Vencidos os portugueses na Batalha de
Alcântara; Filipe II de Espanha (1º de Portugal) veio a Portugal e
convocou as Cortes de Tomar, em 1581, onde foi aclamado rei de
Portugal.
Nessas cortes, afim de atrair a simpatia dos portugueses, jurou
governar o Reino segundo os seus usos e costumes tradicionais:
- Que todas as leis, direitos, regalias e liberdades, seriam
assegurados;
- Que para os lugares públicos e de confiança do Reino, só seriam
nomeados portugueses da nascimento;
- Que a língua do Reino continuaria a ser a portuguesa;
- Que o nosso império colonial seria respeitado;
- Etc.
Mas, se bem prometeu, infelizmente, a tudo faltou.
D. António, Prior do Crato, encontrava-se na Ilha Terceira, que não
aceitara o jugo espanhol, auxiliado por algumas centenas de soldados
franceses e ingleses que ali conseguira juntar, procurava fazer
valer os seus direitos ao trono. Porém, uma esquadra organizada por
D. Filipe Iº, derrotou a de D. António na batalha naval de Vila
Franca, junto da ilha de São Miguel, nos Açores, em 1582.
Mais tarde, pedindo socorro à Inglaterra, que lho concedeu, ainda
voltou a Portugal para sublevar o País, mas sem resultado prático,
pois foi de novo repelido, em 1589: Depois disto retirou-se
finalmente para França, onde morreu em 1595.
Filipe lº, para se vingar de algumas afrontas recebidas da
Inglaterra, tomou a resolução de invadir este país.
Para isso reuniu uma poderosa esquadra, chamada a Armada Invencível,
da qual faziam parte os melhores navios portugueses. Devido a uma
tempestade, quase todos os navios naufragaram e os restantes foram
desfeitos por uma armada inglesa, em 1588.
O povo português não concebia a ideia do desaparecimento de D.
Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir. Julgava-o ainda vivo.
Aproveitando esta crença popular, apareceram neste reinado quatro
aventureiros que tentaram fazer-se passar por D. Sebastião (o rei
Desejado). Descoberto o logro, foram condenados à morte.
Os restos mortais de Filipe lº encontram-se no :
Escurial (Espanha).
Filipe Iº de Portugal (IIº de Espanha) "O Prudente".
Nasceu em Valladolid em 1527, faleceu no Escurial a 13 de Setembro
de 1598. Era filho de Carlos V, imperador da Alemanha, e da
imperatriz D. Isabel, filha de el-rei D. Manuel, de Portugal.
Casou em 15 de Novembro de 1543, contando 16 anos de idade, com a
infanta D. Maria, que também contava a mesma idade, filha de D. João
III e da rainha D.: Catarina, a qual faleceu dois anos depois, a 12
de Julho de 1545. Ficando viúvo aos 18 anos, Filipe assim se
conservou até 1551, em que casou com Maria Tudor, rainha de
Inglaterra, e foi residir em Londres, mas tornou-se tão pouco
simpático aos ingleses, que estes, com o maior prazer o viram partir
em 1555 para os Países Baixos, cujo governo Carlos V lhe cedeu, como
anteriormente lhe cedera, um ano antes, o governo de Nápoles e da
Sicília, e como lhe cedeu mais tarde, em 1556, a coroa de Espanha,
quando completamente abdicou para se recolher no mosteiro de S.
Justo. Filipe enviuvou também da rainha de Inglaterra, falecida em
1558, e tornou a casar, pela terceira vez, com a princesa de França,
Isabel de Valois, filha de Henrique II. Não seguiremos a vida deste
monarca, senão depois de se ter apoderado de Portugal em 1530.
Depois da morte de el-rei D. Sebastião na funesta batalha de Alcácer
Quibir, Filipe pensou na posse do trono português, com as maiores
esperanças, por ver aclamado o cardeal D. Henrique, velho decrépito,
de quem não se podia recear sucessão. Era, porém, preciso antes da
sua morte, assegurar a posse do trono, e para isso empenhou, todos
os meios, intrigas e. dinheiro para ganhar ao seu partido a corte de
Portugal, conseguindo assim. chamar para seu lado muitos fidalgos
portugueses. Os pretendentes, que eram sete, disputavam entre si a
posse do. reino, mas; desses sete, contavam-se cinco que baseavam as
suas pretensões em fundamentos aceitáveis. Estes cinco eram: Filipe
do Espanha, que alegava ser filho de D. Isabel, filha primogénita de
D. Manuel, que casara com Carlos V; o duque de Sabóia dizia ser
filho da infanta D. Beatriz, filha do referido monarca, que casara
com seu pai o duque de Sabóia; D. António, prior: do Crato, alegava
ser filho natural do infante D. Luís, igualmente filho de el-rei D.
Manuel; o duque de Parma, o ser neto, por sua mãe, do príncipe D.
Duarte, filho também de D. Manuel; e a duquesa de Bragança, D.
Catarina, alegava ser filha do mesmo príncipe. Os dois, que menos
direito mostravam, eram Catarina de Medicis, rainha de França,
dizendo-se descendente de D. Afonso III e de sua primeira mulher, a
condessa Matilde de Bolonha, e finalmente o papa, que se dizia
herdeiro natural dos cardeais, e entendia portanto dever usufruir o
reino que um cardeal governava como podia usufruir uma quinta de que
fora possuidor. Os cinco primeiros é que apresentavam títulos
valiosos, e entre esses só três disputavam seriamente entre si a
coroa: Filipe, D. António, prior do Crato, e a duquesa de Bragança.
Cem a morte do cardeal D. Henrique ainda mais se acendeu a intriga.
Cristóvão de Moura, o português renegado que estava sendo em
Portugal o agente infernal do rei de Espanha, conhecido pelo demónio
do meio-dia, enleava tudo nas redes da sua diplomacia corruptora,
espalhando ouro castelhano, com que comprava as consciências que
quisessem vender-se: Filipe II, em Espanha, seguia com ansiedade a
marcha dos acontecimentos, e de lá dirigia os planos e auxiliava a
politica do seu emissário. O reino ficara, entregue a cinco
governadores vendidos a Cristóvão de Moura, os quais, receando do
povo que se agitava; hesitavam em reconhecer Filipe como rei de
Portugal. Vendo isto, o monarca castelhano dispôs-se a conquistar o
reino pela força das armas, empresa fácil, porque os governadores
das praças já eram, na maior parte, criaturas de Cristóvão de Moura.
D. António, prior do Crato, fizera-se aclamar em Santarém, mas
dispunha de poucas tropas. Apesar disso, Filipe reuniu um poderoso
exército, cujo comando confiou ao general duque de Alba; confiou ao
marquês de Santa Cruz o comando duma esquadra, e conservou-se
próximo da fronteira de Badajoz. O duque de Alba marchou sobre
Setúbal; conquistando facilmente o Alentejo, atravessou para Cascais
na esquadra do marquês de Santa Cruz, marchou sobre Lisboa, derrotou
o prior do Crato na batalha de Alcântara, a 4 de Agosto de 1580,
perseguiu-o até à província do Minho, e preparou enfim o reino para
receber a visita do seu novo soberano. (V. Antonio, D.).
Filipe, em 9 de Dezembro, atravessou a fronteira, entrou em Elvas,
onde se demorou dois meses recebendo nesta sua visita os
cumprimentos dos novos súbditos, sendo um dos primeiros que o veio
saudar o duque de Bragança. A 23 de Fevereiro de 1581 saiu de Elvas,
atravessou triunfante e demoradamente todo o país, e a 16 de Março
entrou em Tomar, para onde convocara cortes, e ali distribuiu as
primeiras recompensas, e ordenou os primeiros suplícios e confiscos,
e recebeu a noticia de que todas as colónias portuguesas haviam
reconhecido a sua soberania, exceptuando a ilha Terceira, onde se
arvorara a bandeira do prior do Crato, que fora ali ,jurado rei de
Portugal a 16 de Abril de 1581. Nessas cortes prometeu Filipe II
respeitar os foros e as isenções de Portugal, e nunca lhe dar para
governador senão um português ou um membro da família real.
Entendendo que devia demorar-se algum tempo no território português,
expediu de Lisboa as tropas que subjugaram, depois de porfiada luta,
a resistência da ilha Terceira, em que D. António fora auxiliado
pela França, e só partiu para Espanha, quando a vitória naval de
Vila Franca, em que o marquês de Santa Cruz destroçou a esquadra
francesa em 26 de Julho de 1582, lhe garantiu a definitiva submissão
da referida ilha. Nomeando para vice-rei de Portugal seu sobrinho, o
cardeal‑arquiduque Alberto, e depois lhe ter agregado um conselho de
governo, e de ter nomeado os membros do conselho de Portugal, que
devia funcionar em Madrid, partiu finalmente a 11 de Fevereiro de
1583 para Espanha. A 29 de Agosto conquistava o marquês de Santa
Cruz a ilha Terceira. A nova monarquia hispano‑lusitana era
opulentíssima; abrangia na Europa toda a península ibérica, Nápoles,
Sicília, Milão, Sardenha e Bélgica actual; na Ásia as feitorias
portuguesas da Índia, da Pérsia, da China, da Indochina, e a da
Arábia; na África: Angola, Moçambique, Madeira. Cabo Verde, S. Tomé
e Príncipe, Canárias, toda a América menos algumas das Antilhas,
parte dos actuais Estados Unidos e o Canadá, e urnas porções de
terrenos na Guiana; na Oceânia tudo o que então havia conhecido e
pertencente aos europeus. Nenhuma outra nação ali fora ainda
assentar domínio. As Molucas eram a parte mais importante dessas
possessões.
A Europa principiou a assustar-se com este poderio colossal, receosa
de que por este caminho Filipe chegasse a realizar o sonho ambicioso
de monarquia universal. Sucederam se então importantes
acontecimentos políticos, em que a Inglaterra aproveitou para se
vingar de Filipe, de quem se considerava ofendida. As coisas
complicaram-se gravemente porque Isabel, de Inglaterra, mostrou-se
disposta a auxiliar as pretensões do prior do Crato, e o almirante
Drake, por ordem superior, invadiu as colónias espanholas, que eram
também as portuguesas, saqueando Cabo Verde, tomando o castelo do
Cabo de S. Vicente, e apresando quantos galeões americanos cruzavam
nos mares dos Açores. Foi então que Filipe organizou a célebre
Armada Invencível, comandada pelo duque de Medina Sidónia, que uma
tempestade aniquilou por completo, em Junho de 1588. (V. Armada
Invencível). As ambições de Filipe II foram profundamente ruinosas
para as nossas colónias. Em 1589 fechara aos ingleses os Portos
portugueses e em 1591 fechou-os também aos holandeses Daí resultou
que não podendo nem uns nem outros vir buscar a Portugal os géneros
do Oriente, lembraram-se de ir à, fonte desse comércio. Os
holandeses começaram a aparecer no seu tempo no Oriente, onde a
nossa decadência era sensível, e onde depois da perda da nossa
independência só dois capitães ilustres, D. Paulo de Lima Pereira e
André Furtado de Mendonça, tinham mantido nobremente a honra da
bandeira portuguesa. Os ingleses salteavam as nossas possessões mais
próximas, Cabo Verde e os Açores, mas não tardariam também a
aparecer no Oriente favorecendo a natural reacção dos indígenas
contra o nosso domínio.
Em Portugal houve duas tentativas de revolta, promovidas pela
aparição de dois homens em quem o povo julgou ver D. Sebastião, e
que por isso tiveram a denominação de rei de Penamacor e de rei da
Ericeira. O motim promovido por este último tomou proporções
gravíssimas, e foi reprimido dum modo sanguinário e violentíssimo.
Filipe II, apesar da destruição da Armada Invencível, não desistiu
das suas expedições contra a Inglaterra, e ainda em 1596 enviou urna
à Irlanda que também os temporais dispersaram, perdendo a Espanha
neste desastre 40 navios. Filipe enviuvou pela terceira vez, e casou
novamente com uma segunda prima, Ana de Áustria, que faleceu em
1580, quando estava com seu marido em Badajoz, seguindo o progresso
das armas castelhanas em Portugal, deixando-o pela quarta vez viúvo.
Filipe II teve uma série de primeiros-ministros notáveis: o duque de
Alba, que morreu em Lisboa dois anos depois da conquista; o príncipe
de Eboli que morreu muito antes do rei; António Peres, que lhe
sobreviveu, mas que ele perseguiu implacavelmente; o cardeal de
Granville, que depois de ter perdido todo o valimento, o recuperou e
foi chamado de Nápoles para ficar como regente do reino em Madrid,
enquanto o rei vinha a Portugal; e Cristóvão de Moura, que foi o
valido da última hora, o que recebeu o seu derradeiro suspiro e as
suas derradeiras confidencias. Pouco tempo antes de morrer, o
cardeal-arquiduque Alberto, vice-rei de Portugal, fora nomeado
soberano de Flandres, e para o substituir em Portugal nomeou um
conselho composto do arcebispo de Lisboa, dos condes de Portalegre,
de Sabugal e de Santa Cruz, e de Miguel de Moura. Foi este o último
acto importante do seu reinado.
Com a Universidade de Coimbra deu-se o seguinte facto, logo no
começo do reinado de Filipe. Em Fevereiro de 1580, pouco depois da
morte do cardeal rei D. Henrique, apresentou-se ao claustro da
Universidade o Dr. João Nogueira, com uma provisão dos governadores
do reino, na qual permitiam a todos os lentes, que não fossem
desembargadores, dar o seu parecer dentro de oito dias, sobre a
sucessão do trono. Quis, porém, a má estrela da Universidade, que D.
António, prior do Crato, lhe escrevesse uma carta, datada de
Santarém aos 20 de Junho do mesmo ano, dando conta de ter sido
aclamado rei em diversos lugares do reino. A Universidade resolveu
em claustro que se fizesse uma procissão, em acção de graças, desde
a sua capela até Santa Cruz; e no mesmo claustro foram eleitos, para
irem dar obediência ao nosso rei, reconhece-lo como tal e fazer-lhe
a entrega da protectoria, o reitor Fernão Moniz Mascarenhas e Fr.
Luís Sotto-mayor. Em 13 de Dezembro voltou o reitor, disse em
claustro que era desnecessário dar conta do desempenho da sua
missão, pois de todos era já sabido que o rei de Castela estava
reconhecido como rei de Portugal. Em vista desta declaração
deliberou-se que o próprio reitor, encarregado havia pouco de
cumprimenta o prior do Crato, fosse agora com os lentes da sua
escolha, dar obediência a Filipe I. Este acto cerimonial realizou-se
em Elvas a 20 de Dezembro de 1580, sendo a Universidade representada
por D. Jorge de Ataíde e D. Afonso Castelo Branco. Tornou-se a fazer
outra procissão solene, quando o reitor, em voltando, trouxe carta
de el-rei, datada de Elvas a 25 de Fevereiro de 1581, na qual
significava o contentamento que sentira pela obediência da
Universidade, e com o ser declarado seu protector. Mas Filipe não
era homem que deixasse sem castigos os sentimentos que a
Universidade manifestara ao prior do Crato. Pedro de Alpoim,
colegial de S. Pedro e lente do Código, foi degolado em Lisboa; Fr.
Luís de Sotto-mayor privado da cadeira grande de Escritura; Fr.
Agostinho da Trindade, da de Escoto; Fr. Luís foi depois restituído,
mas Fr. Agostinho ausentou-se para França, e foi lente de Teologia
na Universidade de Tolosa; João Rodrigues de Vasconcelos, que
trouxera a carta do prior do Crato, foi preso e morreu na prisão.
Outro facto é também digno de narrar-se; pela provisão de 9 de Março
de 1583 foi Manuel de Quadros nomeado visitador e reformador da
Universidade; tomou posse do cargo e prestou, juramento a 21 de
Março do mesmo ano. O visitador vinha encarregado de construir
escolas para a Universidade, mas os seus esforços estacaram afinal
pela falta de dinheiro. A Universidade pediu a Filipe I que lhe
cedesse os paços reais para neles se assentarem as escolas, que lá
estavam havia já 40 anos. O rei respondeu, em 30 de Setembro do
referido ano de 1583, que, embora desejasse fazer muitas mercês à
Universidade, não era conveniente a seu serviço dar-lhe os seus
paços, que aliás, em sendo desocupados pela Universidade, tencionava
mandar concertar, para poder em algum tempo ir a eles, como
desejava. Filipe nunca realizou o desejo que disse ter de ir aos
paços de Coimbra. Anos depois, em 1597, o mesmo monarca vendeu à
Universidade esses mesmos paços por 30 mil cruzados. Neste sentido
foi expedido um alvará em 17 de Maio de 1597, e se fez a carta de
venda, em nome de el-rei, a 16 de Setembro do mesmo ano. No reinado
de Filipe I recebeu a Universidade estatutos por duas vezes, uma em
1592, sendo trazidos de Madrid pelo Dr. António Vaz Cabaço,
resultantes da reformação operada por Manuel de Quadros; outra, os
novos estatutos confirmados em 8 de Junho de 1597, e trazidos de
Madrid pelo Dr. Rui Lopes da Veiga.
Filipe I, o rei ambicioso e desumano, que todos esmagava com o seu
feroz despotismo, faleceu coberto de vermes e de úlceras, depois dum
doloroso. e demorado sofrimento.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 489-491.