Entregou as costas, o corpo inteiro
ao espaldar da cadeira. Um gesto que
costumava fazer quando entrava sem
fôlego, sem gosto. Na sala enorme, a
luz fraca do abajur mal permitia ver
a silhueta dos objetos, móveis,
quadros e tudo que ia sendo
acomodado ali. As pernas latejavam
(há muito vinha sentindo aquele
peso); espichou-as sobre o assento
de uma outra cadeira, arrastada com
certo esforço. Respirou fundo. Uma
opressão sobre o peito. Um gosto de
sangue na boca. Seria stress tudo
aquilo? Veio à mente a viagem,
cansativa até, mas com bons
resultados. Lembrou-se da cachorra.
Por que foi morrer bem quando não
tinha ninguém? Vivera tantos anos
ali e agora morria sozinha, sem
ninguém por perto? Mas... pobre!...
acaso teria outra escolha? Fora
meiga, doce, até em sua última
hora... morreu sem incomodar. É... é
bem assim. Respirou fundo de novo.
Se morresse ali também não haveria
do que se queixar, afinal sempre
pensou que deveria morrer depois da
'cã'. Parou um pouco; tentou se
refazer. Suspirou longamente. Não
tinha muito pra chorar... afinal os
últimos dias tinham sido de
lágrimas... e quantas! E como era
difícil achar espaço para o próprio
choro... porta, telefone, interfone,
atende esse, fala com aquele...
quantas vezes tinha mesmo que
trancar tudo na garganta... Era
assim. Um mundo muito louco mesmo...
apressado demais. Quanto ainda teria
de esperar até que tudo melhorasse?
No silêncio daquele ambiente, passou
por um sono. Até sonhou, apesar de
toda a tragédia que ultimamente
vinha se abatendo sobre sua vida.
Estava nisso quando o cão latiu
(desde que lhe morrera a mãe, ele
vinha se mantendo quieto, enroscado,
recolhido no seu canto... estranhos
os animais...) e em seguida a porta
abriu. Dois guris bem na sua frente:
nas mãos as armas apontadas em sua
direção. Não viu mais nada.
O fim da morte súbita e
alguns delírios
Paulo Roberto Bornhofen
Quem quer morrer? Quem quer
morrer? Quem quer morrer?
Repito, quem quer morrer?
Foi este o cenário que eu
imaginei: você vai andando
pela rua e se depara, a cada
passo, com um destes
entregadores de panfletos.
Enquanto ele grita a famosa
pergunta, literalmente,
enfia na sua cara um
panfleto com a inscrição:
“fim da morte súbita”.
Em um primeiro momento você
leva um choque. Depois, ao
ler o panfleto você entende
que se trata de mais uma
descoberta da ciência. Os
cientistas desvendaram o
mecanismo que dispara a
famosa morte súbita. Meu
Deus, você grita. Acabou,
não posso mais morrer em
paz, lamenta.
Levaram a esperança daquele
infarto fulminante, de
dormir e não acordar. Agora
só morte dolorosa. Os
cientistas aprontam cada
uma. Fiquei tão traumatizado
quando ouvi a manchete, no
telejornal, que perdi toda a
vontade de assistir ao
resto. Desliguei a TV. Até
agora estou delirando. Não
me interessa o resto da
matéria.
Voltando ao delírio acima.
Para espantar os
panfleteiros, ou
panfletadores (qual é o
certo, será que existe “um
certo” quando se trata de
panfletagem?), a idéia de um
cidadão blumenauense – andar
com um gravador repetindo a
mesma frase, algo do tipo:
eu não quero, obrigado –
ganha corpo, e você grava a
sua mensagem.
Daquele dia em diante você
passa a andar com um
gravador repetindo: Não,
obrigado. Eu só quero morrer
em paz! O seu gravador faz
tanto sucesso que você
começa a receber encomendas.
Cada dia chega mais
encomendas. Como você está
ganhando muito dinheiro,
logo aparecem outros
vendendo os mesmos
gravadores, mas com
mensagens “customizadas”
(essa doeu) e para não
perder mercado você contrata
uns panfleteiros e começa a
distribuir “flyers” (essa
dou mais ainda) pelas ruas.
Pronto, você entrou no mundo
da panfletagem e
Colega leitor
Este foi o texto que
encontrei junto ao corpo de
um escritor muito amigo. Ao
visitá-lo deparei-me com a
sena macabra. Prostrado em
uma cadeira, bem em frente à
mesa, estava o corpo. O
computador ligado e na tela
aparecia o texto acima,
inacabado. Por razões obvias
não vou revelar o seu nome.
Dias mais tarde o legista
comunicou a causa de sua
morte. Ele havia morrido de
morte súbita. Um infarto
fulminante havia lhe levado
a vida. Trágica ironia.
Coitado, se tivesse
pesquisado mais sobre a
descoberta dos cientistas
teria visto que toda a
equipe foi acometida da tal
gripe A, a suína
popularmente conhecida, ou
Influenza Porcina, para os
mais eruditos. Estão todos
recolhidos em quarentena.
Essa é a vida, cada dia uma
surpresa. Até que um dia...
Por isso, viva a vida!
Prosa poética
lírica
Tania Montandon
Devaneiando-se às quimeras mais
reais, tomando distância das
sensações materiais e
regozijando-se então da tersa
posição de derrisão, escarninho
das tragédias fatais. Com o
espírito desvinculado do corpo
carnal, assiste aos próprios
desesperos e se espanta com o
alvoroço por tão mundanas
perecíveis futilezas.
Enleiando-se no processo com
intrepidez e certa dose daquele
gozo sofredor inato do qual
ainda não conseguiu
desemarnhar-se, engolindo
raivas, mágoas, hostilidades,
digerindo-as e, ao final
dejetando-os; sente o peso e a
aspereza daquelas ripas
perpendiculares que lhe
marcarão o corpo, a morte, a
existência, a imortalidade da
meta última.
Desgosto inquietante estiolando
o mínimo orgulho que motiva tal
criatura a inspirar cada
molécula de ar. Irrevogável
energia despendida no auto
trucidamento desanimador,
auto-compaixão comparável à
estupidez maior.
Inapreensível certeza mórbida de
energia desenlaçada,
entrecortada por jatos populares
proporcionando fincadas dolentes
de pressão desmedida em pontos
hipersensíveis.
Desesperança pesando
desproporcionalmente sobre as
costas de uma vida que se viu
enjeitada, sufocada,
desambientalizada no espaço
menor, viés do acaso malquisto,
tempo doído do curso vivido.
Descaso cabal do mínimo esteio
que ainda enxergava. Fantasia
explode do quero a morte, minha
sorte! Células imperfeitas,
espírito excêntrico repugnante
afugenta belas expectativas
divinas. Deus errou, humano
existe que não concorda,
dispensa tudo pois não tem mais
como dar corda. Conta pesada a
do lutar, cada vez mais está
menos a compensar. Projetos de
auto-extermínio entram em ação –
falta de opção.
METÁFORAS
Alba Pires Ferreira e Ilda
Maria Costa Brasil (Entrelace)
Nossa história começa em São José dos Ausentes, RS, na
trilha que leva ao Cânion do
Pico do Monte Negro (o ponto
mais alto do estado – 1403
metros), onde seguiam duas
mulheres, aparentando entre
setenta a oitenta anos. Uma
loira, outra morena; cor
distinta na pele, uma vez que, a
prata dos cabelos, era igual.
– Querida amiga, sabe que não
existe nada mais agradável neste
mundo, do que, açoitada pelo
vento, subir ao Pico do Monte,
em nublada tarde de agosto,
curtindo o ar campestre, fatores
climáticos que levam qualquer
ser humano a um universo
poético, arrastando isto aqui –
falou a morena apontando para
algo que trazia preso às costas.
A velhinha loura sorriu e
replicou:
– E você percebe que esse prazer
aumenta quando, mesmo na falta
de Maria Madalena para nos
limpar o suor do rosto,
encaramos a caminhada, numa boa,
em “Papo Família”?
– Qual é, Bárbara, nesta altura do
campeonato, família se reduz a
filhos, ironizou a morena
acrescentando – “Filhos, melhor
não tê-los...”
– Mas, “se não tê-los como sabê-los?”
perguntou a velhinha marfim,
lembrando um número quatro
perdido no tempo. Curvando-se um
pouco mais, ao peso do fardo que
trazia às costas, tropeçou, numa
pedra, engoliu um grito de dor,
e “fazendo uma careta, cantou: –
“No meio do caminho tinha uma
pedra / tinha uma pedra no meio
do caminho”. E olhando de
soslaio para a companheira: –
Canta comigo Jandira, assim a
viagem fica mais alegre. Morena
Jandira, apertando os olhos,
face à dor causada pela coroa de
espinhos rodeando a cabeça: –
prefiro declamar minha alegria
gritando ao vento: – “Poeta é um
fingidor. / Finge tão
perfeitamente... / Finge até a
dor que deveras sente.” E
falando com seus botões, lembrou
dia e hora de cada espinho...
Viagens, suas roupas jogadas ao
léo, as noites passadas em
claro, inúteis discussões, que
não levavam a nada, seu PC ...um
safanão bastou para destruí-lo.
Quanto dinheiro gasto, para
arrumá-lo. Diferente de pessoas,
máquinas a gente sempre arruma,
deixa novinha em folha.
Entusiasmada , ergueu a cabeça e
repetiu: – “Finge até a dor que
deveras sente...” A custo,
aproximando-se de Bárbara: –
Como vai se portando tua coroa?
Arquejante, a velhinha movendo a
cabeça com dificuldade, forçou
um sorriso, respondeu: – muito
bem obrigada, cada espinho no
seu devido lugar. E como não
havia de ser ...espinho
desilusão, espinho solidão,
espinho abandono, espinho sonho
destruído. Bem feito. Afinal,
velha metida, se fazendo,
querendo sonhar... Tentou
sacudir a cabeça. Impossível,
curvou um pouco o pescoço, face
esboçou um esgar na máscara.
Trocar de casa, uma novinha,
ensolarada, piso novo, móveis
novos. Logo ela, uma velha, pra
que isso? Gastar dinheiro em
bobagem? Já não tinha a espera,
outra no João XXIII? Cupins?
Aprender a conviver com eles,
ora bolas. O melhor, amorcegar
àquela casa e fim de papo.
Soltando uma sonora gargalhada:
– “Quanta gente que ri talvez
existe / cuja única ventura
consiste / em parecer aos outros
venturosa” .
E assim, perdidas em
seus pensamentos, ambas
continuaram a subida íngreme, em
direção ao topo. Caíram algumas
vezes, ergueram-se, em
determinado momento; uma troca
de olhares marota selou algum
acordo, pois, apoiando-se
mutuamente, cantaram:
Mal
Secreto
“Se a cólera que espuma, a dor
que mora / N'alma, e destrói
cada ilusão que nasce, / Tudo o
que punge, tudo o que devora / O
coração, no rosto se estampasse;
/ Se se pudesse o espírito que
chora, / Ver através da máscara
da face, / Quanta gente, talvez,
que inveja agora / Nos causa,
então piedade nos causasse! /
Quanta gente que ri, talvez,
consigo / Guarda um atroz,
recôndito inimigo, / Como
invisível chaga cancerosa! /
Quanta gente que ri, talvez
existe, / Cuja ventura única
consiste / Em parecer aos outros
venturosa!”
E assim, alcançaram o topo do Monte
Negro, e assim, para sua
surpresa, foram recepcionadas
por Vinícius de Moraes, Carlos
Drummond de Andrade, Fernando
Pessoa e Raimundo Correa.
Depressa, jogaram ao chão, a
cruz e a coroa de espinhos, que
nossas heroínas portavam.
Comovidos e felizes, comentavam
que, durante a árdua jornada,
Bárbara e Jandira aludiram a
seus poemas, o tempo todo. O
mais entusiasta, dando um passo
à frente, falou:
– Oh, sinto-me envaidecido, pois da tríade
parnasiana – Alberto de
Oliveira, Olavo Bilac e eu,
Raimundo Correia, foi um poema
meu o escolhido para fechar este
trabalho. Caros leitores, curtam
a sonoridade de minhas palavras
e de meus versos. Seria
decepcionante, para o meu ego,
se o poema aqui
transcrito, integralmente, fosse
"Os Sapos", de Manuel Bandeira.
As duas velhinhas, uma loura outra morena,
de São José dos Ausentes?
Frio... Vento... muito vento,
brincando com as cabeleiras
cinza azuladas, subindo,
subindo, jogando-as de um lado
para o outro entre brancas
nuvens cercadas da tão almejada
Paz, finalmente alcançada.