A
CASA TOMBADA PELO
AFETO I E II
Tania Montandon
I
O reino era bonito, florido; a
solidariedade, a disciplina e a
alegria sobressaíam-se na cidade
Fantasia. Por lá vivia um casal:
João e Maria. João, muito
disciplinado, enérgico, sincero,
perfeccionista. Adorava ler e
trabalhar em sua marcenaria que
adaptara na garagem daquela
modesta casa rodeada por árvores
e passarinhos. Motivação,
honestidade e desejo de sempre
melhorar nunca lhe faltou.
Maria era uma moça linda, talvez
a mais bela de Fantasia, sempre
despertava simpatia. Uma cara
boa, bem-humorada estampada no
rosto a acompanhava independente
da ocasião. Possuía uma
generosidade fora do comum e
hospitalidade era um de seus
pontos fortes. Maria também
pintava, costurava e cozinhava
magnificamente.
O casal teve oito filhos. Cada
um com diferentes talentos e
personalidades. A caçula,
Mariazinha, era a princesinha.
Loira, olhos azuis, a que mais
se assemelhava à mãe
fisicamente. Herdara também a
generosidade e dedicação de
Maria. Em relação ao gênio,
parecia-se mais com o pai.
Séria, gostava de ler, fazer
seus trabalhos escolares com
perfeição, embora não tivesse
consciência de seus talentos.
Também pintava como ninguém!
Muito inteligente, sempre a
primeira da classe, até ajudava
as coleguinhas a fazer o dever
de casa. Ensinava bem e tinha
grande paciência. Cresceu e
virou uma mulher, contudo ainda
mantinha uma pele de bebê, o
sorriso e a pureza de alma de
uma criança.
Saiu de casa pra uma vila maior
onde pudesse estudar e
trabalhar, o que era bastante
incomum em Fantasia. Porém a
garota nada tinha de comum.
Queria ser independente, não se
conformava muito bem com o papel
feminino limitado imposto pela
tradição.
O destino apresentou Joãozinho à
Mariazinha, inaugurando um
casamento que gerou dois filhos,
a quem o casal dedicara sua vida
com todo amor.
II
Fantasia era a primeira a
receber a luz e calor solar,
aquecendo os corações no
primeiro entreabrir das
pálpebras dos olhos então
descansados do trabalho do dia
anterior. Os raios luminosos
penetravam pelas pequenas
frestas entre as janelas, portas
e logo anunciava o começo de um
novo dia, celebrado pelo bem
ritmado palrar dos pássaros,
cedo esperando pela agitação da
vida cotidiana.
Uma casa, no entanto, brilhava
mais que as outras em Fantasia.
Não por receber maior quantidade
de luz ou ser feita com material
especial ou qualquer outra coisa
de muito diferente e incomum.
Diria-se ser uma questão de
carisma. Como? Uma casa
carismática? Sim, uma casa
carismática e cativante, sim
senhor. Por que não? Não que ela
em si fosse viva ou pudesse
expressar sorrisos ou outra
peculiaridade humana. Na
verdade, seria impossível chegar
à causa exata e objetiva de como
poderia ela ter uma
característica até então usada
para seres viventes. Eis que se
tinha a impressão de que a casa
vivia. Não tinha sangue, ossos
ou mesmo células, era feita de
cimento, madeira velha e boa,
tinta e algo mais que esqueceram
de nomear e que lhe dava todo o
dom de ser como era: assim,
chamativa, brilhante, um tanto
incômoda por despertar
interesses e procura de
explicações naqueles que fazem
questão de a tudo dar razão e
bons argumentos ou nunca ficavam
satisfeitos.
O que realmente havia de
extraordinário era a
característica de que não
existia mortalidade dentro
daquela casa. Simplesmente, ao
passar pela entrada, não se
encontraria em ponto algum
quaisquer vestígios de morte,
luto, tristeza ou algo do gênero.
Muitos tentaram, inventavam mil
desculpas para investigar de
cabo a rabo e nunca se conseguiu
nem explicação nem indício de
mortalidade ali dentro. Mágica?
Não, apenas uma teimosia
idiossincrásica de não se apegar
a tais pecuinhas da mísera
humanidade. Havia como uma ordem
maior de que ali não existiria
mortalidade e assim o era. Sem
maiores ou menores explicações.
Isso inquietava, intrigava
principalmente turistas de
outras regiões que não
conseguiam aceitar ou acreditar
em tal desaforo. Como pode não
existir morte por vontade de uma
casa? Imagino que a casa mesma
nunca se fizera tal pergunta, ou
mesmo qualquer outra pergunta,
afinal era uma casa e casa não
questiona, não pensa, embora
exista e se faça presente e
muito notável.
A casa em si nada tinha de
mistério, não fosse a imaginação
fértil das pessoas. Contudo o
clima interior fazia-se como em
uma cultura singular, fora dos
padrões de ensinamentos e
pensamentos do restante da
cidade e do mundo. Se não
existia morte ali naquele
interior, as pessoas não
adoeciam, envelheciam ou
pereciam jamais? Sim e não. As
pessoas nasciam, cresciam,
viviam, trabalhavam, adoeciam e
morriam como todo ser humano.
Mas não dentro daquela casa
peculiar. Ali sempre ficavam
seus frutos vivos, cartões,
lembranças, fotos, risos,
canções, momentos tantos,
compartilhados e mesmo segredos
ignotos. Somente o vivo
permanecia na casa, embora o
corpo tivesse o mesmo destino
dos de todos. Não havia luto? As
pessoas sorriam quando seu
parente próximo adoecia, sofria
ou falecia? Não, não havia luto
nem festa nem risos ou alegrias
a mais ou a menos, mas sim uma
saudade pacífica, serene,
saudável, viva, extremamente
viva e adornada com as mais
puras energias. Isso não doía?
Sim e não. Sentia-se o
ensinamento da vida como cada um
podia, não exatamente dor,
talvez um desconforto para os
mais jovens que ainda não
compreendiam muitas coisas. Com
o tempo todos incorporavam
aquela maneira de gerar
vitalidade do que o destino lhes
oferecia sem aviso prévio ou
manual de como lidar com aqueles
aspectos da existência.
Afinal, várias gerações passaram
pela casa, assim como a cultura,
o brilho, seus valores e
recursos de convivência e
vivência, sempre com muita
intensidade, fraternidade e,
acima de tudo, vitalidade. Assim
continuou brilhante e
resplandescente essa modesta
casa em Fantasia, atraindo
curiosos e até mesmo cientistas
Tania Montandon