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HISTÓRIA de P O R T U G
A L
(Resumo)
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Bandeira Real
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Trabalho e pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro |


D. João IV
– “O Restaurador”
Reinou de 1640 a 1656
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(1640-1667)
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Rei de Portugal
e dos Algarves d'Aquém e d'Além Mar em África, Senhor da Guiné e do
Comércio, da Conquista e da Navegação da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia |
Em Janeiro de 1641, reuniram-se
as cortes em Lisboa para confirmar a proclamação de D.
João IV. Nelas foram também aprovadas todas as
convenientes medidas de segurança e defesa do Reino,
pois já se contava com a guerra com a Espanha ia
declarar a Portugal. Foram, em seguida, enviados
embaixadores a várias nações, com as quais se realizavam
tratados de aliança e que começaram a reconhecer a nossa
independência.
Aclamação de D. João IV

Aclamação de D. João IV |
Primeiro, mandaram-se enviados à Catalunha, que redobrou
de esforços na luta sustentada contra os espanhóis e
impediu numerosas forças de marcharem sobre Portugal.
Depois, despacharam-se embaixadores para França,
Holanda, Inglaterra e outros países.
A França aceita auxiliar-nos por terra e por mar, embora
nunca tenha cumprido a promessa.
A Holanda promete socorro naval, permite o recrutamento
de soldados e oficiais, prontifica-se a mandar-nos
alimentos e munições.
A Suécia envia-nos oito navios de guerra e muito
material bélico.
A Inglaterra fornece-nos armas e dá licença para
alistarmos soldados e oficiais ingleses.
Na Dinamarca, os nossos embaixadores são recebidos, com
todas as atenções, mas não se assina qualquer tratado,
em virtude do respectivo monarca estar, nesse momento, a
negociar a paz, como medianeiro entre os Estados
protestantes e o imperador da Alemanha.
Quanto à Santa Sé, junto da qual a Espanha dispunha de
grande influência, a questão foi difícil e morosa. O
nosso primeiro embaixador, D. Miguel de Portugal, bispo
de Lamego, viu-se atacado nas ruas de Roma pelos
emissários de Filipe IV (de Espanha), não foi recebido
pelo papa e teve que regressar a Portugal. Seguiram-se
novas negociações, que se protelaram por mais de vinte
anos, até que se veio a conseguir a aplanação de todas
as dificuldades.
Na França, na Inglaterra, na Holanda e na Itália,
trabalhou, como agente secreto de D. João IV, o padre
António Vieira que trouxera a Portugal a adesão do
Brasil à revolução de 1640 e se tornara um dos mais
fiéis servidores do monarca e do Reino.
Entretanto, por influência da duquesa de Mântua, ou por
alguns fidalgos se julgarem com mais direitos à Coroa do
que o duque de Bragança, tentou-se uma conspiração
contra a vida de D. João IV. Em 1647, no dia do Corpo de
Deus, houve uma conspiração contra o rei. Domingos Leite
tinha-se incumbido de matar nesse dia o rei. Mas,
descobertos os seus propósitos, foi imediatamente
executado.
Durante este reinado voltaram ao domínio português,
grande parte das possessões que havíamos perdido. Em
Marrocos, retomámos Tânger; Salvador Correis de Sá e
Benevides, reconquistou Angola e São Tomé aos
holandeses; no Brasil, também voltaram à nossa posse
Pernambuco, Bahia e Maranhão. Porém, Ceuta, Malaca e
Ceilão perderam-se para sempre.
Os restos mortais de D. João IV encontram-se na Igreja
de São Vicente de Fora.
Rainha D. Luísa de Gusmão
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Rainha D. Luísa de Gusmão |
D. João IV
Vigésimo primeiro rei de Portugal, fundador da dinastia
de Bragança, também conhecida por Brigantina, era filho
de D. Teodoro ll, sétimo Duque de Bragança e de sua
mulher, a Duquesa D. Ana de Velasco. Nasceu em Vila
Viçosa em 1604. A sua juventude decorreu tranquilamente
no seu magnífico domínio em Vila Viçosa (Alentejo,
votada quase inteiramente aos prazeres da música e da
caça. Chamado ao trono português pela Revolução de 1640,
o novo rei organizou, sem perder tempo, da organização
da defesa de Portugal. Depois teve de castigar uma
conspiração, formada por vários fidalgos portugueses que
tinham a intenção de o assassinar, e, em seguida voltar
a entregar Portugal aos espanhóis. O Marquês de Vila
Real, o Duque de Caminha, ( "Marinha Grande - Penedo da
Saudade (**), em o Conde de Armamar e D. Agostinho
Manuel, que eram com o arcebispo de Braga, os
principais, expiaram o seu crime (lesa-majestade), no
cadafalso e o arcebispo acabou os seus dias num cárcere.
Durante o reinado de D. João lV, a guerra com a Espanha
arrastou-se numa série de pequenos combates e
escaramuças, com uma única excepção: a Batalha do
Montijo (*) que foi para os portugueses uma brilhante
vitória.
No Brasil, a luta contra os holandeses, começada em
1642, terminava em 1654 com a expulsão destes. Em
África, um luso-brasileiro de nome Salvador Correia de
Sá, depois de libertar o Rio de Janeiro, rumou para
Angola e S. Tomé e Príncipe e também de lá expulsou os
holandeses.
As características de D. João lV era o bom senso, a
prudência e o tacto governativo; o seu principal defeito
era ser egoísta. Jaz em S. Vicente de Fora (Lisboa).
(*) Batalha de Montijo (Badajoz – Espanha). Célebre
vitória dos portugueses, comandados por Matias de
Albuquerque sobre os espanhóis, capitaneados pelo barão
de Mollingen, em 26 de Maio de 1644.
(**)A Lenda do Penedo da Saudade - Carlos Leite Ribeiro
Recordamos que "Penedo da Saudade" existem dois: um
romântico situado em Coimbra, voltado para o vale do
Calhabé, e o outro em S. Pedro de Moel. É deste que
vamos contar a Lenda.
Contrariamente ao que possam imaginar, não vamos falar
da Rainha Santa Isabel, da sua mantilha, nem das
lágrimas de esposa traída pelo seu rei e senhor D. Dinis
o "Lavrador", que gozava de fama (e talvez proveito) de
ser uma grande sedutor.
O drama de que vamos falar (lenda), respeita aos Duques
de Caminha: D. Miguel Luís Meneses e de sua esposa D.
Juliana.
Este feliz casal vivia uma vida muito recatada no seu
palácio, afastado do bulício e das intrigas da Corte e
da política bem efervescente naquele ano de 1941.
Mas ...
Cert dia foram surpreendidos por um dos seus criados que
anunciou a chegada do senhor Marquês de Vila Real, pai
de D. Miguel de Meneses.
D. Juliana teve logo o presságio de que algo de grave se
tratava, dado que se levantou empalecida. Em vão seu
esposo, D. Miguel, tentava acalmar sua amantíssima
esposa. Entretanto, mandou entrar seu pai.
Não obstante o desejo do Marquês falar a sós com seu
filho, este insistiu para que a esposa ficasse presente.
"Seja !" - concordou por fim o Marquês de Vila Real. O
seu aspecto era grave o que deixou o casal ainda mais
inquieto. D. Miguel quis saber da visita de seu pai: "O
que se passa, senhor meu pai ?...
Este encarou bem de frente o filho e retorquiu-lhe:
"Senhor Duque de Caminha e meu filho, chegou a hora de
el-rei D. João lV pagar a sua tirania ! A conspiração
está organizada e, dela fazem parte o arcebispo-primaz,
o Conde de Armamar, D.Agostinho de Vasconcelos, eu e vós
!".
Muito surpreendido, D. Miguel que não havia sido
anteriormente consultado, tentou não fazer parte da
conjura: "Não meu pai !".
O velho fidalgo quase que fusilou o filho com o olhar:
"E se vos der uma ordem ?... não deveis trair-nos !". D.
Juliana assistia atónica e horrorizada ao diálogo
trágico travado entre seu sogro e o seu marido.
Cabisbaixo e bastante consternado, D. Miguel, não tendo
outra alternativa, decidiu ser um dos conjurados.
D. Juliana, perante a louca decisão de seu amado esposo,
caiu desmaiada num canapé, onde, momentos antes
partilhava as carícias do esposo que tanto amava.
Gorada a conjura, feitos prisioneiros todos os
conjurados, entre os quais estava o Duque de Caminha,
foram encarcerados na fortaleza de S. Vicente de Belém
(Torre de Belém - Lisboa).
Aí, no silêncio da noite, estendido nas palhas
putrefactas do cárcere, D. Miguel tomou noção da sua
fraqueza em ter acedido às ordens de seu pai ! Tomou
então a decisão de escrever a el-rei pedindo-lhe perdão
- mas em vão. D. Juliana também implorou a el-rei o
perdão para o marido - mas também sem o conseguir.
D. Miguel de Meneses subiu ao cadafalso e com a morte
pagou a fidelidade que o ligava a seu pai.
Inocente ?... Culpado ?... a decisão fora sua !
Para o povo, ele estaria inocente e pagou pelo crime do
pai.
Refugiada em S. Pedro de Moel, a Duquesa de Caminha, ia
todos os dias chorar as suas desgraças num penedo
solitário. Os soluços que se soltavam de seu peito e as
suas lágrimas, misturavam-se com as ondas do mar e
foram-se espalhando, qual balada trágica, por esse mundo
fora.
Perante tamanha dor, o povo de S. Pedro de Moel, passou
a chamar àquele rochedo, o Penedo da Saudade.
E assim fez-se lenda ...
D. João IV
Filho de D. Teodósio, duque de Bragança e de D. Ana
Velasco, casou em 1633 com D. Luísa de Gusmão, espanhola
da casa de Medina Sidónia.
Já em 1638, os conjurados da Revolução de 1640 tinham
procurado obter a aceitação de D. João para uma revolta
contra Espanha. Mas as hesitações, ou cautelas, do duque
fizeram levantar a hipótese de se conseguir o regresso
do infante D. Duarte, solução que falhou, tendo-se mesmo
encarado a instauração de uma república, nos moldes da
das Províncias Unidas.
A verdade é, que depois da sua aclamação como rei a 15
de Dezembro de 1640, todas as hesitações desapareceram e
D. João IV fez frente às dificuldades com um vigor que
muito contribuiu para a efectiva restauração da
independência de Portugal. Da actividade global do seu
reinado, deveremos destacar o esforço efectuado na
reorganização do aparelho militar - reparação das
fortalezas das linhas defensivas fronteiriças,
fortalecimento das guarnições, defesa do Alentejo e
Beira e obtenção de material e reforços no estrangeiro;
a intensa e inteligente actividade diplomática junto das
cortes da Europa, no sentido de obter apoio militar e
financeiro, negociar tratados de paz ou de tréguas e
conseguir o reconhecimento da Restauração; a acção
desenvolvida para a reconquista do império ultramarino,
no Brasil e em Africa; a alta visão na escolha dos
colaboradores; enfim, o trabalho feito no campo
administrativo e legislativo, procurando impor a
presença da dinastia nova.
Quando morreu, o reino não estava ainda em segurança
absoluta, mas D. João IV tinha-lhe construído umas bases
suficientemente sólidas para vencer a crise. Sucedeu-lhe
D. Afonso VI, seu segundo filho.
Ficha genealógica:
D. João IV nasceu em Vila Viçosa, a 19 de Março de 1604
e morreu em Lisboa, a 6 de Dezembro de 1656, tendo sido
sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Era filho
de D. Teodósio II, 7 ° duque de Bragança, e de sua
mulher, D. Ana de Velasco. Do seu casamento, celebrado
em 12 de Janeiro de 1633, com D. Luísa Francisca de
Gusmão, que nasceu em San Lucar de Barrameda, a 13 de
Outubro de 1613, e morreu em Lisboa a 27 de Outubro de
1666, filha do 8 ° duque de Medina-Sidónia, D. Juan
Manuel Pérez de Guzman, e da duquesa D. Joana de
Sandoval, nasceram:
1. D. Teodósio, que nasceu em Vila Viçosa a 8 de
Fevereiro de 1634 e morreu em Lisboa, a 13 de Maio de
1653. Foi 9 ° duque de Bragança e príncipe do Brasil, em
1645;
2. D. Ana, que nasceu em Vila Viçosa, a 21 de Janeiro de
1635 e morreu no mesmo dia; estando enterrada no
Convento das Chagas daquela vila;
3. D. Joana, que nasceu em Vila Viçosa a 18 de Setembro
de 1635 e morreu em Lisboa, a 17 de Novembro de 1653;
sepultada no Mosteiro dos Jerónimos e mais tarde
trasladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora;
4. D. Catarina, que nasceu em Vila Viçosa, a 25 de
Novembro de 1638 e morreu em Lisboa, a 31 de Dezembro de
1705. Foi sepultada no Mosteiro dos Jerónimos e mais
tarde trasladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora.
Foi rainha de Inglaterra pelo seu casamento, em 1661,
com o Carlos II, rei de Inglaterra, que morreu em 16 de
Fevereiro de 1685;
5. D. Manuel, que nasceu em Vila Viçosa, a 6 de Setembro
de 1640 e faleceu no mesmo dia, tendo sido sepultado no
Convento de S. Francisco daquela vila;
6. D. Afonso VI, que herdou a coroa;
7. D. Pedro II, que sucedeu ao precedente;
Teve D. João IV uma filha ilegítima, de mãe
desconhecida:
8. D. Maria, que nasceu em Lisboa, a 30 de Abril de
1644, e morreu em Carnide, a 7 de Fevereiro de 1693, no
Convento de S. João dos Carmelitas Descalços. Foi
reconhecida pelo progenitor, o qual lhe fez mercê das
vilas de Torres Vedras e Colares e dos lugares de
Azinhaga e Cartaxo, tendo-se dado à vida religiosa.
Fontes:
Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de
Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976
Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume
V: A Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750),
Lisboa, Verbo, 1980
Guerra da Restauração
A guerra da Restauração mobilizou todos os esforços que
Portugal podia despender e absorveu enormes somas de
dinheiro. Pior do que isso, impediu o governo de
conceder ajuda às frequentemente atacadas possessões
ultramarinas. Mas, se o cerne do Império, pelo menos na
Ásia, teve de ser sacrificado, salvou pelo menos a
Metrópole de uma ocupação pelas forças espanholas.
Portugal não dispunha de um exército moderno, as suas
forças eram escassas – sobretudo na fronteira terrestre
–, as suas coudelarias haviam sido extintas, os seus
melhores generais lutavam pela Espanha algures na
Europa. Do lado português, tudo isto explica por que
motivo a guerra se limitou em geral a operações
fronteiriças de pouca envergadura. Do lado espanhol, é
preciso lembrar que a Guerra dos Trinta Anos (prolongada
em Espanha até 1659) e a questão da Catalunha (até 1652)
demoraram quaisquer ofensivas de vulto. Regra geral, a
guerra, que se prolongou por 28 anos, teve os seus altos
e baixos para os dois contendores até ser assinado o
Tratado de Lisboa, em 13 de Fevereiro de 1668, entre
Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, em que
este último reconhece a independência do nosso País.
Salvador Correia de Sá e Benevides
Restaurador de Angola, conhecido também pelo nome de
Salvador Correia de Sá e Benevides. Descendia da
gloriosa família de Mem de Sá e de Estácio de Sá, os
fundadores do Rio de Janeiro.
N. nesta cidade em 1591; fal. em Lisboa em 1 de Janeiro
de 1688. Era filho de Martim de Sá e de sua mulher D.
Maria de Mendoza y Benavides.
Em 1612, contando 18 anos, entrou no serviço militar,
distinguindo-se nas guerras contra os índios. Pouco
tempo depois começaram os holandeses a infestar as
costas do Brasil, assenhoreavam-se daquela grande
região, e Salvador Correia, que já então tinha perto de
30 anos, mostrou o que valia não só a sua bravura, como
a sua perícia militar, começando por levar a salvamento
de Pernambuco para Lisboa um comboio de 30 navios. Ao
voltar desta expedição, que era arriscada porque a
marinha holandesa dominava os mares, Salvador Correia
alistou na capitania de S. Vicente uns 200 homens,
meteu-os a bordo de duas caravelas e de três canoas de
guerra, a conduziu-os à empresa da restauração da Baía,
empresa importante para a qual no ano de 1624 saíra de
Lisboa uma esquadra hispano‑portuguesa, bastante
numerosa. De caminho para a Baía, desembarcou Salvador
Correia na capitania do Espírito Santo, e demorando-se
ali algum tempo, teve ensejo para surpreender um troço
de holandeses, que também haviam saltado em terra, e que
foram pelo jovem herói completamente derrotados.
Seguindo para a Baía, distinguiu-se muito na conquista
dessa praça, em 1 de Maio de 1625, tendo chegado poucos
dias antes ao campo dos sitiadores.
Em 1634, Salvador Correia, que granjeara grande
reputação, foi nomeado almirante dos mares do sul.
Tratava-se para os espanhóis de resolver uma questão
vital para o seu domínios nas margens do rio da Prata.
Ardia ali há muitos anos a rebelião que devastava
principalmente a província de Tucuman, rebelião
conhecida pelo nome de revolta dos Caléquis e dirigida
por um hábil chefe, D. Pedro Chamay. Salvador Correia
dirigiu a campanha com tanta habilidade e energia, que,
tendo ganho a batalha de Pelingarta, havendo aprisionado
D. Pedro Chamay, e tendo também recebido um grande
numero de frechadas, porque a luta foi áspera e rude e
Salvador Correia não se poupou, conseguiu restabelecer
completamente a ordem nas margens dos rios da Prata a do
Paraguai. Foi então nomeado capitão-general do Rio de
Janeiro, dando a carta régia, que o nomeava, testemunho
dos altos serviços prestados pelo agraciado à coroa de
Espanha. Foi por essa ocasião também que Salvador
Correia, filho de espanhola, foi procurar esposa à
fidalguia dessa nação, casando com D. Catarina de
Velasco. filha de D. Pedro Ramirez de Velasco,
governador do Chile.
Apesar destas relações tão íntimas de parentesco que o
ligavam à Espanha, apesar de ter militado e comandado em
terreno exclusivamente espanhol, e de não ter razão de
queixa pessoal do governo de Espanha, nem por isso
Salvador Correia deixava de ser essencialmente patriota
e de sentir pulsar no peito um coração português. Apenas
chegou ao Rio de Janeiro a notícia da revolução de 1 de
Dezembro de 1640, logo sem a mínima hesitação se
proclamou nessa cidade a realeza de D. João IV. Salvador
Correia lutava com dificuldades muito graves, porque os
jesuítas queriam executar as leis a as bulas que lhes
concediam a liberdade dos índios, e os paulistas, que
tinham índios como escravos, recusavam-se a libertá-los,
chegando a revoltar-se abertamente contra os jesuítas,
que Salvador Correia defendia e sustentava com toda a
energia, porque na verdade eles defendiam nesse momento
a causa da civilização e da humanidade. Salvador Correia
esperava que o grande sucesso da restauração de Portugal
abrandasse os ânimos dos paulistas, ou pelo menos os
decidissem a mandar representantes ao Rio de Janeiro com
poderes bastantes para resolverem as questões que
promoviam conflito, mas os paulistas entenderam, pelo
contrario, que a fidelidade de que tinham dado provas e
o modo como tinham acolhido a aclamação de D. João IV,
os tornava credores da gratidão do rei de Portugal, e
portanto as suas pretensões deviam ser atendidas pelo
capitão-mor do Rio de Janeiro. Negaram-se então a
consentir em quaisquer medidas que tivessem por fim a
libertação dos índios. Vendo que era indispensável ir
tratar directamente com os revoltosos, Salvador Correia
partiu para Santos, onde depois de largas negociações
conseguiu que os paulistas elegessem 48 procuradores
para tratarem do assunto, chegando enfim a um resultado,
que se não resolveu inteiramente a questão, pelo menos
apaziguou a capitania. O novo governo de Lisboa
depositava nele plena confiança, e nomeou-o
sucessivamente em 1644 general da frota que devia
escoltar os navios do comércio brasileiro ameaçados nos
mares da América pelos holandeses, nos da Europa pelos
espanhóis, delegado do conselho ultramarino, e dando-lhe
finalmente amplos poderes para explorar as minas, cuja
existência e riqueza no vasto território que estava sob
a jurisdição de Salvador Correia já então se
pressentiam. Bem convinha o seu descobrimento ao governo
de D. João I V, que fez a Salvador Correia as mais
brilhantes promessas, no caso de conseguir explorá-las
com felicidade; porém este, com todo o desinteresse,
delegou em outros a viagem das minas e o exercício do
lugar para que fora escolhido, e aceitou a comissão mais
gloriosa, menos rendosa, e mais perigosa, a de comboiar
os navios mercantes que iam do Rio de Janeiro para a
Europa. Fez três viagens: escoltando na primeira 37
velas. Nessa primeira viagem prestou um alto serviço à
insurreição pernambucana, porque escoltou até ao porto
de Tamadaré 8 navios da Baía que levavam a João
Fernandes Vieira, que acabava de ganhar a batalha de
Tabocas, um reforço de 800 homens ainda mais precioso
por serem os chefes dos terços André Vidal de Negreiros
e Martim Soares Moreno, cujas heróicas espadas não
haviam de contribuir pouco para a expulsão definitiva
dos holandeses de Pernambuco. Mais duas viagens fez
ainda Salvador Correia até que em 1648 D. João IV o
encarregou dum emprego de alta importância, porque se
tratava de arrancar Angola ao poder dos holandeses.
A importância de Angola era extrema, porque era dali que
se fornecia o Brasil de escravos pretos indispensáveis
para a cultura das suas terras. A empresa de a
reconquistar era tanto mais difícil, quanto pela
situação extravagante em que nos achávamos com os
holandeses, nossos aliados na Europa, era indispensável
que Salvador Correia encontrasse meio de tomar Angola,
sem que parecesse que fora ele que tomara a ofensiva,
para se não considerarem rotas as pazes com a Holanda.
Salvador Correia chegou ao Rio de Janeiro, e apelando
para o patriotismo e até para os interesses próprios dos
homens abastados, interesse que a perda desse reino
prejudicava altamente, despendendo também com
liberalidade os seus próprios dinheiros, conseguiu
juntar 15 navios, 4 dos quais foram comprados à sua
custa, e levando neles 900 homens de desembarque, partiu
no dia 12 de Maio para Angola. Nunca empresa tão
importante fora intentada com tão pequenas forças. O fim
aparente da expedição era edificar um forte na enseada
de Quicombo, afim de estabelecer comunicações com os
portugueses, que desde a perda de Angola se tinham
refugiado em Massangano. Chegou a Quicombo, mas, tomando
pretexto de hostilidades que os holandeses faziam aos
restos da antiga guarnição portuguesa declarou que era
isto uma quebra flagrante da paz, que o autorizava a
pedir-lhes uma satisfação. Dirigiu-se para Luanda, tendo
já perdido um navio por causa dum rombo no porão, e
apenas chegou à capital da província, participou aos
holandeses os motivos da sua vinda, as suas razões de
queixa, declarando-lhes que, logo que eles não
respeitavam a paz estabelecida, também ele se não
julgava obrigado a deixar de a infringir, e portanto que
exigia que eles se entregassem. Surpreendidos os
holandeses com esta audácia, avaliaram em maior do que
era o poder dos assaltantes, e pediram 8 dias para
tomarem uma decisão. O fim evidente era reunirem as
tropas que andavam pelo campo, e Salvador Correia,
percebendo-o, apenas lhes concedeu dois dias. No fim do
prazo marcado. desembarcou em chalupas 650 soldados e
250 marinheiros, deixando 180 nos navios com muitas
figuras pelas enxárcias e pelas amuradas, para que de
longe se julgasse muito mais numerosa a tripulação dos
navios. Os holandeses, repelidos de todos os pontos
exteriores, refugiaram-se na fortaleza do Morro de S.
Miguel e no forte de Nossa Senhora da Guia, tendo
abandonado tanto à pressa o fortim de Santo António, que
nem tiveram tempo de encravar mais do que duas peças das
oito que o fortim possuía. Aproveitou-as Salvador
Correia, e juntando-as, a quatro meios canhões que
mandou desembarcar, formou uma bateria que principiou a
bombardear a fortaleza, causando pouco dano, mas
produzindo grande terror aos holandeses, assombrados da
rapidez com que a bateria se assentara. Viu, porém,
Salvador Correia que seria demorado o êxito da bateria,
a apertado pela necessidade de impedir que os holandeses
fossem reforçados, mandou no dia seguinte, 15 de Agosto
de 1648, dar assalto às duas fortalezas ocupadas pelo
inimigo. A temeridade era incrível e seria
indesculpável, se não fosse a situação perigosa em que
Salvador Correia se via. Tinha apenas 900 homens e ia
assaltar duas fortalezas, onde a artilharia quase nem
tinha aberto brecha e guarnecidas por 1.200 soldados
europeus e outros tantos negros. Por isso o assalto deu
resultados terríveis. Depois duma escalada audaciosa em
que os assaltantes foram repelidos, Salvador Correia
mandou recolher as forças, e viu que perdera 163
soldados mortos e 160 feridos. Tinha por conseguinte
fora do combate mais da terça parte do seu exército.
Salvador Correia, sombrio mas resoluto, ia fazer uma
segunda tentativa, quando com grande surpresa, viu
aparecer um parlamentário, que vinha propor uma
capitulação, o que Salvador Correia resolveu aceitar,
receando o resultado de um novo assalto, em vista das
perdas enormes que já sofrera. A capitulação foi
concedida com todas as honras, facilitando-lhes logo a
amnistia que eles pediram para os seus partidários, e
assinada a capitulação viu-se o caso estranho de saírem
rendidos de duas fortalezas, onde nem quase havia
brecha, 1.100 homens e passarem, diante de menos de 600,
que a essa força estava reduzida, depois do primeiro
assalto, o exército sitiador. Havia já 5 dias que
Salvador Correia tomara posse das fortalezas, quando
apareceu na cidade, vindo do sertão um corpo de 250
homens acompanhados por mais de 2.000 negros, súbditos
da rainha Ginga (V. Portugal, vol. III, pág. 737). Bem
desejariam eles romper a capitulação, mas Salvador
Correia tomara as suas precauções, fazendo logo embarcar
em três navios a guarnição holandesa da cidade; de sorte
que os recém chegados, vendo-se sós, capitularam também.
Os negros da rainha Ginga é que não quiseram
sujeitar-se, e arrojaram os maiores impropérios aos
holandeses, por eles os desampararem. A guarnição de
Benguela rendeu se a dois navios portugueses sem
disparar um tiro, e a da ilha do S. Tomé, apenas soube
que Luanda se rendera, partiu desamparando a ilha,
deixando a artilharia e munições, de forma que os navios
que Salvador Correia enviara para procurarem apoderar-se
dessa nossa antiga e importante colónia, encontraram já
a bandeira portuguesa arvorada nos fortes. Assim
desampararam os holandeses também as suas feitorias de
Benguela-a-Velha, de Leango e da Pinda, de forma que em
dois meses tinham voltado ao domínio português. Angola e
S. Tomé. A vitória quase miraculosa de Salvador Correia
deixou de si lembrança tão viva na memória dos povos,
que ainda em 1812 se celebrava em Luanda uma festa em
acção de graças no dia 15 de Agosto pela vitória
alcançada nesse dia por Salvador Correia. Expulsos os
holandeses, tinha ainda de subjugar e punir os negros
que haviam seguido o seu partido. Os principais eram os
súbditos da rainha Ginga, e Salvador Correia, dispondo
de poucas forças, alistou ao seu exército muitos
franceses, que faziam parte da guarnição holandesa e que
tinham ficado em Angola. O comando foi confiado a
Bartolomeu de Vasconcelos, que facilmente subjugou os
negros dissidentes, vendo-se a rainha Ginga forçada a
pedir a paz, por se convencer que nada podia contra os
portugueses. No entretanto Salvador Correia dava grande
impulso às suas medidas administrativas, favorecendo o
desenvolvimento de Luanda, onde se demorou até 1651, ano
em que tornou a partir para o Rio de Janeiro, deixando
por seu sucessor Rodrigo de Miranda Henriques.
Por carta régia de 17 de Setembro de 1658, muito honrosa
para o agraciado, fora-lhe conferido o governo das
capitanias do sul do Brasil com absoluta independência
do governo da Baía. Quando chegou ao Rio de Janeiro,
achou a cidade em deplorável situação, com o comércio
paralisado, as tropas mal pagas, e os cofres públicos
exaustos. Foi preciso recorrer a novos tributos, o que
descontentou o povo, sendo necessário todo o prestígio
de Salvador Correia para o manter na obediência; mas
quando o governador saiu da cidade para visitar a
província de S. Paulo, deixando como seu substituto Tomé
Correia de Alvarenga, a insurreição rebentou, reclamando
os insurgentes a deposição de Salvador Correia, depondo
o seu delegado Alvarenga, e elegendo para os governar
Agostinho Barbalho Bezerra. Quis a câmara do Rio de
Janeiro obter o auxílio dos paulistas, mas estes não só
não aceitaram o convite, mas ofereceram-se a Salvador
Correia para o ajudarem a subjugar os rebeldes. Preferiu
este recorrer aos meios pacíficos, e chegou a declarar a
Bezerra que o consideraria como governador, se se
considerasse seu delegado, mas os revolucionários
julgando ver nisto uma prova de fraqueza, não quiseram
aceitar estas propostas pacíficas, e prepararam-se para
resistir à força aberta. Pouco lhes durou, porém, esta
resolução, porque, vendo-se isolados, depuseram as
armas, apenas lá lhes apareceu o desembargador Pessanha,
enviado da Baía para inquirir a respeito da revolta, e
Salvador Correia de Sá tomou de novo posse do governo,
que exerceu até ao ano de 1662, e entregando-o então ao
seu sucessor, partiu para Lisboa. Como sucedeu a todos
os grandes homens que tantos serviços prestaram à
pátria, a intriga conseguiu feri-lo. Os seus inimigos,
que não eram poucos, desde que a rainha regente D. Luísa
de Gusmão criara de propósito para ele um governo
independente no Rio de Janeiro, trataram de o intrigar,
e de o afastar do ânimo dos ministros, apesar de ser
muito favorito do conde de Castelo Melhor seu filho mais
velho, Martim Correia de Sá, que o grande ministro fez
em 1665 visconde de Asseca em recompensa dos muitos
serviços de seu pai. Ainda assim maiores amarguras teve
Salvador Correia de Sá, quando o conde de Castelo Melhor
caiu do poder porque tendo-o D. Afonso VI chamado para
se aconselhar com ele, isso bastou, juntamente com a
privança que seu filho tivera, para o tornar odiado do
infante D. Pedro, e para o tornar alvo de tantas
perseguições, que chegou a ser condenado a degredo de 10
anos para essa mesma África, onde ressoava ainda o eco
das suas vitórias. À custa de muito dinheiro conseguiu
que o deixassem ficar num convento, e depois que o
deixassem passar à sua casa em Santos, onde se conservou
preso sem menagem. Foi seu filho, que fora ferido em
Badajoz e que ficara gravemente enfermo, quem instou com
ele para que requeresse esta última concessão, porque o
heróico restaurador de Angola, profundamente ferido e
desgostoso com todas estas perseguições, estava
resolvido a terminar a vida num convento. A morte do
visconde de Asseca, sucedida pouco depois, e a orfandade
em que ficaram os netos de Salvador Correia de Sá,
fizeram com que o príncipe regente pensasse que era
vergonhoso, realmente, que o homem que tão altos
serviços prestara ao seu país, estivesse agora quase
octogenário preso como um criminoso, enquanto seus netos
não tinham quem os amparasse e guiasse na estrada da
vida. Deu ordem para que fosse solto, e logo em seguida
voltou ao lugar que lhe pertencia de membro do Conselho
Ultramarino.
Consta que Salvador Correia de Sá escrevera umas
Memorias da sua vida, que infelizmente se perderam. Fal.
contando 91 anos de idade, conservando até aos últimos
dias da sua vida e rijeza do corpo e do espírito.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico,
Volume VI, pág. 434-436.
Padre António Vieira
Após a Restauração da Independência em Portugal (1640),
em 1641 Padre António Vieira iniciou a carreira
diplomática. Em 1644 deixou Portugal como embaixador
(seu pai, que antes vivera pobre, foi nomeado
pensionista real) para negociar com os Países Baixos a
devolução da Região Nordeste do Brasil.
O povo de Portugal não gostava das pregações de Vieira
em favor dos judeus. Após esses tempos conturbados da
política portuguesa acabou voltando ao Brasil, onze anos
após voltar para a Europa. Permaneceu na região Nordeste
por algum tempo, tendo voltado para a Europa com a morte
de D. João IV, tornando-se confessor da Regente, D.
Luísa.
Com a morte de D. Afonso IV, António Vieira não
encontrou apoio, e a Inquisição vingou-se, acusando-o de
heresia com base numa carta de 1659, endereçada ao bispo
do Japão, na qual António Vieira expunha a sua teoria do
Quinto Império, segundo a qual Portugal estaria
predestinado a ser a cabeça de um grande império do
futuro. Foi expulso de Lisboa, desterrado) e encarcerado
no Porto e depois em Coimbra, enquanto os jesuítas
perderam os seus privilégios. Em 1667 foi condenado a
internamento e proibido de pregar, mas, seis meses
depois, a pena foi anulada. Em 1669, desiludido com D.
Pedro III partiu para o Vaticano, onde encontrou o Papa
à beira da morte.
Quando em 1671 uma nova expulsão dos judeus foi
promovida, Vieira novamente os defendeu. Em 1675 foi
absolvido totalmente pela Inquisição, e voltou para
Lisboa por ordem de D. Pedro, mas afastou-se dos
negócios públicos.
Em 1681 voltou para o Brasil e dedicou-se à tarefa de
continuar a edição completa em quinze volumes dos seus
Sermões, iniciada em 1679, e à conclusão da Clavis
Prophetarum. As suas obras começaram a ser publicadas na
Europa, onde foram elogiadas até pela Inquisição.
Já muito velho e doente, teve que espalhar circulares
sobre a sua saúde para poder manter em dia a sua vasta
correspondência. Em 1694 já não conseguia escrever de
próprio punho. Em 10 de Junho começou a agonia quando
perdeu a voz e silenciaram-se os seus discursos. Em 17
de Junho de 1697 faleceu na Bahia, com 89 anos.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande -
Portugal

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