Era apenas um tio -
de Regina Romeiro
Era um tio, coitado, parecia
mesmo que jamais iria passar de
um que apenas uma linha
passante, andante e caminhante.
Trabalhava para o tesouro,
fiscalizava, contabilizava e
como sempre as contas estavam
certas.
Aos olhos que pouco viam tudo
parecia naquele ~ certo, tudo
sempre igual.
Seu lazer era olhar estrelas por
lunetas, estas ele tinha as de
última geração.
Para essa atividade se
acomodava, se instalava sempre
na mesma posição.
Analisava, olhava, espiava o
céu.
Da música, gostava de freqüentar
concertos, sabia toda a
programação antecipadamente.
Antecipada também era a compra
dos ingressos, o lugar que iria
se acomodar.
Levava sempre um binóculo para
enxergar melhor
Olhava a vida por binóculos e o
céu por lunetas e contava, não
histórias, mas dinheiro e tudo
contabilizava.
Uma característica interessante
no que era a de que gostava de
visitar alguns poucos parentes e
alguns raros amigos, visitas
marcadas sempre antecipadamente.
A estas visitas ia sempre de
terno bem composto, camisa bem
passada, gravata discreta e
acompanhado sempre por um
guarda-chuva. Este usado como
apoio quando sentado à poltrona,
apenas para ficar mais formal,
pois problema de coluna não
tinha, sua saúde era perfeita!
Aposentou-se do Tesouro, mas
pouco mudou na vida, apenas
olhava por mais tempo o céu
através das lunetas e
freqüentava mais concertos de
maneira sempre regular e
antecipada programação.
Quanto às visitas não fazia
mais, também se aposentou dessa
atividade.
Ao final, quando não mais podia
olhar o céu através das lunetas
e não podia mais ir aos
concertos programados, passou a
freqüentar a cadeira de balanço
da sala de visitas, mas sempre
só e a pensar por horas a fio.
Neste período as lunetas jaziam
em uma sala muito bem colocadas,
os binóculos em um armário, os
guardas-chuvas no armário também
adequado. Algo era muito
interessante, havia um armário
em que jaziam pilhas e pilhas
muito bem organizadas
cronologicamente de programas de
concertos antigos, todos que
freqüentou durante sua vida.
E lá permanecia o ~ na cadeira
de balanço, em intervalos de
pensar e dormitar.
Ao final do final, seu irmão
mais novo e bem esperto para
negócios, tira-lhe nos
intervalos do pensar e dormitar
procurações para movimentar um
volume expressivo de dinheiro
que o ~ havia acumulado em conta
bancária enquanto funcionário do
tesouro ativo e aposentado.
Até que entre o balançar da
cadeira, o sono e o pensar o que
se foi.
Deixando de herança: lunetas,
binóculos, programas de
concertos e guarda-chuvas.
Dinheiro não existia mais.
A bufunfa tinha sido passada
para a mão do irmão que também
adorava acumular tesouros,
Mas este, nem binóculo tinha ou
queria, nem luneta, nem
programação, seu único e
delirante lazer era acumular
tesouros em bancos.
O irmão mais novo na verdade
também era tio, mas sem lunetas,
sem binóculos, sem guarda-chuvas
para fazer lembra-lo.

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