INTRÍNSECA AFINIDADE

 

Ana  Maria Nascimento


        A relação afetiva é intensa dentre os habitantes da terra, e quem sabe também no meio dos extra-terrestres, ela inspira confiança e cumplicidade, entretanto, nos tempos modernos, a disputa pelo poder, esse sentimento que, segundo o famoso sociólogo Max Weber, encerra a possibilidade de impor a própria vontade, tem levado os humanos ao isolamento social.
       As igrejas unidas tentam a reversão desse quadro, porém, enquanto as pessoas resistirem à concepção de identidade, jamais conseguirão percorrer caminhos asfaltados com o colorido do amor fraternal.
       Em decorrência dessa distância igualitária, quando encontramos em nossa peregrinação viventes dispostos a nos demonstrar amabilidade, rapidamente nos afeiçoamos. Conforme sucedeu ao Sr. José, que auferiu a graça de um parceiro apto a aquinhoar suas alegrias e tristezas.
        É importante frisar a condição de católico praticante e sua inexorável fé motivadora de ajuda aos menos favorecidos, desse modo, ao encontrar o ser mencionado, carente de cuidados resolveu conduzi-lo ao lar e preencher o vazio existente naquele coração, assumindo de forma deliberada solidário compromisso.
         Na escalada de sua trajetória vital, o minusculo deixou os hábitos infantis, acolheu com entusiasmo a vinda da adolescência, a fase muitas vezes acompanhada por transformações físicas e psicológicas, as quais os adultos dificilmente estão preparados para enfrentarem. Concomitantemente, vieram as primeiras atrações e o pre-requisito de escolha inquietava seu protetor, que, sucessivas vezes o repreendeu após as inconscientes libertinagens.
         Ele sempre ouvia as advertências cabisbaixo, mas, ao surgirem novas oportunidades, as mesmas atitudes eram postas em prática.
     Apesar das peripércias cometidas pelo jovem, os dois se entendiam e aquele relacionamento proporcionava ocasiões jubilosas na convivência de ambos.
     Quando desfrutavam os melhores momentos em comum, o bondoso senhor adoece inesperadamente e a felicidade reinante cedeu lugar a angústia, dessa maneira, o amigo, dantes tão boêmio, permanecia junto ao leito do enfermo, submerso, na tentativa de amenizar a dor do companheiro. Todavia, os esforços foram em vão, a doença atingiu a culminância, gerando separação definitiva. Os familiares, embora enfraquecidos com a perda do ente querido, procuraram força na doutrina cristã e continuaram a jornada, no entanto, o aliado não gosou o mesmo conforto e cotidianamente parecia menos motivado a trilhar a autopista existencial.
     Os íntimos incumbiram-se em dispensar-lhe atenção, contudo o pobre animal, pertencente à espécie Felis Catus, denominados gatos domésticos, frente a dolorosa ausência foi sucumbindo o espírito de luta  e poucos dias depois, o encontraram inerte.
     Imaginaram mumificar seu corpo, igual os seguidores de Bast, a deusa do prazer, mas os recursos financeiros foram ineficazes, apenas veneraram sua singela imagem nos cernes saudosos.
     Esse fato demonstra que a ausência do dialeto não se constitui em barreira intransponível na consolidação de uma verdadeira amizade.
 

 

 

  

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