"Minha Pátria é a Língua Portuguesa" Fernando Pessoa

 

Edição e Arte Final: Iara Melo

 

Nº 32 - Outubro - 2008

 

 

De volta para sempre

Breno Eustáquio

 

 


 

Espero que esteja tudo bem com você, minha querida mãe. O fim de semana não foi como poderia ter sido mas, como sempre você me ensinou, procuro sempre ver o outro lado da história. Nosso sábado tinha tudo para ser o melhor de nossas vidas. Para nós, com certeza, não foi, mas para o vovô eu sei que sim. A senhora pode estranhar isso que escrevo, mas é porque mal tivemos tempo de conversar direito em virtude das mil e uma coisas que tivemos que resolver, por isso te escrevo essa carta.

Depois de tantos anos fora de João Monlevade, e impossibilitado de viajar grandes distâncias, decidi economizar o dinheiro das férias para voltar com vovô à cidade. Ele insistia que não queria dar despesas, coisa de gente idosa, mas era o mínimo que podia fazer como forma de agradecê-lo por ter me acolhido aqui no Planalto Central, onde cheguei sem nada para trabalhar como free-lancer de um jornal de Minas. De fato não consegui muita coisa, mas se não fosse o carinho do vovô, não teria suportado a vida na cidade grande, principalmente o calor que faz aqui.

E como ele foi forte, mãe! Depois do derrame, ele tinha dificuldades para falar, mas se esforçava durante os dias que íamos à praça aqui perto de casa para contar aos amigos as repetidas histórias sobre Monlevade. Seu principal desejo: voltar à querida terra, mesmo que pela última vez.

Sem que ele soubesse, comprei as passagens e avisei: vamos voar para Minas neste fim de semana. Na sexta-feira, ele nem parecia uma pessoa que convalescia. Nem mesmo comentou do seu famoso medo de avião. Levantou, sorrateiramente, fez a barba, me preparou o café... Parecia o vovô dos velhos tempos! Colocou seu melhor paletó, sua boina, fez questão de levar para o aeroporto o jornal aí da cidade que vem pelo correio. Nem reclamou do atraso no vôo. Vovô parecia renascido a cada quilômetro mais perto de Monlevade.

Seguimos pela BR-381 num táxi que tomamos em Belo Horizonte. Ele comentou sobre alguns acidentes que cobriu bem antes de terminar a faculdade e conseguir um bom emprego na capital, que terminou com sua transferência para Brasília. Cantou um velho sucesso italiano, recontou como conheceu a vovó.

Ao avistarmos a cidade, silêncio total. Os olhos de vovô já diziam tudo. Ele estava admirado como o município crescera. Perguntei se queria descansar um pouco antes de visitarmos os parentes. Respondeu que não. Pediu apenas para almoçar no velho restaurante onde costumava se reunir com os colegas, reencontrando lá o velho Domingues, amigo dos tempos de redação no interior.

Os dois se cumprimentaram, relembraram várias histórias e choraram quando se despediram. Vovô enxugou as lágrimas com seu lenço azul e depois pediu para rever a Belgo. Entrou na Fazenda Solar, viu o museu do aço. Apesar de nunca ter sido muito religioso, rezou na Matriz de São José Operário. Parecia um moleque quando, mesmo com dificuldade, jogou duas pedras no rio Piracicaba. Sentou-se perto de algumas crianças que brincavam debaixo das árvores quase centenárias da rua Beira Rio. Falou do seu tempo de criança. Alguns adultos também se sentaram para ouvi-lo. Um deles comentou que era filho do Figueirinha, outro amigo jornalista. Vovô lamentou que o colega já tivesse morrido, mas disfarçou a tristeza com um sorriso. Depois olhou no relógio, constatou como ficara tarde. Apressadamente, me pediu para levá-lo ao alto do bairro Satélite.

No início relutei, pois já estava ficando frio. Mas o olhar de reprovação de vovô me fez mudar rápido de idéia. Lá no bairro onde sempre morou até se mudar de Monlevade, o vento soprava fresco. O clima de paz era o mesmo de sua época de criança. Andou por algumas umas ruas repetindo exatamente o que fazia nos tempos de rapaz. Apesar de ter sido reconhecido por umas pessoas, não deu muita idéia para os que tentaram conversar com ele. Chegou a uma praça, sentou-se num dos bancos e ficou ali admirando o pôr-do-sol. Eu sentei ao lado dele e o abracei. Vovô deu uma gargalhada gostosa e me agradeceu por tê-lo feito tão feliz naquele dia. Depois, silenciosamente, chorou sorrindo. Encostou a cabeça no meu ombro, suspirou que fora muito feliz em João Monlevade e adormeceu para a eternidade. Eu poderia ter entrado em desespero naquela hora, pois acabava de perder uma das pessoas mais importantes de minha vida. Mas não me rendi às lágrimas, apesar do lamento. Calmamente o deitei sobre o banco e liguei para a família.

Aqui em Brasília, alguns de nossos parentes me acusam de ter lavado o vovô para a morte. Não consigo ver esse lado. A expressão de ternura que ficou no rosto do meu velho e querido avô foi o meu consolo. Naquele sábado, depois de anos, era a primeira vez que o via tão alegre. Talvez vovô, sorrateiro que era, fez questão de nos deixar justamente quando voltou a Monlevade porque quis eternizar aquele momento de felicidade. Não vou mentir que sinto falta dele. Mas o exemplo que vovô me deu de amor pela sua cidade natal é o mesmo sentimento que carrego comigo. Hoje estou aqui fazendo minha vida bem longe, mas espero um dia poder envelhecer aí. Ao lado dessa terra que tanto amo, ao lado de pessoas que muito me fazem bem.

Em breve, espero poder voltar para Monlevade, mamãe, como vovô sempre quis e conseguiu! Prometo que não serei tão ausente como tenho sido. A sua benção e fique com Deus.

Do seu filho que te ama, Dudu.

Brasília, 30 de abril de 2030

 

Conto vencedor da categoria “Conto Municipal” do I Prêmio Solar de Literatura da cidade de João Monlevade-MG, em 2007.

Promoção: Instituto Solar


 

 

 
 
 

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