APENAS MAIS UM ENTARDECER

 

 

 

Tchello d’Barros

 

_Alô! Sim, sou eu. Não, não vou pra Floripa hoje. Ah, posso imaginar que a brisa salgada esteja te fazendo muito bem, estou até ouvindo o murmúrio das ondas batendo aí nas pedras duras da Praia Mole. É, ficarei em Blumenau hoje, daqui da Ponte de Ferro dá pra ver esse poente escarlate tingindo lentamente a silhueta da cidade. Um beijo pra você também, tchau-tchau!

Diziam que ela era uma frágil e sensível garota, porém, de temperamento forte e personalidade singular. Esbelta, lisos cabelos cor de cobre, possuía um par de sonhadores olhos azuis, que mais parecem duas gotas do Atlântico. Vive lendo, escrevendo e cercada de letras, versos e livros. Uma biblioteca é seu cenário ideal.

Naquela tarde, depois de ligar para o namorado, contemplava o poente na praia, quando um tanto hipnotizada pelo tapete de estrelinhas que o sol estendia sobre as ondas, acabou adormecendo ali na pedra mesmo, num torpor que lhe levou a sonhar com Quintana e Saramago. Sonhou ainda com belas garças brancas que alçavam vôo na praia, desaparecendo no rubro horizonte. Talvez sejam essas mesmas garças que vem toda tarde trazer o pôr-do-sol e achar pousada nas ramagens debaixo da Ponte de Ferro em Blumenau.

Uma onda mais forte acordou-a, porém não estava mais na praia. Acordara por estranho que pareça, dentro de uma palavra. Atônita, apoplética, percebeu que estava dentro de um círculo branco cujas paredes mediam cerca de um metro e meio de altura, feitas de macios cubos texturizados com escritas em relevo, possivelmente poemas de Camões. Conseguiu sair do círculo e percebeu que estava sobre outro círculo. Ao olhar ao redor é que viu que estava sobre a letra"O" da palavra Amor. Olhando mais ao longe percebeu dezenas, talvez centenas de estruturas como aquela formando palavras e mais palavras. Concluiu que tinha acordado dentro de um poema.

Ainda muito perplexa, começou a explorar o ambiente, pulou sobre a letra "R", depois voltou, caminhou sobre o "M" e ao chegar ao "A", ficou observando o que parecia ser um céu, todo gravado com desenhos fractais e ficou pensando num modo de sair daquele labirinto surreal e infinito coberto de palavras. Sentada sobre o travessão da letra "A", já estava soluçando quando teve a idéia de tentar uma ligação do celular.

_Alô! Não, já saí da ponte, estou no mirante da Beira-rio observando uma família de capivaras sentadas à margem do rio. É, parece que se perguntam onde foi parar aquele barco branco que ficava sempre ali. Sim, perto de onde pousam as garças para passar a noite. O quê? Como assim, está num labirinto de palavras? Ah sei, acordou dentro da palavra Amor, é! Pois então faça o seguinte: junte alguns cubos e vá empurrando-os ao lado do "R" até formar a letra "T". Depois deite sobre ela com o corpo no sentido da coluna da letra e os braços no travessão. Em seguida, querida, respire fundo, relaxe e simplesmente aguarde pegar no sono. Exatamente, apenas faça isso!

E assim foi, apesar do absurdo da situação, ela resolveu tentar. No início estava difícil dormir pois ficou pensando em tudo aquilo, porque não acordou dentro de outra palavra? Por que não a palavra "ouro" ou mesmo "dollar", quem sabe? Pensava ainda na sonoridade da palavra Amor com o "T" ao lado e, imersa nesses devaneios acabou finalmente adormecendo. Sonhou, ainda que por pouco tempo, com as incríveis inscrições rupestres na Ilha do Campeche, os desenhos na pedra formam texturas enigmáticas. Estava nisso quando os gritos estridentes de um bando de gaivotas lhe acordou.

Quando despertou e os seus olhos encontraram o azul do mar, viu que estava novamente na praia. Assustada com tudo que acabara de acontecer, desceu das pedras, sentindo alguma vertigem e caminhou pela areia molhada, que refletia as últimas pinceladas do poente. Ainda percebeu uma pequena garça branca na areia, que foi lhe acompanhando com o olhar até que não se podia mais ouvir o suave murmúrio da espuma das ondas...

 

 

 

  

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