Vivenciar quatro dias de total
desprendimento do trabalho
formal, dos afazeres
institucionais. Viver
intensamente a euforia, a folia,
a brincadeira e até mesmo o
descanso, é muiiiiito bom. Todo
ser humano precisa de diversão,
de folia, de distração, afinal
como diz o compositor: ‘A gente
não quer só comida, a gente quer
comida, diversão e arte.”
Aqui em Baturité, nossa cidade
natal, pacata e acolhedora, por
ocasião do período carnavalesco,
diriam a maioria dos foliões que
tudo transcorreu de forma
tranquila. Porém, entre festa
carnavalesca noturna e mela-mela
diurno, ainda foi identificado
aquele folião que se excede na
bebida, no comportamento; que
vem para os ambientes coletivos
portando armas e só Deus sabe
mais o que. Para evitar
problemas maiores, a segurança
pública também se faz presente,
objetivando inibir os excessos
de uns e outros; para intimidar
aquele folião mais afoito, como
diria minha avó, enfim, para
oferecer segurança a população
de modo geral.
Um destes episódios relacionados
a excesso de foliões e atuação
do aparato policial, eu tive o
dissabor de vivenciar
lamentavelmente, e aqui, através
da palavra escrita, faço o
registro. Talvez como desabafo,
ou como forma de tirar da
memória cenas fortes de
violência e desrespeito a pessoa
humana, tão bem registradas
naquele momento, pelo computador
fabuloso que é a mente humana.
O fato ocorreu por ocasião do
terceiro dia de carnaval, no
mela-mela, quase final da tarde.
Ainda não tinha ido nenhum dia –
já que não tenho muita simpatia
pela atividade – porém nesta
tarde convidei meu esposo para
dar uma ‘espiadinha’. Logo que
cheguei, ficamos de longe
observando o cenário, na calçada
da casa de um amigo. Chamou-me
atenção, a chegada da viatura
policial que parou, os policiais
saíram apressados de dentro e vi
que algo acontecia. Segundo
informações de pessoas que lá se
encontravam, informaram-me que
03 pessoas – homens- foram pegos
portando uma faca e por isso
estavam sendo detidos pela
policia. De repente, não sei
porque motivo – os policias
abriram a porta traseira da
viatura, puxaram os homens
detidos que se encontravam
dentro e começaram as
pancadarias. Eram fortes golpes
de cassetete no abdômen, nas
costas, braços e pernas, além de
golpes de ‘gravata e chave de
braço’ – não sei bem se são
estes os nomes dos golpes .
Formou-se ao redor da viatura
uma grande platéia que assistiam
apavorados, mas silenciosos a
tudo. Paralelo a essa platéia,
uma outra se formava,
diferenciada pelo sexo e pela
coragem – um grupo de MULHERES –
se manifestavam, clamando para
que parassem com aquela ação
violenta e que levassem os
homens para a delegacia para lá
realizarem os procedimentos
legais. As vozes das mulheres
não foram ouvidas e para
surpresa nossa, um dos policiais
se vira para nosso lado e
pergunta se queríamos ficar no
lugar dos que apanhavam. Meu
Deus... fomos ameaçadas por um
policial, por nos manifestarmos
em defesa da vida.
Passei para o outro lado da
viatura, buscando a ajuda de
alguém, e quando lá cheguei me
deparei com um dos homens
apreendidos com um ferimento na
cabeça e coberto de sangue,
perguntei o que tinha acontecido
e relataram que tinha sido o
policial com o cassetete. Neste
mesmo instante a viatura saía
com os outros e o mesmo policial
que fez a ameaça anterior, olha
bem pra mim, aponta para o homem
ferido, sorri e pergunta se
agora eu tinha gostado do
ocorrido.
Jesus, nos olhos e no sorriso do
policial parecia sentir um
grande prazer com tudo aquilo
que acontecia. Parecia
deliciar-se com a dor, com a
ferida e com o sangue que corria
naquele ‘próximo’.
Hoje, dia 25/02, quarta feira de
cinzas, dia do lançamento da
Campanha da Fraternidade que
aborda o tema da Segurança
Pública e que o lema é A Paz
começa com a Justiça, me
pergunto para onde estamos
caminhando? Para a Barbárie? Por
que tanta violência? O que tem
estimulado estes atos de
violência que a toda hora
assistimos na telinha, nos
jornais? O que é mesmo ser
cristão? È ‘freqüentar’ a
igreja, os grupos de oração, os
terços, as pastorais? E o
testemunho de Jesus Cristo? Onde
estão os bons samaritanos de
Baturité, só restaram as
Madalenas? Lembro-me aqui de uma
passagem bíblica que diz: “Nem
todo aquele que diz senhor,
senhor, entrará no reino dos
céus”. O que estamos ensinando a
nossos filhos em casa, ou a
nossos alunos na escola, ou
ainda, a nossos policiais nos
quartéis?
Diante deste relato, volto ao
título do texto: “Assim caminha
a humanidade...” Para onde
mesmo? Sabemos que o futuro
melhor que todos nós
idealizamos, historicamente vem
sendo construído a partir das
ações realizadas no presente.
Aprendemos que colhemos o que
plantamos. Então, como
vivenciarmos um futuro melhor,
mais pacífico, se o estamos
construindo fundamentados na
intolerância, violência e
omissão?
Gabriel Chalita, escritor
brasileiro e doutor em direito e
em comunicação, em seu livro
intitulado Pedagogia do Amor,
nos interpela sobre o tempo
propício que vivenciamos neste
novo milênio, no sentido de
“assumirmos o comando dessa
embarcação – a vida – em direção
ao futuro. Não podemos esperar
que as novas gerações modifiquem
o que está errado se não
despertarmos para o fato de que
cabe a nós, desde já, dar o
EXEMPLO. Para isso, nossos
pensamentos e ações devem ser um
misto de altruísmo, capacidade
de doação e amor ao próximo.” (CHALITA,
2003, p.11)
A forma como fomos tratadas pelo
policial que fez a ameaça, não é
um fato fácil de esquecer. Não
quero desenvolver a partir deste
episódio, nenhum sentimento de
raiva ou revolta, muito pelo
contrário, procuro é aprimorar a
partir disto, a capacidade
fundamental no ser humano de
perdoar, de ser tolerante.
Quero também fazer o registro da
força e da coragem daquelas
Mulheres que não se omitiram,
que não se calaram diante da
injustiça e da violência. Sei
que não foi fácil, superar o
medo de se confrontar com
policiais. Mas o sentimento
humano e cristão foi mais forte.
PARABÉNS mulheres de fibra.
Para concluir minha narrativa e
iniciar sua reflexão, trago o
poema de Bertold Brecht:
“Nós vos pedimos com
insistência: Não digam
nunca:"isso natural!" Diante dos
acontecimentos de cada dia, Numa
época em que reina a confusão,
em que corre sangue, em que
arbítrio tem força de lei, em
que a humanidade se desumaniza,
não digam nunca: "isso é
natural!" Para que nada passe a
ser imutável!..."
Ana Cláudia L. Assis
Educadora/Assistente Social
Claudiassis2003@yahoo.com.br