"Estava no pátio de
casa. Em pé entre o
tanque e a porta da
cozinha. Vejo meu
pai entrar pelo
portão lateral
seguido pelo novo
ordenança.
Ordenança?
Comandante! Enorme
homem mais alto que
meu pai. Cabelos cor
de rapadura puxa,
olhos de azul
intenso. Fiquei
olhando e sentindo
coisas malucas em
mim. Tive de me
encostar à parede
porque as pernas
amoleceram, pareciam
manteiga. O coração
veio parar na boca e
pulava tanto que
tive de levar as
mãos ao peito.
Comecei a suar
embora minhas mãos
estivessem geladas.
A garganta seca
impedia a salivação
e a língua não tinha
espaço suficiente
dentro da boca - que
precisou se abrir.
Arrepios desciam do
cimo da cabeça aos
calcanhares.
Comichões e pruridos
pelo corpo todo.
Perdi a fala e senti
um coice no
estômago. Quando
meus olhos
conseguiram
despregar daquele
deus que só tinha
olhos para o meu
pai, olhei meus pés
descalços e me dei
conta que estava só
de calcinhas. Pedi
aos céus que ele não
me visse e ZUUPT
voei para dentro de
casa. Abri minha
gaveta e comecei a
vasculhar por
roupas. Encontrei a
saia pregueada de
linho cor de areia e
a blusa branca de
seda com pintinhos
amarelos e florinhas
vermelhas. Achei os
sapatos boneca de
verniz preto. Fiquei
linda! Corri ao
pátio. Com toda
sutileza berrei:
paaiêee quem é esse
homem que nunca vi?
- É o Pacífico, o
novo ajudante do
pai. Vem apertar a
mão dele, no
descompasso em que
estava corri e me
joguei no pescoço
dele, que se havia
abaixado. Ele se
desequilibrou e
caímos. Não sei como
voou do bolso dele a
foto de uma moça. Eu
a peguei e sentada
em sua perna
perguntei - É tua
mulher? Vermelho
como uma papoula
respondeu - Minha
namorada. Arregalei
os olhos: - Que é
namorada? Meu mundo
não era feito de
namoradas. Todos os
amigos de meus pais
tinham famílias
constituídas de pai,
mãe e filhos. As
mães sempre eram
mulheres dos pais.
Que seria namorada?
Senti-me elevada nos
ares e uma pancada
no traseiro. Meu pai
havia me dado uma
palmada! Meu pai que
nunca encostara
sequer um dedo em
mim?! Tão logo na
frente do Pacífico??
Chorando mais pela
vergonha que pela
palmada corri para
dentro e passei sem
ouvir os chamados de
minha mãe. Fui até o
escritório. No dia
anterior havia sido
apresentada aos
oceanos e havia um
com o nome dele.
Como ele era
importante... até um
mar tinha seu nome!
Puxei o Globo, era
mais pesado do que
supunha e o mundo,
literalmente, caiu
em minha cabeça.
Ouvi meu pai: - Que
deu nessa guria?
Parece um potro
selvagem. Atropelou
o rapaz e agora
desmonta o Globo!
Minha mãe: - Sei lá!
Saiu como uma
bruxinha com a blusa
mal abotoada,
sapatos
despresilhados, a
saia com a abertura
na frente e os
tirantes virados.
Chamei para
ajudá-la. Não me
ouviu nem na ida nem
na volta. Eu tão
linda, uma
bruxinha!!! Voltei a
chorar. Que teria
pensado ele de mim?
Namorada é mais ou é
menos que mulher???"
Sarita Barros