REMINISCÊNCIAS:
A MENINA DE
TRANÇAS
Paccelli José Maracci Zahler

Eu devia contar com
cincos anos de idade quando a vi
tocando gaita ao redor de uma
fogueira de São João.
Provavelmente, fora meu primeiro
contato com uma festa junina.
A fogueira era bonita. Irradiava um
calor gostoso, aconchegante, na
noite fria de inverno. Ao redor
dela, os vizinhos cantavam,
brincavam de roda, animados pelos
acordes da gaita da menina de
tranças longas, vestida de prenda.
Assim ficávamos, cantando canções
alusivas a São João, brincando,
soltando foguetes e bombinhas até a
fogueira tornar-se brasa.
Os meninos mais velhos buscavam uma
solução caseira para as estrelinhas
industrializadas e caras. Pegavam
uma esponja de aço, amarravam-na em
um cordão, acendiam-na com um
fósforo e começavam a rodá-la
rapidamente, formando um carrossel
de estrelinhas com as fagulhas.
Quando a fogueira diminuía, alguns
corajosos protegiam o rosto com suas
jaquetas e pulavam-na. Em pouco
tempo, estavam com os rostos negros
de fuligem. Quando a fogueira virava
brasa, caminhavam com os pés
descalços sobre ela.
Eu ficava impressionado, pois o fogo
é muito traiçoeiro. Ninguém se
queimava. Dizia-se que São João
protegia seus devotos. Protegia
mesmo!
Passada a festividade, muitas vezes
via a menina de tranças passando sob
a minha janela. Não sabia o seu
nome. Contudo, um dia minha avó
esclareceu o mistério. Ela se
chamava Arminda. As duas eram xarás.
Mudei-me, cheguei à puberdade. Tinha
por hábito assistir às matinês de
domingo do Cine Avenida. A sessão
começava às 13h30min, com dois
filmes.
Era um período de descobertas,
principalmente de cidadania, e as
matinês de domingo acabavam sendo
uma verdadeira escola. Aprendíamos a
comprar as entradas, a receber e
conferir o troco, a respeitar a fila
para entrar, a apresentar documento
de identidade quando havia censura
etária, a fazer silêncio durante as
sessões, a ler as legendas, sob o
olhar vigilante dos lanterninhas.
Qualquer deslize e corríamos o risco
de levar uma chamada ou de sermos
expulsos da sala de projeção.
Naquela época, quem fosse pego
fumando durante a sessão, ou apagava
o cigarro ou era retirado
sumariamente do recinto. Era
proibido, também, levar lanterna e
ligá-la durante a projeção. E aí é
que estava a adrenalina.
Era comum o uso de lanternas de
bolso, acopladas a chaveiros, as
quais faziam o maior sucesso no
início das sessões quando as pessoas
estavam chegando e os lanterninhas
estavam ocupados.
Fumar era símbolo de “status” e de
sucesso. Os heróis do cinema fumavam
e todo mundo era doido para fumar.
Certa feita, meu amigo Éber teve a
idéia de comprar uma carteira de
cigarros e fósforos para fumarmos no
escurinho do cinema. Seria uma
demonstração de independência e
maioridade.
Apreensivo com o risco, aceitei a
proposta. Cotizamos meio a meio e
compramos uma carteira de cigarros
Hollywood e uma caixa de fósforos
Guarany na tabacaria ao lado.
Fomos para o Cine Avenida,
escolhemos o mezanino e esperamos o
momento certo.
No mezanino tudo acontecia.
Ligava-se a lanterna durante as
sessões, fumava-se, ou subia-se nas
cadeiras para fazer gestos obscenos
e vê-los projetados na tela, pois
estava-se próximo da luz emitida
pelo projetor, razão pela qual era
muito vigiado pelos lanterninhas e o
desespero do projetista.
A sessão começou com as notícias do
Canal 100. Acendemos o cigarro.
Em uma fração de segundos o
lanterninha nos interceptou,
mandou-nos apagá-lo ou seríamos
expulsos da sala. Não tivemos outra
alternativa.
Diante do incidente, todos os que
estavam ao nosso redor, voltaram
seus olhos para nós. Ficamos
envergonhados.
Para minha surpresa, a menina de
tranças estava sentada à minha
frente, reconheceu-me e passou-me o
maior pito, dizendo que eu era muito
pequeno para estar fumando.
A imagem de Arminda ralhando comigo
está viva na minha memória. É como
se fosse hoje, neste exato momento.
Graças a ela, nunca fumei.
No alvorecer da década de 1970, o
mundo estava agitado com a guerra do
Vietnã e com o movimento “hippie”.
Jovens abandonavam seus lares, seus
estudos, para viver em comunidades
alternativas ou andar pelo mundo em
busca de respostas para suas
aflições. Fazia-se apologia da
liberdade sexual, com o advento dos
contraceptivos, e do uso de drogas,
maconha, cocaína, heroína, drogas
injetáveis, cogumelos alucinógenos.
Lembro-me de ter lido uma reportagem
na revista Manchete sobre um
porquinho de estimação que fora
viciado pelo dono em drogas
injetáveis nos Estados Unidos.
Fiquei com dó do bichinho.
A droga era um tabu a ser vencido,
um paraíso artificial, condição
básica para ser aceito em
determinados grupos.
Para ser atual, era preciso ser
“cabeça feita”, ter experimentado
pelo menos o lança-perfume
contrabandeado da Argentina ou do
Paraguai.
No colégio, era comum ouvir
conversas sobre experiências
alucinógenas. Lembro-me do Pedro
comentando ter cheirado tanto um
lança-perfume aspergido em um lenço,
que vira répteis se arrastando em
sua direção.
A Mariana dizia que, fumando
maconha, conseguia ver a aura das
pessoas e das coisas, que tudo
ficava mais colorido, mais
interessante.
Naquele tempo, os livros do Carlos
Castañeda, sobre a sua iniciação
xamânica com um velho índio de
Sonora, no México, conhecido como
Dom Juan, utilizando cogumelos
alucinógenos, corriam de mão em mão.
A busca de uma experiência
psicodélica, mística, passou a ser o
objetivo de vida de algumas pessoas.
Foi nessa época que eu tive um
choque ao ver a Arminda trôpega pela
rua. Fiquei me perguntando sobre o
que acontecera e se estaria doente
ou bêbada.
Soube posteriormente que seus pais
vinham se desentendendo há algum
tempo e que ela presenciara uma
forte discussão. Seu mundo
desmoronara. Largara os estudos, a
música, seus sonhos e ideais e
entregara-se às drogas.
Doeu-me saber que a menina de
tranças que me repreendera por
fumar, não recusava um baseado, um
lança-perfume, uma droga injetável.
Não tive mais notícias dela e
alimento a esperança de que tenha
retomado seus sonhos e desenvolvido
seus talentos.
Em determinada ocasião, ouvi uma
frase, a de que “os pais não têm
vida própria, suas vidas pertencem
aos filhos até eles se tornarem
independentes”.
Admiro a coragem de quem tem filhos
e consegue educá-los sem problemas,
tornando-os cidadãos equilibrados.
Os pais são os primeiros heróis das
crianças e, querendo ou não, têm de
dar exemplos de honestidade, de
amizade. São ao mesmo tempo
educadores, psicólogos, um porto
seguro nos momentos de aflição. Nem
sempre é assim e os filhos acabam
encontrando respostas fora do lar.
Corroboro as palavras do político
capixaba Neuzimar Fraga: “Adote seu
filho antes que o traficante o adote”.
http://www.caestamosnos.org/Liga_Amigos_CEN/Paccelli/Index.html