Editor: Carlos Leite Ribeiro

Arte Final: Iara Melo

Junho de 2009

 

 

O GRANDE RECEIO DE RUI

Lairton Trovão de Andrade


Rui era dotado de genialidade incomum.
Entretanto, se possuía privilegiado intelecto, o mesmo não se podia dizer da sua estética física: Era a bela inteligência num corpo descomunal.
Se tivesse vivido nos tempos clássicos da Grécia, provavelmente teria sido salvo pelo gongo, isto é, por sua portentosa inteligência, assim como outrora o fora Aristóteles que era gago.
Entre nós, porém, num concurso de feiúra, Rui seria incontestável vitorioso.
Para homenageá-lo poderia se erigir uma estátua com os dizeres:
“Feio sim, mas inteligente”!
Após a necessária introdução explicativa, posso ir, sem delongas, ao coração da narrativa:
Certa feita, apresentou-se àquele renomado jurista uma garota que se tornara conhecida pelo exagerado antagonismo de suas qualidades.
A jovem era a mais linda de todo orbe terrestre. Mas, como nada é perfeito neste mundo, não possuía nenhum pendor intelectual.
Dir-se-ia a própria burrice num monumento vivo de beleza.  “Tão bela quanto burra”, diria alguém numa linguagem arrasadora.
Aquela singular princesa teve, entretanto, seu momento de genialidade. Achegou-se ao mais famoso jurista e propôs: “Querido Rui, case-se comigo, para que tenhamos um filho que herde, de um lado, a sua inteligência e, do outro lado, a minha beleza”!
Aquela vaidosa jovem, no seu inconsciente – dizem que todo inconsciente é sábio – ambicionava perpetuar-se, através da figura ímpar de um filho, possível no futuro, que poderia ser, ao mesmo tempo, belo e sábio, colocando-se no inimaginável pedestal da perfeição humana.
Diante da proposta inusitada, Rui não titubeou e respondeu de pronto: “Não, minha formosa, sou homem prudente e receio que tenhamos não um filho, mas uma filha que poderá herdar, de um lado, a sua inteligência e, do outro lado, a minha beleza”!

Pinhalão, 14.02/09

 

 

Força e Coragem, uma Nova Vida está aí...

JUSSÁRA C. GODINHO
 

Na sala de espera do hospital, aquela pobre mãe aguardava ansiosa por aquele momento. Afinal, há nove meses sua filha estivera com ela, que mesmo cansada de tanto trabalho e de tantos dissabores da vida, ainda arranjara energia para entregar e cuidar com carinho e esmero de seu rebento.
O silêncio daquela sala e a tensão do momento traziam imagens de anos atrás, quando a protagonista da cena era ela trazendo ao mundo a filha que hoje estava lá para dar a luz a outra vida. Era ainda tão menina!
Tantos sonhos... Tantos planos... Tantos sonhos... Tantas ilusões... Nunca imaginara que um dia a filha querida e protegida que tanto amara, que dedicara inteiramente todos os seus dias até então, pudesse estar ali, sozinha, insegura, vulnerável aos percalços que um parto oferece.
Há quanto tempo já estava ali? O tic-tac do relógio misturava-se com as batidas de seu coração, que, às vezes, parecia explodir, e outras, sumia sem explicação. Como seria agora? Teria forças para seguir? Sabia que não seria fácil o que estava por vir.
Ouve a voz daquele médico, velho amigo, chamando-a para dizer que era necessário um parto cesáreo, mãe e filha estavam sofrendo muito! E, sem titubear, sem pensar como daria conta das despesas, a pobre mãe disse, imediatamente:
-Não as deixe sofrer nem um segundo, faça tudo o que for necessário!
Ouve a voz do médico, dessa vez, era a voz do pediatra, dizendo “todos os reflexos são nota dez”. Ela tinha saúde, muita saúde, isso era o mais importante, e era linda, uma boneca viva, uma princesa, mais uma vida vinda da sua vida.
Ficou durante horas - nunca soube quantas, perdera totalmente a noção do tempo - amassando o nariz e o coração atrás do vidro da janela do berçário para observar e se deliciar com aquele rostinho que, mesmo de longe, já se mostrava impetuoso, transformando-a em avó.
Tudo bem, agora era só verificar a parte prática: honorários do hospital e dos médicos (quanto tempo dedicado ao trabalho árduo para conseguir juntar alguma coisa), horários de visitas, lanches, flores, fotos...
Medos, inseguranças, ilusões, sonhos...
Mais um ser no mundo, mais uma mulher...
Três mulheres: mãe, filha e filha-neta buscando uma na outra o que desistiram de encontrar nos homens, o verdadeiro amor no coração e a coragem de serem verdadeiramente pais!

(Crônica classificada em 1º Lugar no Concurdso Literário Internacional Florada das Emoções II - Celeiro de Escritores - 2009)

 

 

Acontece que era Sábado

Getulino do Espírito Santo Maciel


          Acontece que ela estava sozinha com uma fraqueza tão contagiante e uma bolsa tão cheia de embrulhos, roupas velhas e esmolas que fui obrigado a segurá-la.
 
          Acontece também que a ponte é perigosa e que há tanto ferro espalhado por ali que era capaz de ela cair e derramar as esmolas e não poder se levantar mais.
 
          Sobretudo, acontece que era uma velhinha tão coitada, de olhos tão tristes, fundos e com um semblante tão enrugado que deu vontade de sair correndo com medo daquele "eu mesmo" mais tarde. No entanto, não fugi.
Foi à tarde. Rapidamente venci aquelas vigas de concreto ali na Avenida São José. Entrei e sai com uma facilidade infantil. E, do outro lado estava a velha sem nome, sumida como um ninguém.
     - Está com medo da ponte?
       Ela não disse nada.
     - Vou ajudá-la. Dê aqui a bolsa.
 
         Saiu de dentro daquele murcho de boca uma sombra claro-escura de sorriso. Triste como ela, como as suas roupas. Triste como a ponte, como o rio e as esmolas.
 
          Acontece que foi fácil segurá-la. Eu estava desprendido de tudo. A ponte era perigosa, mas gostei da velhinha. Não porque era velha, mas, porque vi naquele sorriso uma simplicidade de criança, porque percebi naquela angústia do intransponível um pedacinho de coragem adormecida que ressuscita quando há mãos samaritanas.
 
          A velha se foi levando a bolsa cheia de esmolas e a alma cheinha de um nada que é tudo que ela tem.
 
          Acontece que era sábado à tarde. E no sábado tudo pode acontecer, pois, o amanhã de sábado é domingo e somos eternos sábados atravessando pontes sozinhos ou amparados, mas, sempre esperando a manhã do dia seguinte. Sempre haverá sábados antes da travessia para que haja domingos risonhos depois de uma ponte.
 

 
 
 
 
 
 

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