Setembro de 2009

Editor: Carlos Leite Ribeiro

Formatação: Iara Melo

Participação de:

 

Lígia Leivas * Não viu mais nada

Paulo Bornhofen *  O fim da morte ...

Tania Montandon * Prosa Poética Lírica

  Alba P. Ferreira e Ilda Brasil * Metáforas

 

 

 

Não viu mais nada
Lígia Antunes Leivas



 
    Entregou as costas, o corpo inteiro ao espaldar da cadeira. Um gesto que costumava fazer quando entrava sem fôlego, sem gosto. Na sala enorme, a luz fraca do abajur mal permitia ver a silhueta dos objetos, móveis, quadros e tudo que ia sendo acomodado ali. As pernas latejavam (há muito vinha sentindo aquele peso);  espichou-as sobre o assento de uma outra cadeira, arrastada com certo esforço. Respirou fundo. Uma opressão sobre o peito. Um gosto de sangue na boca. Seria stress tudo aquilo? Veio à mente  a viagem, cansativa até, mas com bons resultados. Lembrou-se da cachorra. Por que foi morrer bem quando não tinha ninguém? Vivera tantos anos ali e agora morria sozinha, sem ninguém por perto? Mas... pobre!... acaso teria outra escolha? Fora meiga, doce, até  em sua última hora... morreu sem incomodar. É... é bem assim. Respirou fundo de novo.  Se morresse ali também não haveria do que se queixar, afinal sempre pensou que deveria morrer depois da 'cã'. Parou um pouco; tentou se refazer. Suspirou longamente. Não tinha muito pra chorar... afinal os últimos dias tinham sido de lágrimas... e quantas! E como era difícil achar espaço para o próprio choro... porta, telefone, interfone, atende esse, fala com aquele... quantas vezes tinha mesmo que trancar tudo na garganta... Era assim. Um mundo muito louco mesmo... apressado demais. Quanto ainda teria de esperar até que tudo melhorasse? No silêncio daquele ambiente, passou por um sono. Até sonhou, apesar de toda a tragédia que ultimamente vinha se abatendo sobre sua vida. Estava nisso quando o cão latiu (desde que lhe morrera a mãe, ele vinha se mantendo quieto, enroscado, recolhido no seu canto... estranhos os animais...) e em seguida a porta abriu. Dois guris bem na sua frente: nas mãos as armas apontadas em sua direção. Não viu mais nada.


 


O fim da morte súbita e alguns delírios
 

Paulo Roberto Bornhofen


Quem quer morrer? Quem quer morrer? Quem quer morrer? Repito, quem quer morrer? Foi este o cenário que eu imaginei: você vai andando pela rua e se depara, a cada passo, com um destes entregadores de panfletos. Enquanto ele grita a famosa pergunta, literalmente, enfia na sua cara um panfleto com a inscrição: “fim da morte súbita”.

Em um primeiro momento você leva um choque. Depois, ao ler o panfleto você entende que se trata de mais uma descoberta da ciência. Os cientistas desvendaram o mecanismo que dispara a famosa morte súbita. Meu Deus, você grita. Acabou, não posso mais morrer em paz, lamenta.

Levaram a esperança daquele infarto fulminante, de dormir e não acordar. Agora só morte dolorosa. Os cientistas aprontam cada uma. Fiquei tão traumatizado quando ouvi a manchete, no telejornal, que perdi toda a vontade de assistir ao resto. Desliguei a TV. Até agora estou delirando. Não me interessa o resto da matéria.

Voltando ao delírio acima. Para espantar os panfleteiros, ou panfletadores (qual é o certo, será que existe “um certo” quando se trata de panfletagem?), a idéia de um cidadão blumenauense – andar com um gravador repetindo a mesma frase, algo do tipo: eu não quero, obrigado – ganha corpo, e você grava a sua mensagem.

Daquele dia em diante você passa a andar com um gravador repetindo: Não, obrigado. Eu só quero morrer em paz! O seu gravador faz tanto sucesso que você começa a receber encomendas. Cada dia chega mais encomendas. Como você está ganhando muito dinheiro, logo aparecem outros vendendo os mesmos gravadores, mas com mensagens “customizadas” (essa doeu) e para não perder mercado você contrata uns panfleteiros e começa a distribuir “flyers” (essa dou mais ainda) pelas ruas. Pronto, você entrou no mundo da panfletagem e

Colega leitor

Este foi o texto que encontrei junto ao corpo de um escritor muito amigo. Ao visitá-lo deparei-me com a sena macabra. Prostrado em uma cadeira, bem em frente à mesa, estava o corpo. O computador ligado e na tela aparecia o texto acima, inacabado. Por razões obvias não vou revelar o seu nome. Dias mais tarde o legista comunicou a causa de sua morte. Ele havia morrido de morte súbita. Um infarto fulminante havia lhe levado a vida. Trágica ironia.

Coitado, se tivesse pesquisado mais sobre a descoberta dos cientistas teria visto que toda a equipe foi acometida da tal gripe A, a suína popularmente conhecida, ou Influenza Porcina, para os mais eruditos. Estão todos recolhidos em quarentena. Essa é a vida, cada dia uma surpresa. Até que um dia...

Por isso, viva a vida!
 

 

Prosa poética lírica

Tania Montandon



Devaneiando-se às quimeras mais reais, tomando distância das sensações materiais e regozijando-se então da tersa posição de derrisão, escarninho das tragédias fatais. Com o espírito desvinculado do corpo carnal, assiste aos próprios desesperos e se espanta com o alvoroço por tão mundanas perecíveis futilezas.

Enleiando-se no processo com intrepidez e certa dose daquele gozo sofredor inato do qual ainda não conseguiu desemarnhar-se, engolindo raivas, mágoas, hostilidades, digerindo-as e, ao final dejetando-os; sente o peso e a aspereza daquelas ripas perpendiculares que lhe  marcarão o corpo, a morte, a existência, a imortalidade da meta última.

Desgosto inquietante estiolando o mínimo orgulho que motiva tal criatura a inspirar cada molécula de ar. Irrevogável energia despendida no auto trucidamento desanimador, auto-compaixão comparável à estupidez maior.

Inapreensível certeza mórbida de energia desenlaçada, entrecortada por jatos populares proporcionando fincadas dolentes de pressão desmedida em pontos hipersensíveis.

Desesperança pesando desproporcionalmente sobre  as costas de uma vida que se viu enjeitada, sufocada, desambientalizada no espaço menor, viés do acaso malquisto, tempo doído do curso vivido.

Descaso cabal do mínimo esteio que ainda enxergava. Fantasia explode do quero a morte, minha sorte! Células imperfeitas, espírito excêntrico repugnante afugenta belas expectativas divinas. Deus errou, humano existe que não concorda, dispensa tudo pois não tem mais como dar corda. Conta pesada a do lutar, cada vez mais está menos a compensar. Projetos de auto-extermínio entram em ação – falta de opção.

 

 

 

METÁFORAS

Alba Pires Ferreira e Ilda Maria Costa Brasil (Entrelace)


         Nossa história começa em São José dos Ausentes, RS, na trilha que leva ao Cânion do Pico do Monte Negro (o ponto mais alto do estado – 1403 metros), onde seguiam duas mulheres, aparentando entre setenta a oitenta anos. Uma loira, outra morena; cor distinta na pele, uma vez que, a prata dos cabelos, era igual. 

         – Querida amiga, sabe que não existe nada mais agradável neste mundo, do que, açoitada pelo vento, subir ao Pico do Monte, em nublada tarde de agosto, curtindo o ar campestre, fatores climáticos que levam qualquer ser humano a um universo poético, arrastando isto aqui – falou a morena apontando para algo que trazia preso às costas. A velhinha loura sorriu e replicou:
        – E você percebe que esse prazer aumenta quando, mesmo na falta de Maria Madalena para nos limpar o suor do rosto, encaramos a caminhada, numa boa, em “Papo Família”?
        – Qual é, Bárbara, nesta altura do campeonato, família se reduz a filhos, ironizou a morena acrescentando – “Filhos, melhor não tê-los...”
        – Mas, “se não tê-los como sabê-los?” perguntou a velhinha marfim, lembrando um número quatro perdido no tempo. Curvando-se um pouco mais, ao peso do fardo que trazia às costas, tropeçou, numa pedra, engoliu um grito de dor, e “fazendo uma careta, cantou: – “No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”. E olhando de soslaio para a companheira: – Canta comigo Jandira, assim a viagem fica mais alegre. Morena Jandira, apertando os olhos, face à dor causada pela coroa de espinhos rodeando a cabeça: – prefiro declamar minha alegria gritando ao vento: – “Poeta é um fingidor. / Finge tão perfeitamente... / Finge até a dor que deveras sente.” E falando com seus botões, lembrou dia e hora de cada espinho... Viagens, suas roupas jogadas ao léo, as noites passadas em claro, inúteis discussões, que não levavam a nada, seu PC ...um safanão bastou para destruí-lo. Quanto dinheiro gasto, para arrumá-lo. Diferente de pessoas, máquinas a gente sempre arruma, deixa novinha em folha. Entusiasmada , ergueu a cabeça e repetiu: – “Finge até a dor que deveras sente...”  A custo, aproximando-se de Bárbara: – Como vai se portando tua coroa? Arquejante, a velhinha movendo a cabeça com dificuldade, forçou um sorriso, respondeu: – muito bem obrigada, cada espinho no seu devido lugar. E como não havia de ser ...espinho desilusão, espinho solidão, espinho abandono, espinho sonho destruído. Bem feito. Afinal, velha metida, se fazendo, querendo sonhar... Tentou sacudir a cabeça. Impossível, curvou um pouco o pescoço, face esboçou um esgar na máscara. Trocar de casa, uma novinha, ensolarada, piso novo, móveis  novos. Logo ela, uma velha, pra que isso? Gastar dinheiro em bobagem? Já não tinha a espera, outra no João XXIII? Cupins? Aprender a conviver com eles, ora bolas. O melhor, amorcegar àquela casa e fim de papo. Soltando  uma sonora gargalhada: – “Quanta gente que ri talvez existe / cuja única ventura consiste / em parecer aos outros venturosa” .
    E assim, perdidas em seus pensamentos, ambas continuaram a subida íngreme, em direção ao topo. Caíram algumas vezes, ergueram-se, em determinado momento; uma troca de olhares marota selou algum acordo, pois, apoiando-se mutuamente, cantaram:

 Mal Secreto
“Se a cólera que espuma, a dor que mora / N'alma, e destrói cada ilusão que nasce, / Tudo o que punge, tudo o que devora / O coração, no rosto se estampasse; / Se se pudesse o espírito que chora, / Ver através da máscara da face, / Quanta gente, talvez, que inveja agora / Nos causa, então piedade nos causasse! / Quanta gente que ri, talvez, consigo / Guarda um atroz, recôndito inimigo, / Como invisível chaga cancerosa! / Quanta gente que ri, talvez existe, / Cuja ventura única consiste / Em parecer aos outros venturosa!”

        E assim, alcançaram o topo do Monte Negro, e assim, para sua surpresa, foram recepcionadas por Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Raimundo Correa. Depressa, jogaram ao chão, a cruz e a coroa de espinhos, que nossas heroínas portavam. Comovidos e felizes, comentavam que, durante a árdua jornada, Bárbara e Jandira aludiram a seus poemas, o tempo todo. O mais entusiasta, dando um passo à frente, falou:
       – Oh, sinto-me envaidecido, pois da tríade parnasiana – Alberto de Oliveira, Olavo Bilac e eu, Raimundo Correia, foi um poema meu o escolhido para fechar este trabalho. Caros leitores, curtam a sonoridade de minhas palavras e de meus versos. Seria decepcionante, para o meu ego, se o poema  aqui transcrito, integralmente, fosse "Os Sapos", de Manuel Bandeira.

       As duas velhinhas, uma loura outra morena, de São José dos Ausentes? Frio... Vento... muito vento, brincando com as cabeleiras cinza azuladas, subindo, subindo, jogando-as de um lado para o outro entre brancas nuvens cercadas da tão almejada Paz, finalmente alcançada.

 

 

 

  

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CRÉDITOS:

FOTO UTILIZADA NO TOPO DA PÁGINA, PRAÇA DE GIRALDO EM ÉVORA * PORTUGAL

MONTAGEM E ARTE FINAL DE IARA MELO

FUNDO MUSICAL: BORBULHAS DE AMOR *JUAN LUIZ GUERRA * VERSÃ0: FERREIRA GULLAR

 

 

 

 

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