"Minha Pátria é a Língua Portuguesa" Fernando Pessoa

 

 

Edição nº 34 - Novembro de 2008

Editor: Carlos Leite Ribeiro

Arte Final: Iara Melo

 

 

 

CONFLITO

 

 

 

 

Benedita Azevedo

 

 

 

 

    Feito um animal debate-se em busca de algo que nem ele sabe o que é. Uma angústia interior devora-o tal qual um veneno. Nada lhe parece coerente com o que sempre acreditou. Analisa seu estado e não chega a nenhuma conclusão. Um vazio interior devora-o. Tateia mentalmente seu órgão propulsor da vida e parece que nem bate mais. Respira fundo a ver se o localiza e parece que a cavidade está vazia.

   O cérebro atordoado não atina com a causa de tamanha inquietação. Tenta rememorar seus dias atribulados em busca da sobrevivência, mas isso também não surte efeito. A preocupação que ficara no passado, agora pouco lhe importa. Tudo vazio, sem importância neste momento.

     Sua vida passada e futura está fora de seu corpo presente. Nada lhe desperta interesse. Mesmo o ato de escrever que lhe dava tanto prazer, agora lhe parece que os conteúdos não existem.  Os filhos, os netos que lhes causavam preocupações, não lhe despertam o mesmo sentimento.

      Tem consciência de que não está em seu estado normal. A vida de uma hora para outra se tornara tão insignificante que seus objetivos antes buscados com ardor agora lhes parecem distantes e duvida de que tenha lutado tanto por eles. Que se lançara a uma busca partindo do nada, tal um corpo atraído por um ímã ladeira acima, passando por cima de pedras, espinhos, por cima do mato, como se anestesiado não percebesse e não sentisse as chagas abertas nos trancos e barrancos daquela atração exercida pelas alturas.

      Encontrou obstáculos que o detiveram em patamares áridos, rolando, subindo descendo, até que num impulso maior foi sugado para cima rolando em desequilíbrio, batendo com a cabeça em pedras, rasgando o rosto em espinhos agudos que lhes dilaceravam a pele e sangravam. A dor fazia parte do processo de subida. Continuava sendo puxado para cima meio atordoado sem saber onde deveria parar. Súbito viu-se no topo de um pequeno monte. Não era a montanha mais alta, mas, os obstáculos foram muitos para chegar até aquele ponto.

    O ímã perdera parcialmente a força que o atraía. Embora ainda tentasse, não engrenava na subida. Perambulava naquele patamar sem encontrar nada que o interessasse. Queria o que estava no topo da montanha mais alta. Mas, o seu combustível estava no fim. O ímã perdera a imantação.

     Ele agora queria descer a montanha em busca do magnetismo que o impulsionara até ali, da atração que o arrastara morro acima sem olhar por onde passava.  Agora teria de usar a própria força para descer sobre pedras, espinhos, mato e o seu desânimo.

     Perdido entre bruma espessa não consegue vislumbrar, com clareza, vultos que se movem à sua volta tentando se comunicar; outros em atitudes agressivas. Tenta decodificar a mensagem e debate-se em busca de uma solução. Talvez seja melhor permanecer naquele lugar, embora, não consiga se encontrar ali. Falta-lhe a energia que faz a vida fluir.

     Olha para cima e vislumbra o topo da montanha coberto por nuvens brancas tocando o infinito. Lembra-se de que pretendera chegar até lá e lamenta sua falta de interesse.

     Olha para baixo e vê os campos plantados. Os rios serpenteando entre o verde da floresta em busca do mar. A fauna a movimentar-se entre a flora. Se pudesse voltaria para a base. Misturar-se-ia à fauna e cheio de energia correria pelos campos, nadaria nos rios e começaria tudo outra vez. Mas como fazer isso com o vazio que sente no peito, sua estrutura corpórea já não tem mais a mesma agilidade de antes. Não tem outra saída senão permanecer ali naquela pequena elevação.

      Subitamente identifica as figuras que o rodeiam. Comunica-se e troca experiências adquiridas naquela subida desenfreada, durante tantos anos. Não conta mais com a força de propulsão de seu ímã interior para subir, mas, não quer jogar-se montanha abaixo sem equilíbrio e rolar até à base, feito folha seca no inverno. Acomoda-se naquele meio termo e busca o calor das figuras que ali se movimentam. De mãos dadas juntam-se ao ambiente, aquecem-se, transformam o nevoeiro em calor humano através de atividades variadas: festas, viagens, participam de concursos e aguardam uma lufada de vento outonal que os transportem ao infinito, acima da montanha mais alta.  

 

Praia do Anil, 18.08.2008

Benedita Azevedo

 

 

 

 
 
 
 

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