Feito um animal debate-se em busca
de algo que nem ele sabe o que é.
Uma angústia interior devora-o tal
qual um veneno. Nada lhe parece
coerente com o que sempre acreditou.
Analisa seu estado e não chega a
nenhuma conclusão. Um vazio interior
devora-o. Tateia mentalmente seu
órgão propulsor da vida e parece que
nem bate mais. Respira fundo a ver
se o localiza e parece que a
cavidade está vazia.
O cérebro atordoado não
atina com a causa de tamanha
inquietação. Tenta rememorar seus
dias atribulados em busca da
sobrevivência, mas isso também não
surte efeito. A preocupação que
ficara no passado, agora pouco lhe
importa. Tudo vazio, sem importância
neste momento.
Sua vida passada e
futura está fora de seu corpo
presente. Nada lhe desperta
interesse. Mesmo o ato de escrever
que lhe dava tanto prazer, agora lhe
parece que os conteúdos não existem.
Os filhos, os netos que lhes
causavam preocupações, não lhe
despertam o mesmo sentimento.
Tem consciência de que
não está em seu estado normal. A
vida de uma hora para outra se
tornara tão insignificante que seus
objetivos antes buscados com ardor
agora lhes parecem distantes e
duvida de que tenha lutado tanto por
eles. Que se lançara a uma busca
partindo do nada, tal um corpo
atraído por um ímã ladeira acima,
passando por cima de pedras,
espinhos, por cima do mato, como se
anestesiado não percebesse e não
sentisse as chagas abertas nos
trancos e barrancos daquela atração
exercida pelas alturas.
Encontrou obstáculos
que o detiveram em patamares áridos,
rolando, subindo descendo, até que
num impulso maior foi sugado para
cima rolando em desequilíbrio,
batendo com a cabeça em pedras,
rasgando o rosto em espinhos agudos
que lhes dilaceravam a pele e
sangravam. A dor fazia parte do
processo de subida. Continuava sendo
puxado para cima meio atordoado sem
saber onde deveria parar. Súbito
viu-se no topo de um pequeno monte.
Não era a montanha mais alta, mas,
os obstáculos foram muitos para
chegar até aquele ponto.
O ímã perdera
parcialmente a força que o atraía.
Embora ainda tentasse, não engrenava
na subida. Perambulava naquele
patamar sem encontrar nada que o
interessasse. Queria o que estava no
topo da montanha mais alta. Mas, o
seu combustível estava no fim. O ímã
perdera a imantação.
Ele agora queria descer
a montanha em busca do magnetismo
que o impulsionara até ali, da
atração que o arrastara morro acima
sem olhar por onde passava. Agora
teria de usar a própria força para
descer sobre pedras, espinhos, mato
e o seu desânimo.
Perdido entre bruma
espessa não consegue vislumbrar, com
clareza, vultos que se movem à sua
volta tentando se comunicar; outros
em atitudes agressivas. Tenta
decodificar a mensagem e debate-se
em busca de uma solução. Talvez seja
melhor permanecer naquele lugar,
embora, não consiga se encontrar
ali. Falta-lhe a energia que faz a
vida fluir.
Olha para cima e
vislumbra o topo da montanha coberto
por nuvens brancas tocando o
infinito. Lembra-se de que
pretendera chegar até lá e lamenta
sua falta de interesse.
Olha para baixo e vê os
campos plantados. Os rios
serpenteando entre o verde da
floresta em busca do mar. A fauna a
movimentar-se entre a flora. Se
pudesse voltaria para a base.
Misturar-se-ia à fauna e cheio de
energia correria pelos campos,
nadaria nos rios e começaria tudo
outra vez. Mas como fazer isso com o
vazio que sente no peito, sua
estrutura corpórea já não tem mais a
mesma agilidade de antes. Não tem
outra saída senão permanecer ali
naquela pequena elevação.
Subitamente identifica
as figuras que o rodeiam.
Comunica-se e troca experiências
adquiridas naquela subida
desenfreada, durante tantos anos.
Não conta mais com a força de
propulsão de seu ímã interior para
subir, mas, não quer jogar-se
montanha abaixo sem equilíbrio e
rolar até à base, feito folha seca
no inverno. Acomoda-se naquele meio
termo e busca o calor das figuras
que ali se movimentam. De mãos dadas
juntam-se ao ambiente, aquecem-se,
transformam o nevoeiro em calor
humano através de atividades
variadas: festas, viagens,
participam de concursos e aguardam
uma lufada de vento outonal que os
transportem ao infinito, acima da
montanha mais alta.
Praia do Anil, 18.08.2008
Benedita Azevedo