Espero que esteja
tudo bem com você, minha querida
mãe. O fim de semana não foi
como poderia ter sido mas, como
sempre você me ensinou, procuro
sempre ver o outro lado da
história. Nosso sábado tinha
tudo para ser o melhor de nossas
vidas. Para nós, com certeza,
não foi, mas para o vovô eu sei
que sim. A senhora pode
estranhar isso que escrevo, mas
é porque mal tivemos tempo de
conversar direito em virtude das
mil e uma coisas que tivemos que
resolver, por isso te escrevo
essa carta.
Depois de tantos
anos fora de João Monlevade, e
impossibilitado de viajar
grandes distâncias, decidi
economizar o dinheiro das férias
para voltar com vovô à cidade.
Ele insistia que não queria dar
despesas, coisa de gente idosa,
mas era o mínimo que podia fazer
como forma de agradecê-lo por
ter me acolhido aqui no Planalto
Central, onde cheguei sem nada
para trabalhar como
free-lancer de um jornal de
Minas. De fato não consegui
muita coisa, mas se não fosse o
carinho do vovô, não teria
suportado a vida na cidade
grande, principalmente o calor
que faz aqui.
E como ele foi
forte, mãe! Depois do derrame,
ele tinha dificuldades para
falar, mas se esforçava durante
os dias que íamos à praça aqui
perto de casa para contar aos
amigos as repetidas histórias
sobre Monlevade. Seu principal
desejo: voltar à querida terra,
mesmo que pela última vez.
Sem que ele
soubesse, comprei as passagens e
avisei: vamos voar para Minas
neste fim de semana. Na
sexta-feira, ele nem parecia uma
pessoa que convalescia. Nem
mesmo comentou do seu famoso
medo de avião. Levantou,
sorrateiramente, fez a barba, me
preparou o café... Parecia o
vovô dos velhos tempos! Colocou
seu melhor paletó, sua boina,
fez questão de levar para o
aeroporto o jornal aí da cidade
que vem pelo correio. Nem
reclamou do atraso no vôo. Vovô
parecia renascido a cada
quilômetro mais perto de
Monlevade.
Seguimos pela
BR-381 num táxi que tomamos em
Belo Horizonte. Ele comentou
sobre alguns acidentes que
cobriu bem antes de terminar a
faculdade e conseguir um bom
emprego na capital, que terminou
com sua transferência para
Brasília. Cantou um velho
sucesso italiano, recontou como
conheceu a vovó.
Ao avistarmos a
cidade, silêncio total. Os olhos
de vovô já diziam tudo. Ele
estava admirado como o município
crescera. Perguntei se queria
descansar um pouco antes de
visitarmos os parentes.
Respondeu que não. Pediu apenas
para almoçar no velho
restaurante onde costumava se
reunir com os colegas,
reencontrando lá o velho
Domingues, amigo dos tempos de
redação no interior.
Os dois se
cumprimentaram, relembraram
várias histórias e choraram
quando se despediram. Vovô
enxugou as lágrimas com seu
lenço azul e depois pediu para
rever a Belgo. Entrou na Fazenda
Solar, viu o museu do aço.
Apesar de nunca ter sido muito
religioso, rezou na Matriz de
São José Operário. Parecia um
moleque quando, mesmo com
dificuldade, jogou duas pedras
no rio Piracicaba. Sentou-se
perto de algumas crianças que
brincavam debaixo das árvores
quase centenárias da rua Beira
Rio. Falou do seu tempo de
criança. Alguns adultos também
se sentaram para ouvi-lo. Um
deles comentou que era filho do
Figueirinha, outro amigo
jornalista. Vovô lamentou que o
colega já tivesse morrido, mas
disfarçou a tristeza com um
sorriso. Depois olhou no
relógio, constatou como ficara
tarde. Apressadamente, me pediu
para levá-lo ao alto do bairro
Satélite.
No início relutei,
pois já estava ficando frio. Mas
o olhar de reprovação de vovô me
fez mudar rápido de idéia. Lá no
bairro onde sempre morou até se
mudar de Monlevade, o vento
soprava fresco. O clima de paz
era o mesmo de sua época de
criança. Andou por algumas umas
ruas repetindo exatamente o que
fazia nos tempos de rapaz.
Apesar de ter sido reconhecido
por umas pessoas, não deu muita
idéia para os que tentaram
conversar com ele. Chegou a uma
praça, sentou-se num dos bancos
e ficou ali admirando o
pôr-do-sol. Eu sentei ao lado
dele e o abracei. Vovô deu uma
gargalhada gostosa e me
agradeceu por tê-lo feito tão
feliz naquele dia. Depois,
silenciosamente, chorou
sorrindo. Encostou a cabeça no
meu ombro, suspirou que fora
muito feliz em João Monlevade e
adormeceu para a eternidade. Eu
poderia ter entrado em desespero
naquela hora, pois acabava de
perder uma das pessoas mais
importantes de minha vida. Mas
não me rendi às lágrimas, apesar
do lamento. Calmamente o deitei
sobre o banco e liguei para a
família.
Aqui em Brasília,
alguns de nossos parentes me
acusam de ter lavado o vovô para
a morte. Não consigo ver esse
lado. A expressão de ternura que
ficou no rosto do meu velho e
querido avô foi o meu consolo.
Naquele sábado, depois de anos,
era a primeira vez que o via tão
alegre. Talvez vovô, sorrateiro
que era, fez questão de nos
deixar justamente quando voltou
a Monlevade porque quis
eternizar aquele momento de
felicidade. Não vou mentir que
sinto falta dele. Mas o exemplo
que vovô me deu de amor pela sua
cidade natal é o mesmo
sentimento que carrego comigo.
Hoje estou aqui fazendo minha
vida bem longe, mas espero um
dia poder envelhecer aí. Ao lado
dessa terra que tanto amo, ao
lado de pessoas que muito me
fazem bem.
Em breve, espero
poder voltar para Monlevade,
mamãe, como vovô sempre quis e
conseguiu! Prometo que não serei
tão ausente como tenho sido. A
sua benção e fique com Deus.
Do seu filho que
te ama, Dudu.
Brasília, 30 de
abril de 2030
Conto
vencedor da categoria “Conto
Municipal” do I Prêmio Solar
de Literatura da cidade de
João Monlevade-MG, em 2007.
Promoção:
Instituto Solar