As campanhas em que
Afonso VI, rei do reino de Leão (Espanha), se
empenhava contra os mouros, atraíram à Península
Ibérica diversos cavaleiros cristãos de outras
nacionalidades, que vinham alistar-se na guerra
santa contra os inimigos da Cruz.
Entre esses nobres
cavaleiros, distinguiram-se os fidalgos franceses
D. Raimundo e D. Henrique de Borgonha,
descendentes dos reis de França. Tão bons serviços
prestaram, que D. Afonso Vl, como recompensa,
nomeou D. Raimundo governador do condado da Galiza
e ofereceu-lhe em casamento a filha D. Urraca. A
D. Henrique deu o governo do Condado Portacalense,
que ficava sujeito ao da Galiza, e a mão da outra
filha, D. Teresa, no ano de 1094. Deste casamento
nasceram quatro filhos, dos quais apenas um era
varão, de seu nome Afonso Henriques, que havia de
ser o fundador e o primeiro rei de Portugal.
O Conde D. Henrique
governou o Reino com muito tino e acerto, e a sua
maior ambição era tornar o seu Condado um reino
independente, o que nunca pode conseguir. Exaltado
por uma ardente fé religiosa, algumas vezes esteve
ausente das suas terras, que tinham como capital
Guimarães, em viagens e peregrinações a Santiago
de Compostela e à Terra Santa (Palestina). Morreu
em 1114, em Astorga (Espanha).
“Filho, toma esforço
no meu coração. Toda a terra que eu deixo, que é
de Astorga até Leão e até Coimbra, não percas dela
coisa nenhuma, que eu tomei com muito trabalho.
Filho, toma esforço no meu coração !” e morreu.
(D. Henrique ao filho, D. Afonso Henriques,
segundo documento do século Xlll).
Como o príncipe D.
Afonso Henriques tinha apenas três anos quando
morreu seu pai, assumiu o governo do Condado sua
mãe, D. Teresa. Seguindo a política de seu marido,
também nunca abandonou a ideia de ser rainha,
esforçando-se o mais que pode por se tornar
independente do reino de Leão e aumentar os seus
domínios, chegando mesmo a invadir a Galiza e a
lutar contra sua irmã D. Urraca.
Corria o ano de 1127.
Por esse tempo governava a monarquia de Leão D.
Afonso Vll, filho do sucessor de D. Urraca, o
qual, para inutilizar os propósitos de D. Teresa,
exigiu que esta lhe prestasse obediência, ao que
ela se negou. Então, aquele rei, invadindo o
Condado, foi pôr cerco a Guimarães, onde se
encontrava o infante D. Afonso Henriques, que
teria sido prisioneiro se, um honrado fidalgo,
chamado Egas Moniz, não houvesse ficado por fiador
pela vassalagem que D. Afonso Henriques, sem
tropas suficientes para resistir, fora obrigado a
prometer a D. Afonso Vll.
Com o seu ardor
guerreiro, D. Afonso Henriques, depressa esqueceu
os compromissos que havia assumido. Não só deixou
de prestar a tal vassalagem, como até invadiu a
Galiza. Em face disso, Egas Moniz partiu, com
risco da própria vida, para Toledo (Espanha), na
companhia da mulher e filhos, a apresentar-se ao
rei de Leão, para remissão da sua palavra não
cumprida. D. Afonso Vll, maravilhado com este
gesto de honra, perdoou-lhe e mandou-o em paz.
Entretanto, D. Afonso
Henriques, já contava 17 anos de idade, tinha-se
armado a si próprio cavaleiro, três nos antes,
portanto em 1125, na catedral de Samora. Por esse
tempo, já muitos fidalgos, seus partidários,
ansiavam vê-lo tomar as rédeas do governo,
descontentes pelas mercês que D. Teresa dispensava
a um galego – o conde Fernão Peres de Trava.
Assim, foi D. Afonso
Henriques obrigado a intervir, exigindo que a mãe
lhe entregasse a governação do Condado, mas esta
recusou. Então, o ainda Infante, revoltou-se e
marchou contra ela à frente das suas hostes, com
os seus fieis guerreiros : Soeiro Mendes de Sousa
«O Grosso»; Gonçalo Mendes de Sousa «Sousão»; Egas
Moniz de Ribadouro «O Aio»; Ermígio Moniz de
Ribadouro; Gonçalo Mendes da Maia «O Lidador»; D.
Paio Soares da Maia «Arcebispo de Braga»; Sancho
Nunes de Barbosa; Afonso Nunes de Barbosa; Fernão
Captivo «Alféres-Mor»; Egas Moniz de Cresconhe;
Paio Mendes; Paio Ramires Ramirão; Nuno Soares
Velho; Godinho Fafes de Lanhoso; Garcia Soares;
entre muitos outros, derrotando-a na batalha de
São Mamede, próximo de Guimarães, em 1128. D.
Afonso Henriques, a partir desta data, tomou conta
dos negócios do Condado. D. Teresa, segundo a
tradição, recolheu, como cativa, ao castelo de
Lanhoso, e os seus principais partidários foram
expulsos de Portugal.
A Praga de D. Teresa:
Depois da Batalha de São Mamede, em que D. Afonso
Henriques derrota sua mãe, esta é presa e
acorrentada com ferros nos pés. É nessa altura que
D. Teresa lhe roga a seguinte praga: “D. Afonso
Henriques, meu filho, prendeste-me e puseste-me a
ferros. Tiraste-me a terra que me deixou o meu pai
e separaste-me do meu marido. Rogo a Deus que
venhas a ser preso assim como eu fui. E porque
puseste ferros nos meus pés, quebradas sejam as
tuas pernas com ferros. Manda Deus que isto seja
!”.
Assim se justificaria
o acidente que o primeiro rei sofreu em Badajoz,
no qual partiu uma pena, já na parte final do seu
reinado.
http://www.castelodafeira.com/Castelo.asp
(...) Após a morte do
conde D. Henrique, senhor do Condado Portucalense,
a viúva, D. Teresa, deixou-se envolver com um
fidalgo galego, Fernão Peres de Trava, ao serviço
do Arcebispo de Compostela D. Diogo Galmirez, que
tinha a intenção de submeter ao controle da Galiza
o Condado Portucalense. Como guarda avançada,
tinham vindo para o Condado, especialmente para o
Porto – onde Fernão de Trava governava já –
grandes migrações galegas. Com o tempo, a pequena
burguesia portucalense começou a ser substituída
por gentes da Galiza. Mais tarde, o ataque
económico e administrativo estendeu-se aos grandes
senhores de terras e de poder, quer a norte, quer
a sul do Douro. Assim sucedeu às famílias Moniz,
de Riba Douro (Ermígio, Mendo e Egas), Sousas (da
Maia), Nuno Soares (de Grijó) e à família de Pero
Gonçalves (de Marnel). Estas famílias, que tinham
vastas propriedades quer no Alto Minho, Lamego,
quer na Terra de Santa Maria, foram sendo
confrontadas com a ameaça de perderem tudo-
cargos, prestígio, e bens – por intervenção de uma
campanha orquestrada do exterior, primeiramente
subtil e, depois frontal.
Dentro destas famílias notáveis, é justo destacar
dois nomes: Ermígio Moniz e Pero Gonçalves do
Marnel.
O primeiro, ao tempo de revolta dos barões
portucalenses, era alcaide do Castelo de Neiva.
Antes tinha sido afastado do governo da Terra de
Santa Maria e da alcaidaria do Castelo. Figura
muito próxima do Infante D. Afonso, era irmão do
célebre Egas Moniz, que também tinha sido afastado
da Terra de Lamego.
O segundo, Pero Gonçalves de Marnel, tinha sido
substituído no governo de Coimbra pelo próprio
Fernão Peres de Trava. Ao tempo da revolta
(1127/1128) era governador da Terra de Santa Maria
e alcaide do Castelo do mesmo nome.
O galego Fernão Peres de Trava ocupava assim o
governo dos dois pólos fundamentais do Condado
Portucalense – o de Portucale e de Coimbra.
Uma hora houve em que estas famílias resolveram
juntar-se e revoltar-se. A este movimento de
revolta esteve ligado o Infante D. Afonso que,
também, não via com bons olhos a situação da mãe e
que começava a temer pelo futuro que lhe estava a
ser reservado. Ele, que, ao tomar a iniciativa de
se armar cavaleiro, por si próprio, em Zamora,
estava a usar de uma prerrogativa reservada
somente aos filhos de reis...
Com o poderio da sua força militar organizada, com
o apoio da pujança da sua vida económica e com o
estímulo do sentimento de independência de que já
desfrutavam, os homens de Santa Maria avançaram
para Guimarães – então capital do poder político –
e onde o Infante D. Afonso se encontrava já a
mobilizar as gentes daqueles sítios.
Ermígio Moniz, a norte do Douro e a partir do
Castelo de Neiva, para lá se dirigiu também com as
suas forças. Para a mesma cidade de Guimarães
convergira Fernão Peres de Trava com as tropas de
Coimbra, apoiado com o reforço das forças galegas
que a ele se juntaram no Castelo de Lanhoso.
Em 13 de Junho de 1128 as tropas galegas foram
vencidas. Esta batalha - indiscutível marco da
história pátria - não foi, pois, a causa da nossa
independência, mas a consequência de um movimento
independentista de carácter colectivo e abrangendo
uma grande área do Condado quer a norte quer a sul
do Douro. A tentativa, por parte da Galiza de
extinguir rapidamente o movimento independentista
latente acabou por precipitar a mesma
independência.
Neste movimento militar intervieram, pois, com
indiscutível influência dois personagens
fortemente ligados à Terra e ao Castelo de Santa
Maria: Pero Gonçalves de Marnel e Ermígio Moniz.
Conde de Borgonha, o Bom, fundador da monarquia
portuguesa, por ter sido pai de D. Afonso
Henriques, 1.º rei de Portugal. Nasceu em Dijon
(França) em 1057, data que se considera mais
provável, e faleceu em Astorga em 1114. Era o 4.º
filho do duque Henrique de Borgonha e de sua
mulher, Sibila, neto de Roberto I, duque de
Borgonha-Baixa, e bisneto de Roberto, rei de
França.
Quando em 1086 as notícias da guerra contra os
muçulmanos chamaram a alistar-se debaixo das
bandeiras de D. Afonso VI, rei de Leão e de
Castela, os príncipes dalém dos Pirinéus, o
príncipe Henrique veio para Espanha na companhia
de seu primo Raimundo de Borgonha, filho do conde
Guilherme de Borgonha, irmão de sua mãe. Os dois
príncipes granjearam grande reputação pelo seu
valor nas guerras em que entraram, e em prémio dos
serviços prestados, D. Afonso VI casou sua filha
D. Urraca com Raimundo, e D. Teresa ou Tareja,
filha bastarda, com D. Henrique. Em 1093 D.
Afonso atravessou o rio Mondego, tomou Santarém,
Lisboa e Sintra, dilatando assim o domínio cristão
até ao rio Tejo. Como o ocidente da península
hispânica formava um domínio já bastante extenso
para que os seus chefes pudessem lembrar-se em se
tornarem independentes, pensou em delegar o seu
poder para esses lados num homem de confiança. Fez
pois de Raimundo conde soberano de Galiza, e de
Henrique governador do condado de Portucale, sob a
suserania de Raimundo. O território entre o Minho
e o Tejo compreendia então três territórios o
condado de Portucale, que ia do Minho ao Douro; o
de Coimbra, do Douro ao Mondego; e o novamente
conquistado aos sarracenos, do Mondego ao Tejo, de
que D. Afonso fizera governador Soeiro Mendes, com
a sede do governo em Santarém. Este território foi
retomado pelos moiros logo em 1095. e parece que
este desastre contribuiu para que D. Afonso VI
libertasse o conde D. Henrique da suserania de seu
primo Raimundo, porque em 1097 já governava
independentemente o seu condado, e em 1101
encontrava-se na corte do rei de Leão e de
Castela. Estavam, portanto, sossegadas as
fronteiras de Portugal, e os muçulmanos,
concentrando todos os seus esforços no oriente da
península e nas fronteiras de Castela,
contentavam-se no ocidente só com a posse de
Lisboa e de Sintra, que por esse lado limitavam o
seu império já tão disseminado. Vendo a Espanha
quase tranquila, procurou o conde D. Henrique
outro campo em que pudesse empregar a sua
irrequieta actividade. Seduziu-o, como a tantos
outros príncipes, o movimento das cruzadas. Entre
os anos de 1102 e 1104 continuas expedições
demandavam a Terra Santa, e D. Henrique, nos
primeiros meses de 1103 partiu para o Oriente,
donde voltou em 1105, sem que a historia faça
menção dos feitos que praticou, o que se explica
por ele ter partido mais como simples voluntário,
do que como chefe dalgum poderoso contingente.
Desde essa época envolveu-se nas intrigas que
tinham por fim ampliar o território que dominava.
e conseguir tornar-se independente. Continuando a
guerrear os moiros, conquistou-lhe mais terras,
vencendo o régulo Hecha e o poderoso rei de
Marrocos Hali Aben Joseph. Excelente guerreiro,
sábio e prudente administrador, aumentou
consideravelmente as terras do seu condado,
merecendo o cognome de Bom, que a historia lhe
deu. D. Afonso VI não tinha filho varão legítimo,
por conseguinte Raimundo, marido de D. Urraca,
esperava receber a herança, mas o monarca
mostrava-se tão afeiçoado a seu filho natural D.
Sancho que se receava que lhe deixasse a coroa em
testamento. Prevendo este caso, e dispondo-se a
anular o testamento pela força, pediu a aliança de
seu primo, e fez com ele um pacto em 1107, pelo
qual o conde D. Henrique se comprometia a
auxiliá-lo nas suas pretensões à, coroa, recebendo
em troca ou o distrito de Galiza ou o de Toledo, e
a terça parte do tesouro. Raimundo, porém. morreu
em Outubro desse mesmo ano, D. Sancho pouco tempo
depois, e D. Afonso em 1109, ficando D. Urraca
legitima herdeira. Diz-se que D. Henrique, vendo o
sogro já moribundo, procurou persuadi-lo a que lhe
legasse o ceptro, porque não convinha que passasse
para as mãos de D. Urraca, apesar da legitimidade
da herança, ou para as de D. Afonso, filho do
conde Raimundo, criança de três anos. Nada
conseguiu, mas os barões castelhanos obrigaram D.
Urraca a um segundo casamento, com D. Afonso, rei
de Aragão e Navarra, casamento que o papa anulou
alegando serem os noivos parentes em grau
proibitivo. D. Afonso não se importou com a
deliberação do papa, porém D. Urraca, que casara
contra vontade, tomou o partido contrário ao do
marido, que pretendia despojá-la dos seus estados.
Estabeleceu-se a guerra civil, e D. Henrique tomou
a defesa da cunhada. Indo depois a Astorga, ali
adoeceu e morreu. O seu corpo foi trasladado para
Braga, e sepultado numa capela da sé. Em 1512 o
arcebispo. D. Diogo de Sousa o transportou para a
capela-mor da mesma igreja, onde se tem
conservado. Por morte de seu marido, ficou D.
Teresa governando o condado de Portucale na
menoridade de seu filho D. Afonso Henriques, que
apenas contava três anos de idade.
Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e
Artístico, Volume III, págs. 900-901.
Trabalho e pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal