A ÁRVORE DAS PATACAS

 

Silvino Potêncio

 


® “CATRAMONZELADAS” (123)...Rico, de facto, não é aquele que tem, mas aquele que dá. (João Paulo II) --- eu acrescento aqui que; aquele que dá tudo o que tem, não é obrigado a mais. (Silvino Potêncio - Emigrante Português )
 
São Paulo, lá pelos idos do inicio do século vinte (buscar para irmos à festa dos emigrantes), na Vila São José,  foi o lugar onde o Ti Zé Augusto então com vinte e tantos anos foi parar,  na sua condição de emigrante,  vindo de lá de trás dos montes, tendo deixado por lá mulher e três filhos. (dois já eram uns "ganapotes" e um ainda estava na barriga da mãe - a minha querida avô da qual não tenho nenhumas lembranças). Ela foi-se bem antes que eu pudesse memorizar qualquer coisa dela,  além do nome e da casa onde morou, onde criou os seus três filhos e muito ajudou no crescimento dos netos!... quantas saudades do marido lá longe no Brasil durante décadas. Quantos sonhos não realizados,  em detrimento de um outro sonho maior, o de melhorar de vida, numa luta interminável que sempre se repete! ...
... Contava-se, então,  lá pelas tantas da noite fria de inverno, com os seus intermináveis serões à volta da lareira, como só se tem nas terras altas, que o Brasil era uma terra de encanto!...
Era um lugar onde as pessoas que para lá iam, sempre voltavam ricas e com mil histórias para contar; o importante eram as pratas e os cabedais que chocalhavam no bolso dos "torna-viagem" por falta de outros termos da época para designar quem retornava às origens.  
- Adjectivos e predicados mil,  para tudo que aqui existia... tudo de bom e abundante! Nada se comparava à miserável vidinha do nordeste português onde, lá como cá a plebe se destaca da paisagem. - O nordeste de lá nada ficava a dever ao de cá... já naquele tempo e, pelo visto a história se repete ciclicamente ao longo dos séculos.
Posto que naquele tempo ainda existia a tal "carta de chamada", o  meu avô lá arranjou uma para ele,  e assim ele veio ao encontro do seu destino. - Por cá ficou cerca de quarenta anos, e só voltou quando sentiu a hora de repousar.
- Pelo que escutei anos depois, muitos anos depois da sua morte,  e depois de mais ninguém da família jamais ter ido ao Brasil na perseguição do mesmo sonho, ele não encontrou as tais "árvores" que davam as patacas  mas, ele  trabalhava nelas, nas árvores!, ele fazia os cavacos para carregar nas locomotivas, os quais eram depois utilizados para queimar nas fornalhas que alimentavam a caldeira a vapor, etc e tal e coisa...  
Lá da aldeia já tinham vindo para este lado das "grandes águas",  às vezes,  famílias inteiras e a vã promessa na mente dessas gentes se repetia e se traduzia sempre em termos de crença popular;  era que por aqui existiam as tais "árvores das patacas".
 - E por certo o meu velho Avô (que Deus o tenha) não fugiu à regra!, ele veio mesmo atrás de encontrar as tais ditas cujas,  a ver se conseguia melhorar de vida e voltar à santa terrinha como na verdade o fez,  porém com apenas uma mala de mão, que pelo que me contaram talvez fosse apenas a tal mala de cartão que tão bem simboliza a nossa condição...
- Foram quarenta e tal anos de ausência.
- Foram décadas de sacrifícios e trabalhos forçados,  que o obrigaram a voltar  a Caravelas já com bem pouca saúde, talvez com umas bem poucas patacas no bolso,  ganhas com  muito esforço para comprar lá umas terras,  onde ainda hoje os meus irmãos plantam algumas “couvitas”, umas batatas e lá fizeram as suas casas,  e nada mais! 
Três coisas me disseram ser absolutamente indispensáveis para qualquer ser humano se poder considerar plenamente realizado;
- plantar uma árvore que dê fruto!... isso eu fiz ainda pequeno, lá na horta do vale das chouras, cujas maçãs ela as deu mas eu jamais as provei porque nunca estive lá para as comer.
- escrever um livro onde fiquem de alguma forma gravadas as ideias e o sonho de eterna lembrança!... isso eu já fiz e ainda faço porque cada novo dia é uma nova página a acrescentar.
- fazer um filho que nos dê a felicidade de saber que a nossa semente não voltará à terra e  morrer antes de ter germinado sangue do nosso sangue!,... isso eu também já fiz três!, e eles são as minhas árvores mais adoradas. Arvores que embora não tenham "patacas" elas me dão a maior riqueza que podemos esperar da vida; amor!...

Silvino Potêncio/Natal-Brasil –  05. Dez. 2005
 

 

 

  

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