"Minha Pátria é a Língua Portuguesa" Fernando Pessoa

 

 

Edição nº 37 - Novembro de 2008

Editor: Carlos Leite Ribeiro

Arte Final: Iara Melo

 

 

 

 

 

MENINOS DE RUA

VOLTA AO PASSADO

 

Jussára C. Godinho

 

 

 

 
 Meninos de Rua

 


O dia era frio, muito frio, chuvoso, nublado e escuro, a sensação era de que o vento cortava, sangrando a pele. Poucas pessoas arriscavam sair às ruas. O mês de junho, no extremo sul do país, maltrata alguns cidadãos.
Envolvida em mantas de tricô, os famosos cachecóis, luvas e botas de couro legítimo, a Madame pára seu carro importado no sinal vermelho. Surge a sua frente um menino adolescente, quase moço, muito magro, corpo quase nu, coberto com tinta prateada, mexendo seus malabares. Mal podia acreditar que alguém pudesse suportar aquele frio em pêlo. Misérias do mundo! A Madame tira da bolsa, etiquetada com marca internacional, algumas moedas - que sobraram, talvez, do cabeleireiro, da massagem, da manicure?- para pagar o show.
Na quadra seguinte, outro sinal vermelho, fechado, gritando Pare, Olhe, Atenção! Outro menino, agora criança, vendendo balas, no carro se encosta. Nas costas o peso de ser diferente, carente, tão pequeninho, lutando sozinho, vendendo bala, cheirando cola, sem escola, pedindo esmola. Mas quem dá bola para um vendedorzinho de bala que só precisa de colo, de carinho, de uma boa escola, de um prato de feijão e de um pouquinho de atenção?
Enquanto a Madame seguia seu caminho sem olhar para trás, o menino seguia sua espera, espera, espera...

Jussára C Godinho

 


 


Volta ao Passado



Era uma tarde, dessas tardes frias de inverno sulino, em que alguns raios de sol insistentes rasgam as nuvens densas de um céu meio cinzento.

Andando por aquelas ruas, resolvi parar. Mostraria o lugar a minhas filhas.

- Meu Deus! Há quanto tempo! Tudo tão diferente.

Aqui neste lugar deixara parte de mim. Aquela menininha magricela de cabelos encaracolados e tão longos quanto a sua ingenuidade ficara perdida ali, quem sabe sentada naquela pedra debaixo do abacateiro, lá longe, no fundo do quintal.

Melancólica - Ou triste? - percebi que nada mais era igual. A rua, agora asfaltada, escondia aquela que tantas vezes percorrera. As casas, todas diferentes: outras formas, outras cores, outras pessoas.

-Ah! Aquela vizinha! (Como era mesmo o nome dela?) Onde andará? O que terá acontecido com ela? E seus filhos? Terão sido felizes?

Ali correm crianças, outras crianças, outro tempo. Onde estarão essas crianças daqui a trinta anos?

Trinta anos...Uma vida...

Tudo diferente, tudo transformado. Nada mais igual. E eu?

Perdida nesses pensamentos, com o coração transbordando de lembranças, umas atropelando as outras, parei ao vê-lo tão exuberante, tão único, tão igual, acenando suas folhas verdes como se estivesse me reconhecendo. Era ele! Aquele abacateiro que morava no fundo do meu quintal. Sozinho. Como eu? Onde estaria aquela pedra? Ele era a única coisa que sobrara. E aquelas flores em meio ao mato crescido naquela imensidão vista pelos meus olhos de menina? O quintal parecia tão longe! E agora via-o tão perto! Ah, os olhos de criança!

Lágrimas brotaram de meus olhos adultos e ...Rolaram como há muito não acontecia.

E o abacateiro permanecia ali, acenando, real, prova concreta e viva de que por ali eu havia passado, minha infância deixado, e, como ele, somente eu havia sobrado.

Jussára C Godinho 

 

 
 
 
 

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