Neste reinado continuaram os portugueses a percorrer os mares orientais e
a descobrir novas terras. Foram à Nova Guiné e atingiram as costas do Japão,
tendo conquistado as ilhas Molucas, as de Delebes e de Sonda (onde fica
situado Timor).
D. Nuno da Cunha, governador da Índia, fundou em 1535 a fortaleza de Dio,
que mais tarde sustentou dois cercos, postos pelo rei do Cambaia. António da
Silveira distinguiu-se no primeiro cerco, em 1538. No segundo,
notabilizaram-se D. João de Mascarenhas e, principalmente, no auxílio que a
este prestou, João de Castro, ao tempo vice-rei da Índia (1546). D. João de
Castro marcou também pela nobreza do seu carácter: Precisando de dinheiro
para reconstruir aquela praça, pediu-o à Câmara de Goa, “entregando como
garantia as suas próprias barbas, cujo elevado penhor lhe fora logo
devolvido, acompanhado de palavras honrosas e da quantia solicitada”.
As terras da Índia tinham sido a constante preocupação dos portugueses, a
quem as suas riquezas (especiarias, pimenta, chá, sedas, etc.) seduziam e
deslumbravam. Do Brasil ninguém cuidava.
D. João lll, porém, guiado por uma intuição feliz, pensou de maneira
diferente. Reconhecendo que o Brasil era manancial de recursos apreciáveis,
tratou logo de os aproveitar. Problema difícil …
Começou por fazer dividir em 1530, as terras em fracções de 50 léguas
(chamadas capitanias), medidas ao longo da costa, distribuindo-as em seguida
por colonos portugueses que, pagando à Coroa certos direitos, ficavam com a
obrigação de as cultivar, povoar, defender e evangelizar. Mais tarde, devido
ao aumento da população e a muitos outros progressos, criou um Governo Geral
e nomeou governador Tomé de Sousa, que, instalando-se na Bahia, fundou em
1549 a cidade de São Salvador, a primeira capital do Brasil.
Neste reinado, foi estabelecido o Tribunal do Santo Ofício (ou Inquisição),
com assentimento do Papa Paulo lll, por bula de 23 de Maio de 1536.
Destinava-se a impedir os abusos e delitos dos hereges contra a religião
católica, ou a crimes graves contra os bons costumes, e a castigar aqueles
que os praticassem.
D. João lll sempre evidenciou uma natural inclinação a favor das letras. A
Universidade, que se encontrava em Lisboa desde o tempo de D. Fernando l,
foi transferida para Coimbra em 1537 e ali se tem conservado até aos dias de
hoje. O rei favoreceu este estabelecimento de ensino com importantes
reformas: criou-lhe novos estatutos e faculdades, deu-lhe alojamento
apropriado no Paço de Alcácer e contratou para ele distintos professores
nacionais e estrangeiros.
A Companhia de Jesus, criada por Santo Inácio de Loiola, foi introduzida em
Portugal a pedido de D. João lll, em 1540. Esta instituição, que tinha por
objectivo principal difundir a civilização cristã, prestou a Portugal
relevantes serviços, missionando as terras que íamos descobrindo, protegendo
e amparando os humildes, educando, instruindo e divulgando a Língua
Portuguesa. Na Índia, tornou-se notável pela sua acção evangelizadora, São
Francisco Xavier, chamado o “Apóstolo das Índias”. No Brasil, também se
distinguiram alguns missionários, tais como: os padres Manuel da Nóbrega,
Leonardo Nunes e José de Anchieta.
As dificuldades com que lutava D. João lll para a administrar e manter tão
grande império espalhado por todo o mundo, e ainda as enormes despesas que
tanto se faziam na Índia, e depois no Brasil, levaram o rei a abandonar em
África as praças de Safim e Azamor, em 1542; Alcácer Ceguer e Arzila, em
1549.
Entretanto, como recompensa dos valiosos serviços que prestámos à China
contra os piratas malaios, foi consentido pelos chefes daquele país que os
portugueses ali estabelecessem e fundassem a Colónia de Macau, em 1557.
Os restos mortais de D. João ll, encontram-se no mosteiro dos Jerónimos, em
Lisboa.
D. Catarina de Áustria
(Mulher de D. João III)
D. João lll
Cognome histórico : o "PIEDOSO" Reinou de 1521 a 1557 Décimo quinto rei de
Portugal, filho de D. Manuel 1 e de sua segunda mulher, D. Maria de Castela.
Nasceu em Lisboa em 1502. De inteligência muito reduzida e, devoto religioso
até ao fanatismo, introduziu em Portugal a Companhia de Jesus e o Tribunal
da Inquisição. O grande a magnífico império colonial que D. João lll,
herdada de seu pai, começou a ter no seu reinado uma rápida decadência.
Na Índia, a Afonso de Albuquerque, sucederam-se governadores corruptos, os
abusos de que eram vítimas os povos colonizados, originaram várias guerras,
que esgotaram as forças de Portugal. Durante o admirável mas curto reinado
do vice-rei, D. João de Castro, de 1545 a 1548, este conseguiu levantar
novamente o prestígio de Portugal. Mas quando este morreu, os abusos e as
guerras recomeçaram e a Índia tornou-se um grande sorvedouro de homens e de
dinheiro. Neste reinado os portugueses tiveram que abandonar Argila, Azamor
r outras praças, porque o País já não as podia defender. A despeito da sua
mediocridade intelectual, agravada pelo fanatismo religioso, de certa forma
começou D. João lll, a desenvolver a colonização do Brasil, dividindo-o em
capitanias (*) e concedendo grandes vantagens e benefícios aos seus
donatários e colonos. Dos seus numerosos filhos, nenhum lhe sobreviveu e a
coroa passou para seu neto, D. Sebastião. D. João lll, jaz no Mosteiro dos
Jerónimos (Belém - Lisboa).
(*) Capitania - antiga circunscrição territorial das colónias portuguesas.
João III, 0 Piedoso - 15.° rei de Portugal.
Nasceu em Lisboa a 6 de Junho de 1502, onde também faleceu a 11 do referido
mês, do ano de 1557. Era filho de el-rei D. Manuel e de sua segunda mulher,
a rainha D. Maria, filha dos reis católicos Fernando e Isabel.
0 dia do seu nascimento foi assinalado por uma horrorosa tempestade, e o do
baptismo por um incêndio que se declarou no paço, coincidências que muito
impressionaram como de grande agoiro no futuro reinado. Infelizmente, os
factos posteriores vieram confirmar estes lúgubres presságios. Em criança
deu mostras de medíocre inteligência, e além disso, não teve uma aplicação
assídua e séria que os estudos demandam; distraía-se muito com os
passatempos que tanto preocupam a juvenil idade, e os mestres, ou por
demasiado respeito, ou por mera adulação, nunca pensaram em exercer para com
o real discípulo a autoridade que por boa razão lhes cabia. Não chegou,
portanto, a desenvolver as faculdades intelectuais, como seria fácil na
presença dos grandes meios de instrução que lhe foram proporcionados. Nos
Annaes de El-rei D. João Terceiro, publicados por Alexandre Herculano em
1844, Parte I, Cap. ti, diz Frei Luís de Sousa, depois de mencionar todos os
mestres de D. João III:
«Porém de todo este cuidado se lhe não pegou mais que huma boa inclinação
pera as Letras e letrados, em tanto gráo, que achamos posto em memoria, que
quando o nosso celebrado Cronista da Asia, João de Barros, compunha por
passatempo a fabulla do seu Clarimundo, afim de polir o estilo, pera vir a
escrever as verdades dos feitos portuguezes, guerras e costumes da Ásia, com
que depois espantou o mundo, tinha o Príncipe tanto gosto da lição della,
que acontecia tomar-lhe os cadernos e de sua mão illos emendando. Que não
póde ser mais claro indicio de amor aos Livros: que todavia valeo muto a
este Reyno. Porque vindo a reynar fez que florescessem nelle com grandes
aventagens todas as boas letras.»
Quando tinha 16 anos pretenderam casá-lo com a juvenil infanta D. Leonor,
irmã do imperador Carlos V, porém D. Manuel, que tinha enviuvado, agradou-se
da noiva destinada a seu filho, e escolheu-a para as suas terceiras núpcias.
0 príncipe ressentiu-se muito com o procedimento de el-rei, que considerou
uma ofensa, e desde então se ficou sombrio e melancólico, tornando-se
fanático em extremo, o que deu causa ás maiores atrocidades que se
praticaram no seu reinado. Tinha pouco mais de 19 anos quando faleceu seu
pai, a 13 de Dezembro de 1521, e foi aclamado rei de Portugal no dia 19. Era
muito afeiçoado à madrasta, e parece que a rainha viúva D. Leonor lhe
correspondia com igual afecto. Chegou-se a murmurar destes amores,
despertando ideias de um casamento, que muito agradava ao povo. Carlos V,
porém, é que se opôs, pretendendo que a irmã casasse com o rei de França,
Francisco I, e D. Leonor retirou-se para Espanha. D. João III veio depois a
casar em 5 de Fevereiro de 1525, na vila de Alvito, com D. Catarina, outra
irmã de Carlos V .
Quando subiu ao trono em Dezembro de 1521, Portugal dominava na Ásia, na
Africa e na América, fundara fortalezas na Índia, e até no extremo Oriente
tinha o senhorio de muitas ilhas africanas, e duma parte das costas
orientais e ocidentais dessa parte do mundo, possuindo também o território
vastíssimo do Brasil, que chamou muito a atenção do monarca. Dividiu-o em
capitanias, e começou assim por meio de donatários a colonizá-lo, sendo ele
também quem lhe nomeou o primeiro governador-geral, que foi Tomé de Sousa,
que em 1549 fundou a cidade da Bahia. A parte importante da história de D.
João III é a história da Índia. Subindo ao trono, governava aqueles estados
D. Duarte de Meneses, que desonrava o nome português com as suas piratarias,
e D. João III mandou-o substituir por D. Vasco da Gama, conde da Vidigueira,
que pouco tempo governou, mas conseguiu restabelecer a moralidade com a sua
austera energia. Sucedeu D. Henrique de Meneses, homem também enérgico e
austero, que socorreu Calecut cercada pelo inimigo. Em seguida devia
governar a Índia, Pedro Mascarenhas, mas Lopo Vaz de Sampaio assenhoreou-se
do poder, e entre os dois governadores e os seus partidários rebentaram as
mais vergonhosas dissensões. Nuno da Cunha fundou as fortalezas de Diu e
Baçaim. D. Estêvão da Gama enviou uma expedição à Abissínia, Martim Afonso
de Sousa tornou-se tão notável pela sua bravura como pela sua cobiça, D.
João de Castro renovou as gloriosas tradições de Afonso de Albuquerque, mas
desde então começou a decadência. Contudo, nesse tempo, o poder dos
portugueses ampliou-se muito. Descobriu-se a província do Espírito Santo em
1522; conquistou-se Goleta em 1535; deu-se o segundo cerco de Diu, em 1546;
a conquista de Baroche, por D. João de Menezes, e a vitória do Dabul, por D.
João de Castro, em 1547; a derrota dos franceses, por Mem de Sá, em 1556. 0
nosso domínio chegou à China e ao Japão; os nossos missionários penetraram
nos mais recônditos países do Oriente, as nossas fortalezas ergueram se nos
extremos limites dos mares das Índias.
A má administração e o desejo ambicioso de enriquecer que animava alguns
governadores e muitos fidalgos, entregando-se sem rebuço à pirataria e ao
roubo, causaram a decadência da Índia, concorrendo também muito a influência
dos jesuítas e o estabelecimento do tremendo tribunal da Inquisição. 0 que
mais preocupava o espírito de D. João III era o seu fanatismo religioso, que
o levou à ferocidade, e tão funesto foi para Portugal. Desejoso de implantar
a Inquisição no reino e seus domínios, travou com a cúria romana as mais
demoradas negociações, gastando enormes quantias, chegando a declarar que se
o papa não acedesse ao seu pedido não teria duvida em separar-se do grémio
católico, seguindo o exemplo de Henrique VIII, de Inglaterra. Afinal a
Inquisição ficou instituída neste reino pela bula de Paulo III, datada de 23
de Maio de 1536, sendo instituído o tremendo tribunal na sua forma mais
completa pela bula de 16 de Julho de 1547. A Companhia de Jesus foi fundada
em 1534, foi aprovada em 1540 pelo pontífice Paulo III, e nesse ano entraram
em Portugal os primeiros jesuítas, que o fanático monarca acolheu com o
maior entusiasmo. A Companhia de Jesus tomou toda a preponderância que
desejava; D. João III confiou-lhe o ensino e as missões. Como missionários,
deve dizer-se, que prestaram bons serviços, principalmente S. Francisco
Xavier na Índia, e José de Anchieta no Brasil.
O monarca havia transferido em Abril de 1537 para Coimbra a Universidade,
que até então estava em Lisboa. Facilitara subsídios a muitos rapazes de
talento para irem estudar nas universidades estrangeiras, e chamará a
Portugal homens de abalizado merecimento literário e científico, para virem
ensinar as boas letras e as ciências na Universidade. Desta forma dava D.
João III demonstrações de que pretendia elevar a Universidade, e em geral os
estudos, a subido grau de esplendor. Mas a influência dos jesuítas fez com
que por carta régia de 10 de Setembro de 1555, passasse o Collegio das Artes
e o governo d'elle mui inteiramente ao Padre Diogo Mirão, Provincial da
Companhia de Jesus Os jesuítas erigiram estabelecimentos nas principais
cidades do reino, onde logo se encarregaram da instrução da mocidade.
Tornaram-se rivais da Universidade e dos bispos, e adquiriram uma
superioridade decidida sobre todas as outras ordens religiosas. 0 que faz
honra à memória de D. João III é a aceitação que dava a Pedro, Nunes, a quem
muito distinguiu. Pedro Nunes tinha vindo de Salamanca para reger a cadeira
de Matemática na Universidade de Lisboa, e regeu ainda outras cadeiras da
mesma faculdade, e quando se deu a transferência da Universidade, regeu
também em Coimbra a cadeira de Matemática até ao ano de 1562, em que foi
jubilado. 0 ministro predominante na corte deste fanático monarca foi Pedro
de Alcáçova, excepto nos negócios da Inquisição, em que el-rei resolvia só
por si. As questões religiosas eram as que mais o interessavam. D. João III
ligou-se por tal forma à Espanha, que preparou o desastre de 1580.
Influenciado por Carlos V, os dotes das princesas portuguesas, que
desposavam os príncipes castelhanos, constituíam um bom recurso financeiro a
que o imperador recorria sempre que podia. Do seu consórcio teve os
seguintes filhos: D. Afonso, nascido em 1526, e que morreu criança; D.
Maria, nascida em 1527, e que fal. em 1545, sendo a primeira mulher de
Filipe II, de Espanha; D. Isabel, que nasceu em 1529, e faleceu em criança;
D. Beatriz, nascida em 1530, falecendo ainda no berço; D. Manuel, nascido em
1531 e falecido em 1537; D. Filipe, que nasceu em 1533 e faleceu em 1539; D.
Diniz, nascido em 1535, fal. em criança; D. João, que nasceu em 1537, e
faleceu em 1554, que foi o pai do rei D. Sebastião; D. António, nascido em
1539 e falecido em 1540. Teve um filho bastardo, D. Duarte, que, nasceu em
1521 e faleceu em 1543, sendo arcebispo de Braga. De tantos filhos nenhum
lhe sobreviveu, vindo a suceder no reino seu neto D. Sebastião, que apenas
contava três anos de idade quando morreu o avô.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 1043-1045.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal