HISTÓRIA de P O R T U G A L

(Resumo)

 

 

IV DINASTIA

 

 

 

 

Bandeira Real

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

 

 

 

 

D. João IV – “O Restaurador”

Reinou de 1640 a 1656

 

 

 

 

(1640-1667)

 

Rei de Portugal e dos Algarves d'Aquém e d'Além Mar em África, Senhor da Guiné e do Comércio, da Conquista e da Navegação da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia

 
 
Em Janeiro de 1641, reuniram-se as cortes em Lisboa para confirmar a  proclamação de D. João IV. Nelas foram também aprovadas todas as convenientes medidas de segurança e defesa do Reino, pois já se contava com a guerra com a Espanha ia declarar a Portugal. Foram, em seguida, enviados embaixadores a várias nações, com as quais se realizavam tratados de aliança e que começaram a reconhecer a nossa independência.


Aclamação de D. João IV

 

  
Aclamação de D. João IV


Primeiro, mandaram-se enviados à Catalunha, que redobrou de esforços na luta sustentada contra os espanhóis e impediu numerosas forças de marcharem sobre Portugal. Depois, despacharam-se embaixadores para França, Holanda, Inglaterra e outros países.
A França aceita auxiliar-nos por terra e por mar, embora nunca tenha cumprido a promessa.
A Holanda promete socorro naval, permite o recrutamento de soldados e oficiais, prontifica-se a mandar-nos alimentos e munições.
A Suécia envia-nos oito navios de guerra e muito material bélico.
A Inglaterra fornece-nos armas e dá licença para alistarmos soldados e oficiais ingleses.
Na Dinamarca, os nossos embaixadores são recebidos, com todas as atenções, mas não se assina qualquer tratado, em virtude do respectivo monarca estar, nesse momento, a negociar a paz, como medianeiro entre os Estados protestantes e o imperador da Alemanha.
Quanto à Santa Sé, junto da qual a Espanha dispunha de grande influência, a questão foi difícil e morosa. O nosso primeiro embaixador, D. Miguel de Portugal, bispo de Lamego, viu-se atacado nas ruas de Roma pelos emissários de Filipe IV (de Espanha), não foi recebido pelo papa e teve que regressar a Portugal. Seguiram-se novas negociações, que se protelaram por mais de vinte anos, até que se veio a conseguir a aplanação de todas as dificuldades.
Na França, na Inglaterra, na Holanda e na Itália, trabalhou, como agente secreto de D. João IV, o padre António Vieira que trouxera a Portugal a adesão do Brasil à revolução de 1640 e se tornara um dos mais fiéis servidores do monarca e do Reino.
Entretanto, por influência da duquesa de Mântua, ou por alguns fidalgos se julgarem com mais direitos à Coroa do que o duque de Bragança, tentou-se uma conspiração contra a vida de D. João IV. Em 1647, no dia do Corpo de Deus, houve uma conspiração contra o rei. Domingos Leite tinha-se incumbido de matar nesse dia o rei. Mas, descobertos os seus propósitos, foi imediatamente executado.
Durante este reinado voltaram ao domínio português, grande parte das possessões que havíamos perdido. Em Marrocos, retomámos Tânger; Salvador Correis de Sá e Benevides, reconquistou Angola e São Tomé aos holandeses; no Brasil, também voltaram à nossa posse Pernambuco, Bahia e Maranhão. Porém, Ceuta, Malaca e Ceilão perderam-se para sempre.
Os restos mortais de D. João IV encontram-se na Igreja de São Vicente de Fora.
 


Rainha D. Luísa de Gusmão
 

Rainha D. Luísa de Gusmão


D. João IV
Vigésimo primeiro rei de Portugal, fundador da dinastia de Bragança, também conhecida por Brigantina, era filho de D. Teodoro ll, sétimo Duque de Bragança e de sua mulher, a Duquesa D. Ana de Velasco. Nasceu em Vila Viçosa em 1604. A sua juventude decorreu tranquilamente no seu magnífico domínio em Vila Viçosa (Alentejo, votada quase inteiramente aos prazeres da música e da caça. Chamado ao trono português pela Revolução de 1640, o novo rei organizou, sem perder tempo, da organização da defesa de Portugal. Depois teve de castigar uma conspiração, formada por vários fidalgos portugueses que tinham a intenção de o assassinar, e, em seguida voltar a entregar Portugal aos espanhóis. O Marquês de Vila Real, o Duque de Caminha, ( "Marinha Grande - Penedo da Saudade (**), em o Conde de Armamar e D. Agostinho Manuel, que eram com o arcebispo de Braga, os principais, expiaram o seu crime (lesa-majestade), no cadafalso e o arcebispo acabou os seus dias num cárcere. Durante o reinado de D. João lV, a guerra com a Espanha arrastou-se numa série de pequenos combates e escaramuças, com uma única excepção: a Batalha do Montijo (*) que foi para os portugueses uma brilhante vitória.
No Brasil, a luta contra os holandeses, começada em 1642, terminava em 1654 com a expulsão destes. Em África, um luso-brasileiro de nome Salvador Correia de Sá, depois de libertar o Rio de Janeiro, rumou para Angola e S. Tomé e Príncipe e também de lá expulsou os holandeses.
As características de D. João lV era o bom senso, a prudência e o tacto governativo; o seu principal defeito era ser egoísta. Jaz em S. Vicente de Fora (Lisboa).
(*) Batalha de Montijo (Badajoz – Espanha). Célebre vitória dos portugueses, comandados por Matias de Albuquerque sobre os espanhóis, capitaneados pelo barão de Mollingen, em 26 de Maio de 1644.
(**)A Lenda do Penedo da Saudade - Carlos Leite Ribeiro
Recordamos que "Penedo da Saudade" existem dois: um romântico situado em Coimbra, voltado para o vale do Calhabé, e o outro em S. Pedro de Moel. É deste que vamos contar a Lenda.
Contrariamente ao que possam imaginar, não vamos falar da Rainha Santa Isabel, da sua mantilha, nem das lágrimas de esposa traída pelo seu rei e senhor D. Dinis o "Lavrador", que gozava de fama (e talvez proveito) de ser uma grande sedutor.
O drama de que vamos falar (lenda), respeita aos Duques de Caminha: D. Miguel Luís Meneses e de sua esposa D. Juliana.
Este feliz casal vivia uma vida muito recatada no seu palácio, afastado do bulício e das intrigas da Corte e da política bem efervescente naquele ano de 1941.
Mas ...
Cert dia foram surpreendidos por um dos seus criados que anunciou a chegada do senhor Marquês de Vila Real, pai de D. Miguel de Meneses.
D. Juliana teve logo o presságio de que algo de grave se tratava, dado que se levantou empalecida. Em vão seu esposo, D. Miguel, tentava acalmar sua amantíssima esposa. Entretanto, mandou entrar seu pai.
Não obstante o desejo do Marquês falar a sós com seu filho, este insistiu para que a esposa ficasse presente.
"Seja !" - concordou por fim o Marquês de Vila Real. O seu aspecto era grave o que deixou o casal ainda mais inquieto. D. Miguel quis saber da visita de seu pai: "O que se passa, senhor meu pai ?...
Este encarou bem de frente o filho e retorquiu-lhe: "Senhor Duque de Caminha e meu filho, chegou a hora de el-rei D. João lV pagar a sua tirania ! A conspiração está organizada e, dela fazem parte o arcebispo-primaz, o Conde de Armamar, D.Agostinho de Vasconcelos, eu e vós !".
Muito surpreendido, D. Miguel que não havia sido anteriormente consultado, tentou não fazer parte da conjura: "Não meu pai !".
O velho fidalgo quase que fusilou o filho com o olhar: "E se vos der uma ordem ?... não deveis trair-nos !". D. Juliana assistia atónica e horrorizada ao diálogo trágico travado entre seu sogro e o seu marido.
Cabisbaixo e bastante consternado, D. Miguel, não tendo outra alternativa, decidiu ser um dos conjurados.
D. Juliana, perante a louca decisão de seu amado esposo, caiu desmaiada num canapé, onde, momentos antes partilhava as carícias do esposo que tanto amava.
Gorada a conjura, feitos prisioneiros todos os conjurados, entre os quais estava o Duque de Caminha, foram encarcerados na fortaleza de S. Vicente de Belém (Torre de Belém - Lisboa).
Aí, no silêncio da noite, estendido nas palhas putrefactas do cárcere, D. Miguel tomou noção da sua fraqueza em ter acedido às ordens de seu pai ! Tomou então a decisão de escrever a el-rei pedindo-lhe perdão - mas em vão. D. Juliana também implorou a el-rei o perdão para o marido - mas também sem o conseguir.
D. Miguel de Meneses subiu ao cadafalso e com a morte pagou a fidelidade que o ligava a seu pai.
Inocente ?... Culpado ?... a decisão fora sua !
Para o povo, ele estaria inocente e pagou pelo crime do pai.
Refugiada em S. Pedro de Moel, a Duquesa de Caminha, ia todos os dias chorar as suas desgraças num penedo solitário. Os soluços que se soltavam de seu peito e as suas lágrimas, misturavam-se com as ondas do mar e foram-se espalhando, qual balada trágica, por esse mundo fora.
Perante tamanha dor, o povo de S. Pedro de Moel, passou a chamar àquele rochedo, o Penedo da Saudade.
E assim fez-se lenda ...
 
D. João IV
Filho de D. Teodósio, duque de Bragança e de D. Ana Velasco, casou em 1633 com D. Luísa de Gusmão, espanhola da casa de Medina Sidónia.
Já em 1638, os conjurados da Revolução de 1640 tinham procurado obter a aceitação de D. João para uma revolta contra Espanha. Mas as hesitações, ou cautelas, do duque fizeram levantar a hipótese de se conseguir o regresso do infante D. Duarte, solução que falhou, tendo-se mesmo encarado a instauração de uma república, nos moldes da das Províncias Unidas.
A verdade é, que depois da sua aclamação como rei a 15 de Dezembro de 1640, todas as hesitações desapareceram e D. João IV fez frente às dificuldades com um vigor que muito contribuiu para a efectiva restauração da independência de Portugal. Da actividade global do seu reinado, deveremos destacar o esforço efectuado na reorganização do aparelho militar - reparação das fortalezas das linhas defensivas fronteiriças, fortalecimento das guarnições, defesa do Alentejo e Beira e obtenção de material e reforços no estrangeiro; a intensa e inteligente actividade diplomática junto das cortes da Europa, no sentido de obter apoio militar e financeiro, negociar tratados de paz ou de tréguas e conseguir o reconhecimento da Restauração; a acção desenvolvida para a reconquista do império ultramarino, no Brasil e em Africa; a alta visão na escolha dos colaboradores; enfim, o trabalho feito no campo administrativo e legislativo, procurando impor a presença da dinastia nova.
Quando morreu, o reino não estava ainda em segurança absoluta, mas D. João IV tinha-lhe construído umas bases suficientemente sólidas para vencer a crise. Sucedeu-lhe D. Afonso VI, seu segundo filho. 
Ficha genealógica:
D. João IV nasceu em Vila Viçosa, a 19 de Março de 1604 e morreu em Lisboa, a 6 de Dezembro de 1656, tendo sido sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Era filho de D. Teodósio II, 7 ° duque de Bragança, e de sua mulher, D. Ana de Velasco. Do seu casamento, celebrado em 12 de Janeiro de 1633, com D. Luísa Francisca de Gusmão, que nasceu em San Lucar de Barrameda, a 13 de Outubro de 1613, e morreu em Lisboa a 27 de Outubro de 1666, filha do 8 ° duque de Medina-Sidónia, D. Juan Manuel Pérez de Guzman, e da duquesa D. Joana de Sandoval, nasceram:
1. D. Teodósio,  que nasceu em Vila Viçosa a 8 de Fevereiro de 1634 e morreu em Lisboa, a 13 de Maio de 1653. Foi 9 ° duque de Bragança e príncipe do Brasil, em 1645;
2. D. Ana, que nasceu em Vila Viçosa, a 21 de Janeiro de 1635 e morreu no mesmo dia; estando enterrada no Convento das Chagas daquela vila;
3. D. Joana, que nasceu em Vila Viçosa a 18 de Setembro de 1635 e morreu em Lisboa, a 17 de Novembro de 1653; sepultada no Mosteiro dos Jerónimos e mais tarde trasladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora;
4. D. Catarina, que nasceu em Vila Viçosa, a 25 de Novembro de 1638 e morreu em Lisboa, a 31 de Dezembro de 1705. Foi sepultada no Mosteiro dos Jerónimos e mais tarde trasladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora. Foi rainha de Inglaterra pelo seu casamento, em 1661, com o Carlos II, rei de Inglaterra, que morreu em 16 de Fevereiro de 1685;
5. D. Manuel, que nasceu em Vila Viçosa, a 6 de Setembro de 1640 e faleceu no mesmo dia, tendo sido sepultado no Convento de S. Francisco daquela vila;
6. D. Afonso VI, que herdou a coroa;
7. D. Pedro II, que sucedeu ao precedente;
Teve D. João IV uma filha ilegítima, de mãe desconhecida:
8. D. Maria, que nasceu em Lisboa, a 30 de Abril de 1644, e morreu em Carnide, a 7 de Fevereiro de 1693, no Convento de S. João dos Carmelitas Descalços. Foi reconhecida pelo progenitor, o qual lhe fez mercê das vilas de Torres Vedras e Colares e dos lugares de Azinhaga e Cartaxo, tendo-se dado à vida religiosa. 
Fontes:
Joel Serrão - Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976
Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Volume V: A Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750),
Lisboa, Verbo, 1980
 




Guerra da Restauração
A guerra da Restauração mobilizou todos os esforços que Portugal podia despender e absorveu enormes somas de dinheiro. Pior do que isso, impediu o governo de conceder ajuda às frequentemente atacadas possessões ultramarinas. Mas, se o cerne do Império, pelo menos na Ásia, teve de ser sacrificado, salvou pelo menos a Metrópole de uma ocupação pelas forças espanholas.
Portugal não dispunha de um exército moderno, as suas forças eram escassas – sobretudo na fronteira terrestre –, as suas coudelarias haviam sido extintas, os seus melhores generais lutavam pela Espanha algures na Europa. Do lado português, tudo isto explica por que motivo a guerra se limitou em geral a operações fronteiriças de pouca envergadura. Do lado espanhol, é preciso lembrar que a Guerra dos Trinta Anos (prolongada em Espanha até 1659) e a questão da Catalunha (até 1652) demoraram quaisquer ofensivas de vulto. Regra geral, a guerra, que se prolongou por 28 anos, teve os seus altos e baixos para os dois contendores até ser assinado o Tratado de Lisboa, em 13 de Fevereiro de 1668, entre Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, em que este último reconhece a independência do nosso País.
 




Salvador Correia de Sá e Benevides
Restaurador de Angola, conhecido também pelo nome de Salvador Correia de Sá e Benevides. Descendia da gloriosa família de Mem de Sá e de Estácio de Sá, os fundadores do Rio de Janeiro.
N. nesta cidade em 1591; fal. em Lisboa em 1 de Janeiro de 1688. Era filho de Martim de Sá e de sua mulher D. Maria de Mendoza y Benavides.
Em 1612, contando 18 anos, entrou no serviço militar, distinguindo-se nas guerras contra os índios. Pouco tempo depois começaram os holandeses a infestar as costas do Brasil, assenhoreavam-se daquela grande região, e Salvador Correia, que já então tinha perto de 30 anos, mostrou o que valia não só a sua bravura, como a sua perícia militar, começando por levar a salvamento de Pernambuco para Lisboa um comboio de 30 navios. Ao voltar desta expedição, que era arriscada porque a marinha holandesa dominava os mares, Salvador Correia alistou na capitania de S. Vicente uns 200 homens, meteu-os a bordo de duas caravelas e de três canoas de guerra, a conduziu-os à empresa da restauração da Baía, empresa importante para a qual no ano de 1624 saíra de Lisboa uma esquadra hispano‑portuguesa, bastante numerosa. De caminho para a Baía, desembarcou Salvador Correia na capitania do Espírito Santo, e demorando-se ali algum tempo, teve ensejo para surpreender um troço de holandeses, que também haviam saltado em terra, e que foram pelo jovem herói completamente derrotados. Seguindo para a Baía, distinguiu-se muito na conquista dessa praça, em 1 de Maio de 1625, tendo chegado poucos dias antes ao campo dos sitiadores.
Em 1634, Salvador Correia, que granjeara grande reputação, foi nomeado almirante dos mares do sul. Tratava-se para os espanhóis de resolver uma questão vital para o seu domínios nas margens do rio da Prata. Ardia ali há muitos anos a rebelião que devastava principalmente a província de Tucuman, rebelião conhecida pelo nome de revolta dos Caléquis e dirigida por um hábil chefe, D. Pedro Chamay. Salvador Correia dirigiu a campanha com tanta habilidade e energia, que, tendo ganho a batalha de Pelingarta, havendo aprisionado D. Pedro Chamay, e tendo também recebido um grande numero de frechadas, porque a luta foi áspera e rude e Salvador Correia não se poupou, conseguiu restabelecer completamente a ordem nas margens dos rios da Prata a do Paraguai. Foi então nomeado capitão-general do Rio de Janeiro, dando a carta régia, que o nomeava, testemunho dos altos serviços prestados pelo agraciado à coroa de Espanha. Foi por essa ocasião também que Salvador Correia, filho de espanhola, foi procurar esposa à fidalguia dessa nação, casando com D. Catarina de Velasco. filha de D. Pedro Ramirez de Velasco, governador do Chile.
Apesar destas relações tão íntimas de parentesco que o ligavam à Espanha, apesar de ter militado e comandado em terreno exclusivamente espanhol, e de não ter razão de queixa pessoal do governo de Espanha, nem por isso Salvador Correia deixava de ser essencialmente patriota e de sentir pulsar no peito um coração português. Apenas chegou ao Rio de Janeiro a notícia da revolução de 1 de Dezembro de 1640, logo sem a mínima hesitação se proclamou nessa cidade a realeza de D. João IV. Salvador Correia lutava com dificuldades muito graves, porque os jesuítas queriam executar as leis a as bulas que lhes concediam a liberdade dos índios, e os paulistas, que tinham índios como escravos, recusavam-se a libertá-los, chegando a revoltar-se abertamente contra os jesuítas, que Salvador Correia defendia e sustentava com toda a energia, porque na verdade eles defendiam nesse momento a causa da civilização e da humanidade. Salvador Correia esperava que o grande sucesso da restauração de Portugal abrandasse os ânimos dos paulistas, ou pelo menos os decidissem a mandar representantes ao Rio de Janeiro com poderes bastantes para resolverem as questões que promoviam conflito, mas os paulistas entenderam, pelo contrario, que a fidelidade de que tinham dado provas e o modo como tinham acolhido a aclamação de D. João IV, os tornava credores da gratidão do rei de Portugal, e portanto as suas pretensões deviam ser atendidas pelo capitão-mor do Rio de Janeiro. Negaram-se então a consentir em quaisquer medidas que tivessem por fim a libertação dos índios. Vendo que era indispensável ir tratar directamente com os revoltosos, Salvador Correia partiu para Santos, onde depois de largas negociações conseguiu que os paulistas elegessem 48 procuradores para tratarem do assunto, chegando enfim a um resultado, que se não resolveu inteiramente a questão, pelo menos apaziguou a capitania. O novo governo de Lisboa depositava nele plena confiança, e nomeou-o sucessivamente em 1644 general da frota que devia escoltar os navios do comércio brasileiro ameaçados nos mares da América pelos holandeses, nos da Europa pelos espanhóis, delegado do conselho ultramarino, e dando-lhe finalmente amplos poderes para explorar as minas, cuja existência e riqueza no vasto território que estava sob a jurisdição de Salvador Correia já então se pressentiam. Bem convinha o seu descobrimento ao governo de D. João I V, que fez a Salvador Correia as mais brilhantes promessas, no caso de conseguir explorá-las com felicidade; porém este, com todo o desinteresse, delegou em outros a viagem das minas e o exercício do lugar para que fora escolhido, e aceitou a comissão mais gloriosa, menos rendosa, e mais perigosa, a de comboiar os navios mercantes que iam do Rio de Janeiro para a Europa. Fez três viagens: escoltando na primeira 37 velas. Nessa primeira viagem prestou um alto serviço à insurreição pernambucana, porque escoltou até ao porto de Tamadaré 8 navios da Baía que levavam a João Fernandes Vieira, que acabava de ganhar a batalha de Tabocas, um reforço de 800 homens ainda mais precioso por serem os chefes dos terços André Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno, cujas heróicas espadas não haviam de contribuir pouco para a expulsão definitiva dos holandeses de Pernambuco. Mais duas viagens fez ainda Salvador Correia até que em 1648 D. João IV o encarregou dum emprego de alta importância, porque se tratava de arrancar Angola ao poder dos holandeses.
A importância de Angola era extrema, porque era dali que se fornecia o Brasil de escravos pretos indispensáveis para a cultura das suas terras. A empresa de a reconquistar era tanto mais difícil, quanto pela situação extravagante em que nos achávamos com os holandeses, nossos aliados na Europa, era indispensável que Salvador Correia encontrasse meio de tomar Angola, sem que parecesse que fora ele que tomara a ofensiva, para se não considerarem rotas as pazes com a Holanda. Salvador Correia chegou ao Rio de Janeiro, e apelando para o patriotismo e até para os interesses próprios dos homens abastados, interesse que a perda desse reino prejudicava altamente, despendendo também com liberalidade os seus próprios dinheiros, conseguiu juntar 15 navios, 4 dos quais foram comprados à sua custa, e levando neles 900 homens de desembarque, partiu no dia 12 de Maio para Angola. Nunca empresa tão importante fora intentada com tão pequenas forças. O fim aparente da expedição era edificar um forte na enseada de Quicombo, afim de estabelecer comunicações com os portugueses, que desde a perda de Angola se tinham refugiado em Massangano. Chegou a Quicombo, mas, tomando pretexto de hostilidades que os holandeses faziam aos restos da antiga guarnição portuguesa declarou que era isto uma quebra flagrante da paz, que o autorizava a pedir-lhes uma satisfação. Dirigiu-se para Luanda, tendo já perdido um navio por causa dum rombo no porão, e apenas chegou à capital da província, participou aos holandeses os motivos da sua vinda, as suas razões de queixa, declarando-lhes que, logo que eles não respeitavam a paz estabelecida, também ele se não julgava obrigado a deixar de a infringir, e portanto que exigia que eles se entregassem. Surpreendidos os holandeses com esta audácia, avaliaram em maior do que era o poder dos assaltantes, e pediram 8 dias para tomarem uma decisão. O fim evidente era reunirem as tropas que andavam pelo campo, e Salvador Correia, percebendo-o, apenas lhes concedeu dois dias. No fim do prazo marcado. desembarcou em chalupas 650 soldados e 250 marinheiros, deixando 180 nos navios com muitas figuras pelas enxárcias e pelas amuradas, para que de longe se julgasse muito mais numerosa a tripulação dos navios. Os holandeses, repelidos de todos os pontos exteriores, refugiaram-se na fortaleza do Morro de S. Miguel e no forte de Nossa Senhora da Guia, tendo abandonado tanto à pressa o fortim de Santo António, que nem tiveram tempo de encravar mais do que duas peças das oito que o fortim possuía. Aproveitou-as Salvador Correia, e juntando-as, a quatro meios canhões que mandou desembarcar, formou uma bateria que principiou a bombardear a fortaleza, causando pouco dano, mas produzindo grande terror aos holandeses, assombrados da rapidez com que a bateria se assentara. Viu, porém, Salvador Correia que seria demorado o êxito da bateria, a apertado pela necessidade de impedir que os holandeses fossem reforçados, mandou no dia seguinte, 15 de Agosto de 1648, dar assalto às duas fortalezas ocupadas pelo inimigo. A temeridade era incrível e seria indesculpável, se não fosse a situação perigosa em que Salvador Correia se via. Tinha apenas 900 homens e ia assaltar duas fortalezas, onde a artilharia quase nem tinha aberto brecha e guarnecidas por 1.200 soldados europeus e outros tantos negros. Por isso o assalto deu resultados terríveis. Depois duma escalada audaciosa em que os assaltantes foram repelidos, Salvador Correia mandou recolher as forças, e viu que perdera 163 soldados mortos e 160 feridos. Tinha por conseguinte fora do combate mais da terça parte do seu exército. Salvador Correia, sombrio mas resoluto, ia fazer uma segunda tentativa, quando com grande surpresa, viu aparecer um parlamentário, que vinha propor uma capitulação, o que Salvador Correia resolveu aceitar, receando o resultado de um novo assalto, em vista das perdas enormes que já sofrera. A capitulação foi concedida com todas as honras, facilitando-lhes logo a amnistia que eles pediram para os seus partidários, e assinada a capitulação viu-se o caso estranho de saírem rendidos de duas fortalezas, onde nem quase havia brecha, 1.100 homens e passarem, diante de menos de 600, que a essa força estava reduzida, depois do primeiro assalto, o exército sitiador. Havia já 5 dias que Salvador Correia tomara posse das fortalezas, quando apareceu na cidade, vindo do sertão um corpo de 250 homens acompanhados por mais de 2.000 negros, súbditos da rainha Ginga (V. Portugal, vol. III, pág. 737). Bem desejariam eles romper a capitulação, mas Salvador Correia tomara as suas precauções, fazendo logo embarcar em três navios a guarnição holandesa da cidade; de sorte que os recém chegados, vendo-se sós, capitularam também. Os negros da rainha Ginga é que não quiseram sujeitar-se, e arrojaram os maiores impropérios aos holandeses, por eles os desampararem. A guarnição de Benguela rendeu se a dois navios portugueses sem disparar um tiro, e a da ilha do S. Tomé, apenas soube que Luanda se rendera, partiu desamparando a ilha, deixando a artilharia e munições, de forma que os navios que Salvador Correia enviara para procurarem apoderar-se dessa nossa antiga e importante colónia, encontraram já a bandeira portuguesa arvorada nos fortes. Assim desampararam os holandeses também as suas feitorias de Benguela-a-Velha, de Leango e da Pinda, de forma que em dois meses tinham voltado ao domínio português. Angola e S. Tomé. A vitória quase miraculosa de Salvador Correia deixou de si lembrança tão viva na memória dos povos, que ainda em 1812 se celebrava em Luanda uma festa em acção de graças no dia 15 de Agosto pela vitória alcançada nesse dia por Salvador Correia. Expulsos os holandeses, tinha ainda de subjugar e punir os negros que haviam seguido o seu partido. Os principais eram os súbditos da rainha Ginga, e Salvador Correia, dispondo de poucas forças, alistou ao seu exército muitos franceses, que faziam parte da guarnição holandesa e que tinham ficado em Angola. O comando foi confiado a Bartolomeu de Vasconcelos, que facilmente subjugou os negros dissidentes, vendo-se a rainha Ginga forçada a pedir a paz, por se convencer que nada podia contra os portugueses. No entretanto Salvador Correia dava grande impulso às suas medidas administrativas, favorecendo o desenvolvimento de Luanda, onde se demorou até 1651, ano em que tornou a partir para o Rio de Janeiro, deixando por seu sucessor Rodrigo de Miranda Henriques. 
Por carta régia de 17 de Setembro de 1658, muito honrosa para o agraciado, fora-lhe conferido o governo das capitanias do sul do Brasil com absoluta independência do governo da Baía. Quando chegou ao Rio de Janeiro, achou a cidade em deplorável situação, com o comércio paralisado, as tropas mal pagas, e os cofres públicos exaustos. Foi preciso recorrer a novos tributos, o que descontentou o povo, sendo necessário todo o prestígio de Salvador Correia para o manter na obediência; mas quando o governador saiu da cidade para visitar a província de S. Paulo, deixando como seu substituto Tomé Correia de Alvarenga, a insurreição rebentou, reclamando os insurgentes a deposição de Salvador Correia, depondo o seu delegado Alvarenga, e elegendo para os governar Agostinho Barbalho Bezerra. Quis a câmara do Rio de Janeiro obter o auxílio dos paulistas, mas estes não só não aceitaram o convite, mas ofereceram-se a Salvador Correia para o ajudarem a subjugar os rebeldes. Preferiu este recorrer aos meios pacíficos, e chegou a declarar a Bezerra que o consideraria como governador, se se considerasse seu delegado, mas os revolucionários julgando ver nisto uma prova de fraqueza, não quiseram aceitar estas propostas pacíficas, e prepararam-se para resistir à força aberta. Pouco lhes durou, porém, esta resolução, porque, vendo-se isolados, depuseram as armas, apenas lá lhes apareceu o desembargador Pessanha, enviado da Baía para inquirir a respeito da revolta, e Salvador Correia de Sá tomou de novo posse do governo, que exerceu até ao ano de 1662, e entregando-o então ao seu sucessor, partiu para Lisboa. Como sucedeu a todos os grandes homens que tantos serviços prestaram à pátria, a intriga conseguiu feri-lo. Os seus inimigos, que não eram poucos, desde que a rainha regente D. Luísa de Gusmão criara de propósito para ele um governo independente no Rio de Janeiro, trataram de o intrigar, e de o afastar do ânimo dos ministros, apesar de ser muito favorito do conde de Castelo Melhor seu filho mais velho, Martim Correia de Sá, que o grande ministro fez em 1665 visconde de Asseca em recompensa dos muitos serviços de seu pai. Ainda assim maiores amarguras teve Salvador Correia de Sá, quando o conde de Castelo Melhor caiu do poder porque tendo-o D. Afonso VI chamado para se aconselhar com ele, isso bastou, juntamente com a privança que seu filho tivera, para o tornar odiado do infante D. Pedro, e para o tornar alvo de tantas perseguições, que chegou a ser condenado a degredo de 10 anos para essa mesma África, onde ressoava ainda o eco das suas vitórias. À custa de muito dinheiro conseguiu que o deixassem ficar num convento, e depois que o deixassem passar à sua casa em Santos, onde se conservou preso sem menagem. Foi seu filho, que fora ferido em Badajoz e que ficara gravemente enfermo, quem instou com ele para que requeresse esta última concessão, porque o heróico restaurador de Angola, profundamente ferido e desgostoso com todas estas perseguições, estava resolvido a terminar a vida num convento. A morte do visconde de Asseca, sucedida pouco depois, e a orfandade em que ficaram os netos de Salvador Correia de Sá, fizeram com que o príncipe regente pensasse que era vergonhoso, realmente, que o homem que tão altos serviços prestara ao seu país, estivesse agora quase octogenário preso como um criminoso, enquanto seus netos não tinham quem os amparasse e guiasse na estrada da vida. Deu ordem para que fosse solto, e logo em seguida voltou ao lugar que lhe pertencia de membro do Conselho Ultramarino. 
Consta que Salvador Correia de Sá escrevera umas Memorias da sua vida, que infelizmente se perderam. Fal. contando 91 anos de idade, conservando até aos últimos dias da sua vida e rijeza do corpo e do espírito. 
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume VI, pág. 434-436.
 




Padre António Vieira
Após a Restauração da Independência em Portugal (1640), em 1641 Padre António Vieira iniciou a carreira diplomática. Em 1644 deixou Portugal como embaixador (seu pai, que antes vivera pobre, foi nomeado pensionista real) para negociar com os Países Baixos a devolução da Região Nordeste do Brasil.
O povo de Portugal não gostava das pregações de Vieira em favor dos judeus. Após esses tempos conturbados da política portuguesa acabou voltando ao Brasil, onze anos após voltar para a Europa. Permaneceu na região Nordeste por algum tempo, tendo voltado para a Europa com a morte de D. João IV, tornando-se confessor da Regente, D. Luísa.
Com a morte de D. Afonso IV, António Vieira não encontrou apoio, e a Inquisição vingou-se, acusando-o de heresia com base numa carta de 1659, endereçada ao bispo do Japão, na qual António Vieira expunha a sua teoria do Quinto Império, segundo a qual Portugal estaria predestinado a ser a cabeça de um grande império do futuro. Foi expulso de Lisboa, desterrado) e encarcerado no Porto e depois em Coimbra, enquanto os jesuítas perderam os seus privilégios. Em 1667 foi condenado a internamento e proibido de pregar, mas, seis meses depois, a pena foi anulada. Em 1669, desiludido com D. Pedro III partiu para o Vaticano, onde encontrou o Papa à beira da morte.
Quando em 1671 uma nova expulsão dos judeus foi promovida, Vieira novamente os defendeu. Em 1675 foi absolvido totalmente pela Inquisição, e voltou para Lisboa por ordem de D. Pedro, mas afastou-se dos negócios públicos.
Em 1681 voltou para o Brasil e dedicou-se à tarefa de continuar a edição completa em quinze volumes dos seus Sermões, iniciada em 1679, e à conclusão da Clavis Prophetarum. As suas obras começaram a ser publicadas na Europa, onde foram elogiadas até pela Inquisição.
Já muito velho e doente, teve que espalhar circulares sobre a sua saúde para poder manter em dia a sua vasta correspondência. Em 1694 já não conseguia escrever de próprio punho. Em 10 de Junho começou a agonia quando perdeu a voz e silenciaram-se os seus discursos. Em 17 de Junho de 1697 faleceu na Bahia, com 89 anos.

 

 


Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal