A BAILARINA
Mônica Serra
Silveira
O rosto de Tamara já
contava com várias pregas, que
se enchiam de pó e blush.
Contornando seus olhos, riscos
pretos muito fortes. O cabelo
era repuxado num coque, que
terminava na nuca. O corpo
razoavelmente conservado,
trazia, no entanto, uma pele
meio murcha, gasta e sem carne.
Rinaldo ficou encarregado de
fazer as honras à ilustre
convidada. Deveria lhe
satisfazer os gostos,
paparicá-la. Era a primeira vez
que Tamara Iakov dançaria na
cidade. Um acontecimento
histórico no mundo da dança para
o lugar.
Pelo que ouvira dizer da
bailarina, Rinaldo esperava
coisa melhor. Uma mulher mais
bonita, mais jovem, mais
atraente, mais educada, mais,
mais, mais... Ao invés disso,
deu de cara com uma figura
fantasmagórica, próxima de um
espantalho. Uma mulher cansada,
de idade e feições comuns.
- Bom dia, Madame Iakov! Meu
nome é Rinaldo Ferreira Campos.
Sou seu acompanhante no país.
Farei tudo para que sua estada
seja a mais agradável possível.
Por favor, deixe que eu a leve
ao hotel. Sua comitiva deverá ir
para outro local, não é isso?
Mesmo com toda a simpatia
espalhada por Rinaldo, que se
desdobrava em sorrisos e
mesuras, a bailarina continuava
gélida, impassível, como que
brigada com o mundo.
Expressava-se através de gestos
bruscos e autoritários. Rinaldo
tivera mesmo uma péssima
impressão. Resmungou alguma
coisa em seu idioma, a fim de
não ser entendido pelos
estrangeiros. Em seguida levou a
bailarina para o hotel. Missão
cumprida – pensou. Mas estava
enganado. Assim que deitou na
cama limpa e convidativa, e
fechou os olhos, o telefone
tocou.
-Madame Iakov! Sim, madame. Irei
imediatamente.
Tamara estava de roupão e
parecia mais feia sem as vestes
de viagem. Gesticulava em russo
sem se fazer entender. Estava
visivelmente aborrecida. Rinaldo
procurava adivinhar o ocorrido.
Só após muito falatório, Tamara
resolveu reclamar no idioma
local.
- Esta quarta é horrível! Non
tem espelha grande... o cama é
mole demais e o ar condicinado
non funcionar. Quero sair já
desta lugar.
- Madame, Iakov, por favor,
tenha calma! Tudo não passou de
um lamentável mal entendido.
Sinto muitíssimo!
Rinaldo não sentia muitíssimo
coisa nenhuma. Queria mesmo era
mandar "aquele poço de
orgulho"às favas. Mas era um
profissional...
-Vou providenciar, madame. Só um
instantinho e voltarei com um
novo quarto ao seu gosto.
Não foi fácil conseguir um
espelho grande e um colchão duro
àquelas alturas. O ar não era
problema, bastava regular
direito. Madame Iakov não sabia
mexer em nada que fosse elétrico.
Dizia logo que a coisa não
funcionava bem. Em pouco tempo
Rinaldo entrou no quarto da
bailarina com tudo arranjado.
- Pronto, madame! Tudo
resolvido.
- Você demorar muito. Vamos
rápida! Estou cansada e
necessitar ficar boa para o
ensaio esta tarde.
- Sim, madame, mil perdões!
O novo quarto não era tão grande
quanto o anterior. Tinha de
novidade um grande espelho,
retirado do corredor do hotel e
um colchão duro arranjado
sabe-se lá onde, pelo gerente.
- Está tudo ao seu gosto,
madame?
Tâmara Iakov assentiu
discretamente com a cabeça,
muito séria e gravemente, como
alguém que acabara de ser
ofendida.
- Mais alguma coisa, madame?
- Você está aborrecida comiga,
menino?
- Não. Claro que não! Por que
pergunta, madame?
- É o impression que tenho. Por
favor, non se aborrece. Eu
detestar gente aborrecida do meu
lado.
- Rinaldo ficou engasgado.
"Menino"... essa era a primeira
vez em quinze anos que alguém o
chamava de menino. Pelo menos,
desta vez, ela dissera por
favor. Era a primeira vez que
dizia por favor.
Como essa bruxa percebeu
que eu estava chateado? Fui tão
simpático! Pro inferno! Se não
precisasse desse emprego... –
pensou baixo, Rinaldo.
Por pirraça, pensando encontrar
a bailarina ainda dormindo,
Rinaldo foi apanha-la meia hora
antes. Mas Tâmara já estava
pronta aparentando uma
disposição ainda maior. Até
esboçava uma sombra de sorriso.
Rinaldo procurou ser mais
simpático que antes. Ele próprio
ficou surpreso com sua paciência
e controle.
Logo estavam no teatro. Chegaram
pontualmente, na hora certa. Um
grupo aguardava ansioso a
chegada da bailarina principal.
Tâmara foi ao seu camarim e
retornou vestida numa malha.
Rinaldo ficou na platéia para o
caso de madame precisar.
Quando a música começou a tocar
e Tâmara entrou em cena, uma
emoção tomou conta do teatro.
"Sua suavidade e leveza, aliadas
a uma técnica perfeita, faziam
um espetáculo de sublime
beleza", como se lia nas
críticas dos jornais. Rinaldo
não conseguia tirar os olhos da
bailarina. Seu espírito parecia
ter sido tocado por uma força
divina. Ele sentia vontade de
subir no palco e beijar a
estrangeira. Poderia ficar o dia
inteiro ali, mas o ensaio acabou
e Tâmara voltou para o camarim,
reaparecendo ainda mais
cansada e envelhecida. Rinaldo,
porém, não a via mais assim...
Ela agora transmitia um brilho
envolvente e inexplicável.

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