentos que ouvia das vizinhas ou que lia no jornal e tudo o deixava cada vez com maior vontade de viajar. Ele estava mesmo possuído por aquilo que os alemães chamam de “Fernweh”, uma palavra que parece que só existe na língua deles e que significa sentir saudade da distância, de lugares desconhecidos.
O tempo passava e Mirko todos os dias ali no cais sonhando com viagens maravilhosas pelos sete mares. Um dia, porém, por sorte ou azar, um marinheiro viu o gato ali escarrapachado e comentou com os seus companheiros: “Olha lá um gato! Poderíamos leva-lo conosco no nosso navio. O porão está cheio de ratos e ele seria muito útil. Acabaria com estes roedores miseráveis, que estragam a nossa carga e nos fazem correr o perigo de uma doença como a peste bubônica.”  Os outros logo concordaram e um plano foi rapidamente traçado e executado. Mirko estava absorto em seus pensamentos e não se importou com a aproximação dos homens, nem reagiu quando estes o apanharam, colocaram num saco e levaram-no para dentro do navio.
Foi solto lá no interior do veleiro e sentiu uma felicidade imensa. Ia conhecer o mundo. Ia realizar o seu grande sonho. Nem se lembrou de Frau Mueller, que passou dias e noites chamando por ele e a sua procura, quase morrendo de tristeza. Achava que ele teria sido vítima de um destino trágico, tal qual seu marido, que comandava um navio e afundara com ele, numa noite de tempestade, no Mar do Norte.
 Mirko andava para cima e para baixo fazendo o reconhecimento da sua nova casa. O navio balançava ao sabor das ondas e dava-lhe uma sensação agradável. Seu faro denunciou-lhe logo a presença de camundongos por todos os lados. Iria ter muito trabalho, mas comida não lhe faltaria. Logo encontrou um local onde podia dormir sossegado e de onde podia ver tudo o que se passava a sua volta.
Os marinheiros não eram alemães, mas leram a plaqueta que tinha na coleira em volta do pescoço e assim descobriram o seu nome: Mirko.
Pareciam estar contentes com o novo companheiro. Um deles até lhe jogou uma espinha de peixe, como presente de boas vindas. Mirko tratou de comê-la, mais para demonstrar que sabia ser agradecido do que por estar com fome. Além do mais, na Casa de Frau Mueller ,ele jamais foi alimentado com uma simples espinha de peixe. Lá ganhava um filezinho de peixe ou alguma das guloseimas que ela tão bem preparava, até bolo de chocolate com morangos  em cima.
Chegou finalmente o dia da partida. O navio estava carregado, soltaram as amarras, jogaram mais carvão na fornalha e o barco partiu. Hamburgo foi ficando para trás. Mirko só com um olho aberto, para ver o que aconteceria. O cais do porto foi ficando pequenino, de repente só via a ponta da torre da igreja e por fim nada mais daquela cidade onde nasceu e viveu até aquele dia. Seu coração batia mais forte. Para onde estariam navegando, agora? Quanta novidade, quanta coisa bonita teria a oportunidade de ver! Nada como ser um gato marinheiro! Agora era um lobo do mar, ou melhor, um gato do mar.
Mirko era muito inteligente e logo começou a aprender a língua dos novos donos. Muita coisa era parecida com a língua que conhecia bem, a de Frau Mueller. Bem depressa ficou sabendo que a bandeira que tremulava lá no alto do mastro era a da Holanda. Eram holandeses, portanto, os seus novos amigos e companheiros de aventuras.
A viagem estava sendo tranqüila, embora ele sempre tivesse pensado que seria mais rápida.
O navio parecia que não saía do lugar. Ou será que era o tamanho do mar,, que ele tinha imaginado menor do que era na realidade? De repente, quando estavam num ponto em que não se via outra coisa a não ser água por todos os lados, eis que o céu se tornou escuro, mesmo sem ser noite, o mar se agitou e o navio enfrentou uma tempestade terrível. Mirko encolheu-se todo e pensou que ia enfrentar a morte por afogamento, até porque gato não sabe nadar e tem um medo de água que se pela todo.
O navio subia e descia, as coisas rolavam de um lado para o outro, os marinheiros corriam e gritavam ordens. Parecia que o navio ía virar ou quebrar ao meio a qualquer momento. Mirko, naqueles instantes, sentiu saudade de Hamburgo, da casa aconchegante de Frau Mueller. Lá estava sempre bem protegido e quando sentia frio corria para a boca do fogão,  ou para o seu bercinho, numa almofada da sala.
Ali no Oranien, este era o nome do navio, escrito bem grande na proa, estava tendo que se agarrar com unhas e dentes e sentia um frio cortante, além de já estar todo molhado pelos respingos das ondas gigantescas que quebravam contra o casco do navio. E ninguém importou-se com ele. Bem diferente do que acontecia com sua antiga dona, Frau Mueller, que por qualquer coisinha corria para pegá-lo no colo.
Como diz um velho ditado, também conhecido pelos gatos, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe.  A tempestade passou e os prejuízos foram mínimos. Para Mirko, o nosso marinheiro de primeira viagem, foi tão somente um grande susto. E veio a bonança! Nascia o Sol, o Sol se punha, surgia a Lua, a Lua descia dentro do mar e o navio flutuando. Mirko não sabia contar o tempo em horas, dias e meses, já que os gatos não usam relógio e nem se preocupam com o passar do tempo, até porque dizem que gato tem sete vidas. Mas a verdade é que muito tempo passou até que lá de cima alguém gritou: “Terra à vista!”
Terra à vista! Eles estavam chegando. Já seria o destino final da viagem? Onde estariam chegando? Ele não via a hora de ver o navio atracar e descer para dar uma volta. Correu para a cobertura da cabine de comando e ficou observando com os olhos bem abertos. Apareceu-lhe então a figura de uma moça enorme, segurando uma tocha. Frau Mueller falara dela. Era a Estátua da Liberdade. Eles estavam chegando ao porto de Nova York. Fosse hoje, ele iria querer encontrar o Tom, o Frajola, ou o Felix, gatos que o cinema e a televisão tornaram famosos no mundo inteiro. Mas naquele tempo não havia nem rádio, quanto mais filmes e TV.
O barco atracou no porto e Mirko já estava todo faceiro, esticando-se todo, pronto para descer, quando o Comandante ordenou: “Prendam o Mirko, para que ele não fuja!” Não deu nem tempo para pensar alguma saída estratégica. Pegaram o gato sonhador e colocaram-no num baú, só com alguns furos de ventilação. De nada adiantou ficar miando e arranhando por dentro a tampa da mala. Os marinheiros desceram e foram se divertir, enquanto os estivadores descarregavam a carga. Mirko, que estava louco para conhecer a cidade de Nova York, ficou lá lamentando a sua sorte.
Por que será que não haviam permitido que ele descesse para dar um passeio pela cidade? Haveria alguma proibição para gatos estrangeiros? Faltava-lhe algum documento? Mas,  gato nunca teve documento ou necessidade de papeis de autorização para alguma coisa. Sempre foram muito livres e andaram por onde quiseram, até no quintal dos vizinhos. Não esperava tamanha ingratidão do Comandante. Afinal estava dando fim aos ratos e comportara-se muito bem durante toda a viagem. Fora bastante obediente, inclusive fazendo cocô e xixi exatamente ali onde haviam determinado. Nunca reclamara da comida, embora a de sua antiga dona fosse muito melhor. O pobrezinho estava desapontado e desolado. Depois de tanto tempo de viagem, a bordo, não conseguir sair para dar uma voltinha, bater um papo com os gatos locais, quem sabe arrumar uma namorada norte-americana e conhecer um pouco da vida daquela cidade diferente de Hamburgo era um castigo que não merecia.
O pior é que zarparam de Nova York, seguiram para outros portos, fizeram uma centena de viagens ao redor do mundo e o pobre Mirko trancado toda vez que pensava em sair. O destino havia-lhe sido cruel. Agora sentia saudade de Hamburgo, onde era livre para passear e onde podia sonhar com as coisas belas do outro lado do mar. Ali a bordo do Oranien chegava ao outro lado do mar e não conseguia ver coisa alguma. Era um verdadeiro prisioneiro. Por infelicidade o navio teimava em não voltar a Hamburgo. Lá ele miaria bem alto, até que Frau Mueller o ouvisse, ou tentaria saltar, antes do navio atracar, mesmo que caísse dentro do Rio Elba e pegasse uma pneumonia. Se pelo menos tivesse mais um gato a bordo, para poder conversar e desabafar um pouco a sua mágoa.
Um dia, porém, o navio deve ter atracado em Bremen, porque Hamburgo não era, mas ouviu que estavam falando alemão. Ali embarcaram a carga, uma mudança e uma moça muito bonita.
Ela, pelo jeito, gostava bastante de gatos. Assim que o viu tratou de pegá-lo no colo e de fazer-lhe um carinho. Mirko logo gostou dela e bancou o mais dengoso possível. Arquitetou imediatamente um plano para escapar do navio. Iria conquistar o coração daquela bela mulher e tentar fazer com que ela o levasse junto, no final da viagem. Nem que fosse escondido na sua caixa de chapéu.
Ronronava, esfregava-se em suas pernas, saltava no seu colo, levantava as patinhas, fazia mesuras. A moça era atriz e estava vindo de Berlim. Estava voltando e ía morar na casa do  tio que havia ido colonizar um pedaço de terra no Brasil. Gostava de fato de gatos e apaixonou-se pelo Mirko. Decidiu pedir ao Comandante para que ele lhe desse o gato de presente. O rude homem do mar não teve como escapar do pedido daquela jovem bonita, que tão bem sabia representar. Quando chegaram ao Rio de Janeiro, Mirko viu como era linda aquela cidade cheia de morros. Embora não tenha recebido licença para  correr por suas ruas, embora tenha ficado preso no quarto do hotel, estava novamente em terra firme e na companhia de uma mulher que, por certo, iria trata-lo como outrora Frau Mueller.
Depois de uma longa viagem, Edith, este era o nome da nova dona, chegou ao lugarejo que seu parente, um sisudo senhor de óculos, chamado Dr. Blumenau, havia fundado. Mirko foi morar com ela numa aconchegante casa de enxaimel, bem no centro, numa rua onde nasciam palmeiras, nas quais, mais tarde, volta e meia, ia afiar as unhas. Para sua alegria, deixou de ser um gato solitário. Edith arrumou uma gata brasileira, descendente de gatos italianos,  que se tornou sua companheira. Tiveram vários gatinhos e Edith adotou todos eles. Mirko tornou-se um gato muito feliz . Ele e sua família faziam companhia à dona e brincavam num belo jardim que ainda hoje existe.
Edith gostou tanto dele e de toda a sua família, que à medida em que os bichanos foram morrendo, ela os enterrou no seu jardim. Mandou fazer pequenas sepulturas para cada um deles. E em cada uma colocou o nome do gato ali enterrado. Se você não acredita nesta história, peça ao papai ou à mamãe para levar você lá no jardim da Casa da Edith Gaertner e procure pelo Cemitério de Gatos. Você vai encontrar o túmulo do Mirko, da sua companheira e de seus filhos. Mirko era o gato de Hamburgo, que sonhava viajar pelo mundo. Ele viveu em Blumenau, onde morreu bem velhinho. Gostou muito da cidade, onde muitas vezes ía para a margem do Rio Itajaí esperar a chegada do vapor e recordava a sua cidade natal, Hamburgo, e de sua antiga dona, Frau Mueller. Sei que ainda hoje existem gatos descendentes do gato Mirko. É pena que os gatos entendam a nossa língua, mas não a falem. Por isso não podemos saber quais os gatos que são tataranetos do gato preto que veio parar aqui graças ao amor que Edith Gaertner nutria pelos bichanos.
Se não fosse ela, Mirko teria morrido a bordo, sem nunca mais ter pisado em terra firme, e seu sepultamento seria como o dos velhos lobos do mar: seria lançado às águas profundas do oceano. Como morreu em Blumenau e foi enterrado na pequena sepultura que Edith Gaertner mandou preparar para ele, Mirko tornou-se um personagem histórico. Foi o gato preto de Hamburgo que veio ajudar a construir a Cidade de Blumenau. Os mais velhos afirmam que no seu tempo não existiam ratos por estas bandas. Mirko e a sua prole davam fim a todos. Hoje a coisa mudou. Já se vê muitos ratos roendo por aí e os gatos não se importam, ou não dão mais conta do recado.
Dizem que lá em Hamburgo também existe uma estátua de um gato, que teria sido mandada fazer por Frau Mueller, no jardim de sua casa, em homenagem ao seu Mirko, que desapareceu para todo o sempre. Não sei se é verdade, pois andei por lá e não vi. O que sei é que os gatinhos pretos que você vê em Blumenau podem ser descendentes do herói da nossa história. Por isso trate bem deles e não deixe que um marinheiro os leve para seu navio.
  
(Esta história  escrevi para minha neta Inês Maria, como presente pelo seu segundo aniversário, em 1994. Ainda não foi publicada. Será lançada na coleção Troque Lixo por Livro, da editora Cristina Marques, já internacionalmente premiada pela idéia. As crianças juntam lixo, levam para a escola e trocam por livros).

 

Formato de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal

 

 

 

 

 

 

 

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