Final de primavera.
Domingo igual em
qualquer parte do
mundo... ele e a
monotonia de suas
tardes.
Há muito era
assim também para
ela.
O silêncio a
espalhar-se pela
casa ( que cada vez
parecia maior, mais
vazia), quebrado de
vez em quando por um
ronco que a
exasperava ( já não
bastava ter de
escutá-lo à
noite?... Logo
naquela tarde em que
até o cão estava
acomodado, o ronco
não dava trégua?)
Terminadas as
tarefas 'do lar'
(nem aos domingos
era diferente!), ela
se foi para a
escrivaninha. Aos
poucos ia
descobrindo um mundo
novo sem precisar
arredar o pé de
casa. Quem
diria?!... o mundo
dos 'plugados'! Nele
vozes inaudíveis iam
e vinham: os mais
inusitados lugares
do mundo - Canadá,
França, Chile,
Alemanha, Portugal,
Emirados Árabes,
Uruguai, Itália... e
mais todo o Brasil.
Confissões entre
desconhecidos se
derramavam pela tela
do computador de um
jeito quase íntimo,
sem cerimônia.
Contavam, uns para
os outros, os
enredos de suas
vidas; suas
profissões, amores,
famílias, venturas,
desventuras,
aventuras. Falavam
sobre planos que
tinham. Marcavam
encontros (alguns
até se realizavam
mesmo). Opinavam,
esclareciam. Mas
felicidade, que é
bom, parecia
isolar-se na vida
dos 'de lá' e dos
'de cá'. Tudo,
porém, tinha de
continuar, senão
como preencher as
tardes de domingo?
Abriu o
computador e passou
pelos e.mails:
quantos! Não havia
tempo de pôr tudo em
dia. Uns eram lidos,
outros repassados,
alguns deletados. E
a tarde de domingo
passando...
Ele, na
poltrona... ele e
seu ronco...
Estranha a vida
deles. Pouco se
falavam; menos ainda
se olhavam. E pensar
que já tinham, em
outros tempos,
vasculhado mil
malabarismos para
poderem passar as
tardes de domingo
nas mais audazes
venturas, aventuras
de amor, sensuais,
sexuais. (Ótimo!...)
Mas tudo passa... e
passa mesmo. Acaba.
Ponto final! Embora
há muito estivessem
juntos, concluía que
nunca fora seu 'par
perfeito' (será que
existe?). Amor é
assim mesmo: termina
e a gente nem se dá
conta.
De repente, ela
pára em um nome no 'pc'.
Já o havia lido
antes, mas não
ligara. Quem era?
Por que nem ela nem
a filha haviam
aberto aquele e.mail,
já olhado, percebido
tantas vezes até
ali?
"Pedro!" Que
surpresa!... Como?
Dizia ele que
achara o 'endereço'
dela ao acaso e
decidiu escrever.
Afinal, tantos anos
haviam já passado e
nunca mais um soube
do outro. Ele estava
bem. Morava longe,
em uma cidade
grande. Tocava a
vida do jeito que
dava, entre altos e
baixos. (Pela
conversa, notava-se
que mais entre
'altos' do que
'baixos'.) Também
dava pra notar que
era o mesmo garoto
maroto de quando
tinha 17, 18 anos.
Boa gente,
engraçado, estilo
próprio.
Começou entre
eles, naquela tarde
de domingo, um
intercâmbio
fascinante de
'palavras'.
Os primeiros
e.mails foram
recordações, pôr a
vida na mesa, contar
sobre eles próprios.
Depois, lembranças
da adolescência,
quando tinham sido
vizinhos, colegas,
amigos, namorados
por tempo breve.
Tudo arrebatador!
Transcorridos
alguns dias,
intensificou-se a
correspondência. Já
dois ou três e.mails
em uma tarde não
eram suficientes...
a ansiedade da
espera, da
expectativa. 'Será
que com ele também é
assim?', ela se
perguntava. E em
seguida eram seis,
sete ou até mais
'bilhetes' em uma
única noite. 'Epa,
epa!!! que que é
isso? Que tá
acontecendo? Que
maluquice é essa?
Que rumo isso tá
tomando?' As
respostas não
chegavam.
Ele, casado.
'Como? É preciso
parar com isso. Pura
loucura. Bobagem de
computador.' Mas...
impossível parar
agora. Os elos
tinham se
encontrado. 'Forças
biotermoeletromagnéticas',
ela tinha lido em
algum lugar.
Esquisitamente, eles
agora eram não só
'seres humanos', mas
palavras... palavras
que abriam espaços
para o inesperado, o
inusitado.
E entre eles
essas palavras
tinham estabelecido
um fascínio além do
comum. As conversas
não eram simples
conversas: tinham
amarrado os dois num
sentido bem mais
profundo; jogado
ambos em uma arapuca.
E o tempo voando ou
se arrastando, tudo
na dependência da
chegada ou não dos
e.mails. Quão
mágicas as palavras!
Poderosas!
Bastavam-lhes! Nem
precisavam de olhar,
de sorriso, de pele,
de cheiro, de voz,
de fala, de nada...
Naquelas
'escrituras' o
próprio amor - ou
será que o amor só
podia se manifestar
pela escrita? Mas
era assim mesmo. Só
podia ser entendido
como um sentimento,
senão o próprio
amor, muito parecido
com ele... quase
irmão gêmeo.
Passou o Natal, o
Ano Novo, o
aniversário, as
férias.
E os
'respectivos' dele e
dela em que ponto do
enredo ficavam? Onde
achar a ponta do
novelo? Nada disso
fazia diferença, tal
o envolvimento que
tomava conta dos
dois... O 'resto'
era isso mesmo:
'resto'. Não havia
mais hora: manhã,
tarde, noite,
madrugada, todos os
minutos eram
aproveitados e
transformados em
espaços disponíveis
junto ao
computador... um
vício: vício de
amor. Alguma coisa
mágica os
amarrara... 'Não
imaginas o que tudo
isso fez comigo!
Dei um sentido à
minha vida. Tudo que
parecia não ser mais
capaz de viver
dentro de mim,
brotou com força
incontrolável...
graças a ti, a esse
encontro que a vida
tinha que marcar pra
nós. Nunca antes
nada foi igual e se
foi, foi só quando
entre nós mesmos há
tanto tempo, mas que
esse próprio tempo
não apagou... apenas
retirou prum canto
esperando esse tempo
voltar. Nem sei mais
como chamar o que
me arrebata tão
doidamente!
Por que não
seguimos juntos?
Teríamos sido
felizes de verdade,
não pensas assim
também? Viveríamos
um grande amor. Por
que nos separamos? O
que nos aconteceu?'
(eram coisas que se
escreviam...)
Ah! os pecados da
alma! do coração! As
rasteiras da vida,
dos sentimentos... O
espaço, o tempo... O
coração... o amor...
Mas se o
amor é tão bonito,
tão cantado e
decantado, por que
ter de escondê-lo
agora, quando a vida
já passou tanto?...
Por que disfarçar
amores? pois não é
ele o sentimento
mais bonito que
existe? ...Mas não
adiantava. Era
preciso escondê-lo
sim, mesmo que ele
estivesse a escorrer
pela própria face
sem reservas.
'Vamos nos ver.
Te ligo logo. Te
encontro às 10 da
noite no pc.
Precisamos combinar
tanta coisa...'
E o amor
ganhando seus
espaços.
Mas houve aquele
sábado...
De que adiantou
tanto cuidado, tanta
reserva?
Hoje se dava
conta: tudo passou
como sombra, como
notícia fugaz.
Nada nunca mais
foi igual.
Só o amor
continuou guerreiro
mesmo com toda sua
impossibilidade.