PRIMEIRA PAIXÃO

Sarita Barros


 

"Estava no pátio de casa. Em pé entre o tanque e a porta da cozinha. Vejo meu pai entrar pelo portão lateral seguido pelo novo ordenança. Ordenança? Comandante! Enorme homem mais alto que meu pai. Cabelos cor de rapadura puxa, olhos de azul intenso. Fiquei olhando e sentindo coisas malucas em mim. Tive de me encostar à parede porque as pernas amoleceram, pareciam manteiga. O coração veio parar na boca e pulava tanto que tive de levar as mãos ao peito. Comecei a suar embora minhas mãos estivessem geladas. A garganta seca impedia a salivação e a língua não tinha espaço suficiente dentro da boca - que precisou se abrir. Arrepios desciam do cimo da cabeça aos calcanhares. Comichões e pruridos pelo corpo todo. Perdi a fala e senti um coice no estômago. Quando meus olhos conseguiram despregar daquele deus que só tinha olhos para o meu pai, olhei meus pés descalços e me dei conta que estava só de calcinhas. Pedi aos céus que ele não me visse e ZUUPT voei para dentro de casa. Abri minha gaveta e comecei a vasculhar por roupas. Encontrei a saia pregueada de linho cor de areia e a blusa branca de seda com pintinhos amarelos e florinhas vermelhas. Achei os sapatos boneca de verniz preto. Fiquei linda! Corri ao pátio. Com toda sutileza berrei: paaiêee quem é esse homem que nunca vi? - É o Pacífico, o novo ajudante do pai. Vem apertar a mão dele, no descompasso em que estava corri e me joguei no pescoço dele, que se havia abaixado. Ele se desequilibrou e caímos. Não sei como voou do bolso dele a foto de uma moça. Eu a peguei e sentada em sua perna perguntei - É tua mulher? Vermelho como uma papoula respondeu - Minha namorada. Arregalei os olhos: - Que é namorada? Meu mundo não era feito de namoradas. Todos os amigos de meus pais tinham famílias constituídas de pai, mãe e filhos. As mães sempre eram mulheres dos pais. Que seria namorada? Senti-me elevada nos ares e uma pancada no traseiro. Meu pai havia me dado uma palmada! Meu pai que nunca encostara sequer um dedo em mim?! Tão logo na frente do Pacífico?? Chorando mais pela vergonha que pela palmada corri para dentro e passei sem ouvir os chamados de minha mãe. Fui até o escritório. No dia anterior havia sido apresentada aos oceanos e havia um com o nome dele. Como ele era importante... até um mar tinha seu nome! Puxei o Globo, era mais pesado do que supunha e o mundo, literalmente, caiu em minha cabeça. Ouvi meu pai: - Que deu nessa guria? Parece um potro selvagem. Atropelou o rapaz e agora desmonta o Globo! Minha mãe: - Sei lá! Saiu como uma bruxinha com a blusa mal abotoada, sapatos despresilhados, a saia com a abertura na frente e os tirantes virados. Chamei para ajudá-la. Não me ouviu nem na ida nem na volta. Eu tão linda, uma bruxinha!!! Voltei a chorar. Que teria pensado ele de mim? Namorada é mais ou é menos que mulher???"

Sarita Barros

 

 

  

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FOTO UTILIZADA NO TOPO DA PÁGINA, PRAÇA DE GIRALDO EM ÉVORA * PORTUGAL

MONTAGEM E ARTE FINAL DE IARA MELO

MID: OSVALDO MONTENEGRO * "LUA E FLOR"

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