Imergir nossa estrutura
física ou parte desta em
líquidos, especialmente
água, não é uma prática
sucedida apenas nos dias
contemporâneos. Na verdade,
assear e fortalecer o
organismo com este fluido
necessário à vida e outros
prodigiosos ingredientes,
perfazem costumes difundidos
no nosso convívio, mesmo
antes de Cristo.
Vale mencionar Cleópatra, a Rainha do Egito,
tomando seu banho com leite
de cabra e diversas
substâncias de incógnita
origem; os romanos e sua
primordial edificação de
termas nas localidades onde
venceram, costumes estes
repassados a vários povos e
usufruídos até hoje mediante
sofisticado toque
moderno.
Este prazer anatômico, exercemos mutuamente, nas
piscinas ou quando vamos à
praia e em circunstâncias
opostas somos habituados a
pratica-lo sozinhos, em
recintos fechados.
No entanto, trancar-se era inadmissível a Sofia, jovem
afeita a deleitar-se sob
ducha diária, mantendo a
porta do banheiro
semi-aberta. Ação esta que
levou curiosa figura de cor
quase negra, organismo
achatado, membros
locomotores carentes de
tecidos gordurosos e cabeça
desproporcional a penetrar
de forma sutil no local,
flagrando minuciosos
detalhes do escultural corpo
desnudo e ali permanecendo,
nutrindo as fantasias que
lhe aflorava a maquinação
secreta.
Diante do estranho vulto, o prazer do banho cedeu lugar
ao medo, contudo, reprimiu o
pânico e, desaparecido o
sobressalto, notou-se
dividida entre estranhas
sensações, causadas pela
mera assistência daquele
espectador ante-social e dos
reflexos portadores de
enlevo.
O ardiloso assistiu durante longo período aquela cena
íntima, que o excitou a
aproximar-se da moça e
acariciando-lhe as pernas,
numa completa ousadia,
verteu-lhe na finíssima pele
seu característico odor
desagradável.
Mediante tamanho atrevimento, ela pensou reprimi-lo,
impedindo novas infrações.
Mas como poderia fazer uso
de um estratagema tão
diverso dos princípios
adotados no trilhar
cotidiano?
Vencidos os escrúpulos,
resolveu corrigi-lo, pois,
deixá-lo sem punição, era
aceitar a inoportuna
audácia.
Assim, nomeou alguém
confiável para aplicar o
castigo, recomendando ao
executor intensa cautela.
Ao tomar a valiosa decisão, julgou-se tranqüila sobre
as eventuais tentativas
futuras do admirador
desconhecido. Ignorava
apenas, o fato de já ter
sido esse “admirador” uma
vítima de acidente de
percurso e que havia se
libertado graças a sua
astúcia. No entanto, diante
de uma nova agressão,
sentindo-se enfraquecido,
ele não resistiu ao segundo
massacre.
A respeito da co-autora do crime, mesmo não lhe
recaindo nenhuma acusação
fundamentada no código penal
brasileiro, ao avistar
inerte o blatário, conhecido
na linguagem popular pelo
nome barata, meditou sua
atitude, lamentando ter
encerrado a história deste
animal artrópode, resistível
a mudanças inacreditáveis
das condições geoclimáticas
ocorridas no planeta
Terra.