“Assim caminha a humanidade...”
Para onde mesmo?

 

Ana Cláudia L. Assis


 
            Vivenciar quatro dias de total desprendimento do trabalho formal, dos afazeres institucionais. Viver intensamente a euforia, a folia, a brincadeira e até mesmo o descanso, é muiiiiito bom. Todo ser humano precisa de diversão, de folia, de distração, afinal como diz o compositor: ‘A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.”
 
Aqui em Baturité, nossa cidade natal, pacata e acolhedora, por ocasião do período carnavalesco, diriam a maioria dos foliões que tudo transcorreu de forma tranquila. Porém, entre festa carnavalesca noturna e mela-mela diurno, ainda foi identificado aquele folião que se excede na bebida, no comportamento; que vem para os ambientes coletivos portando armas e só Deus sabe mais o que. Para evitar problemas maiores, a segurança pública também se faz presente, objetivando inibir os excessos de uns e outros; para intimidar aquele folião mais afoito, como diria minha avó, enfim, para oferecer segurança a população de modo geral.
 
Um destes episódios relacionados a excesso de foliões e atuação do aparato policial, eu tive o dissabor de vivenciar lamentavelmente, e aqui, através da palavra escrita, faço o registro. Talvez como desabafo, ou como forma de tirar da memória cenas fortes de violência e desrespeito a pessoa humana, tão bem registradas naquele momento, pelo computador fabuloso que é a mente humana.
 
O fato ocorreu por ocasião do terceiro dia de carnaval, no mela-mela, quase final da tarde. Ainda não tinha ido nenhum dia – já que não tenho muita simpatia pela atividade – porém nesta tarde convidei meu esposo para dar uma ‘espiadinha’. Logo que cheguei, ficamos de longe observando o cenário, na calçada da casa de um amigo. Chamou-me atenção, a chegada da viatura policial que parou, os policiais saíram apressados de dentro e vi que algo acontecia. Segundo informações de pessoas que lá se encontravam, informaram-me que 03 pessoas – homens- foram pegos portando uma faca e por isso estavam sendo detidos pela policia. De repente, não sei porque motivo – os policias abriram a porta traseira da viatura, puxaram os homens detidos que se encontravam dentro e começaram as pancadarias. Eram fortes golpes de cassetete no abdômen, nas costas, braços e pernas, além de golpes de ‘gravata e chave de braço’ – não sei bem se são estes os nomes dos golpes . Formou-se ao redor da viatura uma grande platéia que assistiam apavorados, mas silenciosos a tudo. Paralelo a essa platéia, uma outra se formava, diferenciada pelo sexo e pela coragem – um grupo de MULHERES – se manifestavam, clamando para que parassem com aquela ação violenta e que levassem os homens para a delegacia para lá realizarem os procedimentos legais. As vozes das mulheres não foram ouvidas e para surpresa nossa, um dos policiais se vira para nosso lado e pergunta se queríamos ficar no lugar dos que apanhavam. Meu Deus... fomos ameaçadas por um policial, por nos manifestarmos em defesa da vida.
 
Passei para o outro lado da viatura, buscando a ajuda de alguém, e quando lá cheguei me deparei com um dos homens apreendidos com um ferimento na cabeça e coberto de sangue, perguntei o que tinha acontecido e relataram que tinha sido o policial com o cassetete. Neste mesmo instante a viatura saía com os outros e o mesmo policial que fez a ameaça anterior, olha bem pra mim, aponta para o homem ferido, sorri e pergunta se agora eu tinha gostado do ocorrido.
 
Jesus, nos olhos e no sorriso do policial parecia sentir um grande prazer com tudo aquilo que acontecia. Parecia deliciar-se com a dor, com a ferida e com o sangue que corria naquele ‘próximo’.
 
Hoje, dia 25/02, quarta feira de cinzas, dia do lançamento da Campanha da Fraternidade que aborda o tema da Segurança Pública e que o lema é A Paz começa com a Justiça, me pergunto para onde estamos caminhando? Para a Barbárie? Por que tanta violência? O que tem estimulado estes atos de violência que a toda hora assistimos na telinha, nos jornais? O que é mesmo ser cristão? È ‘freqüentar’ a igreja, os grupos de oração, os terços, as pastorais? E o testemunho de Jesus Cristo? Onde estão os bons samaritanos de Baturité, só restaram as Madalenas? Lembro-me aqui de uma passagem bíblica que diz: “Nem todo aquele que diz senhor, senhor, entrará no reino dos céus”. O que estamos ensinando a nossos filhos em casa, ou a nossos alunos na escola, ou ainda, a nossos policiais nos quartéis?
 
Diante deste relato, volto ao título do texto: “Assim caminha a humanidade...” Para onde mesmo? Sabemos que o futuro melhor que todos nós idealizamos, historicamente vem sendo construído a partir das ações realizadas no presente. Aprendemos que colhemos o que plantamos. Então, como vivenciarmos um futuro melhor, mais pacífico, se o estamos construindo fundamentados na intolerância, violência e omissão?
 
Gabriel Chalita, escritor brasileiro e doutor em direito e em comunicação, em seu livro intitulado Pedagogia do Amor, nos interpela sobre o tempo propício que vivenciamos neste novo milênio, no sentido de “assumirmos o comando dessa embarcação – a vida – em direção ao futuro. Não podemos esperar que as novas gerações modifiquem o que está errado se não despertarmos para o fato de que cabe a nós, desde já, dar o EXEMPLO. Para isso, nossos pensamentos e ações devem ser um misto de altruísmo, capacidade de doação e amor ao próximo.” (CHALITA, 2003, p.11)
 
A forma como fomos tratadas pelo policial que fez a ameaça, não é um fato fácil de esquecer. Não quero desenvolver a partir deste episódio, nenhum sentimento de raiva ou revolta, muito pelo contrário, procuro é aprimorar a partir disto, a capacidade fundamental no ser humano de perdoar, de ser tolerante.
 
Quero também fazer o registro da força e da coragem daquelas Mulheres que não se omitiram, que não se calaram diante da injustiça e da violência. Sei que não foi fácil, superar o medo de se confrontar com policiais. Mas o sentimento humano e cristão foi mais forte. PARABÉNS mulheres de fibra.
 
Para concluir minha narrativa e iniciar sua reflexão, trago o poema de Bertold Brecht:
“Nós vos pedimos com insistência: Não digam nunca:"isso natural!" Diante dos acontecimentos de cada dia, Numa época em que reina a confusão, em que corre sangue, em que arbítrio tem força de lei, em que a humanidade se desumaniza, não digam nunca: "isso é natural!" Para que nada passe a ser imutável!..."
 
Ana Cláudia L. Assis
Educadora/Assistente Social
Claudiassis2003@yahoo.com.br

 

 

 

 

 
 
 

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