Era uma vez...
Paulo Roberto Bornhofen
Era uma vez, nos
primórdios da humanidade, quando
o ser humano, ou simplesmente
bicho homem para os mais
íntimos, começou a se
desenvolver em comunidades.
Naquele tempo, hordas de
arruaceiros e desordeiros se
organizaram e espalhavam o
terror por todos os cantos da
terra, eram os homens maus. Para
se defenderem, os homens bons,
também se organizaram. Mas, os
chamados homens bons, se
organizaram em dois tipos de
comunidades: a comunidade dos
que mandavam, e a comunidade dos
que eram mandados. Os que
mandavam ofereceram proteção aos
que eram mandados, mas em troca
cobraram-lhes uma contrapartida
financeira. Os que eram
mandados, como sempre faziam,
aceitaram. Não só aceitaram
pagar pela segurança como
ofereceram seus filhos para
comporem um sub grupo que seria
encarregado da tal segurança.
Estes encarregados da segurança
não chegaram o formar um novo
grupo, ficaram vagando no limbo
entre um e outro, por isso foram
tratados de sub grupo, tanto
pelo grupo dos que mandavam,
como pelo grupo dos que eram
mandados, e sendo assim passaram
a não se identificar com nenhum
deles. Quando iam prestar
segurança ao grupo dos mandados,
não se identificavam com estes,
pois estavam cumprindo ordens do
grupo dos que mandavam. Quando
estavam com o grupo dos que
mandavam não eram identificados
por aqueles, pois não mandavam,
apenas executam o que lhes era
mandado. Este sub grupo ficou
conhecido como aqueles do limbo.
E, assim foi evoluindo a
humanidade.
Com o passar dos
tempos, o grupo dos que mandavam
passou a usar o sub grupo do
limbo para sua própria segurança
e abandonaram o grupo dos que
eram mandados a sua própria
sorte. Vendo isso, o grupo dos
homens maus se aproveitou e
tomou o grupo dos que eram
mandados. O grupo dos homens
maus gostou tanto da nova
situação, da nova ordem, que viu
que poderia substituir o grupo
dos que mandavam e se tornar um
novo grupo, o grupo dos homens
maus que mandavam. Mas para
angariar o apoio do grupo dos
que eram mandados, resolveram
que eles, os homens maus que
mandavam, iriam dar proteção ao
grupo dos homens que eram
mandados. Como o grupo dos que
eram mandados já estavam
acostumados a serem mandados e
tinham sido abandonados pelo
grupo dos homens que mandavam,
aceitaram, mesmo sem saber
contra quem era essa proteção.
Mas, fazer o que, se eles sempre
foram mandados.
Não se dando por
satisfeito, o grupo dos que
mandavam, para mostrar que
continuavam mandando, vez por
outra, mandavam que o sub grupo
do limbo fizesse incursões
contra os homens maus que agora
mandavam. Mas como os homens
maus que agora mandavam estavam
misturados com os homens que
eram mandados, era comum o sub
grupo do limbo atingir os homens
que eram mandados, e estes
passaram a se revoltar contra o
grupo dos que mandavam e seu sub
grupo do limbo.
O grupo dos homens
maus que agora mandavam entendeu
que como o sub grupo do limbo
era usado sem respeito pelo
grupo dos que mandavam,
poderiam, através de uma
compensação financeira, angariar
homens do sub grupo do limbo
para seu lado. E assim, o grupo
dos que eram mandados se viu
diante de uma situação difícil.
Todos mandavam neles e todos
cobravam deles e o sub grupo do
limbo não mais lhes dava
proteção.
Vendo a aflição dos
integrantes do grupo dos que
eram mandados, alguns do sub
grupo limbo resolveram agir por
conta própria, e ganhar “um” por
fora. Formaram um outro tipo de
organização que ficou conhecida
por todos como aqueles que fazem
o que não fazem os que deveriam
fazer e ofereceram segurança ao
grupo dos que eram mandados,
contra o grupo dos homens maus
que agora mandavam. Na esperança
de terem sua tranqüilidade de
volta, aceitaram. Assim o grupo
dos que eram mandados agora
pagava ao grupo dos que
mandavam, ao grupo dos homens
maus que agora mandavam e
àqueles que fazem o que não
fazem os que deveriam fazer.
Pagavam cada vez e tinham cada
vez menos.
Para não perder o
poder, o grupo dos que mandavam,
e que eram homens bons, mandaram
outra organização para defender
os que eram mandados. Essa
organização era especial, tinha
mais equipamentos, mais
armamentos e eram treinados para
defender a todos contra
agressões do que se chamou de
agressões externas, e ficaram
conhecidos como aqueles que
fazem tudo e podem tudo.
Quando soube disso,
o grupo dos que eram mandados
ficou muito contente, pois agora
iria ter a sua tranqüilidade,
aquela que fazia tanto tempo que
havia perdido, pois é, ela seria
trazida de volta. Pelo serviço
dos que eram conhecidos como
aqueles que fazem tudo e podem
tudo, o grupo dos que eram
mandados não precisaria pagar
mais nada, era tudo tão
maravilhoso. Finalmente eles
poderiam dizer que todos seriam
felizes para sempre.
Mas, não foi bem
assim. Num determinado dia, um
grupo dos que eram conhecidos
como aqueles que fazem tudo e
podem tudo, vendo que não podia
nada e não fazia nada, pegou
alguns integrantes do grupo dos
que eram mandados e entregou
para o grupo dos homens maus que
agora mandavam. Já que eles eram
homens maus, mesmo agora
mandando, eles mataram estes
integrantes do grupo dos que
eram mandados e jogaram seus
corpos no lixo, como a dizer que
lá era o lugar daqueles que
faziam parte do grupo dos que
eram mandados.
Assim se instalou
uma crise geral. Para
resolvê-la, o grupo dos que
mandavam, já que mandavam,
mandou o chefe maior daqueles
que ficaram conhecidos como
aqueles que fazem tudo e podem
tudo, mas que agora sabiam que
não podiam nada e não faziam
nada para conversar com o grupo
dos que eram mandados. Assim se
fez, mas não sem antes encherem
o lugar em que habitava o grupo
dos que eram mandados, de
integrantes daqueles que ficaram
conhecidos como aqueles que
fazem tudo e podem tudo, mas que
agora sabiam que não podiam nada
e não faziam nada, de seus
equipamentos e seus armamentos.
Fizeram isso, não para proteger
o grupo dos que eram mandados,
mas para proteger o chefe
daqueles que ficaram conhecidos
como aqueles que fazem tudo e
podem tudo, mas que agora sabiam
que não podiam nada e não faziam
nada. Ele iria dar uma resposta
ao grupo dos que eram mandados.
Quando lá chegou, o chefe foi
indagado por uma daquelas que
era integrante do grupo dos que
eram mandados, sobre a morte de
um de seus integrantes, seu ente
querido. O chefe daqueles que
ficaram conhecidos como aqueles
que fazem tudo e podem tudo, mas
que agora sabiam que não podiam
nada e não faziam nada, disse:
morte! Pois é, morreram, mas eu
estou aqui, e vim aqui para
isso: para pedir desculpas!
A narrativa acima
faz parte de um grupo de
pergaminhos deixado por uma
civilização extinta. O lugar e
as condições em que os
pergaminhos foram encontrados
são mantidos em segredo, bem
como o seu conteúdo. Comentários
dão conta de que nos pergaminhos
está escrito de que forma essa
civilização foi extinta, por
isso tanto segredo. Nem mesmo a
narrativa acima deveria ter sido
publicada, mas um amigo do primo
do cunhado do irmão do tio de
uma pessoa que é muito ligado ao
colega do namorado de um amigo
meu, conseguiu uma cópia e me
mandou. Havia ainda uma
informação sobre o local onde
tudo isso ocorreu. Estava
escrito que era um lugar lindo,
com uma maravilhosa baía e
alguns morros esplendorosos, e
que para saudar os visitantes o
grupo dos que mandavam fez
construir uma estátua que de
braços abertos dava boas vindas
aos visitantes. Falam ainda que
existem esforços no sentido de
identificar essa civilização
perdida, sua época e o local em
que viveram. Outros dizem que
tudo não passa de lenda, fruto
da imaginação de alguém. Quem
sabe? Só o futuro dirá!
Blumenau, 19 de junho de 2008.
Paulo Roberto Bornhofen
Escritor, poeta e cronista.
Integrante da Sociedade
Escritores de Blumenau e da
Academia de Letras Blumenauense.