HISTÓRIA de P O R T U G A L

(Resumo)

 

 

IV DINASTIA

 

 

 

 

Bandeira Real

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

 

 

 

 

JOÃO V - "O MAGNÂNIMO"

Reinou de 1706 a 1750

 

 

 

(1707-1816)

Rei de Portugal e dos Algarves d'Aquém e d'Além Mar em África, Senhor da Guiné e do Comércio, da Conquista e da Navegação da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia

 
 
 
 
Tendo falecido José Iº, imperador da Alemanha, foi chamado a ocupar quele lugar seu irmão o Arquiduque Carlos que, por isso, se desinteressou das antigas pretensões ao trono de Espanha. Seguidamente a este acontecimento, um congresso reunido em Utreque (Holanda) – que pôs termo à guerra da Sucessão, sem qualquer benefício para Portugal – reconheceu os direitos de Filipe de Anjou, aclamando-o rei de Espanha, em 1713.

D. João V, para satisfazer um pedido do Papa Clemente XI, enviou em socorro da Itália, ameaçada pelos turcos, uma poderosa esquadra comandada pelo Conde do Rio Grande. Esta armada, em cooperação com outros navios de diferentes nacionalidades, derrotou a esquadra turca em 1717.

No reinado anterior (D. Pedro IIº), tinham sido descobertas no Brasil, importantes jazidas de ouro e de diamantes. Com a abundância desse rendimento, parte, do qual vinha para Portugal, pode D. João V realizar importantes obras que muito contribuíram para o desenvolvimento das belas artes portuguesas, como:

- O Convento de Mafra, em que chegaram a trabalhar 50 mil pessoas; as suas torres possuem 114 sinos ;

Capela de São João Baptista;

Igreja das Necessidades;

Casa da Moeda;

Paço de Vendas Novas;

Basílica Patriarcal de Lisboa; etc.

Com esse dinheiro, subsidiou a construção do Aqueduto das Águas Livres de Lisboa, pago, todavia, na maior parte, pela Câmara de Lisboa. Tem 18.065 metros de comprimento, 127 arcos de cantaria e levou 66 anos a construir. Destinava-se a conduzir as águas para o consumo de Lisboa.

A este rei, se deve também a fundação da Academia Real de História Portuguesa; a Academia de Portugal, em Roma; da Biblioteca da Universidade, em Coimbra , etc.

O papa Benedito XIV agraciou D. João V com o título de “Fidelíssimo”, qua passaria aos seus sucessores e honrou a Sé de Lisboa com a dignidade de Patriarcal.

Seus restos mortais encontram-se na Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa.

Vigésimo quarto rei de Portugal, nasceu em Lisboa em 1689; filho de D. Pedro ll e de sua segunda mulher, D. Maria Sofia Isabel de Neuburgo. Os primeiros anos do seu reinado ficaram assinalados pelas derrotas nas Batalhas de Almansa em 1707 e de Caya em 1709, e pelo saque do Rio de Janeiro (Brasil) pelo francês Duguay-Trouin. Em 1713, o Tratado de Utrcht (Holanda) pôs termo à "Guerra da Sucessão" de Espanha, sem conceder a Portugal a menor compensação. D. João V, exerceu o governo absoluto e nunca se dignou reunir Cortes. Provenientes das minas de ouro e de diamantes do Brasil, entraram em Portugal, durante este reinado, incalculáveis riquezas, mas, em vez de as empregar em benefício e no desenvolvimento da indústria e da agricultura, foram estas riquezas esbanjadas em doações a igrejas e a mosteiros, e, em prodigalidades insensatas. A edificação do Convento de Mafra, custou-lhe 120 milhões de cruzados; as quantias enviadas para Roma (Vaticano), em pagamento de indulgências, canonizações e outros, como embaixadas, passaram dos 200 milhões. O luxo da sua Corte era esplendoroso, só comparado na Europa à Corte Francesa do Rei Sol. Quando foi preciso construir uma obra tão necessária ao povo, como o Aqueduto das Águas Livres (Lisboa), o povo teve de contribuir com um novo e pesado imposto. A fundação da Academia Real de História, do Arsenal da marinha, da Casa da Moeda e de umas poucas fábricas industriais, não basta para reabilitar este grande gastador e esbanjador de fortunas, como fez no seu reinado.

Jaz em São Vicente de Fora.

B R A S I L (entre 1640 e 1750)

Em 1648, o exército holandês que havia assentado praça em algumas partes do Brasil, foi derrotado na Baía, e, no seguimento destas escaramuças, em 1648 e 49, nas duas Batalhas de Guararapes, foram completamente expulsos do norte do Brasil.

Uma expedição comandada por Salvador Correia de Sá e Benevides, libertou não só o Rio de Janeiro, como também atravessou o Atlântico e libertou Angola e São Tomé e Príncipe. Finalmente, os holandeses capitularam em 1654, em Taborda (Brasil). Foram trinta anos de resistência heróica, em que o principal papel coube à própria população brasileira, aos portugueses, pretos, índios e mestiços. De entre outros, salientaram-se Matias de Albuquerque, Vidal de Negreiros, Fernando Vieira, Filipe Dias, Camarão e muitos outros. Entretanto, as guerras europeias não havia distraído os portugueses do povoamento do interior brasileiro, assim como Paraíba, parte de Sergipe, Rio Grande do Norte. Também foram criadas novas capitanias no Ceará, Piauí e Maranhão. Alexandre de Moura fundou a cidade de Belém. As bandeiras paulistas avançaram em Minas Gerais e chegaram a Goiás, entrado nas bacias hidrográficas do Panará, do Paraguai e do Amazonas. No começo do século XVll, já havia nestes lugares população, não só portuguesa, como também de sertanejos. Logo a seguir deu-se a Batalha dos Emboamas, seguindo-se a chamada Guerra dos Mascates. Em 1710, Luís XlV de França, mandou um capitão de sua confiança, de nome Duclerec, com cinco navios e 1.700 soldados, tomar o Rio de Janeiro, que na altura contava com 12 mil habitantes, mas foi completamente derrotado. Mas, para vingar este desaire, no ano seguinte, foi mandado pelo rei francês, Duguay-Trouin, que bombardeou violentamente o Rio de Janeiro, conseguindo em 1680, a sua rendição e um pesado resgate. Mais tarde, em 1704, o Rio de Janeiro voltou a ser brasileiro.

DESENVOLVIMENTO DO BRASIL

Brasil não se podia desenvolver-se economicamente sem abundância de mão-de-obra. Os primeiros colonos haviam tentado resolver o problema com a escravização dos Índios. Mas, a breve trecho, verificaram que o trabalho do índio era pouco remunerador, pela sua indolência natural, o seu espírito de independência, a sua inadaptibilidade aos trabalhos agrícolas. Por outro lado, a protecção que encontraram junto aos jesuítas, defensores intemeratos da sua liberdade, era motivo constante de lutas com os missionários. Esta situação levou os povoadores a procurarem mão-de-obra de outra procedência - a de África - de onde começaram a chegar, em levas sucessivas, numerosos escravos negros, que passaram a labutar nos campos, nos engenhos de açúcar, nas fábricas, nas casas particulares; em toda a parte onde havia trabalho a realizar. A mancha negra alastrou por todo o Brasil, que os escravos africanos ajudaram a desbravar, a enriquecer, a cultivar. Tornaram-se, por fim libertados, parte integrante da população brasileira, com a qual se haviam misturado e confundido. No entretanto, aumentava o conhecimento do país, cujo interior permanecera, durante muito tempo, fechado à penetração dos portugueses, que temiam as suas florestas tenebrosas, as suas tribos de índios ferocíssimos, os perigos das feras, a braveza da selva. Expulsos, porém, os franceses e os holandeses, aumentada a população, acrescida a prosperidade económica, os portugueses lançaram-se à conquista de novos territórios e, depois, penetraram ousadamente no interior, levados pela ânsia de devassar os seus segredos. A conquista territorial levou os portugueses a estabelecerem-se em Paraíba, em Sergipe, no Rio Grande do Norte, no Pará, no Amazonas, no Piauhy, onde levantaram fortalezas, cidades, vilas, aldeamentos. Por toda estas paragens surgiram fazendas laboriosas, granjas modelares, campos cerealíferos, pomares, engenhos de açúcar. Em seguida, iniciaram a avançada para o sertão. Esta epopeia pertence aos "bandeirantes", ou grupos de aventureiros arrojados que marchavam ao som do tambor, conduzidos pela bandeira que flutuava na frente. Assim, penetraram na selva, em caminhadas dolorosas que, a pouco e pouco, os levaram ao conhecimento rigoroso dos confins do Brasil. Os "bandeirantes" foram os verdadeiros exploradores do interior brasileiro, que conseguiram devassar lentamente. Romperam através do mato. Combateram os índios e as feras. Resistiram às ciladas dos indígenas, à hostilidade do clima, à fome e ao cansaço. Domaram a força das correntes, atravessaram os rios e desvendaram, por fim, todos os segredos da terra brasileira. Os "bandeirantes" mais célebres foram os habitantes de São Paulo, cidade fundada pelos jesuítas. Eram homens arrojados, valentes, laboriosos. Dotados destas qualidades, meteram-se pelo interior, chegaram ao Amazonas, ao Rio da Prata, ao Paraguai, a mato Grosso. Bandeirantes ousados partiram também de Parnaíba e Taubaté. Foram ainda os "bandeirantes" que encontraram as minas de ouro e pedras preciosas, que se dizia existirem no interior da Brasil e eram procuradas desde a época distante da descoberta. Um dos "bandeirantes" que mais contribuiu para a descoberta do ouro, foi Fernão Dias Pais Leme, corajoso paulista, ao qual o governador geral do Brasil havia passado a carta patente de "Governador das Esmeraldas". Partiu em 1670 de São Paulo, acompanhado de seu filho Garcia Pais, do genro, Borba Gato, e de numerosos escravos. Errou durante sete anos pelo sertão. De vez em quando, parava, semeava milho, colhia a mandioca, esperava a colheita. Depois, provido de mantimentos, prosseguia a jornada fatigante. Em certa altura, Pais Leme, encontrou belas pedras esverdeadas. Convencido de que deparava com as decantadas esmeraldas, voltou com as amostras para as entregar ao governador geral. Mas morreu no caminho, minado de febres. Veio depois a verificar-se que se tratava de turmalinas sem importância. Borga Gato ficou, porém, no sertão. Continuou as pesquisas no zona do Rio das Velhas e verificou que o ouro apresentava cor semelhante ao aço por temperar. Era o famoso "ouro preto", que veio mais tarde a dar nome à povoação de "Ouro Preto", estabelecida na região, denominada por sua vez, de Minas gerais. As pedras preciosas encontravam-se, mais tarde, em plena zona aurífera. A notícia da descoberta do ouro provocou verdadeiro deslumbramento. Os colonos, seduzidos pela miragem de riqueza rápida, abandonaram as culturas, reuniram os escravos e partiram para o interior, ao mesmo tempo que Portugal se despovoava e seguia o mesmo rumo. Foi tal a loucura que teve que ser proibida a saída de gente de Portugal para o Brasil, por decreto de D. João V. No entanto, começava a extracção que o governo procurou regularizar. Impôs a ordem aos aventureiros, que se batiam em pugnas sangrentas, e começou a cobrar um quinto do metal e diamantes extraídos. A política mercantilista do conde da Ericeira continuou a dominar durante o reinado de D. João V, que procurou dotar o reino de indústrias prósperas. Para isso recomendou aos seus representantes no estrangeiro, que fizessem pesquisas sobre inovações realizadas no campo dos ofícios e das artes e ordenou a compra de modelos e segredos industriais. As realizações de D. João V foram numerosas: Protegeu as fábricas de lanifícios da Covilhã. Transformou a indústria de vidros, que começou a laborar na Marinha Grande. Fundou uma fábrica de papel na Lousã. Criou indústrias de sedas, tapetes, peles e outras. O Marquês de Pombal seguiu rumo idêntico: Fundou fábricas novas e reformou algumas das já existentes.

Mas muitas destas indústrias desapareceram logo que a protecção do Estado deixou de as amparar. Outras impuseram-se com o tempo, progrediram lentamente e vieram a converter-se em laboriosos centros de trabalho. De harmonia com este plano, o Marquês de Pombal, este foi completado com a instituição de poderosas companhias, às quais concedeu o monopólio de determinadas transacções. A sua actividade neste sentido começou, ainda antes do terramoto de Lisboa (1755), com a "Companhia do Grão-Pará e Maranhão", isto em 1753, à qual deu exclusivo do comércio naquelas paragens brasileiras e a faculdade de só ela poder introduzir escravos no Brasil e fabricar pólvora. Seguiram-se outras empresas, como: "Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro (1756), que ficou com o monopólio do comércio de vinhos, aguardentes e vinagres, a exportar da cidade do Porto para o Rio de Janeiro e outros portos brasileiros; em 1759 a "Companhia de Pernambuco e Paraíba", que montou no Brasil numerosos engenhos de açúcar, servidos por escravos negros; a "Companhia para a pesca das costas do Brasil"; " "Companhia geral das reais pescas do Algarve; etc. Todos estes monopólios atacados pelos pequenos capitalistas e comerciantes, cujos interesses prejudicavam, desapareceram, quando o Marquês de Pombal deixou o poder. Apenas se manteve a "Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto – Douro", depois de cerceados os privilégios de que gozava, por decreto da rainha D. Maria l.

João V. O Magnânimo. - 24.° rei de Portugal.
N. em Lisboa a 22 de Outubro de 1689, onde também fal. a 31 de Julho de 1750. Era segundo filho de D. Pedro II, e de sua segunda mulher, a rainha D. Maria Sofia Isabel de Neuburgo.
Falecendo seu irmão mais velho, do mesmo nome João, a 30 de Agosto de 1688, tendo apenas um mês de vida, foi proclamado príncipe herdeiro em 1 de Dezembro de 1697, em acto solene na presença da corte, e por morte de seu pai, em Dezembro de 1706, subiu ao trono, sendo solenemente aclamado no dia 1 de Janeiro de 1707. Em 1696 fora armado por seu pai cavaleiro da ordem de Cristo. No Anno Historico, do padre Francisco de Santa Maria, vol. I, pág. 12 e seguintes, vem uma descrição minuciosa desta cerimónia e das festas que então se realizaram. D. .João V herdou de seu pai uma guerra que ia começar a ser desastrosa, a da Sucessão de Espanha. Os pretendentes eram o arquiduque Carlos e duque de Anjou, neto de Luís XIV, Filipe V. A Espanha aceitava a realeza de Filipe V, e D. Pedro II, de Portugal, aliara-se com os ingleses e os austríacos a favor do arquiduque. O duque Berwick, um dos generais de Filipe V, tinha na sua frente o general português marquês dás Minas, que na campanha de 1706 atravessou a Espanha e entrou vitorioso em Madrid, onde fez aclamar o arquiduque com o nome de Carlos III. Mas a vontade decidida de Espanha de querer Filipe V para seu rei, era muito poderosa. As províncias intermediárias entre Madrid e Portugal sublevaram-se em massa, ao mesmo tempo Luís XIV, por um esforço desesperado, reforçava as forças do duque de Berwick, e o marquês das Minas achava-se em Madrid cortado da fronteira portuguesa. Outro general do arquiduque, lorde Peterborough, desembarcara na província de Valência da qual tomara posse, e o marquês das Minas, obrigado a abandonar Madrid, em vez de se retirar para Portugal, foi para Valência. O duque de Berwick seguiu-o desejoso de dar batalha nas planícies dessa parte da Espanha, por causa da grande superioridade da sua cavalaria. O marquês das Minas desejava evitá-la, por isso mesmo, mas lorde Galloway, comandante das tropas auxiliares inglesas, insistiu para que se travasse a luta. Deu-se então a batalha de Almanza a 25 de Abril de 1707, em que ficou vencedor o partido de Filipe V. O marquês das Minas deixou sob o comando do conde de Atalaia um pequeno exército português agregado ás tropas inglesas, e veio para Portugal. A guerra daí em diante foi apenas uma série de combates de pouco valor nas fronteiras, sendo o facto mais importante a defesa de Campo Maior, em 1711, ultima façanha da guerra da Sucessão de Espanha, em que Portugal se envolvera: A guerra expôs à perseguição dos franceses a nossa marinha e as nossas colónias. Em 1710 organizou-se em Brest uma pequena esquadra para atacar o Rio de Janeiro, mas o comandante, Mr. du Clerc, ficou derrotado caindo em poder dos portugueses. Esta notícia causou a maior satisfação em Lisboa, e celebrou-se um solene Te-Deum na capela real a que assistiu el-rei e toda a régia família. No ano seguinte, 1711, uma outra esquadra, comandada pelo célebre marítimo Du Guay-Trouin, veio atacar o Rio de Janeiro, e vingou cruelmente o desastre do seu compatriota du Clerc, apesar da forte resistência, oposta pelo governador Francisco de Castro de Morais. A cidade foi posta a saque. Finalmente, em 1715 assinou-se o tratado de Utrecht entre as diversas potências beligerantes, que trouxe a paz à Europa. Nesta luta foi Portugal que menos aproveitou, porque nenhumas compensações obteve por tantos e tão cruéis sacrifícios.
Enquanto durara a guerra com a Espanha e a França, deu se o casamento de el-rei D. João V com a arquiduques D. Maria Ana de Áustria, filha do imperador Leopoldo, irmã do imperador José, então reinante, e do imperador Carlos VI. Foram assombrosas as solenidades que se realizaram em Viena e depois em Lisboa à chegada da nossa rainha. O conde de Vilar Maior, Fernando Teles da Silva, foi encarregado, como embaixador extraordinário, de ir pedir em casamento a arquiduquesa. O embaixador chegou a Viena a 21 de Fevereiro de 1705, e antes de fazer a sua entrada. pública, recebeu audiência particular do imperador, da imperatriz sua mulher e da imperatriz viúva; dias depois também lhe foi concedida audiência das arquiduquesas. A entrada oficial demorou-se algum tempo, porque o embaixador português esperava que de Holanda lhe chegassem alguns coches e cavalos, que deviam figurar no acto solene. No dia 7 de Junho é que se realizou a imponente cerimónia da apresentação. O conde de Vilar Maior saiu de Inzerstorff, para onde partira na véspera, e entrou em Viena com todo o aparato; aí o esperava o conde Waldestein, marechal da corte, o qual o conduziu com dois coches do imperador, e mais 42, tirados a seis cavalos, mandados pelos cavalheiros principais da corte com os seus gentis-homens. 0 cortejo era imponente; passou pelo paço da Favorita, em cujas janelas se viam o imperador José, as imperatrizes e as arquiduquesas, e seguiu até ao palácio do embaixador português. No dia seguinte, o conde Gundacharo Poppone de Dietrichstein, com os mesmos dois coches do imperador, foi buscar o conde de Vilar Maior, Fernando Teles da Silva, para a conduzir ao paço da Favorita, à audiência pública dos imperadores reinantes, e pouco depois ao paço de Viena, onde também foi recebido em audiência pela imperatriz viúva e pelas arquiduquesas. No dia 21 de Junho é que no paço da Favorita, em solene audiência foi pedida em casamento a arquiduquesa D. Maria Ana, em nome de el-rei de Portugal D. João V. Repetiu-se depois a mesma cerimónia no paço da imperatriz viúva. O embaixador entregou à futura rainha o retrato de D. João V, guarnecido de diamantes de grande valor. Neste mesmo dia se assinou o contrato de casamento. À noite houve baile no Paço, e no dia seguinte realizou-se no palácio do embaixador um magnífico cortejo, a que assistiu toda a corte austríaca. Em 9 de Julho efectuou-se a cerimónia nupcial, sendo o imperador quem recebeu a rainha por procuração do rei de Portugal; foi celebrante o cardeal de Saxónia Zeits, a quem o conde embaixador presenteou com um dos seus coches, tirado a seis cavalos, presenteando também com diversas dádivas todos os demais capelães que assistiram à solenidade. Na viagem para Portugal tocou em diversos portos, realizando-se sempre pomposas festas, até que em 26 de Outubro chegou a Lisboa, onde teve uma imponentíssima recepção. No paço da Ribeira houve serenatas e músicas. No Terreiro do Paço queimaram-se fogos de artifício, e armou-se um anfiteatro, onde em três tardes sucessivas se realizaram corridas de touros. No dia 22 de Dezembro, seguidas dum pomposo cortejo, foram as pessoas reais e toda a corte à Sé, onde se cantou um solene Te-Deum. No Anno Histórico do Padre Francisco de Santa Maria, vol. II, pág 334 e seguintes, vêem minuciosamente descritas as esplêndidas festas, os deslumbrantes cortejos e cerimónias, que se realizaram em Viena de Áustria e em Lisboa, assim como a descrição do dote da rainha. do contrato do casamento, e de muitas ofertas feitas pelo imperador da Áustria às pessoas que compunham a embaixada portuguesa.
Em Lisboa houve por esta época uma notável contenda com os embaixadores das principais potências, que insistiam para terem umas franquias incompatíveis com o regular andamento da justiça. D. João V foi sempre muito enérgico em todas estas contendas com os ministros estrangeiros, mantendo as prerrogativas da Coroa e as preeminências marcadas pela etiqueta com a mais severa austeridade. Também pode dizer-se que em poucas épocas teve Portugal diplomatas tão hábeis como no tempo de. D. João V, em que se encontram os nomes de D. Luís da Cunha, Diogo de Mendonça Corte Real e de Alexandre de Gusmão. O monarca era extremamente devoto, e dessa exagerada devoção resultou intervir Portugal numa guerra entre o papa, os venezianos e os turcos. Em 1716 enviou em socorro do papa uma luzida esquadra, comandada pelo conde do Rio Grande, que tomou parte na gloriosa vitória do cabo Matapan, mas que sobrecarregou a fazenda com uma despesa enorme. Descuidava das causas urgentes do país, e despendia largas e fabulosas somas com a cúria romana, com igrejas e monumentos religiosos. Construiu o grandioso convento de Mafra que custou 120 milhões de cruzados; a capela de S. João Baptista na igreja de S. Roque, obra riquíssima que se construiu em Roma pelo desenho de Vanvitelli, e enquanto se não concluiu, D. João V mandava repetidas vezes importantes quantias exigidas pelo papa, então Benedito XIV. Em 1744 ficou pronta a capela, que se armou dentro da igreja de S. Pedro, e depois de sagrada em 15 de Dezembro do referido ano, o papa oficiou de pontifical. El-rei, por esta distinção feita à sua devota capela, presenteou o pontífice com 100.000 cruzados. Em 1746 foi toda desarmada e cuidadosamente encaixotada, transportando-se assim para Lisboa, sendo acompanhada por alguns dos artistas que tinham trabalhado na obra e do escultor afamado Alexandre Giusti, que nunca mais abandonou Portugal. Quando a capela chegou a Lisboa, achava-se D. João V gravemente doente, e já não pôde ver realizada a sua monumental obra, porque faleceu pouco tempo depois. A capela somente se colocou em S. Roque já no reinado de D. José, em 13 de Janeiro de 1751. No vol. XI do Gabinete Historico, de Fr. Cláudio da Conceição, vem descrita a história da capela de S. João Baptista na igreja de S. Roque e de todas as suas grandiosas riquezas.
D. João V engrandeceu bizarramente a capela real que ele elevou a uma sumptuosa patriarcal com um numeroso cabido, musicas e cantores. (V. Patriarcal). Dividiu Lisboa em duas partes: Lisboa Oriental e Lisboa Ocidental; a primeira metropolitana e a segunda patriarcal. As negociações para a concessão desta igreja custaram também importantíssimas somas, que se enviaram à Cúria romana; conseguiu igualmente do Papa a 22 de Dezembro de 1748, a troco de grandes dádivas, a denominação de rei fidelíssimo para si e para os seus descendentes, considerando assim como a maior glória da sua raça o ter sido sempre fiel à Santa Sé. As prodigalidades deste monarca eram extraordinárias; enriqueceu os conventos, deu dinheiro ilimitado aos fidalgos; nos últimos anos da sua vida mandou rezar para cima de 700.000 missas; por urna imagem que o papa benzeu, de prata dourada, deu 120.000 cruzados; para Jerusalém mandou 1.377 cruzados; fundou o convento do Louriçal dotando-o com 6.000 cruzados, e deu-lhe muitas alfaias e pratas; ceou dois bispados no Brasil; mandou para diferentes igrejas do estrangeiro alfaias e adornos de incalculável valor; em indulgências e canonizações enviou para Roma perto de 1,38 milhões de cruzados; na missão que foi a Roma assistir a um conclave gastou-se para cima de dois milhões de cruzados; ao núncio Bichi, quando se retirou de Lisboa, mandou dar-lhe 1.000 moedas para ajuda da viagem; ao cardeal Oddi deu-lhe uma caixa de brilhantes no valor de 20.000 cruzados, etc. Apesar da sua exagerada devoção, não tinha escrúpulo em profanar a clausura das virgens do Senhor, o que lhe adquiriu o titulo de rei freirático, transformando, por exemplo, o convento de Odivelas, sustentando escandalosamente os seus amores com a madre Paula, freira sua predilecta.
O que bastante ilustra este reinado foi a edificação do Aqueduto das Aguas Livres, melhoramento de grande importância (V. Águas Livres, aqueduto das), e a fundação da Academia Real da História Portuguesa, pelo decreto de 8 de Dezembro de 1720. Esta Academia tinha por fim escrever a história eclesiástica destes reinos, e depois tudo o que pertencesse à história deles e de suas conquistas. (V. Academia Real da História Portuguesa). Também neste reinado se deu muita atenção aos estudos de cirurgia; em 1715 foi impressa a tradução da Cirurgia de Le Clerc; em Abril de 1731 estabeleceu-se no hospital real de Todos os Santos uma escola cirúrgica, dando as lições Isaac Eliot com cirurgiões de partido, aos quais el-rei assignou o vencimento de um tostão por dia. No Porto estabeleceu-se em 1746 a Academia Cirúrgica Protótipo‑Lusitânica Portuense (V. este nome), cujos estatutos foram aprovados por D. João V. Na Historia dos Estabelecimentos scientificos, litterarios e artisticos, de José Silvestre Ribeiro, vol, I, pág. 174 e seguintes, encontram-se notícias circunstanciadas acerca desta academia. D. João V tinha constante desvelo em favorecer os autores pobres, habilitando-os a publicar os seus escritos, que sem a protecção do monarca, ficariam por imprimir. Se alguma obra lhe era indicada como excelente, e já rara, não hesitava em a mandar reimprimir. Foi assim que se publicou a Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, por D. António Caetano de Sousa; O Vocabulario portuguez e latino de Bluteau; o Corpus poetarum lusitanorum, do padre António dos Reis, e outras muitas obras. Reuniu, com grande dispêndio, uma rica livraria no seu palácio, bem como numerosos e interessantes objectos de estudo. D. António Caetano de Sousa dá curiosas notícias a este respeito: «Assim tem, diz ele, uma numerosa e admirável livraria, que se vêem as edições mais raras, grande número de manuscritos, instrumentos matemáticos, admiráveis relógios, e muitas outras coisas raras que ocupam muitas casas e gabinetes. Não havia no Paço mais que um pequeno resto da Livraria antiga da Sereníssima Casa de Bragança: El-rei o fez colocar em esta Real biblioteca, que se compõe de muitos mil volumes, que quase não cabem no grande edifício chamado o Forte.» Determinou ao seu enviado junto à Santa Sé, Manuel Pereira de Sampaio, que formasse uma colecção de tudo quanto pudesse descobrir nas bibliotecas da Cúria Romana, que dissesse respeito à história do reino. Do cumprimento desta ordem proveio talvez a colecção que tem o título de Symmicta Lusitanica, que existe na Biblioteca Real da Ajuda, excedente a 200 volumes. A Sebastião José de Carvalho, quando foi ministro plenipotenciário na Grã-Bretanha, ordenou que reunisse uma colecção de bíblias hebraicas, e de tudo quanto pertencesse a seus ritos, leis, costumes e polícia, em qualquer das línguas vivas. Aquela preciosa colecção chegou a Lisboa no ano de 1743. Por este tempo foi Martim de Mendonça nomeado bibliotecário de el-rei e adiantou este ramo de erudição, mandando vir obras da mesma natureza na língua original, em que era muito versado. Para aumentar a Biblioteca Real sustentou o soberano muitos amanuenses fora do país por alguns anos. Para o mesmo fim fez comprar diversas colecções de livros, tiveram ordem os livreiros Gendeon e Reycend de mandar vir os que pudessem alcançar. Destes livros repartiu el-rei com as bibliotecas das Necessidades e de Mafra, por sua ordem se abriram nesta última casa, em Janeiro de 1731, escolas públicas, com sete cadeiras. Em Outubro deste mesmo ano chamar a Lisboa Martim de Pina de Proença, para formar o catálogo da livraria real, na ocasião em que tinham chegado 20.000 volumes. A Universidade de Coimbra não possuía uma casa competente para acomodação duma livraria. 0 reitor Nuno da Silva Telles solicitou e obteve do soberano a permissão de construir um bom edifício. A provisão régia, que deu esta licença, tem a data do de 31 de Outubro de 1716. A casa da livraria veio a concluir-se, sendo reitor Francisco Carneiro de Figueiroa. D. João V, também elevou a 100$000 réis anuais a verba de 40$000 réis, que a Universidade tinha para a compra de livros. Promoveu os estudos militares, mandando traduzir e imprimir algumas obras de fortificação e artilharia; Assistindo a actos solenes dos exames de tais disciplinas, e decretando em 24 de Dezembro de 1732, que, além da Academia Militar estabelecida na corte, e a da praça de Viana do Minho, se estabelecessem outras academias militares: uma na praça de Elvas e outra na de Almeida. Em 1713 já o monarca havia mandado traduzir e imprimir a Fortificação Moderna, de Pfeffinger. Foi protector e académico, com o título de Pastor Albano, da Academia dos Árcades, de Roma, e ali comprou um sítio em que se estabeleceu a Academia, para se realizarem as suas assembleias. Sobre a porta do edifício está, colocada uma inscrição latina. Esta Arcádia fora fundada em 1690 por alguns poetas célebres. Mandando D. João V vir par a sua igreja patriarcal músicos e cantores italianos, começou em Portugal a influencia da musica italiana.
As solenidades que se realizavam naquele sumptuoso templo, eram imponentes, executadas por um coro de 70 cantores, muitos deles escolhidos entre os melhores que se podia encontrar em Itália, dirigidos pelos professores Scarlatti, João Jorge, Jomelli e David Peres, os mais eminentes mestres então conhecidos no referido país. D. João V também mandou vir de Roma cantocanistas e liturgistas, enviando para aquela cidade a estudar alguns pensionistas. De todos os livros do coro usados no Vaticano, mandou tirar cópias para servirem na sua real capela, em observância rigorosa do uso e ritual pontifício. D. João V também prezava a música profana. Os saraus do Paço eram frequentemente entretidos com peças teatrais ornadas de música. As mais antigas representações neste género, de que há notícias, são as festas realizadas em 1711, 1712 e 1713 nos dias dos anos do rei e da rainha. Em 1733 um violinista italiano ao serviço do Paço, Alexandre Paghetti, obteve privilégio para dar representações públicas de óperas no teatro armado junto ao convento da Trindade, em que se cantaram algumas óperas nos anos de 1737 e 1738. No teatro da Rua dos Condes também se cantaram em 1738, 1739 e 1740. D. João V mandou construir um teatro no palácio de Belém, que tinha comprado em 1726 ao conde de Aveiras, e foi este o primeiro teatro régio especialmente construído para esse fim, inaugurando-se a 4 de Novembro de 1739, o monarca instituiu um seminário destinado ao ensino especial da música, organizado à semelhança do de Vila Viçosa, e cujas despesas eram pagas pelas rendas da Capela Real. Tem a data de 9 de Abril de 1713 o decreto que fundou este novo seminário de música, o qual começou logo a funcionar no antigo paço dos arcebispos; pouco depois, para ter mais largueza, foi transferido para o convento de S. Francisco.
Em 1729, D. João V casou seu filho, o príncipe D. José, com a princesa espanhola D. Mariana Vitoria, e sua filha, D. Maria Bárbara, com o príncipe das Astúrias, D. Fernando, que depois foi Fernando VI, rei de Espanha. A troca das duas princesas efectuou-se na presença dos dois soberanos das duas cortes, num pavilhão que se ergueu na ponte sobre o rio Caia, exactamente na fronteira dos dois estados, fazendo-se tudo com extraordinária pompa. Em 1742 foi o monarca atingido pelo primeiro ataque de paralisia. Reconhecendo o seu estado melindroso, dedicou-se a Deus, temendo a morte que o esperava. Os frades estimulavam-lhe o fervor religioso, e os físicos lhe aconselhavam o emprego das águas das Caldas da Rainha. D. João V utilizou efectivamente estas águas, acompanhando o tratamento com exercícios devotos e muitas rezas. Fez treze jornadas às Caldas, seguido de frades e de freiras. Em 1717 ordenou que o hospital fosse refundido, ficando as obras concluídas em 1750. Em Julho deste ano piorou consideravelmente, e foi sacramentado. Os frades foram chamados, recitaram-se salmos e jaculatórias, e o núncio veio administrar-lhe o sacramento da extrema unção. 0 rei expirou pouco depois, tendo a seu lado a rainha, o príncipe D. José, os infantes D. Pedro e D. António, o cardeal da Cunha e os médicos da corte.
Assim terminou o rei D. João V, deixando pobre o país pelas suas prodigalidades e desperdícios. Deixou também três filhos bastardos, D. António, D. Gaspar e D. José, conhecidos pelos Meninos de Palhavã. Acerca deste monarca escreveu Rebelo da Silva o interessante romance A Mocidade de D. João V. Das amantes fala-se nos seguintes livros: A Caveira da martyr, de Camilo Castelo Branco; 0 mosteiro de Odivellas, de Borges de Figueiredo; As minhas queridas freirinhas de Odivellas, de Bernardes Branco; As amantes de D. João V, de Alberto Pimentel; A Madre Paula, de Rocha Martins. 0 Sr. Artur Lobo de Ávila publicou recentemente no Diário de Notícias um novo romance histórico, com o título de 0 Rei magnífico.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 1048-1051.

A Batalha de Matapan (actualmente Cabo Tenaro na Grécia) em Abril de 1717.
O Rei, para satisfazer a um pedido que lhe fizera o Papa, enviou em socorro da Santa Sé ameaçada pelos Turcos, uma poderosa esquadra comandada pelo Conde de Rio Grande. Nesta batalha, envolveram-se duas esquadras: uma formada a pedido do Papa Clemente XI, na qual estavam 7 embarcações portuguesas e 30 galeras de Malta, Veneza e dos Estados Pontífices; a outra esquadra, formada por 54 galeras, pertencia ao sultão Ahmed de Constantinopla, que tentava expandir seus domínios no Mediterrâneo.
Após quase um dia de batalha, os turcos foram derrotados, tendo perdido diversas embarcações e mais de 2000 homens, enquanto que a frota católica perdeu 300 homens.

BREVE APRESENTAÇÃO DA ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTÓRIA
http://www.aph.com.pt
A ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTÓRIA, instituição científica estatal, criada pelo Decreto-Lei n° 26611, de 19 de Maio de 1936, é a legítima herdeira da mais antiga Academia nacional – a ACADEMIA REAL PORTUGUESA DA HISTÓRIA – fundada por D. João V, conforme decreto de 8 de Dezembro de 1720. Durante dezenas de anos esta instituição desenvolveu uma actividade cultural de grande relevo, como se pode verificar nas magníficas edições, mas, por circunstâncias ainda pouco conhecidas, começou a desagregar-se na segunda metade do século XVIII, acabando por se extinguir naturalmente.
Herdeira da figura da História, da divisa Restituet Omnia, para além de parte da obra literária a nova Academia Portuguesa da História começou as suas actividades a 9 de Janeiro de 1938, data da primeira reunião do Conselho Académico. A sua constituição e fins são claramente definidos nos Estatutos, cujo texto refere tratar-se de uma «agremiação de especialistas que se dedicam à reconstituição documental e crítica do passado». Tem a Academia, designadamente, os seguintes fins:
a) Realizar a investigação científica da história e tornar públicos os seus resultados; b) Estimular e coordenar esforços tendentes ao rigoroso conhecimento da história nacional, no sentido de esclarecer a contribuição portuguesa para o progresso da Cultura e da Civilização;
c) Promover a publicação sistemática de fontes documentais que interessem à História portuguesa;
d) Publicar, em língua portuguesa ou em línguas estrangeiras, obras que contribuam para o conhecimento dos factos relacionados com a presença civilizadora de Portugal no Mundo;
e) Procurar servir de orientadora dos estudos históricos nacionais;
f) Cooperar em tudo o que respeita à inventariação e defesa do património histórico e documental da Nação, emitindo parecer sobre esta matéria sempre que lhe seja solicitado.
Hoje, poderá definir-se ainda como uma «agremiação de especialistas que se dedicam à reconstituição documental e crítica do passado», sendo igualmente o órgão consultivo do Governo na matéria da sua competência» (art°. 3 dos respectivos estatutos).
Tem a seguinte constituição:
Académicos de Número:
- 30 de nacionalidade portuguesa;
- 10 de nacionalidade brasileira;
Académicos Correspondentes:
- 80 de nacionalidade portuguesa;
- 20 de nacionalidade brasileira;
- 10 de outros países de expressão portuguesa;
- 80 de outros países estrangeiros.
Neste conjunto se inserem especialistas em várias áreas do saber, mas cuja obra seja um contributo decisivo para a “História de Portugal”, nos mais diversos âmbitos (linguista, militar, religiosa, regional e local, etc.). Por isso, no conjunto
dos Académicos se contam reputados investigadores e especialistas, quer de obra já consagrada, quer jovens-promessa que possam assegurar a Academia de amanhã. Nessa estratégia de presente e de futuro se insere a presença de consagrados intelectuais, como os Professores Doutores: Joaquim Veríssimo Serrão, Justino Mendes de Almeida, Maria Leonor Machado de Sousa, Aníbal Pinto de Castro, Carlos Antera Ferreira, Humberto Baqueio Moreno, José Marques, Pedro Soares Martinez, Mário Júlio de Almeida Costa, José Pedro Machado, José de Pina Martins,Luís Oliveira Ramos. E a par destes, integram igualmente a A.P.H. outros reputados historiadores, ainda no activo, tais sejam os Professores Doutores: António Pedro Vicente, Luís Adão da Fonseca, Maria Helena da Cruz Coelho, Maria
Alegria Marques, Manuela Mendonça, Maria José Azevedo Santos, Maria do Rosário Themudo Barata, João Luís Cardoso. Nesta aliança entre o saber e a experiência nasce a síntese criativa que a Academia Portuguesa da História se orgulha de assegurar. Para tanto, a sua acção desenvolve-se do seguinte modo:
- sessões semanais, abertas ao público, nas quais os Académicos comunicam aspectos da respectiva investigação;
- sessões extraordinárias em que celebram efemérides notáveis, cujo tema é objecto de estudo e comunicação;
- sessões extraordinárias fora da Academia, privilegiando a História Local; - Jornadas de trabalho, abertas ao público sempre que o tempo histórico vivido o proporciona;
- Publicações diversas, quer das Actas dos encontros, quer resultado da investigação dos Académicos;
- Reedições de obras esgotadas.
Pode afirmar-se que a Academia Portuguesa da História vive actualmente um período de renovação, quer pela inclusão de número significativo
de membros jovens, quer pelo impulso dinâmico que a coloca no lugar cimeiro da investigação Histórica.
Para a correcta prossecução das suas actividades impõe-se a mudança de sede, para edifício digno e que lhe permita apresentar-se em igualdade de circunstâncias com as suas congéneres, nomeadamente de Espanha e de toda a Ibero-América, cujo contacto e intercâmbio privilegia. No seu rico espólio conta com várias bibliotecas e arquivos particulares, que urge organizar em espaço condigno e individualizado.

Do mesmo modo, importa tratar e abrir ao público a sua notável biblioteca que, nas anteriores instalações, se encontra inoperável e guardada em cerca de 4 quilómetros de prateleira. É uma biblioteca especializadíssima, cuja abertura muito contribuirá para o desenvolvimento da ciência Histórica em Portugal, o que será completado pela disponibilização de um fundo documental rico, mas carecendo de tratamento e instalações adequadas. A Academia Portuguesa da História dispõe ainda de numerosas publicações, em armazém, que igualmente precisam de ser conhecidas e divulgadas. A instalação da Academia num novo Palácio permitirá fazer dela um Centro de Cultura que muito enriquecerá a cidade de Lisboa – cidade cuja história é anualmente tratada, todos os meses de Junho.
Assim, prevemos que, nas novas instalações, venham a ser possíveis, para além dos serviços administrativos:
- Uma biblioteca e arquivo aberta ao público;
- Duas salas de conferencias, que virão a ser facultadas a outras actividades intelectuais solicitadas do exterior;
- Um espaço para exposições temporárias;
- Gabinetes de estudo e orientação de temáticas históricas.

Contactos:
Academia Portuguesa da História
Palácio dos Lilases
Alameda das Linhas de Torres, n.º 198-200
1769-024 Lisboa
Telefone: (+351) 217 549 060
Fax: (+351) 217 591 382
E-Mail: acad.port.historia@sapo.pt

Biblioteca da Universidade de Coimbra (Joanina)

http://www.regiaocentro.net/
BIBLIOTECA JOANINA
Também chamada Casa da Livraria. A "obra-prima do ciclo joanino da arquitectura coimbrã" (Cf. Inventário Artístico de Portugal - Cidade de Coimbra), uma das mais belas do mundo. Inicia-se a construção em 1717.
Obra executada pelo arquitecto Gaspar Ferreira então mestre permanente das obras da Universidade, sendo empreiteiro o construtor coimbrão João Carvalho Ferreira. João Rodrigues de Almeida, mestre-de-obras de carpintaria e António Martins Jacob, lavrante, são os autores das obras de talha.
Em 22 de Junho de 1723 são contratados os pintores António Simões Ribeiro e Vicente Nunes para executarem os frescos dos tectos em perspectiva, e, em 22 de Agosto do mesmo ano, é contratado o pintor Manuel da Silva para fazer o douramento e pintura acharoada das estantes, balaustradas, e outras, da Biblioteca.
Em 1725 é colocada na parede do topo, em posição de destaque, uma grande tela com o retrato de D. João V. Desconhece-se o seu autor. "Esta obra maravilhosa de proporções, estilo e gosto, única no Mundo pela unidade e originalidade da concepção ... foi toda executada por artistas portugueses" (Cf. Inventário Artístico de Portugal - Cidade de Coimbra).
Texto de Augusto Alfaiate especialmente para o regiaocentro.net

Amantes de D. João V

A Madre Paula (1701-1768) foi uma freira famosa, apenas por ser amante do rei D. João V,de quem teve vários filhos.
A madre Paula, religiosa de Odivelas e mãe de D. José, um dos Meninos de Palhavã , tornou-se a amante mais célebre do Magnânimo, ficando para sempre associada ao monarca e ao seu reinado. O traço de escândalo da paixão que teria inspirado a D. João V durante uma longa relação amorosa combina-se com a fama do espantoso luxo que a protecção do soberano enriquecido pelo ouro brasileiro forneceria a Paula.
Paula Teresa da Silva nasceu em Lisboa em 17 de Junho de 1701, sendo baptizada na freguesia de Santa Justa, de acordo com o registo de baptismos desta paróquia. O seu avô paterno era João Paulo de Bryt, um alemão estabelecido em Lisboa como ourives. Do seu casamento com Leonor de Almeida (filha do marinheiro napolitano Domingos Urselo e de Domingas Andrade Almeida) nasceu Adrião de Almeida Paulo, que seguiu a profissão do pai. Adrião de Almeida e a sua mulher, Josefa da Silva e Sousa, tiveram três filhas, Maria Micaela da Luz, Paula Teresa da Silva e Leocádia Felícia de Assis e Almeida.
De acordo com os registos do mosteiro de Odivelas, Maria Micaela da Luz tornou-se noviça em 15 de Agosto de 1704, tendo professado a 4 de Outubro desse ano e permanecido na instituição até à sua morte (4 de Julho de 1768). Quanto a Leocádia Felícia, também passou por Odivelas, vindo no entanto a casar com José Falcão de Gamboa Fragoso (morgado da Boavista e Santo Aleixo e dono da Quinta da Bela Vista, ou Quinta do Falcão, na Pontinha), do qual teve uma filha.
Paula Teresa seguiu o exemplo da irmã mais velha, juntando-se a Maria da Luz no mosteiro de Odivelas, cujos assentos registam o seu noviciado, em 31 de Janeiro de 1717, tal como a profissão, em 22 de Fevereiro do ano seguinte. A sua entrada na vida religiosa parece ter sido decidida pelo pai desde muito cedo. Os escassos recursos de Adrião de Almeida justificariam essa vontade de assegurar o sustento das filhas através do seu ingresso no célebre mosteiro dos arredores de Lisboa. Não existe base para a hipótese de Paula ter conhecido D. João V antes de entrar para a congregação.
Odivelas era um local assiduamente frequentado pela nobreza de corte na época em que Paula se tornou freira. Em 1719, realiza-se no mosteiro a festa do Desagravo do Santíssimo Sacramento (11 de Maio), promovida pelo conde de Penaguião e por Francisco de Assis de Távora, na qual se ofereceu “um magnífico jantar a toda a Nobreza que assistiu” à cerimónia. No mesmo ano, a 23 de Outubro, ocorre em Odivelas, com a presença da Corte, a tourada comemorativa do casamento de D. Brás Baltasar da Silveira e D. Joana de Meneses (filha dos condes de Santiago). Não faltariam, portanto, oportunidades para D. João V e os titulares que o rodeavam se deslocarem ao local.
Terá sido por esta altura que começaram os encontros entre o rei e Paula Teresa da Silva, uma vez que D. José de Bragança nasce, em Lisboa, no dia 8 de Setembro de 1720. Sobre a forma como o monarca e a filha de Adrião de Almeida se conheceram, existem versões sem grande credibilidade, como as de Charles Fréderic de Merveilleux (o interesse por outra mulher que resistia, refugiando-se em Odivelas, à sua aproximação teria levado o rei ao mosteiro, onde conheceria Paula) e Alberto Pimentel (para este autor, o primeiro interesse amoroso do monarca seria D. Madalena de Miranda, mãe de D. Gaspar, outro dos “Meninos de Palhavã”).
O luxo de Paula
Adrião de Almeida beneficiou da ligação entre a sua segunda filha e o monarca, que lhe concedeu algumas benesses, documentadas na Chancelaria da Ordem de Cristo. Em 15 de Setembro de 1722, o pai de Paula recebe o hábito de Cristo (nesta altura, segundo a carta que lhe atribui o hábito, era já viúvo e maior de 50 anos) e é armado cavaleiro, recebendo licença para professar no Mosteiro de Nossa Senhora da Luz. É-lhe também atribuída uma tença de 12 réis “no Almoxarifado da Fruta de Lisboa” (8 de Outubro).
Em 1728, Paula recebe tenças avultadas, registadas na Chancelaria de D. João V. Assim, em 28 de Abril, são concedidos à religiosa 210 mil réis anuais. Em 10 de Maio, são atribuídos 210 mil réis por ano a Paula e a todos os seus herdeiros e sucessores, “assentados nos direites da Casa de India e pagos como athegora em duas pagas de Natal e São João”. Finalmente, a 3 de Novembro, é estabelecida uma tença de 1288 mil réis (cedida por Manuel Tomás da Silva, deão da capela real de Vila Viçosa), que duraria três vidas (Paula, Maria da Luz, Leocádia), podendo prolongar-se por mais duas vidas, caso a terceira beneficiária tivesse filhos.
D. João V não deixaria de mandar construir para Paula “uma residência cujo interior era digno da magnificência do rei do ouro”, erguendo o edifício conhecido popularmente por “Torre da Madre Paula” (demolido em 1948 devido ao perigo de derrocada, aquando de obras no espaço do mosteiro). Aí se localizariam os aposentos de Paula e da sua irmã Maria da Luz.
Uma descrição do seu interior encontra-se num manuscrito anónimo e sem data (existente na Biblioteca Nacional de Lisboa), embora aparentemente contemporâneo das habitantes da casa, uma vez que utiliza o tempo presente (“O quarto de cima, aonde assistem”, “O gabinete em que se touca Paula”). Um dos exemplares conhecidos do documento possui o título de Notícia verdadeira do ornato que se viu nas casas de Madre Soror D. Paula Maria, religiosa no mosteiro de Odivelas. Seria a quem El-Rei D. João V tratou com as mais distintas honras obrigado a um amoroso afecto.
O texto refere as várias divisões que compõem os aposentos de Paula e Maria da Luz, enumerando a decoração (“assentos de veludo amarelo, com passamanes de prata”, “armado de melania carmesim, com franjas e passamanes cor de ouro”) e os móveis que as ornamentam, procurando o autor impressionar com a profusão de objectos como espelhos (frequentemente dourados) ou bufetes (existentes em todos os espaços descritos, excepto no oratório, também ele luxuoso). Alguns móveis, como o “leito da moda” de Paula, com “santos de ouro maciço em relevos” e roupa também valiosa (“lençois de olanda mui boa”), merecem particular destaque. O autor afirma não ter contemplado (“isto ainda não se viu”) as numerosas arcas “de roupa de cheiro” que se dizem existir.
O aspecto mais impressionante da descrição é a abundância de prata (“tudo de prata dourada, que não tem número”, “e tudo, que não se pode repetir, de prata”), de talha dourada (“as paredes de talha dourada”, “tectos de entalhados dourados”, “oratório todo de talha dourada”, “duas sanefas de talha dourada”, etc.) e ouro (“cortinas bordadas de ouro e borlas de ouro”). A repetição de termos relativos a este metal (nos onze parágrafos do texto, a palavra “ouro” é utilizada trinta vezes, tal como o conjunto de adjectivos dela derivados) destaca a preocupação do autor anónimo em realçar o esplendor da habitação. Os metais brasileiros abundariam em Odivelas, sendo a habitação de Paula (servida por nove criadas) um verdadeiro símbolo do esplendor joanino.
César de Saussure contribui para a ideia do luxo de Paula com a sua descrição da “banheira de prata maciça”, “dourada por dentro e por fora”, que viu em Londres (a qual terá sido encomendada em 1724 por D. João V ). Fabricada para oferta à amante do monarca português, “uma religiosa de não sei que convento”, a banheira pesaria 3580 onças, causando, pela sua beleza, a admiração da corte britânica.
A caracterização pormenorizada do edifício presente no documento anónimo tem sido considerada verosímil, embora Carlota Abrantes Saraiva aponte a ausência de referências aos conjuntos de valiosos azulejos joaninos cuja existência no local, já no século XIX, é referida por Borges de Figueiredo e Manuel Bernardes Branco. Na minha opinião, o manuscrito que descreve a habitação da freira erroneamente designada por “Paula Maria” no título pode não merecer plena confiança, caindo no exagero. Terá surgido em resultado quer do interesse pela relação extraconjugal de D. João V quer da fama que logo na altura se criou acerca da ostentação que constituía um aspecto essencial da imagem do rei freirático. A sua favorita não poderia deixar de beneficiar dessa riqueza, correspondendo o conteúdo do texto às expectativas dos eventuais leitores.
Mitos criados logo na primeira metade do século XVIII estarão na origem da crença no luxo oriental da religiosa. No entanto, D. João V terá contribuído (conscientemente?) para essa lenda com as benesses que concedeu a Paula e à sua família e o seu investimento na decoração da Torre (cujos aposentos principais terão sido destruídos pelo sismo de 1755).


Meninos de Palhavã

Coche dos Meninos de Palhavã



http://pt.wikipedia.org/wiki/
Os denominados Meninos de Palhavã eram os filhos bastardos (de sexo masculino) de D. João V (1706-50), reconhecidos pelo soberano em documento que firmou em 1742, mas que só foi publicado em 1752, após a sua morte.
A expressão deriva do facto de terem habitado no palácio dos marqueses de Louriçal, situado na zona de Palhavã, na altura arredores de Lisboa, mas que hoje se situa em plena cidade (o edifício - denominado Palácio da Azambuja - é hoje a Embaixada de Espanha em Portugal, sendo também conhecido por "Palácio dos Meninos de Palhavã"). Eram eles:
D. António (1704-1800), filho de uma francesa cujo nome é desconhecido. Doutorou-se em Teologia e veio a ser cavaleiro da Ordem de Cristo.
D. Gaspar (1716-1789), filho da religiosa D. Madalena Máxima de Miranda. Veio a ser arcebispo primaz de Braga.
D. José (1720-1801), filho da religiosa madre Paula de Odivelas (Paula Teresa da Silva). Exerceu o cargo de Inquisidor-mor.
Em consequência de um conflito que tiveram com o marquês de Pombal, D. António e D. José foram desterrados para o Buçaco em 1760 de onde só puderam regressar depois da morte de D. José I, ocorrida em 1777.


Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal