Luiz Eduardo Caminha
Embora seja uma das línguas
consideradas ricas em
vocabulário o português passa
dificuldade em expressar certos
termos ou situações que a língua
mãe, o latim, contém. É
conhecido nosso intraduzível
“saudade” e, talvez esteja neste
vocábulo algo o mais próximo
possível do que pretendo dizer.
No vocábulo saudade está
embutido um sentimento inerente
ao estado de ser do agente que o
vive (ou interpreta). As línguas
oriundas dos povos bárbaros,
entre elas o alemão e o inglês e
outras nórdicas, não conseguem,
por mais que tentem, exprimir
sentimentos mais significativos
que o próprio vocábulo. O uso do
verbo “to miss” no inglês
(sentir falta) não retrata, nem
de longe, o conteúdo sentimental
do vocábulo em questão. Quando o
inglês fala “I miss you” está
apenas e tão secamente dizendo
“eu senti falta de você, da sua
presença”. Ora sentir falta da
presença de alguém, convenhamos,
não é o mesmo que dizermos “eu
senti saudades de você” ou
mesmo, quando em qualquer
referência à pessoa, tempo ou
lugar, apenas balbuciamos com o
coração próximo à boca: “que
saudade”! Os germânicos vão um
pouco além na ânsia de exprimir
este sentimento. Usam quase
sempre uma palavra para cada
situação, como é o caso de
Heimweh para representar a
“saudade” de casa ou da pátria.
Na verdade Heimweh seria o
equivalente ao nosso “banzo”,
uma espécie de melancolia muito
presente entre os negros
africanos – até morriam disto –
que sentiam saudades de sua
tribo, sua nação, a África.
Fiz este preâmbulo para voltar a
afirmar: comparada ao latim e ao
grego, o português, em muitos
casos deixa a desejar. Isto fica
patente quando tentamos traduzir
textos originalmente escritos
nesta línguas que compõe um
número significativo dos termos
que utilizamos.
Por exemplo: na versão grega da
Bíblia – a mais próxima do
hebraico – quando ocorre a
passagem em que Jesus Cristo
reclama a confirmação do amor de
Simão Pedro (João 21, 15-19),
podemos ver a sutil diferença da
pedagogia do Mestre. Na versão
para o português, Cristo faz a
mesma pergunta por 3 vezes:
“Simão, filho de João, amas-me
mais que estes?” Pedro responde,
por duas vezes: “Sim Senhor tu
sabes que te amo”. A cada
resposta Cristo mostrava a
missão que confiaria a Pedro:
Apascenta as minhas ovelhas. Ao
deparar-se com a insistente
pergunta, pela 3ª. vez, a versão
portuguesa mostra uma certa
tristeza em Pedro e, desta vez,
Simão Pedro lhe diz: “Senhor tu
sabes tudo. Sabes também que te
amo”. Mas aí trago à reflexão o
que o texto hebraico nos
reporta: Na verdade, nas duas
primeiras vezes em que Jesus faz
a pergunta o texto não tem nada
a acrescentar.
As traduções expressam o mesmo
sentido, são fiéis ao enunciado.
Entretanto as duas primeiras
respostas de Pedro é que foram
traduzidas erroneamente. Pedro
responde a Jesus com um vocábulo
que não tem, em hipótese alguma,
o significado do sentimento que
quer o Mestre. Pedro apenas diz:
“Senhor, tu sabes que eu gosto
de ti”. Repararam na enorme
diferença?
Cristo passou pregando o AMOR
entre os homens como um
mandamento tão poderoso como O
AMOR A DEUS e, exige de Pedro a
amplitude deste amor. Pedro, um
homem rude, não capta esta
sutileza. Só vem a percebê-la
quando o Mestre inverte a
pergunta, o que também não foi
obedecido no texto grego e
português.
Pergunta o Cristo, nesta 3ª.
vez: Simão, filho de João, tu
gostas de mim mais que estes
outros”. Aí é que Pedro percebe
a troca do verbo que concede à
questão um sentimento muito mais
amplo. Era como se Cristo apenas
quisesse saber se Pedro gostava
do Mestre como se gosta de um
parente, de uma outra pessoa
qualquer. Por isto ele se
entristece.
Não é muito difícil entender
porque a tradição quis ligar
esta tripla profissão com a
tríplice negação. Nem é de todo
impossível perceber que Pedro
tenha se lembrado do episódio em
que negara o Mestre. Triste, por
ser tardo em compreender ele
corrige-se em tempo: “Senhor, tu
tudo sabes. E sabes que eu te
amo”.
É esta a resposta que a
pedagogia do Mestre quer: AMOR,
mais que tudo. Não o amor
carnal, erótico. O AMOR de quem
é capaz de trocar sua vida pela
de um semelhante, exemplo que o
Mestre acabara de dar na sua
morte de Cruz.
Quando pois estivermos a
refletir sobre a nossa condição
humana e a outra que nos faz
filhos diletos por quem o Pai
Celeste, por AMOR a todas as
criaturas, entregou seu próprio
Filho é preciso que respondamos:
Qual o sentimento que nutrimos
por Deus, por Jesus Cristo?
Apenas os admitimos e até temos
uma grande admiração? Ou somos
daqueles que “gostamos” deles?
Quem sabe nós somos aqueles que
dizem – bem alto ou baixinho –
“eu os AMO”.
Qualquer que seja a resposta é
bom saber que há uma outra lição
que nos foi deixada pelo Mestre,
além de seu ato de extremo AMOR
por nós: “Se alguém disser: “Amo
a Deus”, mas odeia seu irmão, é
mentiroso. Porque aquele que não
ama seu irmão, a quem vê, é
incapaz de amar a Deus, a quem
não vê” (1ª. Carta de João
4,20).
São estas pequenas sutilezas
linguísticas e das traduções que
mudam a essência de toda a
mensagem. Também assim o é
quando tratamos do termo alma
(do latim “anima”). Bem, mas
disto eu falo na próxima...