D. Sebastião não deixara descendentes directos. Por esse motivo
subiu ao trono seu tio, que era o seu parente mais próximo, o
Cardeal D. Henrique, que contava já 66 anos.
A avançada idade de D. Henrique, os seus achaques e a circunstância
de ser sacerdote, que lhe não permitia dar sucessor directo à Coroa,
fizeram agitar o problema da sucessão. Nesta conjuntura apareceram
vários pretendentes ao trono de Portugal. Era quatro os principais,
todos netos de D. Manuel l:
D. António Prior do Crato, filho natural do Infante D. Luís;
D. Catarina, Duquesa de Bragança, filha do Infante D. Duarte;
Filipe ll de Espanha, filho da Infanta D. Isabel;
D. Manuel Felisberto, Duque de Sabóia, filho da Infanta D. Beatriz.
Dos quatro pretendentes o que tinha mais direitos era a duquesa de
Bragança, D. Catarina, por ser a sucessora na linha masculina. Por
isso, D. Henrique inclinava-se a seu favor.
Descoberto o segredo, logo o rei de Castela encarregou o português
traidor e degenerado Cristóvão de Moura, que vivia na corte
espanhola, de vir a Portugal. Este, à custa de muitas ameaças feitas
ao Cardeal-rei, conseguiu modificar-lhe a opinião, levando-o a
concordar na seguinte proposta: reunião de cortes e elas resolveriam
quem subiria ao trono. Assim, no dia 11 de Janeiro de 1580,
reuniram-se Cortes em Almeirim. Contava Filipe ll de Espanha ver
indicado o seu nome nessa assembleia. Para tal, tinha Cristóvão de
Moura, seu emissário, feito muitas promessas e gasto rios de
dinheiro. D. Henrique, sempre receoso, continuava indeciso. As
opiniões dividiam-se. Entretanto, o partido do rei espanhol aprecia
aumentar. Foi então que se ergueu a voz do grande patriota Febo
Moniz, para protestar contra a escolha de um rei estrangeiro. E as
corte terminaram sem nada terem resolvido.
D. Henrique morreu no dia 31 de Janeiro de 1580, sem que tenha
decidido qualquer coisa respeitante à sucessão. Poucos dias antes de
falecer, tinha nomeado uma Junta de cinco governadores para
administrar o Reino:
D. Jorge de Almeida, arcebispo de Lisboa;
D. Francisco de Sá Menezes, camareiro-mor do reino;
D. João Telo;
D. João de Mascarenhas;
D. Diogo Lopes de Sousa.
O Conselho exerceu os normais actos de soberania enquanto esteve em
funções – destacando-se, pela sua importância, a cunhagem de moeda
própria.
Exercia a presidência do Conselho o arcebispo de Lisboa. Dentre os
seus membros, somente João Telo era contrário a Filipe II de
Espanha, sendo os demais pelo rei castelhano.
Tendo as Cortes dissolvido pouco depois sem deliberarem acerca da
sucessão, acabaram os Governadores do Reino por – comprados pelas
dobras castelhanas oferecidas por Cristóvão de Moura – decidir ser
Filipe II de Espanha o legítimo herdeiro do trono de Portugal e
Algarves e seus senhorios ultramarinos.
Em virtude desta tomada de decisão, o povo de Santarém viria a
rebelar-se e a aclamar como rei de Portugal o Prior do Crato, D.
António, em 24 de Julho de 1580. Poucos dias mais tarde entrava em
Lisboa triunfalmente, onde foi recebido com idêntico entusiasmo, o
que levou os Governadores a fugirem com receio para Setúbal, e daí
rumo a Ayamonte, onde declararam sucessor legítimo da Coroa o rei de
Espanha Filipe II, e dando-lhe assim um pretexto para invadir
militarmente o reino, tendo em vista apossar-se daquilo que, agora,
lhe pertencia de direito.
Os restos mortais de D. Henrique encontram-se nos Mosteiro dos
Jerónimos.
D. Henrique
Cognome histórico: o "CASTRO" Reinou de 1578 a 1580 D. Henrique (que
era cardeal) foi o 17º rei de Portugal e filho de D. Manuel l e de
D. Maria de Castela, sua Segunda mulher e irmão de D. João lll.
Nasceu em Lisboa em 1512 e morreu em Almeirim, em 1580. Seguiu a
vida eclesiástica e foi arcebispo de Braga e de Évora, e também
regente do Reino durante os últimos seis anos da menoridade de D.
Sebastião. Quando este subiu ao trono, o cardeal retirou-se para o
Mosteiro de Alcobaça (distrito de Leiria), onde foi surpreendido
pela notícia da catástrofe de Alcácer-Quibir, e que o fazia rei de
Portugal. O seu curto reinado foi um período muito mau para
Portugal, dizimado pela fome e por epidemias, e também agitado pelas
intrigas dos pretendentes à sucessão do velho rei. Este reuniu
Cortes em Almeirim para designarem o herdeiro à coroa e usou de toda
a influência para que a escolha recaísse em Filipe ll de Espanha,
neto materno de D. Manuel l. Não conseguiu, porém os seus intentos
e, quando morreu, não estava ainda a questão resolvida. O povo,
porém não lhe perdoou a intenção e, antes de morrer, no seu Paço de
Almeirim, o último rei da Dinastia de Avis, pode ouvir a multidão
cantar nas ruas:
"Viva el-rei D. Henrique/ No inferno muitos anos,/ Pois deixou em
testamento/ Portugal aos castelhanos/.
D. Henrique, o último rei da Dinastia de Avis, jaz no Mosteiro dos
Jerónimos.
Cardeal D. Henrique - "o Casto. Foi o 17.º rei de Portugal.
Nasceu em Lisboa a 31 de Janeiro de 1512, fal. em Almeirim em igual
dia do ano de 1580. Era filho de el-rei D. Manuel, e de sua segunda
mulher, a rainha D. Maria; irmão de el-rei D. João III.
Destinando se à vida eclesiástica foi nomeado aos 14 anos de idade
prior comendatário de Santa Cruz de Coimbra, sendo aos 22 elevado a
arcebispo de Braga pelo papa Clemente VII. Finalmente, aos 27 anos,
em 1539, foi nomeado inquisidor-mor de Portugal e suas possessões
ultramarinas, mas o pontífice Paulo III não quis reconhecer esta
nomeação, o que deu causa a uma luta muito curiosa entre a coroa
portuguesa e a corte pontifícia. De Braga passou a Évora, em 1540,
sendo o primeiro arcebispo, que existiu naquele arcebispado, e 6
anos depois, em 1546, Paulo III lhe concedeu o chapéu cardinalício.
Em 1561, Pio V o instituiu legado a latere no reino de Portugal, e
por morte do arcebispo de Lisboa, Fernão de Vasconcelos, em 1564 foi
transferido para este arcebispado. Segundo se lê nas Memorias
historicas sobre alguns mathematicos portuguezes e estrangeircs
domiciliarios em Portugal ou nas conquistas, por António Ribeiro dos
Santos, o infante D. Henrique não foi somente versado nas ciências
eclesiásticas. Teve por mestre o grande matemático Pedro Nunes, com
quem aprendeu aritmética e a geometria dos Elementos de Euclides; o
tratado da esfera; as teorias dos planetas; parte da grande
composição dos astros de Ptolomeu; a mecânica de Aristóteles, toda a
cosmografia; o uso dos instrumentos antigos, e de alguns que seu
sábio mestre havia inventado para a pratica da navegação. Estas
indicações constam da dedicatória do tratado de Crepusculis de Pedro
Nunes a el-rei D. João III. Lê-se ainda nas referidas Memorias: «Os
estudos e indagações, que sobretudo o desvelavam, como os de seu
maior gosto, e propensão, foram os da Astronomia; e tanto folgava
com eles, que ainda depois de se achar de todo entregue aos estudos
e coisas eclesiásticas, costumava quase todos os dias propor a Nunes
algum problema árduo e pedir-lhe que o resolvesse por demonstrações
de Matemática.» 0 infante D. Henrique era muito fanático, e deu
grande impulso ás perseguições contra os judeus. No entretanto,
mostrou-se adverso à Companhia de Jesus, quando ela pretendeu
introduzir-se em Portugal. Parece, porém, que modificou depois as
suas ideias, porque se tornou protector e um dos mais dedicados
devotos daquela corporação religiosa. Foi ele quem entregou aos
jesuítas a instrução pública, fundou o colégio de Santo Antão, o
primeiro que a Companhia de Jesus teve em Portugal, assim como o
colégio do Espírito Santo, em Évora, que se construiu em 1551, e se
inaugurou em 29 de Agosto de 1533, com a abertura solene das escolas
publicas de Teologia Moral, e letras humanas (humanidades), únicas
disciplinas que então era permitido ensinar fora da Universidade de
Coimbra. Conseguiu mais tarde erigir também em Évora uma
Universidade sujeita à mencionada Companhia, a qual se inaugurou
solenemente em 1559, sendo visitada em 1560, com a maior pompa, pelo
seu fundador, acompanhado do geral dos jesuítas, o padre espanhol
Francisco de Borja, que mais tarde a igreja canonizou.
Quando em 1557 faleceu D. João III, ficou herdeiro do trono seu neto
D. Sebastião, que apenas contava 3 anos de idade. A regência do
reino durante a menoridade do novo rei foi confiada à rainha D.
Catarina, viúva de D. João III, a quem competia. D. Catarina assumiu
a regência, e chamou para seu auxiliar e conselheiro, seu cunhado, o
infante cardeal D. Henrique, que também ambicionava o poder, que por
este motivo resignou o arcebispado de Évora no bispo do Algarve, e
veio para a metropolitana de Lisboa, por bula de Pio IV. Aos
jesuítas não convinha a regência da rainha, senhora de ânimo varonil
e decidido, e procuraram pela intriga afastá-la, ficando a regência
entregue ao infante. A questão da escolha dum preceptor para o jovem
rei, veio mais influir a favor dos jesuítas que incitaram o infante
a impor-se, para que o preceptor fosse nomeado entre os padres da
Companhia de Jesus, e assim o conseguiram, recaindo a nomeação no
padre Luís Gonçalves da Câmara, a que D. Catarina acedeu contra
vontade. As intrigas prosseguiram, porque os jesuítas preferiam que
a regência recaísse por completo no infante cardeal D. Henrique, que
eles dominavam, até que a rainha se resolveu a desistir do governo a
favor do seu cunhado, e próximo do Natal de 1560 chamou de súbito D.
Henrique, e declarou-lhe que precisava descansar, e por isso lhe
entregava a tutela do rei e do reino. Em vista desta declaração
formal, D. Henrique receou como sempre; o poder atraía-o e
assustava-o, e não se atrevia a tocar-lhe. Com humildade procurou
frouxamente dissuadi-la comi várias razões de semelhante intuito, e
D. Catarina convencionou que escreveria uma carta aos Estados do
reino, declarando-lhes a sua resolução, e pedindo que a aprovassem.
A ideia de que o poder viria a cair nas mãos do cardeal D. Henrique
assustou a todos os que lhe conheciam a índole, e uma manifestação
imponente, vinda de todos os pontos do reino, da nobreza, do clero e
do povo, veio suplicar a D. Catarina que desistisse do seu
propósito. Os jesuítas, porém, despeitados com a derrota, levantaram
tais dificuldades ao governo de D. Catarina, que a rainha dois anos
depois, declarou de novo e terminantemente que resolvera entregar a
regência. Para isso reuniu cortes, mas os jesuítas tinham agora por
si um habilíssimo diplomata, Lourenço Pires de Távora, que lhes era
muito dedicado e à corte de Roma, todos interessados na regência de
D. Henrique.
0 infante-cardeal ficou, portanto, proclamado regente em 23 de
Dezembro de 1562. (V. Catarina, D.). Esta regência poderia
ilustrar-se dalgum modo, se o cardeal entregasse o governo nas mãos
do hábil Lourenço Pires de Távora, que tanto contribuíra para que
ele a assumisse, mas D. Henrique considerava-o um censor incómodo, e
longe de o querer para ministro afastou-o do reino, nomeando-o
governador de Tânger. Então os jesuítas governaram o reino à sua
vontade por intermédio do regente, mas ainda isso lhes pareceu
incómodo, e assim que viram que o padre Luís Gonçalves da Câmara,
confessor e preceptor do jovem rei alcançara certo domínio no
espírito de D. Sebastião, envidaram todos os seus esforços para que
fosse proclamada a maioridade, o que na verdade se realizou em 1568
tendo o rei apenas 14 anos de idade. No relatório, que o
infante-cardeal apresentou a seu sobrinho neto, do que sucedera
durante os seis anhos da sua regência, lia-se o seguinte, que vem
publicado nas Memorias d'el-rei D. Sebastião, por Diogo Barbosa
Machado, parte III, liv. I, cap. III. «Com a mais profunda veneração
se receberam os decretos do Concilio Tridentino, e exactamente se
praticaram nos Sínodos provinciais celebrados em Braga e Lisboa.
Aumentou-se com copiosas rendas a Universidade de Coimbra, por ser a
Palestra Universal, em que a ciência triunfa da ignorância, e da
mesma liberalidade se usou com os quatro Colégios da Companhia,
fundados em Coimbra, Braga, Évora e Lisboa, para a instrução dos
engenhos, e cultura das virtudes». D. Henrique retirou-se então para
o mosteiro de Alcobaça, e não se tornou a ouvir falar nele, até que
em 1578 as desgraças de Alcácer Quibir de novo o apresentaram. Em 30
de Novembro de 1566 fundou o seminário de Santa Catarina, e nesse
mesmo ano celebrou o concílio provincial. Mandou executar na diocese
de Lisboa todos os decretos do Concílio Tridentino que tratam da
reforma dos costumes. Obteve um jubileu anual para os que se
confessassem e comungassem nas quatro festas principais do reino, o
que já havia conseguido para Braga, e depois para Évora.
Estava tão afastado dos negócios, que D. Sebastião, nem por mera
formalidade, o consultou quando se tratou daquela fatal expedição,
nem lhe deixou a mais pequena parte no governo do reino quando
Partiu para África. Apenas, porém, chegou a notícia do desastre, os
governadores do reino mandaram logo a Alcobaça avisar o cardeal, que
era o único sucessor do trono. D. Henrique saiu de Alcobaça a 13 de
Agosto e chegou a Lisboa no dia 16. Agitado por ambições senis,
sentia grande desejo de cingir a coroa, mas como não havia notícia
oficial da morte de D. Sebastião, reuniu uma comissão encarregada de
deliberar sobre o que se deveria fazer. A comissão deliberou que D.
Henrique governasse o reino como curador, enquanto não houvesse
notícia segura da morte de D. Sebastião. A 24 de Agosto assumiu
efectivamente essas funções, mas logo no dia 29 cingiu a coroa, por
ter chegado de África uma carta de Belchior do Amaral, prisioneiro
dos mouros, que declarava ter visto e reconhecido o cadáver de D.
Sebastião. 0 povo assistiu com tristeza à coroação, mas aplaudiu os
primeiros actos do soberano, que puniu Pedro de Alcáçova, tomando
por pretexto o imputar-lhe o conselho da expedição de África, mas na
realidade para satisfazer vinganças populares, e que, abolindo
algumas medidas fiscais vexatórias que D. Sebastião tomara para
arranjar dinheiro e ordenando que pudessem ser de novo confiscados
os bens dos judeus condenados pelo Santo Ofício, satisfazia ao mesmo
tempo os interesses e as paixões fanáticas do povo. Todos percebiam,
que o reinado de D. Henrique não podia ser duradouro, seria apenas
um intervalo entre o drama de Alcácer Quibir e a sucessão do reino,
novo drama ainda mais terrível, porque não se podia esperar que
vivesse muito tempo, por ser já velho, doente, e além disso pelo seu
estado eclesiástico, não podia ter herdeiros directos ao trono.
Filipe II de Espanha era um dos pretendentes, por ser neto de el-rei
D. Manuel, por sua mãe, a infanta D. Isabel, e portanto sobrinho do
cardeal. No nosso artigo sobre Filipe II de Espanha e I de Portugal,
vol. III do Portugal, a pág. 489 e seguintes, vêm largamente
descritas as providências que este monarca tomou para alcançar a
posse de Portugal, e os nomes dos outros pretendentes ao trono, um
dos quais era D. António, prior do Crato (V. António, D.). As
intrigas aglomeravam-se. Para dispor as coisas a seu modo, Filipe II
mandou a Portugal o duque de Ossuna, Pedro Girão e Cristóvão de
Moura, fidalgos aparentados com a primeira nobreza de Portugal.
Esses fidalgos indicaram ao cardeal rei como sucessor da coroa o
monarca espanhol, mas D. Henrique parecia inclinar-se mais ao duque
de Bragança. Ossuna chamou os jesuítas em seu auxílio; o povo
inquietava-se. 0 senado da câmara de Lisboa, no intuito de assegurar
a sucessão, lembrou que melhor seria que o cardeal se casasse,
pedindo-se a indispensável dispensa do papa. D. Henrique recusou
este alvitre, mas como o povo insistisse resolveu-se a aceder.
Propuseram-lhe então uns a viúva de Carlos IX, de França, Isabel,
segunda filha do imperador Maximiliano II, e outros a filha mais
velha do duque de Bragança, Maria, que não tinha ainda 14 anos, por
quem afinal D. Henrique se decidiu.
0 monarca mandou pedir ao papa Gregório XIII que lhe concedesse a
dispensa, e escreveu ao cardeal Carlos Borromeu para lhe advogar a
pretensão. Em Espanha logo se soube esta resolução, e Filipe 11
expediu ordens aos seus delegados em Roma para que a dispenso fosse
recusada, o que mais irritou D. Henrique. A situação era deveras
difícil, porque os sofrimentos do cardeal se agravavam; era tal o
seu estado de fraqueza, que se alimentava com leite de mulher,
servindo-lhe de ama até à morte, Maria da Mota, de nobre geração,
casada com Rui Fernandes Cota. 0 povo, vendo o rei em tão iminente
perigo de morte, insistia para que fosse nomeado um sucessor. D.
Henrique convocou então as cortes em Lisboa, em Abril de 1579, e
obtendo que nele delegassem perfeitamente o direito de escolher
sucessor, convidou todos os pretendentes ao trono para exporem o que
entendessem a bem dos seus direitos. Depois de longas e complicadas
controvérsias em que Espanha se salientou, procurando por todos os
modos colocar-se em primeiro lugar, o cardeal, que nada havia
deliberado convocou de novo as cortes para Almeirim, em Outubro do
mesmo ano. Nessa assembleia, onde se ergueu, vibrante de patriotismo
a voz de Febo Moniz, foram proclamados os nomes dos 5 homens que
tinham de governar o reino por morte do cardeal: D. Jorge de
Almeida, arcebispo de Lisboa; Francisco de Sá, camareiro‑mor do
reino; João Telles, João Mascarenhas e Diogo Lopes de Sousa,
presidente do tribunal de justiça de Lisboa. Começava o ano fatal de
1580; a peste e a fome assolaram Portugal. Mais de 25.000 pessoas
morreram desta epidemia. O rei e a corte foram para Almeirim, e foi
ali que a 9 de Janeiro se realizou nova sessão de cortes, sendo o
cardeal‑rei conduzido à sala numa cadeira. D. Henrique lassou os
últimos dias muito atormentados. Estava moribundo D. António, prior
do Crato, que ele expulsara do reino, achava-se em Almeirim; D.
Catarina, mulher do duque de Bragança, cuja causa ele abandonara,
vira junto do seu leito queixar-se e lançar-lhe em rosto a sua
fraqueza; D. Cristóvão de Moura ameaçava-o com as iras do seu amo,
que reunia ostensivamente o seu exército nas fronteiras de Portugal;
o povo tumultuava em torno do paço, gritando que Portugal, com a
morte do rei, perdia a sua independência. Perseguido pelos remorsos,
revolvendo se com amargura no leito de espinhos que ele mesmo
preparara, D. Henrique entregou a administração do reino aos 5
governadores nomeados. Pouco tempo sobreviveu. A sua morte não foi
lamentada por ninguém. Quis a fatalidade que na ocasião mais critica
da vida de Portugal, fosse chamado a reger os destinos do país um
homem, sempre incapaz de reinar, e ainda muito mais incapaz, por
estar à beira do túmulo. Assim acabava a dinastia de Avis, tão
brilhantemente começada por el-rei D. João I. D. Henrique conhecia
perfeitamente o grego, o hebraico e o latim.
Escreveu: Meditações e homilias sobre alguns mysterios da vida de
nosso Redemptor, e sobre alguns logares do Santo Evangelho, que fez
o Serenissimo e Reverendissimo Cardeal Infante D. Henrique por sua
particular devoção, Lisboa, 1574. Saíram as Meditações com licença
do seu autor, por diligência de Frei Luís de Granada, como este
declara na sua Carta proemial al lector. Os jesuítas do colégio de
Évora fizeram depois uma edição em latim, que se publicou em 1576, e
em 1581.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 903-906.
A seguir: Interregno e 3ª Dinastia (a Filipina).
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande -
Portugal