Mitiko, Shira e Yoko, pequenos
rebentos de meus ramos,
companheirinhas de tabi
(viagem). Marido de doce
espírito caminhante abre as
neblinas da tristeza, deitando
em nós as sementes de futuro.
Enxuga nossas lágrimas com mãos
jovens e calosas. Na sua face
nada se nota, são como lágrimas
nos olhos de peixe.
O
tempo malvado traz fome. Traz
sede. Traz saudades das
cerejeiras, da cabana coberta de
palha. Dói. Doeu deixar velho
pai e velha mãe.
Estrelas da madrugada mexem-se
no ritmo das vagas e das marolas
inquietas. Céu dançante que
preenche a insônia das cento e
sessenta famílias aventureiras,
vindas da direção do
sol-nascente.
O
vento toca flauta nos mastros do
Kasato Maru. O vapor
responde com as baforadas
fumacentas. O silêncio ardido
de cada coração ouve o estranho
diálogo enquanto se distrái
vendo a lua em banho de mar,
vaidosa, se sacudindo como
espada em mão de samurai.
Desenho ideogramas na memória de
meu nikki (diário) de
bordo, para não deixar Mitiko,
Shira e Yoko esquecerem da
saga. Será como
makura-no-kotobá (palavras
do travesseiro). A gorda valise
de nossa roupa, onde descanso a
cabeça, dita cada lembrança.
Assim, faço dô para
dentro de mim.
Pequenos rebentos querem
liberdade, mas não podem
correr. Perigo. Mar agitado
pode engoli-las. Todos os
rebentos ficam prisioneiros,
enxertados nas mãos de suas
mães. Brotos tenros têm que ser
cuidados...
E, infinitamente, nuvens brancas
passam em brancas nuvens.
Esperamos. Esperamos.
Esperamos. Muita paciência.
Muito incômodo. Sofrimentos. Em
tudo, porém, se sobressai o
sonho-esperança que ilumina a
treva da preocupação.
Na manhã de mil flores, ao apito
de alegria, atracaremos.
Deixaremos para trás o azul.
Para a frente, o verde que nos
dará a sobrevivência. Na terra
marrom, pisaremos com
reverência. Com respeito. Com
delicadeza. Quando a ferirmos,
será para fecundá-la. Assim,
não zangada, gerará árvores que
darão flores, que darão frutos.
Chegaremos na nova terra quando
ela estiver vestida de fuyú
(inverno). Inverno invejoso
de nátsu (verão) quente e
gostoso. Sempre nátsu no
Brasil de brasa, falam por aí.
Bendito o porto firme e seguro
que nos receberá! Leva o nome
dos iluminados cristãos: Santos.