"Minha Pátria é a Língua Portuguesa" Fernando Pessoa

 

 

Edição nº 38 - Dezembro de 2008

Editor: Carlos Leite Ribeiro

Arte Final: Iara Melo

 

 

 

 

Surpreendente Admirador

 

 

 

 

 

Ana Maria Nascimento

 


 
      Imergir nossa estrutura física ou parte desta em líquidos, especialmente água, não é uma prática sucedida apenas nos dias contemporâneos. Na verdade, assear e fortalecer o organismo com este fluido necessário à vida e outros prodigiosos ingredientes, perfazem costumes difundidos no nosso convívio, mesmo antes de Cristo.  

      Vale mencionar Cleópatra, a Rainha do Egito, tomando seu banho com leite de cabra e diversas substâncias de incógnita origem; os romanos e sua primordial edificação de termas nas localidades onde venceram, costumes estes repassados a vários povos e usufruídos até hoje mediante sofisticado toque moderno.   
   
      Este prazer anatômico, exercemos mutuamente, nas piscinas ou quando vamos à praia e em circunstâncias opostas somos habituados a pratica-lo sozinhos, em recintos fechados. 

     No entanto, trancar-se era inadmissível a Sofia, jovem afeita a deleitar-se sob ducha diária, mantendo a porta do banheiro semi-aberta. Ação esta que levou curiosa figura de cor quase negra, organismo achatado, membros locomotores carentes de tecidos gordurosos e cabeça desproporcional a penetrar de forma sutil no local, flagrando minuciosos detalhes do escultural corpo desnudo e ali permanecendo, nutrindo as fantasias que lhe aflorava a maquinação secreta.  

     Diante do estranho vulto, o prazer do banho cedeu lugar ao medo, contudo, reprimiu o pânico e, desaparecido o sobressalto, notou-se dividida entre estranhas sensações, causadas pela mera assistência daquele espectador ante-social e dos reflexos portadores de enlevo. 

     O ardiloso assistiu durante longo período aquela cena íntima, que o excitou a aproximar-se da moça e acariciando-lhe as pernas, numa completa ousadia, verteu-lhe na finíssima pele seu característico odor desagradável. 

     Mediante tamanho atrevimento, ela pensou reprimi-lo, impedindo novas infrações. Mas como poderia fazer uso de um estratagema tão diverso dos princípios adotados no trilhar cotidiano?
    
     Vencidos os escrúpulos, resolveu corrigi-lo, pois, deixá-lo sem punição, era aceitar a inoportuna audácia.
    
    Assim, nomeou alguém confiável para aplicar o castigo, recomendando ao executor intensa cautela.

     Ao tomar a valiosa decisão, julgou-se tranqüila sobre as eventuais tentativas futuras do admirador desconhecido. Ignorava apenas, o fato de já ter sido esse “admirador” uma vítima de acidente de percurso e que havia se libertado graças a sua astúcia. No entanto, diante de uma nova agressão, sentindo-se enfraquecido, ele não resistiu ao segundo massacre.

     A respeito da co-autora do crime, mesmo não lhe recaindo nenhuma acusação fundamentada no código penal brasileiro, ao avistar inerte o blatário, conhecido na linguagem popular pelo nome barata, meditou sua atitude, lamentando ter encerrado a história deste animal artrópode, resistível a mudanças inacreditáveis das condições geoclimáticas ocorridas no planeta Terra.  
 


   
   

 

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FOTO UTILIZADA NO TOPO DA PÁGINA, PRAÇA DE GIRALDO EM ÉVORA * PORTUGAL

MONTAGEM E ARTE FINAL DE IARA MELO

MID: OSVALDO MONTENEGRO * "LUA E FLOR"

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