HISTÓRIA de P O R T U G A L

(Resumo)

 

1ª Dinastia, chamada Afonsina ou Borgonha 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 
 
 
 

 

Conde D. Henrique

 

 

 

(1095-1043)

Conde D. Henrique

 

 

As campanhas em que Afonso VI, rei do reino de Leão (Espanha), se empenhava contra os mouros, atraíram à Península Ibérica diversos cavaleiros cristãos de outras nacionalidades, que vinham alistar-se na guerra santa contra os inimigos da Cruz.

Entre esses nobres cavaleiros, distinguiram-se os fidalgos franceses D. Raimundo e D. Henrique de Borgonha, descendentes dos reis de França. Tão bons serviços prestaram, que D. Afonso Vl, como recompensa, nomeou D. Raimundo governador do condado da Galiza e ofereceu-lhe em casamento a filha D. Urraca. A D. Henrique deu o governo do Condado Portacalense, que ficava sujeito ao da Galiza, e a mão da outra filha, D. Teresa, no ano de 1094. Deste casamento nasceram quatro filhos, dos quais apenas um era varão, de seu nome Afonso Henriques, que havia de ser o fundador e o primeiro rei de Portugal.

O Conde D. Henrique governou o Reino com muito tino e acerto, e a sua maior ambição era tornar o seu Condado um reino independente, o que nunca pode conseguir. Exaltado por uma ardente fé religiosa, algumas vezes esteve ausente das suas terras, que tinham como capital Guimarães, em viagens e peregrinações a Santiago de Compostela e à Terra Santa (Palestina). Morreu em 1114, em Astorga (Espanha).

“Filho, toma esforço no meu coração. Toda a terra que eu deixo, que é de Astorga até Leão e até Coimbra, não percas dela coisa nenhuma, que eu tomei com muito trabalho. Filho, toma esforço no meu coração !” e morreu. (D. Henrique ao filho, D. Afonso Henriques, segundo documento do século Xlll).

Como o príncipe D. Afonso Henriques tinha apenas três anos quando morreu seu pai, assumiu o governo do Condado sua mãe, D. Teresa. Seguindo a política de seu marido, também nunca abandonou a ideia de ser rainha, esforçando-se o mais que pode por se tornar independente do reino de Leão e aumentar os seus domínios, chegando mesmo a invadir a Galiza e a lutar contra sua irmã D. Urraca.

Corria o ano de 1127. Por esse tempo governava a monarquia de Leão D. Afonso Vll, filho do sucessor de D. Urraca, o qual, para inutilizar os propósitos de D. Teresa, exigiu que esta lhe prestasse obediência, ao que ela se negou. Então, aquele rei, invadindo o Condado, foi pôr cerco a Guimarães, onde se encontrava o infante D. Afonso Henriques, que teria sido prisioneiro se, um honrado fidalgo, chamado Egas Moniz, não houvesse ficado por fiador pela vassalagem que D. Afonso Henriques, sem tropas suficientes para resistir, fora obrigado a prometer a D. Afonso Vll.

Com o seu ardor guerreiro, D. Afonso Henriques, depressa esqueceu os compromissos que havia assumido. Não só deixou de prestar a tal vassalagem, como até invadiu a Galiza. Em face disso, Egas Moniz partiu, com risco da própria vida, para Toledo (Espanha), na companhia da mulher e filhos, a apresentar-se ao rei de Leão, para remissão da sua palavra não cumprida. D. Afonso Vll, maravilhado com este gesto de honra, perdoou-lhe e mandou-o em paz.

Entretanto, D. Afonso Henriques, já contava 17 anos de idade, tinha-se armado a si próprio cavaleiro, três nos antes, portanto em 1125, na catedral de Samora. Por esse tempo, já muitos fidalgos, seus partidários, ansiavam vê-lo tomar as rédeas do governo, descontentes pelas mercês que D. Teresa dispensava a um galego – o conde Fernão Peres de Trava.

Assim, foi D. Afonso Henriques obrigado a intervir, exigindo que a mãe lhe entregasse a governação do Condado, mas esta recusou. Então, o ainda Infante, revoltou-se e marchou contra ela à frente das suas hostes, com os seus fieis guerreiros : Soeiro Mendes de Sousa «O Grosso»; Gonçalo Mendes de Sousa «Sousão»; Egas Moniz de Ribadouro «O Aio»; Ermígio Moniz de Ribadouro; Gonçalo Mendes da Maia «O Lidador»;  D. Paio Soares da Maia «Arcebispo de Braga»; Sancho Nunes de Barbosa; Afonso Nunes de Barbosa; Fernão Captivo «Alféres-Mor»; Egas Moniz de Cresconhe; Paio Mendes; Paio Ramires Ramirão; Nuno Soares Velho; Godinho Fafes de Lanhoso; Garcia Soares; entre muitos outros, derrotando-a na batalha de São Mamede, próximo de Guimarães, em 1128. D. Afonso Henriques, a partir desta data, tomou conta dos negócios do Condado. D. Teresa, segundo a tradição, recolheu, como cativa, ao castelo de Lanhoso, e os seus principais partidários foram expulsos de Portugal.

A Praga de D. Teresa: Depois da Batalha de São Mamede, em que D. Afonso Henriques derrota sua mãe, esta é presa e acorrentada com ferros nos pés. É nessa altura que D. Teresa lhe roga a seguinte praga: “D. Afonso Henriques, meu filho, prendeste-me e puseste-me a ferros. Tiraste-me a terra que me deixou o meu pai e separaste-me do meu marido. Rogo a Deus que venhas a ser preso assim como eu fui. E porque puseste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas com ferros. Manda Deus que isto seja !”.

Assim se justificaria o acidente que o primeiro rei sofreu em Badajoz, no qual partiu uma pena, já na parte final do seu reinado.

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(...) Após a morte do conde D. Henrique, senhor do Condado Portucalense, a viúva, D. Teresa, deixou-se envolver com um fidalgo galego, Fernão Peres de Trava, ao serviço do Arcebispo de Compostela D. Diogo Galmirez, que tinha a intenção de submeter ao controle da Galiza o Condado Portucalense. Como guarda avançada, tinham vindo para o Condado, especialmente para o Porto – onde Fernão de Trava governava já – grandes migrações galegas. Com o tempo, a pequena burguesia portucalense começou a ser substituída por gentes da Galiza. Mais tarde, o ataque económico e administrativo estendeu-se aos grandes senhores de terras e de poder, quer a norte, quer a sul do Douro. Assim sucedeu às famílias Moniz, de Riba Douro (Ermígio, Mendo e Egas), Sousas (da Maia), Nuno Soares (de Grijó) e à família de Pero Gonçalves (de Marnel). Estas famílias, que tinham vastas propriedades quer no Alto Minho, Lamego, quer na Terra de Santa Maria, foram sendo confrontadas com a ameaça de perderem tudo- cargos, prestígio, e bens – por intervenção de uma campanha orquestrada do exterior, primeiramente subtil e, depois frontal.
Dentro destas famílias notáveis, é justo destacar dois nomes: Ermígio Moniz e Pero Gonçalves do Marnel.
O primeiro, ao tempo de revolta dos barões portucalenses, era alcaide do Castelo de Neiva. Antes tinha sido afastado do governo da Terra de Santa Maria e da alcaidaria do Castelo. Figura muito próxima do Infante D. Afonso, era irmão do célebre Egas Moniz, que também tinha sido afastado da Terra de Lamego.
O segundo, Pero Gonçalves de Marnel, tinha sido substituído no governo de Coimbra pelo próprio Fernão Peres de Trava. Ao tempo da revolta (1127/1128) era governador da Terra de Santa Maria e alcaide do Castelo do mesmo nome.
O galego Fernão Peres de Trava ocupava assim o governo dos dois pólos fundamentais do Condado Portucalense – o de Portucale e de Coimbra.

Uma hora houve em que estas famílias resolveram juntar-se e revoltar-se. A este movimento de revolta esteve ligado o Infante D. Afonso que, também, não via com bons olhos a situação da mãe e que começava a temer pelo futuro que lhe estava a ser reservado. Ele, que, ao tomar a iniciativa de se armar cavaleiro, por si próprio, em Zamora, estava a usar de uma prerrogativa reservada somente aos filhos de reis...
Com o poderio da sua força militar organizada, com o apoio da pujança da sua vida económica e com o estímulo do sentimento de independência de que já desfrutavam, os homens de Santa Maria avançaram para Guimarães – então capital do poder político – e onde o Infante D. Afonso se encontrava já a mobilizar as gentes daqueles sítios.
Ermígio Moniz, a norte do Douro e a partir do Castelo de Neiva, para lá se dirigiu também com as suas forças. Para a mesma cidade de Guimarães convergira Fernão Peres de Trava com as tropas de Coimbra, apoiado com o reforço das forças galegas que a ele se juntaram no Castelo de Lanhoso.
Em 13 de Junho de 1128 as tropas galegas foram vencidas. Esta batalha -  indiscutível marco da história pátria - não foi, pois, a causa da nossa independência, mas a consequência de um movimento independentista de carácter colectivo e abrangendo uma grande área do Condado quer a norte quer a sul do Douro. A tentativa, por parte da Galiza de extinguir rapidamente o movimento independentista latente acabou por precipitar a mesma independência.
Neste movimento militar intervieram, pois, com indiscutível influência dois personagens fortemente ligados à Terra e ao Castelo de Santa Maria: Pero Gonçalves de Marnel e Ermígio Moniz.

Conde de Borgonha, o Bom, fundador da monarquia portuguesa, por ter sido pai de D. Afonso Henriques, 1.º rei de Portugal. Nasceu  em Dijon (França) em 1057, data que se considera mais provável, e faleceu em Astorga em 1114. Era o 4.º filho do duque Henrique de Borgonha e de sua mulher, Sibila, neto de Roberto I, duque de Borgonha-Baixa, e bisneto de Roberto, rei de França.
Quando em 1086 as notícias da guerra contra os muçulmanos chamaram a alistar-se debaixo das bandeiras de D. Afonso VI, rei de Leão e de Castela, os príncipes dalém dos Pirinéus, o príncipe Henrique veio para Espanha na companhia de seu primo Raimundo de Borgonha, filho do conde Guilherme de Borgonha, irmão de sua mãe. Os dois príncipes granjearam grande reputação pelo seu valor nas guerras em que entraram, e em prémio dos serviços prestados, D. Afonso VI casou sua filha D. Urraca com Raimundo, e D. Teresa ou Tareja, filha bastarda, com D. Henrique.  Em 1093 D. Afonso atravessou o rio Mondego, tomou Santarém, Lisboa e Sintra, dilatando assim o domínio cristão até ao rio Tejo. Como o ocidente da península hispânica formava um domínio já bastante extenso para que os seus chefes pudessem lembrar-se em se tornarem independentes, pensou em delegar o seu poder para esses lados num homem de confiança. Fez pois de Raimundo conde soberano de Galiza, e de Henrique governador do condado de Portucale, sob a suserania de Raimundo. O território entre o Minho e o Tejo compreendia então três territórios o condado de Portucale, que ia do Minho ao Douro; o de Coimbra, do Douro ao Mondego; e o novamente conquistado aos sarracenos, do Mondego ao Tejo, de que D. Afonso fizera governador Soeiro Mendes, com a sede do governo em Santarém. Este território foi retomado pelos moiros lo
go em 1095. e parece que este desastre contribuiu para que D. Afonso VI libertasse o conde D. Henrique da suserania de seu primo Raimundo, porque em 1097 já governava independentemente o seu condado, e em 1101 encontrava-se na corte do rei de Leão e de Castela. Estavam, portanto, sossegadas as fronteiras de Portugal, e os muçulmanos, concentrando todos os seus esforços no oriente da península e nas fronteiras de Castela, contentavam-se no ocidente só com a posse de Lisboa e de Sintra, que por esse lado limitavam o seu império já tão disseminado. Vendo a Espanha quase tranquila, procurou o conde D. Henrique outro campo em que pudesse empregar a sua irrequieta actividade. Seduziu-o, como a tantos outros príncipes, o movimento das cruzadas. Entre os anos de 1102 e 1104 continuas expedições demandavam a Terra Santa, e D. Henrique, nos primeiros meses de 1103 partiu para o Oriente, donde voltou em 1105, sem que a historia faça menção dos feitos que praticou, o que se explica por ele ter partido mais como simples voluntário, do que como chefe dalgum poderoso contingente. Desde essa época envolveu-se nas intrigas que tinham por fim ampliar o território que dominava. e conseguir tornar-se independente. Continuando a guerrear os moiros, conquistou-lhe mais terras, vencendo o régulo Hecha e o poderoso rei de Marrocos Hali Aben Joseph. Excelente guerreiro, sábio e prudente administrador, aumentou consideravelmente as terras do seu condado, merecendo o cognome de Bom, que a historia lhe deu. D. Afonso VI não tinha filho varão legítimo, por conseguinte Raimundo, marido de D. Urraca, esperava receber a herança, mas o monarca mostrava-se tão afeiçoado a seu filho natural D. Sancho que se receava que lhe deixasse a coroa em testamento. Prevendo este caso, e dispondo-se a anular o testamento pela força, pediu a aliança de seu primo, e fez com ele um pacto em 1107, pelo qual o conde D. Henrique se comprometia a auxiliá-lo nas suas pretensões à, coroa, recebendo em troca ou o distrito de Galiza ou o de Toledo, e a terça parte do tesouro. Raimundo, porém. morreu em Outubro desse mesmo ano, D. Sancho pouco tempo depois, e D. Afonso em 1109, ficando D. Urraca legitima herdeira. Diz-se que D. Henrique, vendo o sogro já moribundo, procurou persuadi-lo a que lhe legasse o ceptro, porque não convinha que passasse para as mãos de D. Urraca, apesar da legitimidade da herança, ou para as de D. Afonso, filho do conde Raimundo, criança de três anos. Nada conseguiu, mas os barões castelhanos obrigaram D. Urraca a um segundo casamento, com D. Afonso, rei de Aragão e Navarra, casamento que o papa anulou alegando serem os noivos parentes em grau proibitivo. D. Afonso não se importou com a deliberação do papa, porém D. Urraca, que casara contra vontade, tomou o partido contrário ao do marido, que pretendia despojá-la dos seus estados. Estabeleceu-se a guerra civil, e D. Henrique tomou a defesa da cunhada. Indo depois a Astorga, ali adoeceu e morreu. O seu corpo foi trasladado para Braga, e sepultado numa capela da sé. Em 1512 o arcebispo. D. Diogo de Sousa o transportou para a capela-mor da mesma igreja, onde se tem conservado. Por morte de seu marido, ficou D. Teresa governando o condado de Portucale na menoridade de seu filho D. Afonso Henriques, que apenas contava três anos de idade.
Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 900-901.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal