"A Esplanada dos Prosadores"

Nº 11  Outubro/2007

Editor: Carlos Leite Ribeiro

Formatação e Arte: Iara Melo

 

 

A BAILARINA

 

Mônica Serra Silveira

 

 

 

 

 

O rosto de Tamara já contava com várias pregas, que se enchiam de pó e blush. Contornando seus olhos, riscos pretos muito fortes. O cabelo era repuxado num coque, que terminava na nuca. O corpo razoavelmente conservado, trazia, no entanto, uma pele meio murcha, gasta e sem carne. Rinaldo ficou encarregado de fazer as honras à ilustre convidada. Deveria lhe satisfazer os gostos, paparicá-la. Era a primeira vez que Tamara Iakov dançaria na cidade. Um acontecimento histórico no mundo da dança para o lugar.
Pelo que ouvira dizer da bailarina, Rinaldo esperava coisa melhor. Uma mulher mais bonita, mais jovem, mais atraente, mais educada, mais, mais, mais... Ao invés disso, deu de cara com uma figura fantasmagórica, próxima de um espantalho. Uma mulher cansada, de idade e feições comuns.
- Bom dia, Madame Iakov! Meu nome é Rinaldo Ferreira Campos. Sou seu acompanhante no país. Farei tudo para que sua estada seja a mais agradável possível. Por favor, deixe que eu a leve ao hotel. Sua comitiva deverá ir para outro local, não é isso?
Mesmo com toda a simpatia espalhada por Rinaldo, que se desdobrava em sorrisos e mesuras, a bailarina continuava gélida, impassível, como que brigada com o mundo. Expressava-se através de gestos bruscos e autoritários. Rinaldo tivera mesmo uma péssima impressão. Resmungou alguma coisa em seu idioma, a fim de não ser entendido pelos estrangeiros. Em seguida levou a bailarina para o hotel. Missão cumprida – pensou. Mas estava enganado. Assim que deitou na cama limpa e convidativa, e fechou os olhos, o telefone tocou.
-Madame Iakov! Sim, madame. Irei imediatamente.
Tamara estava de roupão e parecia mais feia sem as vestes de viagem. Gesticulava em russo sem se fazer entender. Estava visivelmente aborrecida. Rinaldo procurava adivinhar o ocorrido. Só após muito falatório, Tamara resolveu reclamar no idioma local.
- Esta quarta é horrível! Non tem espelha grande... o cama é mole demais e o ar condicinado non funcionar. Quero sair já desta lugar.
- Madame, Iakov, por favor, tenha calma! Tudo não passou de um lamentável mal entendido. Sinto muitíssimo!
Rinaldo não sentia muitíssimo coisa nenhuma. Queria mesmo era mandar "aquele poço de orgulho"às favas. Mas era um profissional...
-Vou providenciar, madame. Só um instantinho e voltarei com um novo quarto ao seu gosto.
Não foi fácil conseguir um espelho grande e um colchão duro àquelas alturas. O ar não era problema, bastava regular direito. Madame Iakov não sabia mexer em nada que fosse elétrico. Dizia logo que a coisa não funcionava bem. Em pouco tempo Rinaldo entrou no quarto da bailarina com tudo arranjado.
- Pronto, madame! Tudo resolvido.
- Você demorar muito. Vamos rápida! Estou cansada e necessitar ficar boa para o ensaio esta tarde.
- Sim, madame, mil perdões!
O novo quarto não era tão grande quanto o anterior. Tinha de novidade um grande espelho, retirado do corredor do hotel e um colchão duro arranjado sabe-se lá onde, pelo gerente.
- Está tudo ao seu gosto, madame?

Tâmara Iakov assentiu discretamente com a cabeça, muito séria e gravemente, como alguém que acabara de ser ofendida.
- Mais alguma coisa, madame?
- Você está aborrecida comiga, menino?
- Não. Claro que não! Por que pergunta, madame?
- É o impression que tenho. Por favor, non se aborrece. Eu detestar gente aborrecida do meu lado.
- Rinaldo ficou engasgado. "Menino"... essa era a primeira vez em quinze anos que alguém o chamava de menino. Pelo menos, desta vez, ela dissera por favor. Era a primeira vez que dizia por favor.
      Como essa bruxa percebeu que eu estava chateado? Fui tão simpático! Pro inferno! Se não precisasse desse emprego... – pensou baixo, Rinaldo.
Por pirraça, pensando encontrar a bailarina ainda dormindo, Rinaldo foi apanha-la meia hora antes. Mas Tâmara já estava pronta aparentando uma disposição ainda maior. Até esboçava uma sombra de sorriso. Rinaldo procurou ser mais simpático que antes. Ele próprio ficou surpreso com sua paciência e controle.
Logo estavam no teatro. Chegaram pontualmente, na hora certa. Um grupo aguardava ansioso a chegada da bailarina principal. Tâmara foi ao seu camarim e retornou vestida numa malha. Rinaldo ficou na platéia para o caso de madame precisar.
Quando a música começou a tocar e Tâmara entrou em cena, uma emoção tomou conta do teatro. "Sua suavidade e leveza, aliadas a uma técnica perfeita, faziam um espetáculo de sublime beleza", como se lia nas críticas dos jornais. Rinaldo não conseguia tirar os olhos da bailarina. Seu espírito parecia ter sido tocado por uma força divina. Ele sentia vontade de subir no palco e beijar a estrangeira. Poderia ficar o dia inteiro ali, mas o ensaio acabou e Tâmara voltou para o camarim, reaparecendo ainda   mais cansada e envelhecida. Rinaldo, porém, não a via mais assim... Ela agora transmitia um brilho envolvente e inexplicável
.
 

 

 

 

 

 

 

 

CONVITE

a todos os Autores, Colaboradores, Leitores e Amigos do Portal CEN - "Cá Estamos Nós"

para colaborarem na nossa "A Esplanada dos Prosadores"

E.mail de serviço leiteribeiro@netcabo.pt

Em Assunto, digite por favor: "A Esplanada"

 

 

 
 
 
 

Livro de Visitas

Recomende

Índice


 

FOTO UTILIZADA NO TOPO DA PÁGINA,

PRAÇA DE GIRALDO EM ÉVORA * PORTUGAL

MONTAGEM E ARTE DE IARA MELO

MID: OSVALDO MONTENEGRO

"LUA E FLOR"

 

 

 

Copyright © 2006 2007 -  Cá Estamos Nós  Web  Page

Todos os Direitos Reservados