AS MINHAS
PLANTAS
Fernando Morais
As plantas que uma vez plantei e
tenho no meu quintal, vejo-as
crescer todas as manhãs, e
preocupa-me fazer-lhes sombra
com a minha sombra.
Quero todo o sol possível, toda
a luz, para que vivam e cresçam,
para que nos surpreendam cada
dia.
As minhas plantas são odorantes.
O seu perfume é o seu B.I., uma
impressão digital que diz tudo
sobre o seu passado e a sua
formosura.
As minhas plantas não são
ornamentais, são comestíveis,
ajudam a economia caseira, elas
extraem da terra em trabalho
inteligente e digno, os sais, os
sumos, a carne das suas folhas
e flores, as vitaminas dos seus
frutos e braços. As minhas
plantas crescem de forma
ordenada e livre, conforme a
temperatura do quintal,
consoante o equilíbrio entre a
luz e o calor, entre a humidade
da noite e os favores do Sol.
Por artes que as plantas têm,
fazem flores de cor intensa,
outras aconchegam-se aos paus e
arames, enroscam-se nas canas e
sobem pelas paredes para
absorverem energia. Estas
plantas não são de ninguém que
seja humano, nem minhas que as
plantei e semeei com tanto
carinho. Elas pertencem ao Sol e
ao planeta Terra. Enquanto
existem renovam o oxigénio,
alimentam insectos e recriam
equilíbrios ecológicos. As
plantas têm muita força, dão nós
e laços difíceis de desatar,
conhecem à distância o cheiro do
seu dono. Algumas estendem os
seus dedos para me abraçar se
permaneço quieto durante muito
tempo. As plantas avançam pelo
quintal fora à procura do local
ideal onde farão os seus
rebentos, agarram-se a tudo com
denodo. E sobem. Até ao telhado.
As plantas recostam-se no meu
ombro quando o sol foge da vista
e entregam-se ao repouso com
prazer. Enquanto dormem vão
crescendo pelas raízes e sugam
os ácidos e o sangue da terra.
Nas noites quentes ouvem bater o
portão do quintal e espreitam
ao longe as luzes da rua e das
casas.
Escutam as conversas dos homens
, as suas músicas malucas e o
choro dos pobres e das
crianças. Elas distinguem os
justos e sensatos dos falsos e
egoístas. Estremecem com as
nossas angustias, com os nossos
medos.
As plantas nasceram há milhões
de anos, atravessaram os ares e
os Oceanos. Vieram em sementes
leves pelo vento amoroso que as
guiou desde África até Portugal.
Viajaram nas asas das gaivotas,
que se chamavam as meninas do
mar, no bico das andorinhas e
nas patas dos tordos.
Viajaram no cordame das naus e
no convés dos navios, nos bolsos
dos marinheiros e nos ramos
partidos que caíram no mar.
E das Américas chegaram a toda
a Europa e até à Austrália,
foram parar à Índia e ao
Oriente, deram a volta ao Mundo.
Hoje, algumas, estão no meu
quintal. Vivem lá e riem de
satisfeitas por terem encontrado
alguém que as ama. Que é como um
filho, como um irmão !
O feijão verde é colhido sem as
molestar. Come-se ao almoço com
o peixe e as batatas. O pão vem
do trigo e do centeio. As couves
são suculentas e necessárias a
uma alimentação racional. Todos
os legumes são a saúde dos
povos, a sua felicidade. Com o
tempo o homem aprendeu a grande
arte de conhecer todas as
plantas e os seus benefícios. Os
frutos também nascem no meu
quintal onde uma ameixeira dá,
sozinha, centenas de ameixas. É
disto que se faz a felicidade na
Terra!
Esta Ameixeira não a plantei,
veio sozinha das profundezas do
acaso, de algum caroço perdido
no tempo . O alecrim tem
propriedades curativas e
respiratórias que os antigos
aproveitaram com saber e
reconhecimento.
O tomilho tem um odor forte que
não induz em erro a quem lhe
toca : põe-se nos cozinhados,
particularmente nos grelhados e
assados .
A salva tem um perfume intenso e
esplendoroso. Os franceses que
trabalham em perfumaria vêem
buscá-lo à região de Coimbra em
grandes quantidades e compram-no
directamente ao lavrador.
O rosmaninho já pertence à nossa
literatura e à poesia da
Primavera. Quando em flor é
requintado nas formas e nas
cores. Usa-se na farmacopeia e
na Perfumaria. A hortelã existe
em várias qualidades e sabores,
acompanha muito bem o peixe
estufado e faz o mais delicioso
dos chãs.
O cebolinho é muito usado na
cozinha , em cru, ocupa lugar de
relevo nas saladas. A lavanda é
o mais procurado dos perfumes,
podíamos dizer que é a rainha de
todas as Primaveras.
O orégão é um extraordinário
tempero. O anis tem variadas
aplicações como bebida. A
manjerona é muito bonita e o seu
odor extasia. A salsa é
indispensável na cozinha com
excelentes propriedades
curativas. Da cidreira faz-se um
chá maravilhoso. O manjericão
trata as mais diversas doenças
intestinais. O coentro tem um
sabor precioso. A malagueta tem
permitido curar doenças
intestinais. O limonete tem a
máxima beleza, é um arbusto de
cujas folhas se faz um aromático
chã. A camomila é aplicada como
tranquilizante dos nervos, além
de muitas outras virtudes.
Além de todas estas plantas do
meu quintal, que cada uma ocupa
pouco espaço, tenho ainda, os
cravos, as rosas e a esplêndida
Framboesa, os morangos e as
cebolas.