Lairton Trovão de
Andrade
Marco Bruto foi um privilegiado,
mas não soube aproveitar da
prerrogativa que teve, para se
perpetuar na glória. Era como se
fosse filho de Júlio César, a
mais ilustre personalidade
política da República Romana.
Por vinte anos, recebeu daquele
ilustre estadista tudo o que
poderia: Estudos, riquezas e
posições políticas, que o
transformaram num jovem senador
da República Romana. Mas, além
disso, César concedeu-lhe o
maior afeto e toda confiança que
possuía.
Naquele fatídico 15 de março do
ano 44, antes de Cristo, o
Ditador saía do Senado Romano,
quando se viu cercado por quatro
senadores que, em vias de fato,
conspiravam contra ele.
O Senador Casca foi o primeiro a
lhe atacar traiçoeiramente com
um golpe de espada.
Voltou-se, então, rapidamente,
sacou da espada e bradou:
"Casca, traidor, o que estás
fazendo?"
Os conjurados, com espadas
mortíferas, cercaram César de
todos os lados. Queriam ter o
prazer de transpassá-lo com suas
lâminas assassinas.
Mas, com habilidade e heroísmo,
defendia-se daqueles obcecados
conspiradores, movimentando seu
corpo, com rara maestria,
brandindo, aos berros, sua
espada veloz, contra aqueles
perversos inimigos.
Foi quando (que cena
detestável!) o próprio Bruto
aproximou-se e desferiu um golpe
contra o corpo do seu benfeitor,
maior amigo e pai adotivo.
César, que até então havia se
defendido com extrema vontade de
viver, quando viu entre os
conspiradores, Marco Bruto cheio
de ódio, com a espada na mão,
deixou de resistir e exclamou
com o maior espanto: "Tu quoque,
filii mi! (Até tu, meu filho!)"
E cobrindo a cabeça com a toga,
abandonou-se aos seus
assassinos.
A decepção do fantasma da
ingratidão fez com que
desistisse da vida e se
entregasse definitivamente à
morte.
Esta passagem é um dos maiores
exemplos de ingratidão que a
História registra.
A ferida da ingratidão é
incurável, e aquele que a comete
raramente avalia a gravidade do
ferimento que provoca no coração
de quem lhe fez o bem.
Um dos mais hábeis generais da
História, Caio Júlio César,
tombou sem vida, aos pés da
estátua do seu rival Pompeu.
Seus algozes feriram-lhe, à
espada, vinte e três vezes.
Esta cena ocorreu em plena luz
do dia e foi assistida por
muitos dos senadores romanos.
Coube ao historiador Plutarco
descrevê-la com estilo sóbrio e
límpido.
Aquele fatal 15 de março
assinalou o fim do maior
estadista da história romana.
Se a generosidade é uma bênção
que alegra a vida das pessoas, a
ingratidão é violência que
produz sulcos dolorosos no mais
íntimo recanto da alma humana.
Daquele dia em diante, a palavra
"bruto", com repugnância, passou
a ter o significado popular que
conhecemos hoje.