HISTÓRIA de P O R T U G A L

(Resumo)

 

1ª Dinastia, Chamada Afonsina ou Borgonha

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 
 
 

D. Afonso IV – (O Bravo)

Reinou de 1325 a 1357

 

 

 

(1248-1385)

D. Afonso IV -

Rei de Portugal e do Algarve

 

 

Continuou com as reformas encetadas por seu pai, o rei D. Dinis. Publicou leis acertadas, com as quais o comércio, a agricultura e a marinha foram muito beneficiadas.

Pouco tempo de subir ao trono, D. Afonso lV moveu guerra contra seu irmão D. Afonso Sanches, com o fundamento de que este o queria envenenar para em seguida se apossar da Coroa. . Porém, essas lutas terminaram ainda pela intervenção da Rainha Santa Isabel, em 1325.

Pelo facto de o rei de Castela, D. Afonso Xl, tentar impedir a passagem de D. Constança Manuel, que vinha realizar o seu casamento com D. Pedro, herdeiro da Coroa Portuguesa, D. Afonso lV entrou em guerra com Castela.

Atribui-se também a causa a maus tratos dados pelo rei de Castela a sua esposa, a rainha D. Maria, filha do nosso rei (1336). Porém, em 1339, o Papa Bento Xll, servindo de medianeiro, conseguiu estabelecer a paz.

A justiça vinha sendo até então administrada por Juízes da terra, ou seja, da mesma região. Por isso, nem sempre era aplicada como devia de ser: imparcialmente. Para remediar este mal, o rei instituiu os chamados Juízes de Fora.

O rei de Castela, Afonso Xl, vendo os seus domínios gravemente ameaçados por fortes contingentes mouriscos, pediu auxílio a D. Afonso lV, que correu a prestar-lho. Deu-se então uma grande batalha junto às margens do rio Salado, em Outubro de 1340, em que os mouros foram derrotados (*). O rei de Portugal, além de um chefe mouro aprisionado, algumas espadas e bandeiras, nada mais aceitou dos ricos despojos da luta, e as acções de audácia praticadas durante a batalha, motivaram-lhe o cognome de “Bravo”.

(*) “(...) D. Afonso IV, à frente dos seus intrépidos cavaleiros, conseguiu romper a formidável barreira inimiga e espalhar a desordem, precursora do pânico e da derrota entre os mouros granadinos. E não tardou muito que numa fuga desordenada, africanos e granadinos abandonassem a batalha, largando tudo para salvar a vida. O campo estava juncado de corpos de mouros vítimas da espantosa mortandade.
E o arraial enorme dos reis de Fez e de Granada, com todos os seus despojos valiosíssimos em armas e bagagens, caiu finalmente em poder dos cristãos, que ali encontraram ouro e prata em abundância, constituindo tesouros de valor incalculável. Ao fazer-se a partilha destes despojos, assim como dos prisioneiros, quis Afonso XI agradecer ao sogro, pedindo-lhe que escolhesse quanto lhe agradasse tanto em quantidade como em qualidade. Afonso IV, porém num dos raros gestos de desinteresse que praticou em toda a sua vida, só depois de muito instado pelo genro escolheu, como recordação, uma cimitarra cravejada de pedras preciosas e, entre os prisioneiros, um sobrinho do rei Abul-Hassan. A 1 de Novembro ao princípio da tarde, os exércitos vencedores abandonaram finalmente o campo de batalha, dirigindo-se para Sevilha onde o rei de Portugal pouco tempo se demorou, regressando logo ao seu país.
Pode-se imaginar sem custo a impressão desmoralizadora que a vitória dos cristãos, na Batalha do Salado, causou em todo o mundo muçulmano, e o entusiasmo que se espalhou entre o cristianismo europeu. Era ao cabo de seis séculos, uma renovação da vitória de Carlos Martel em Poitiers”.

A parte negra deste reinado: D. Inês de Castro, era uma senhora de origem castelhana e de rara beleza, por quem o Príncipe herdeiro, D, Pedro, se apaixonara e com quem passou a viver depois de falecer sua esposa, D. Constança. D. Afonso lV, porém, movido por intrigas, ou, antes, impulsionado por razões de Estado que buliam com a tranquilidade e independência do Reino, tendo hesitado primeiro, terminou por consentir no assassínio de D. Inês, em 1355, fazendo assim a vontade a alguns cortesãos, entre os quais se evidenciaram Álvaro Gonçalves, Pêro Coelho e Diogo Lopes Pacheco.

Este facto, deu azo a uma guerra civil, que só terminou pela intervenção conciliadora da rainha D. Beatriz, esposa de D. Afonso lV e mãe de D. Pedro.

Os restos mortais deste monarca encontram-se na Sé de Lisboa.

 

Os Lusíadas -  Canto lll
(...)


    98 -  Afonso IV
     "Nobres vilas de novo edificou
     Fortalezas, castelos mui seguros,
     E quase o Reino todo reformou
     Com edifícios grandes, e altos muros.
     Mas depois que a dura Átropos cortou
     O fio de seus dias já maduros,
     Ficou-lhe o filho pouco obediente,
     Quarto Afonso, mas forte e excelente.


    99
     "Este sempre as soberbas Castelhanas
     Co'o peito desprezou firme e sereno,
     Porque não é das forças Lusitanas,
     Temer poder maior, por mais pequeno.
     Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
     A possuir o Hespérico terreno
     Entraram pelas terras de Castela,
     Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.


    100 -  Preparam-se os Mouros para Invadir Castela
     "Nunca com Semirâmis gente tanta
     Veio os campos idáspicos enchendo,
     Nem Atila, que Itália toda espanta,
     Chamando-se de Deus açoute horrendo,
     Gótica gente trouxe tanta, quanta
     Do Sarraceno bárbaro estupendo,
     Co'o poder excessivo de Granada,
     Foi nos campos Tartésios ajuntada.
Afonso XI, de Castela, pede Auxílio a Afonso IV, seu Sogro


    101
     "E vendo o Rei sublime Castelhano
     A força inexpugnábil, grande e forte,
     Temendo mais o fim do povo hispano,
     Já perdido uma vez, que a própria morte,
     Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
     Lhe mandava a caríssima consorte,
     Mulher de quem a manda, e filha amada
     Daquele a cujo Reino foi mandada.


    102 -  Vai à Portugal a Rainha de Castela
     "Entrava a formosíssima Maria
     Pelos paternais paços sublimados,
     Lindo o gesto, mas fora de alegria,
     E seus olhos em lágrimas banhados;
     Os cabelos angélicos trazia
     Pelos ebúrneos ombros espalhados:
     Diante do pai ledo, que a agasalha,
     Estas palavras tais, chorando, espalha:
Súplica da Rainha de Castela ao Pai, Afonso IV de Portugal


    103
     — "Quantos povos a terra produziu
     De África toda, gente fera e estranha,
     O grão Rei de Marrocos conduziu
     Para vir possuir a nobre Espanha:
     Poder tamanho junto não se viu,
     Depois que o salso mar a terra banha.
     Trazem ferocidade, e furor tanto,
     Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.


    104
     — "Aquele que me deste por marido,
     Por defender sua terra amedrontada,
     Co'o pequeno poder, oferecido
     Ao duro golpe está da Maura espada;
     E se não for contigo socorrido,
     Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
     Viúva e triste, e posta em vida escura,
     Sem marido, sem Reino, e sem ventura.


    105
     "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
     O corrente Muluca se congela,
     Rompe toda a tardança, acude cedo
     A miseranda gente de Castela.
     Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
     De pai o verdadeiro amor assela,
     Acude e corre, pai, que se não corres,
     Pode ser que não aches quem socorres." —


    106
     "Não de outra sorte a tímida Maria
     Falando está, que a triste Vênus, quando
     A Júpiter, seu pai, favor pedia
     Para Eneias, seu filho, navegando;
     Que a tanta piedade o comovia
     Que, caído das mãos o raio infando,
     Tudo o clemente Padre lhe concede,
     Pesando-lhe do pouco que lhe pede.


    107 -  Batalha do Salado
     "Mas já co'os esquadrões da gente armada
     Os Eborenses campos vão coalhados:
     Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
     Vão rinchando os cavalos jaezados.
     A canora trombeta embandeirada,
     Os corações à paz acostumados
     Vai às fulgentes armas incitando,
     Pelas concavidades retumbando.


    108
     "Entre todos no meio se sublima,
     Das insígnias Reais acompanhado,
     O valoroso Afonso, que por cima
     De todos leva o colo alevantado;
     E somente co'o gesto esforça e anima
     A qualquer coração amedrontado.
     Assim entra nas terras de Castela
     Com a filha gentil, Rainha dela.


    109
     "Juntos os dous Afonsos finalmente
     Nos campos de Tarifa estão defronte
     Da grande multidão da cega gente,
     Para quem são pequenos campo e monte.
     Não há peito tão alto e tão potente,
     Que de desconfiança não se afronte,
     Enquanto não conheça e claro veja
     Que co'o braço dos seus Cristo peleja.


    110
     "Estão de Agar os netos quase rindo
     Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
     As terras como suas repartindo
     Antemão, entre o exército Agareno,
     Que com título falso possuindo
     Está o famoso nome Sarraceno.
     Assim também com falsa conta e nua,
     À nobre terra alheia chamam sua.


    111
     "Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
     Do rei Saul, com causa, tão temido,
     Vendo o pastor inerme estar diante,
     Só de pedras e esforço apercebido,
     Com palavras soberbas o arrogante
     Despreza o fraco moço mal vestido,
     Que, rodeando a funda, o desengana
     Quanto mais pode a Fé que a força humana:


    112
     "Desta arte o Mouro pérfido despreza
     O poder dos Cristãos, e não entende
     Que está ajudado da Alta Fortaleza,
     A quem o inferno horrífico se rende.
     Co ela o Castelhano, e com destreza
     De Marrocos o Rei comete e ofende.
     O Português, que tudo estima em nada,
     Se f az temer ao Reino de Granada.


    113
     "Eis as lanças e espadas retiniam
     Por cima dos arneses: bravo estrago!
     Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
     Uns Mafamede, e os outros Santiago.
     Os feridos com grita o Céu feriam,
     Fazendo de seu sangue bruto lago,
     Onde outros meios mortos se afogavam,
     Quando do ferro as vidas escapavam.


    114
     "Com esforço tamanho estroe e mata
     O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
     Totalmente o poder lhe desbarata,
     Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
     De alcançar tal vitória tão barata
     Inda não bem contente o forte braço,
     Vai ajudar ao bravo Castelhano,
     Que pelejando está co'o Mauritano.


    115 -  Derrota dos Mouros
     "Já se ia o Sol ardente recolhendo
     Para a casa de Tethys, e inclinado
     Para o Ponente, o Véspero trazendo,
     Estava o claro dia memorado,
     Quando o poder do Mauro grande e horrendo
     Foi pelos fortes Reis desbaratado,
     Com tanta mortandade, que a memória
     Nunca no mundo viu tão grã vitória.


    116
     "Não matou a quarta parte o forte Mário
     Dos que morreram neste vencimento,
     Quando as águas co'o sangue do adversário
     Fez beber ao exército sedento;
     Nem o Peno asperíssimo contrário
     Do Romano poder, de nascimento,
     Quando tantos matou da ilustro Roma,
     Que alqueires três de anéis dos mortos toma.


    117
     "E se tu tantas almas só pudeste
     Mandar ao Reino escuro de Cocito,
     Quando a santa Cidade desfizeste
     Do povo pertinaz no antigo rito:
     Permissão e vingança foi celeste,
     E não força de braço, ó nobre Tito,
     Que assim dos Vates foi profetizado,
     E depois por Jesus certificado.


    118 -  Inês de Castro
     "Passada esta tão próspera vitória,
     Tornando Afonso à Lusitana terra,
     A se lograr da paz com tanta glória
     Quanta soube ganhar na dura guerra,
     O caso triste, e dino da memória,
     Que do sepulcro os homens desenterra,
     Aconteceu da mísera e mesquinha
     Que depois de ser morta foi Rainha.


    119
     "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
     Que os corações humanos tanto obriga,
     Deste causa à molesta morte sua,
     Como se fora pérfida inimiga.
     Se dizem, fero Amor, que a sede tua
     Nem com lágrimas tristes se mitiga,
     ]É porque queres, áspero e tirano,
     Tuas aras banhar em sangue humano.


    120
     "Estavas, linda Inês, posta em sossego,
     De teus anos colhendo doce fruto,
     Naquele engano da alma, ledo e cego,
     Que a fortuna não deixa durar muito,
     Nos saudosos campos do Mondego,
     De teus fermosos olhos nunca enxuto,
     Aos montes ensinando e às ervinhas
     O nome que no peito escrito tinhas.


    121
     "Do teu Príncipe ali te respondiam
     As lembranças que na alma lhe moravam,
     Que sempre ante seus olhos te traziam,
     Quando dos teus fermosos se apartavam:
     De noite em doces sonhos, que mentiam,
     De dia em pensamentos, que voavam.
     E quanto enfim cuidava, e quanto via,
     Eram tudo memórias de alegria.


    122
     "De outras belas senhoras e Princesas
     Os desejados tálamos enjeita,
     Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
     Quando um gesto suave te sujeita.
     Vendo estas namoradas estranhezas
     O velho pai sesudo, que respeita
     O murmurar do povo, e a fantasia
     Do filho, que casar-se não queria,


    123
     "Tirar Inês ao mundo determina,
     Por lhe tirar o filho que tem preso,
     Crendo co'o sangue só da morte indina
     Matar do firme amor o fogo aceso.
     Que furor consentiu que a espada fina,
     Que pôde sustentar o grande peso
     Do furor Mauro, fosse alevantada
     Contra uma fraca dama delicada?


    124
     "Traziam-na os horríficos algozes
     Ante o Rei, já movido a piedade:
     Mas o povo, com falsas e ferozes
     Razões, à morte crua o persuade.
     Ela com tristes o piedosas vozes,
     Saídas só da mágoa, e saudade
     Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
     Que mais que a própria morte a magoava,


    125 -  Súplica de Inês de Castro ao Rei
     "Para o Céu cristalino alevantando
     Com lágrimas os olhos piedosos,
     Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
     Um dos duros ministros rigorosos;
     E depois nos meninos atentando,
     Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
     Cuja orfandade como mãe temia,
     Para o avô cruel assim dizia:


    126
     — "Se já nas brutas feras, cuja mente
     Natura fez cruel de nascimento,
     E nas aves agrestes, que somente
     Nas rapinas aéreas têm o intento,
     Com pequenas crianças viu a gente
     Terem tão piedoso sentimento,
     Como coa mãe de Nino já mostraram,
     E colos irmãos que Roma edificaram;


    127
     —"Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
     (Se de humano é matar uma donzela
     Fraca e sem força, só por ter sujeito
     O coração a quem soube vencê-la)
     A estas criancinhas tem respeito,
     Pois o não tens à morte escura dela;
     Mova-te a piedade sua e minha,
     Pois te não move a culpa que não tinha.


    128
     — "E se, vencendo a Maura resistência,
     A morte sabes dar com fogo e ferro,
     Sabe também dar vicia com clemência
     A quem para perdê-la não fez erro.
     Mas se to assim merece esta inocência,
     Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
     Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente,
     Onde em lágrimas viva eternamente.


    129
     "Põe-me onde se use toda a feridade,
     Entre leões e tigres, e verei
     Se neles achar posso a piedade
     Que entre peitos humanos não achei:
     Ali com o amor intrínseco e vontade
     Naquele por quem morro, criarei
     Estas relíquias suas que aqui viste,
     Que refrigério sejam da mãe triste." —


    130 -  Morte de Inês de Castro
     "Queria perdoar-lhe o Rei benino,
     Movido das palavras que o magoam;
     Mas o pertinaz povo, e seu destino
     (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
     Arrancam das espadas de aço fino
     Os que por bom tal feito ali apregoam.
     Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
     Feros vos amostrais, e cavaleiros?


    131
     "Qual contra a linda moça Policena,
     Consolação extrema da mãe velha,
     Porque a sombra de Aquiles a condena,
     Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;
     Mas ela os olhos com que o ar serena
     (Bem como paciente e mansa ovelha)
     Na mísera mãe postos, que endoudece,
     Ao duro sacrifício se oferece:


    132
     "Tais contra Inês os brutos matadores
     No colo de alabastro, que sustinha
     As obras com que Amor matou de amores
     Aquele que depois a fez Rainha;
     As espadas banhando, e as brancas flores,
     Que ela dos olhos seus regadas tinha,
     Se encarniçavam, férvidos e irosos,
     No futuro castigo não cuidosos.


    133
     "Bem puderas, ó Sol, da vista destes
     Teus raios apartar aquele dia,
     Como da seva mesa de Tiestes,
     Quando os filhos por mão de Atreu comia.
     Vós, ó côncavos vales, que pudestes
     A voz extrema ouvir da boca fria,
     O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
     Por muito grande espaço repetisses!


    134
     "Assim como a bonina, que cortada
     Antes do tempo foi, cândida e bela,
     Sendo das mãos lascivas maltratada
     Da menina que a trouxe na capela,
     O cheiro traz perdido e a cor murchada:
     Tal está morta a pálida donzela,
     Secas do rosto as rosas, e perdida
     A branca e viva cor, coa doce vida.


    135
     "As filhas do Mondego a morte escura
     Longo tempo chorando memoraram,
     E, por memória eterna, em fonte pura
     As lágrimas choradas transformaram;
     O nome lhe puseram, que inda dura,
     Dos amores de Inês que ali passaram.
     Vede que fresca fonte rega as flores,
     Que lágrimas são a água, e o nome amores

 

 

D. Afonso IV - O Bravo

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Nasceu em 1290, tendo iniciado o seu reinado em 1325, ou seja, com 35 anos de idade.
É este rei quem proíbe, sob pena de morte, os fidalgos de fazerem justiça com as próprias mãos, passando tal direito a ser um privilégio do monarca.
Entre 1348/49, Portugal é assolado pela Peste Negra que provoca o abandono de terras. D. Afonso IV, embora encetando todos os esforços nesse sentido, nunca conseguiu fazer frente a esta situação, nem obter resultados positivos de reocupação de terras. É um problema que se vai manter até D. João I.
D. Afonso IV envolve-se em lutas com o seu genro, o rei de Castela, D. Afonso XI, por suspeitar que este maltratava a sua filha. A paz só surge perante a ameaça moura que é devidamente afastada na Batalha do Salado travada em 30 de Outubro de 1340.
Este Rei continua a política de desenvolvimento da armada portuguesa e ordena o envio das primeiras expedições portuguesas que descobriram as Canárias ainda antes de 1337.
Mau grado todos os seus esforços, D. Afonso IV nunca foi muito feliz na sua actividade governativa. A peste que assolou o país durante grande parte do seu reinado, as guerra civis com o seu meio irmão, Afonso Sanches e mais tarde com o seu próprio filho, D. Pedro, marcam, definitivamente, esta época.
D.Afonso IV, morre em 1357, com 67 anos de idade, sucedendo-lhe D. Pedro I.
Publicado por André Abrantes Amaral em Março 26, 2004 10:23 AM

 

D. AFONSO IV - O BRAVO - (reinou de 1325 a 1357)

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Afonso IV, apesar de turbulento em termos de contendas internas, conseguiu, mesmo assim, que o reino se organizasse e fosse bem administrado. Fez entrega de forais a novas terras, implementou a justiça.
Apoiado na Ordem de Cristo, incrementou a marinha. Fez repetidas viagens às Canárias e a zonas do mundo desconhecido, das quais só a Ordem detinha o segredo.
Em 1331 instituiu, definitivamente, os juizes de fora, ou seja, aqueles que não eram da própria localidade para não haver a tentação a favorecimento ou a vinganças pessoais.
O feitio belicoso e temperamental do rei, mal tomou conta do poder, fá-lo atacar o irmão bastardo, Afonso Sanches, confisca-lhe as propriedades e desterra-o. A seguir, envolve-se em lutas com o rei de Castela, Afonso XI, não só por divergências políticas, mas porque este, tendo casado com D. Maria, filha dele, a tratava mal. D. Afonso IV invade a Galiza e cerca Badajoz. Só o Papa e o rei Carlos VII de França o conseguem acalmar.
Acaba por ajudar o genro, a pedido da filha. O reino de Castela ia ser atacado por um poderosíssimo exército mouro. A batalha vai-se dar a 30 de Outubro de 1340 nas margens do rio Salado. O rei português corre em auxílio do genro. A sua bravura é tal que os exércitos mouros do rei de Marrocos e de Granada são totalmente desbaratados. As riquezas aí deixadas são imensas. Ao rei português pertenciam metade dos despojos. Não aceitou nada.
Aqui tens o protótipo do português: valente, ingénuo e desinteressado. Hoje em dia os serviços pagam-se.
As qualidades do rei eram muitas, mas as suas fúrias tinham, por vezes, consequências trágicas. Basta-nos recordar o episódio de Inês de Castro:
O filho de Afonso IV, o futuro rei D. Pedro I, casou com uma infanta de Aragão, Dona Constança Manuel. Com ela veio Inês de Castro que era muito bonita e de famílias ricas e nobres da Galiza e de Castela. D. Pedro, depois da morte da mulher, passou a viver com ela, de quem teve quatro filhos.
A amizade do príncipe D. Pedro, aos irmãos e amigos de Inês era grande. Os fidalgos portugueses, temendo que isso pusesse em perigo a independência do reino, convenceram Afonso IV que Inês era perigosa. Os conselheiros do rei, Álvaro Gonçalves, Pêro Coelho e Diogo Lopes Pacheco, não encontraram melhor solução, para afastar os amantes, do que matá-la.
O príncipe ficou louco de dor. Voltou-se contra o pai. As pazes assinadas em Canaveses terminaram com o conflito mas não fizeram esquecer ao jovem príncipe a infâmia cometida contra uma mulher.
No reinado de Afonso IV, o reino viu-se devastado por uma epidemia de peste negra que desertificou o País, mas que o rei soube corrigir promulgando leis a reprimir a mendicidade e a ociosidade, e mandando vir colonos de França para ocuparem as terras livres.

Ainda infante lançou o reino na guerra civil devido a favores que D. Dinis concedia ao filho bastardo Afonso Sanches. Proclamado rei (1325), reúne cortes em Évora, condena o seu irmão ao desterro e à perda total dos seus haveres. Afonso Sanches invade Portugal, tendo a paz sido alcançada devido, em parte, à mediação de D. Isabel.
Os maus tratos infligidos pelo rei de Castela, Afonso XI, a sua esposa D. Maria, filha de Afonso IV, e o facto de D. Constança, esposa de D. Pedro ter sido retida em Castela, levaram o monarca português a sustentar uma guerra contra o seu genro. A guerra durou quatro anos tendo terminado com a paz de Sevilha (10 de Julho de 1339 ou 1340) graças à mediação da «fermosíssima Maria», enviada a Portugal por Afonso XI, quando os Mouros retomavam a ofensiva.
Os dois monarcas combateram então na batalha do Salado (30 de Outubro de 1340), assinalando-se a valentia do rei português.
No final do reinado deu-se o assassinato de Inês de Castro (1355) e a subsequente rebelião de D. Pedro. Afonso IV impulsionou a marinha datando possivelmente do seu reinado as primeiras viagens às Canárias (ca. 1345).

 

Batalha do Salado
http://www.geocities.com/
No começo do Outono de 1340, Afonso IV de Portugal dirigiu-se a Sevilha, em auxílio de Afonso XI de Castela, donde seguiram os dois monarcas cristãos para Tarifa, cercada então pelos fortes exércitos sarracenos. 
A batalha travou-se junto ao rio Salado, cabendo às tropas portuguesas a tarefa de defrontar as do rei de Granada, que se encontravam do outro lado do rio.
É salientada a coragem de D. Afonso IV, que a esta batalha ficou a dever o cognome de o Bravo, e também o seu desinteresse pela riqueza, bem como a dos combatentes portugueses que o acompanharam, que não quiseram aceitar a oferta de Afonso XI para que colhessem, do opulento espólio deixado no campo de batalha pelos Sarracenos vencidos, tudo o que lhes aprouvesse.
A Batalha do Salado foi o remate da última tentativa de vulto realizada pelos Muçulmanos e pelo remanescente reino de Granada para restabelecer ou, pelo menos, alargar o seu domínio na Península. 
História da Batalha 
 Ao romper da alva de 28 de Agosto de 1340, as longas cristãs e os tambores mouriscos acordaram os acampamentos, chamando ao combate. Os Mouros foram muitos postos ao longo do rio Salado para defenderem o passo aos cristãos. Estes, depois de confessados e comungados, foram ocupar as suas posições - os castelhanos em frente das tropas africanas de Abdul-Hassan, e os Portugueses defronte do exército granadino do rei Yussuf.
Iniciou a peleja Afonso XI à testa da cavalaria castelhana, forçando a passagem do rio e arremessando-se contra a flor da cavalaria moura que ao seu encontro viera. Logo ali se feriu entre as duas lustrosas cavalarias a mais feroz refrega. 
 Entretanto, na ala esquerda, a hoste portuguesa, com Afonso IV à frente, entoando o psalmo Exurgat Deus e tocando as caixas e trombetas, investia pela planura contra os esquadrões granadinos, que, em disciplina, táctica e resistência, se avantajavam às tropas africanas. Transposto o rio, sob um chuveiro de flechas, com tal fúria Afonso IV acometeu os de Granada que em breve os forçou a recuar lentamente. 
Já na ala direita, castelhana, a cavalaria de Afonso XI levava de vencida a cavalaria moura, e, pondo-a em fuga, ia levar a confusão às tropas de reserva mouriscas. Neste mesmo momento, Afonso XI, ao tomar uma colina que dominava o campo de batalha, teria perdido a vida se o pronto e denodado socorro dos seus melhores cavaleiros lhe não tivesse então valido. 
Quando já em toda a linha os sarracenos recuavam, a guarnição de Tarifa, reforçada durante a noite com 1000 lanças e 4000 peões, fez uma audaciosa sortida que, surpreendendo pela retaguarda os corpos mouros de reserva, acabou de os pôr em desordenada fuga e decidiu da vitória.
Começou então a perseguição «seguindo os reys catolicos o alcance com muyta parte de cavalaria e aquela infantaria que os poude acompanhar por distancia de duas leguas sem levantar as lanças nem abater as espadas». Os acampamentos do emir de Marrocos e do rei de Granada, com todas as suas riquezas - tendas de seda e ouro, alfanges com pedras preciosas, vasos lavrados, etc.-, caíram em poder dos cristãos e «então os soldados a sangue frio cortaram por hum e outro sexo, por huma e outra idade...». 
A mortandade foi, com efeito, enorme. Tal terror se apoderou dos mouros, que Abdul-Hassan, tendo-se acolhido a Gibraltar, passou logo à África, e o rei Yussuf, receando-se da viagem por terra, recolheu aos seus estados por mar.

 

 Drama de D. Inês de Castro

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Dama da corte portuguesa nascida em Castela, cujo drama que a levou à morte, assassinada por motivos políticos, foi imortalizado por Camões em Os lusíadas. Filha ilegítima de um nobre da Galícia, foi para Portugal (1340) como dama de honra de D. Constança, filha do infante espanhol D. Juan Manuel, quando esta se casou com o príncipe herdeiro D. Pedro, filho do rei de Portugal, D. Afonso IV. Na corte tornou-se amante do príncipe herdeiro, que após a morte de Constança (1345), apesar da oposição do rei, casaram-se secretamente.
O casal teve quatro filhos e essas crianças e mais a presença em Portugal de seus irmãos Alfonso e Fernando, provocaram intrigas na corte e alimentaram a suspeição do rei D. Afonso, que temia pelos direitos sucessórios de seu neto Fernando, filho de Constança. Numa das ausências de Pedro, conspiradores prenderam-na em Coimbra e o rei ordenou a execução, morte lamentada por Camões e que demonstrou sua indignação em versos imortais.
Quando Pedro subiu ao trono (1357) desencadeou sua vingança e mandou executar todos os matadores de sua amada, além de ordenar que os restos mortais dela fossem transportados do mosteiro de Santa Clara para Alcobaça, com pompas reais. O seu drama tornou-se tema de inúmeras peças de teatro, e de outras artes, como a pintura, imortalizando-a como personagem de uma história real de amor.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal