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HISTÓRIA de P O R T U G
A L
(Resumo)
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Trabalho e Pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro |


D. João VI - o "Clemente"
Reinou de 1816 a 1826
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(1816-1826) |
Rei do Reino Unido de Portugal,
Brasil e Algarves |
Decorridos dois anos após o falecimento de D. Maria Iª, o Príncipe Regente, seu
filho, que continuava no Rio de Janeiro, foi aclamado com o título de Rei do
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve.
A ausência tão prolongada de D. João VI no Brasil, a miséria e a devastação
causada pelo Guerra Peninsular e a preponderância exercida junto do Governo da
Regência pelo inglês Beresford, marechal instrutor do exército português,
fizeram crescer em Portugal a lista dos desgostos, e prepararam, ao mesmo tempo,
um ambiente revolucionário. Este estado de coisas foi então aproveitado pelos
portadores das chamada “ideias liberais” para, em 1817, promovem uma conspiração
contra a influência de Beresford, mas que tinha por fim, principalmente,
substituir o regime tradicionalista – a monarquia absoluta – por outro governo
orientado mais ou menos nos princípios da Revolução francesa. Descoberta a
conjuntura, de que era chefe o General Gomes Freire de Andrade, foi este preso e
enforcado em São Julião da Barra (Oeiras / Lisboa). Outros dos seus companheiros
mais comprometidos foram também garrotados no Campo Santana, em Lisboa.
As novas ideias, importadas da França pelas tropas de Napoleão durante as
invasões francesas e ainda propagadas pelo jornal e pelo livro, iam ateando cada
vez mais, apesar da severidade com que foram castigados os conspiradores de
1817. Falava-se contra o governo, contra a Família Real e contra os ingleses.
Pintava-se a miséria do povo, a ruína do tesouro, etc. Era a propaganda
revolucionária que, anos volvidos, havia de causar sangrentas guerras civis,
fazia-se intenso.
E tudo isto foi correndo, até que, no dia 24 de Agosto de 1820, estalou no Porto
uma revolução, que saiu triunfante, preparada e dirigida por Manuel Fernandes
Tomás, José Ferreira Borges, José da Silva Carvalho, etc. A Junta Governativa
foi logo demitida e criada outra, a Junta Provisória do Governo Supremo do
Reino, que tomou o poder em nome do rei, ficando encarregada de convocar as
Cortes Gerais, que deviam decretar uma Constituição.
Esta Constituição foi proclamada em 23 de Setembro de 1822, jurada por D. João
VI que, ao tempo, já havia regressado do Brasil .
D. João VI, regressando a Portugal, deixou ficar no Brasil, a governar como
regente, seu filho mais velho, D. Pedro. Aos portugueses residentes naquela
colónia e já com foros de reino, bem como aos próprios naturais, não agradou a
retirada da Corte, que ali permanecera durante doze anos. Descontentes por isso,
proclamaram, em Setembro de 1822, a Independência do Brasil, de acordo com o
próprio regente D. Pedro, que depois se fez aclamar seu imperador. Desde então,
deixou aquela colónia de pertencer a Portugal, o que só foi reconhecido em 15 de
Novembro de 1825, por D. João VI.
Entretanto, o infante D. Miguel, filho segundo de D. João VI, auxiliado por sua
mãe, a rainha D. Carlota Joaquina
,
conspirava contra o regime liberal, fazendo todos os esforços por derrubá-lo. Em
27 de Maio de 1823, D. Miguel, à frente de um regimento de infantaria e alguns
soldados de cavalaria, fez estalar a contra-revolução em Vila Franca de Xira e
proclamou novamente o absolutismo. O rei, embora contrariado a princípio com a
atitude do filho, terminou por aderir ao movimento. A seguir, demite o governo,
promete uma nova Constituição e nomeia D. Miguel chefe dos exércitos.
Porém, aquela revolta não ofereceu os resultados positivos que se esperavam. O
rei, por sua livre vontade ou aconselhado, contrariou depois a marcha dos
acontecimentos. Isso contribuiu para que D. Miguel se revoltasse de novo, a 30
de Abril de 1824, levando consigo toda a guarnição militar de Lisboa a cercar o
palácio real da Bemposta.
D. João VI, medindo a gravidade do momento, seguiu para bordo de um navio inglês
que estava ancorado no Tejo. De lá retomou todos os poderes e demitiu D. Miguel
do seu alto posto de generalíssimo. Tendo fracassado a causa de D. Miguel, foi
este obrigado a abandonar o País pouco tempo depois.
O rei faleceu no dia 10 de Março de 1826, tendo deixado a administração do País
entregue a uma Junta de Regência, presidida por sua filha D. Isabel Maria
“enquanto o legítimo herdeiro e sucessor desta Coroa não der as suas
providências a este respeito.
Morte de D. João VI: Vencido e expatriado D. Miguel, D. João VI consagra os
últimos anos do seu reinado a tentar resolver o problema brasileiro e, por
altura da sua morte, em 1826, sonhava ainda com a reunião dos dois países na
pessoa de um só soberano.
Faleceu em Março de 1826 após adoecer por alguns dias, e cuja causa mortis
suspeitava-se ter sido por envenenamento. Recentemente uma equipa de
pesquisadores exumou o pote de cerâmica chinesa que continha as suas vísceras e
que encontrava-se enterrado sob as lages da capela dos Meninos da Palhavã no
mosteiro de São Vicente de Fora, pedaços do seu coração foram reidratados e
submetidos a análises, o que veio a comprovar a suspeita de envenenamento por
arsénico. Contam as lendas que o rei fora envenenado com laranjas colhidas no
palácio de Belém, a mando da rainha Carlota Joaquina, o que não se pode provar,
mas sabe-se que de facto o rei comeu as laranjas, pois isso consta dos
relatórios médicos da época, e só depois das tais laranjas é que D. João
adoeceu.
Foi sepultado no Panteão dos Braganças, onde viria também repousar a sua
polémica esposa a seu lado.
Vigésimo sétimo rei de Portugal. Nasceu em Lisboa em 1767, filho de D. Maria l e
de D. Pedro. Decorridos dois anos após o falecimento de D. Maria l, o príncipe
regente, seu filho que continuava no Rio de Janeiro (Brasil), foi aclamado com o
título de "REI DO REINO UNIDO DE PORTUGAL, BRASIL E ALGARVE". A ausência tão
prolongada (12 anos) da Corte Portuguesa em terras do Brasil, a miséria e a
devastação causada pela Guerra Peninsular e preponderância exercida junto ao
Governo da Regência pelo inglês Beresford, marechal e instrutor do exército
português, fizeram crescer em Portugal a lista dos desgostos, que se prepararam,
ao mesmo tempo num ambiente revolucionário. Este estado de coisas foi então
aproveitado pelos simpatizantes das chamadas "Ideias Liberais" para, em 1817,
promoverem uma conspiração contra a influência do inglês Beresford, mas, que
tinha por fim, principalmente, substituir o regime tradicionalista, ou seja, a
monarquia absoluta, por outro Governo orientado mais ou menos nos princípios da
revolução Francesa. A conjura foi descoberta e enforcado o seu principal chefe,
o general Gomes Freire de Andrade, na fortaleza de São Julião da Barra (perto do
Estoril / Cascais). Outros de menor patente militar, foram mortos em Lisboa, no
Campo de Santana (Campo dos Mártires da Pátria). Este reinado foi um dos mais
agitados da História de Portugal:
A Guerra de Rossillon, em 1893; a Guerra com a Espanha e o desastroso tratado de
paz celebrado em Badajoz (Espanha) que lhe pôs termo, em 1801; marcaram os
primeiros tempos da regência. Em 1807, Napoleão Bonaparte assina em
Fontainebleau com a Espanha um tratado, que suprimia o reino de Portugal da
carta política da Europa, e, dividia o território português em três Estados, um
dos quais devia de pertencer ao rei da Etruria, o segundo ao príncipe da Paz,
reservando a França o terceiro para si.
E assim, um exército comandado pelo general francês de nome Junot, invadiu
Portugal em 1807. Na véspera da sua entrada em Lisboa, em 29 de Novembro, a
Família Real Portuguesa e sua Corte, assim como muitos fidalgos, já haviam
embarcado para o Brasil, levando consigo riquezas incalculáveis (*1). Enquanto o
povo português lutava heroicamente para expulsar o invasor (*2), o príncipe
regente ocupava-se a administrar e a desenvolver o Brasil, que lhe ficou devendo
grandes progressos. Em 1816, morreu no Rio de Janeiro, D. Maria l, mas nem mesmo
assim D. João Vl se decidiu a voltar para Portugal. A Revolução de 1820,
substituiu a regência por uma Junta Provisória e convocou "Cortes". Estas
redigiram uma constituição, a qual mereceu a aprovação de D. João Vl e também a
quis aplicar no Brasil, já então elevado a reino. Em Abril de 1821, finalmente,
resolveu regressar a Portugal, deixando a representá-lo no Brasil, seu filho
primogénito, o príncipe D. Pedro. Quando chegou a Lisboa, o rei jurou a
Constituição, que sua mulher, D. Carlota Joaquina (*3) se recusou a reconhecer,
sendo por isso exilada para a Quinta do Ramalhão (entre o Estoril e Sintra),
onde com seu filho, o infante D. Miguel, promoveu em 1823, uma conta – revolução
(Vilafrancada (*4) que estabeleceu o absolutismo. Entretanto, em Setembro de
1822, D. Pedro proclamou a independência do Brasil, aceitando o título de
Imperador. Em 1824, o movimento revolucionário "Abrilada" (*5), obrigou D. João
Vl a recolher a bordo de um navio inglês. Este novo acto de ingratidão e de
revolta de seu filho afectaram profundamente o velho rei, cuja saúde muito se
ressentira do dissabor que lhe causara a perda do Brasil. D. João Vl faleceu no
dia 10 de Março de 1826, deixando o reino confiado a uma regência presidida por
sua filha, a infanta D. Isabel Maria.
(*1) A Corte no Brasil:
Para além da instabilidade que provocou a ausência da Corte, verificou-se ainda
a saída para o Brasil de muitas riquezas. Além disto, grandes proprietários
nobres e figuras do alto clero que acompanharam a Família Real, passaram a ter
os seus rendimentos enviados para o Brasil, empobrecendo ainda mais Portugal e o
seu povo.
(*2)Guerra Peninsular:
As três invasões francesas.
(*3) D. CARLOTA JOAQUINA DE BOURBON:
Nasceu em Madrid (Espanha) em 1775, filha do rei Carlos lV de Espanha. Casou em
1785, tendo 10 anos apenas, com o príncipe D. João, mais tarde D. João Vl. Sem
educação intelectual, dotada de grande ambição, foi um joguete na agitada
política da época, tendo apoiado (e tido) aventuras e conspirações. Esteve
exilada na Quinta do Ramalhão, e, mais tarde no Paço de Queluz (10 Km de
Lisboa), onde viria a falecer em 1830.
(*4)Vila Francada:
Nome por que ficou conhecida a contra revolução de Maio de 1823, para abolir o
regime constitucional. O infante D. Miguel fez-se aclamar por um corpo de tropa,
o Absolutismo, em Vila Franca de Xira (30 Km a norte de Lisboa). D. João Vl
partiu para esta localidade, aderiu ao movimento e assim, o regime absolutista
ficou novamente estabelecido.
(*5) Abrilada:
A revolta política de 30 de Abril de 1824, na qual o infante D. Miguel e sua mãe
a rainha D. Carlota Joaquina, tentaram fazer abdicar D. João Vl, para
restabelecer o absolutismo. A tentativa malogrou-se graças à intervenção do
corpo diplomático.
infante foi demitido do seu cargo de generalíssimo e exilado para o estrangeiro
(Viena de Áustria). A rainha foi desta vez internada no Paço de Queluz, onde se
teria suicidado.
João VI - "0 Clemente" - 27.º rei de Portugal.
Nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1767, onde também faleceu a 10 de Março de
1826. Era filho segundo da rainha D. Maria I, e de seu marido e tio D. Pedro
III.
A 8 de Maio de 1785 casou com a princesa espanhola, D. Carlota Joaquina de
Bourbon, filha de Carlos IV e da rainha D. Maria Luísa Teresa de Bourbon. Em
1788 foi declarado herdeiro do trono, por ter falecido seu irmão primogénito, o
príncipe D. José. Tendo enlouquecido a rainha sua mãe, teve de assumir a
regência do reino no dia 1 de Fevereiro de 1792. D. João estava habituado a
entregar-se à caça e a percorrer os conventos, muito despreocupado dos negocies
públicos, que se lhe tornavam indiferentes, bem longe de pensar que seria cedo
nomeado regente do reino, e mais tarde aclamado rei. Além disso, o país
encontrava-se numa situação deplorável.
Por ocasião da morte de Luís XVI em 1793, Portugal entrou na liga com a
Inglaterra e a Espanha contra a Republica Francesa. Uma divisão portuguesa
combatia no Rossilhão ao lado dos espanhóis, tornando-se muito distinta, mas
apesar disso, a Espanha resolveu fazer a paz com a República Francesa,
abandonando Portugal. A situação do nosso país ficou deveras embaraçosa. Sem o
auxilio da Espanha, desprezados pela Inglaterra, prejudicados gravemente no
comércio pelos corsários franceses, resolveu o governo português solicitar da
República Francesa a paz, que bem precisa se tornava nestas difíceis
circunstâncias, mas o Directório republicano não estava disposto a concedê-la, e
só mais tarde é que propôs um tratado de paz, que não era muito desvantajoso
para Portugal, mas o governo português não quis ratificá-lo, para não ser
desagradável à Inglaterra. A França irritou-se, e Bonaparte, que se indignara
muito com a presença duma esquadra portuguesa no Mediterrâneo, auxiliando a de
Nelson, quando subiu ao poder como primeiro cônsul, fez com que a corte de
Madrid declarasse guerra a Portugal, em 1801. As tropas daquelas duas nações,
comandadas pelo Príncipe da Paz, D. Manuel Godoy, atacaram Portugal, tomaram
Olivença, e entraram no Alentejo. 0 nosso exercito achava-se num estado
miserável, e não podendo resistir, teve o governo de aceder a um tratado de paz
humilhante, feita em Badajoz, que tem a data de 6 de Junho do referido ano de
1801, sendo ratificado pelo governo português no dia 14, e pela Espanha em 21 do
citado mês e ano.
Desde então perdeu a Europa toda a consideração pelo nosso país; o embaixador de
França, o general Lannes, tratava o governo português com o máximo desdém, e
Napoleão, que subira ao trono da França com o titulo de imperador,
convencendo-se que não conseguiria nunca que o príncipe regente de Portugal
cedesse francamente ao denominado Sistema continental, fechando os portos às
embarcações inglesas, tomou o partido de riscar este reino da carta política da
Europa, e fez um tratado com a Espanha, que se assinou em Fontainebleau a 27 de
Outubro de 1807, que dividia Portugal em três estados: a Lusitânia do Norte
(Entre o Douro e Minho) devia pertencer ao Rei da Etrúria; o Alentejo com os
Algarves ao Príncipe da Paz, valido de Carlos IV, que tomaria o título de rei
dos Algarves; o terceiro estado ficaria no poder da França até à paz geral.
Reino da Etrúria era o nome que teve por algum tempo o grão-ducado da Toscânia,
quando em 1801 foi tirado à casa da Áustria e erigido em reino a favor de Luís,
príncipe hereditário de Parma. Por morte deste príncipe em 1803, passou a ser
governado por Maria Luísa, filha de Carlos IV, de Espanha. Este reino
desapareceu no fim do ano de 1807, em consequência dum tratado com a Espanha,
ficando incorporado na França, e reapareceu como grão-ducado da Toscânia em
1809. Para a execução do tratado de Fontainebleau, Napoleão mandou marchar para
Lisboa com a maior rapidez um exército comandado pelo general Junot. 0 exército
passou o Bidassoa a 18 de Outubro de 1807, atravessou em pleno Inverno as
serranias espanholas, sofrendo privações de toda a qualidade, e chegou à
fronteira portuguesa em 20 de Novembro já em condições detestáveis. 0 Inverno
era desabrido; não havia estradas, parecia impossível que um exército pudesse
atravessar a Beira em semelhantes condições. Pois atravessou sem encontrar
resistência alguma. Junot entrou em Abrantes no dia 24 à frente de 4.000 ou
5.000 homens, descalços, famintos, estropiadas. No dia 25 saiu de Abrantes com
uns 4.000 homens que a muito custo conseguira apurar dum dia para o outro.
Encontrou muitas dificuldades para passar o rio Zêzere, para atravessar os
campos da Golegã inundados; entrou em Santarém no dia 28 com o seu estado-maior
incompleto, com um regimento de granadeiros e 70 soldados de linha. Nesse mesmo
dia marchou para Lisboa, e a pequena distancia desta cidade encontrou um
destacamento de cavalaria portuguesa. Uma carga dos nossos cavalos bastaria para
dispersar essa turba fatigada, que se arrastava a custo pelas estradas, mas os
soldados tinham ordem de receber os franceses como amigos, e não havia quem os
comandasse. No dia 30 de Novembro, finalmente, entrou Junot em Lisboa com dois
regimentos compostos de soldados pálidos, fracos, com o uniforme rasgado, e as
espingardas arruinadas. A família real portuguesa, a corte e muitos dos seus
vassalos que quiseram acompanhá-la, embarcaram para o Rio de Janeiro debaixo da
protecção duma esquadra inglesa, a 29 de Novembro. Portugal ficou entregue a uma
regência. Junot declarou logo à sua entrada em Lisboa, que em nome de Napoleão a
família de Bragança deixara de reinar; e na qualidade de governador de Portugal
nomeou um conselho de governo, de que fizeram parte alguns portugueses, para
substituir a regência, que o rei nomeara 0 povo, abandonado pelos seus
príncipes, mas impaciente com sofrer o jugo estrangeiro, indignado pelas
exigências dos franceses, pelas afrontas feitas por Junot à bandeira portuguesa,
pela violência que praticara expedindo para França o nosso exército, reduzido a
um pequeno corpo, que tomou o nome de Legião portuguesa, que foi obrigada a
militar no exercito de Napoleão, o povo ergueu-se indignado no Porto em 1808,
propagou-se a revolução nas províncias do norte, e rebentou depois no Algarve.
Junot reprimiu-a cruelmente, e os seus subalternos Loison, Margaron, Thomiéres e
Kellermann, em Évora, Leiria, Nazaré e Beja, praticaram verdadeiras atrocidades,
mas entretanto a Inglaterra, que procurava no continente um porto onde fizesse
desembarcar tropas para combater Napoleão, aproveitou a insurreição portuguesa.
O general Arthur Wellesley, depois duque de Wellington, desembarcou com o seu
exército a 6 de Agosto de 1808 na baía de Vagos, derrotou os franceses nas
acções da Roliça e de Vimeiro, dadas nesse mês, e Junot, venda a impossibilidade
de sustentar-se em Portugal, foi obrigado a capitular, propondo a célebre
Convenção de Cintra, que assinou em 30 de Agosto o general Dalrymple, que tinha
sucedido a Wellesley no comando, para a total evacuação de Portugal pelo
exercito francês, o a 15 de Setembro seguinte arvorou-se em Lisboa a bandeira
portuguesa. Assim terminou a primeira invasão francesa. As condições da
Convenção, em que não figuraram portugueses, foi reprovada, tanto em Portugal,
como em Inglaterra. Bernardim Freire e o conde de Castro Marim foram os
primeiros a protestar; em Londres, os jornais ocuparam-se largamente do assunto,
que foi também discutido no parlamento; o governo britânico mandou meter em
processo o general que a assinou. A Espanha, a que Napoleão quisera impor para
rei seu irmão José, depois de ter arrancado em Baiona a Carlos IV e a seu filho
D. Fernando uma abdicação forçada, revoltara-se contra os franceses. As tropas
inglesas, comandadas por John Moore, pretenderam passar de Portugal a Espanha,
mas foram derrotadas na Corunha pelo general Soult no principio do ano de 1809,
sendo obrigadas a embarcar, descobrindo a fronteira portuguesa, que o general
Soult invadiu pela provinda do Minho em Março de 1809 com um numeroso exercito.
A cidade do Porto foi tomada no dia 24 desse mês. Soult, afagando vagas ideias
de uma realeza portuguesa, não prosseguiu na sua marcha, o que permitiu que a
regência de Portugal desse o comando do nosso exército, para o disciplinar e
instruir, ao general inglês Beresford. 0 exército anglo‑luso marchou para o
norte às ordens do general Wellesley, e a 29 de Maio recuperou a cidade do
Porto, perseguindo os franceses até à fronteira do norte, e obrigaria o general
Soult a capitular, se ele se não esquivasse para a Galiza numa retirada
habilíssima. Descendo ao sul, Wellesley entrou em Espanha, deu a batalha de
Talavera, e retirou para Portugal, conservando-se o exército português em
observação. Em 1810 houve a terceira invasão francesa, sendo o exército
comandado pelo general Massena. Depois de tomar Almeida, marchou para Lisboa, e
atacou a 27 de Setembro o exército anglo-luso postado nas alturas do Buçaco; foi
repelido com perdas graves, mas no dia seguinte pôde tomar a posição, o que
obrigou o general inglês a retirar-se precipitadamente para cobrir Lisboa.
Massena avançou, devastando tudo pelo caminho, mas esbarrou na frente das linhas
de Torres Vedras, em que ficou vencido. Até 1814 deram-se diferentes batalhas em
que os franceses foram sempre derrotados, até que afinal Massena abandonou
Portugal, terminando assim a guerra da Península. A Legião Portuguesa, que fora
a França combater às ordens de Napoleão, regressou a Portugal.
No entretanto, a família real e a corte conservavam-se no Brasil. 0 príncipe D.
João dirigira os negócios do reino, mas despachou sempre em nome da rainha, sua
mãe, até 14 de Julho de 1799, em que perdidas completamente as esperanças do
restabelecimento da infeliz enlouquecida, assumiu oficialmente a regência. Em 16
de Março de 1816 faleceu D. Maria I, e D. João VI começou a reinar como soberano
no dia 20, sendo aclamado e coroado rei do Reino Unido de Portugal, Brasil, a 6
de Fevereiro de 1818. Na vida doméstica o monarca era muito infeliz. A rainha D.
Carlota Joaquina, além do seu procedimento escandaloso, não se cansava de
levantar obstáculos de todo o género em Portugal conspirando contra o rei,
correndo até o boato de que pretendera envenená-lo, na América, procurando
formar um reino para si com uma parte das colónias espanholas. 0 Brasil havia
acolhido com entusiasmo a família real, cuja residência ia transformá-lo de
colónia em metrópole. Por isso também escapou ao contágio da revolução, e nem
pensou em reclamar a sua independência. Mas, ao terminar a guerra da península,
tendo D. João VI continuado a demorar-se na América, Portugal começou a
inquietar-se e a indignar-se, tanto mais que o general Beresford, que ficara em
Portugal comandando o nosso exército, com muitos oficiais ingleses a comandarem
os nossos regimentos, governava mais do que a regência, o que sobremaneira
exaltava o ânimo do povo, pouco sofredor do jugo estrangeiro. Além disso, aqui,
como em toda a Europa, começavam a fermentar as ideias liberais espalhadas pela
revolução francesa. Em 1817 tramou-se uma conspiração promovida em parte pelas
ideias liberais, em parte pela indignação contra o estado de colónia a que
Portugal estava reduzido. Essa conspiração foi afogada cruelmente pela morte de
Gomes Freire de Andrade e das vítimas do Campo de Sant'Ana. No Brasil também
fermentavam nalgumas províncias as ideias republicanas e as de autonomia
americana. A revolução que rebentou em Pernambuco, em 1817, foi prontamente
sufocada.
Em 24 de Agosto de 1820 deu-se uma revolução no Porto, com o fim de dar ao país
um governo constitucional, e em 15 de Setembro formou-se um governo provisório,
mas apenas se reuniram as cortes gerais constituintes, foi substituído por um
governo executivo, com o titulo de Regência, durante a ausência de el-rei. 0
congresso encarregou uma comissão escolhida, entre os seus membros, de
estabelecer as bases da Constituição. 0 conde de Palmela, D. Pedro de Sousa
Holstein, mais tarde marquês e duque do mesmo título, era ministro dos
estrangeiros, para que fora nomeado em 1817; vindo a Lisboa, onde teve de se
demorar por causa dos seus negócios domésticos, assistiu à revolução de 1820.
Julgara o ilustre diplomata poder encaminhar o movimento do Porto, por forma a
produzir em Portugal um governo constitucional, à imitação do de Inglaterra.
Era, porém, tarde, e o movimento iniciado no Porto, desenvolvendo-se com
rapidez, não permitiu que fossem postos em prática os seus planos prudentes e
patrióticos. Partiu então para o Rio de Janeiro em Outubro de 1820, com o
intuito firme de persuadir D. João VI a que aceitasse o regime constitucional e
evitasse por esta forma as gravíssimas dificuldades que se apresentavam a todo o
observador sincero e esclarecido. No Rio de Janeiro encontrou mais contradições
do que esperava. A corte não acreditava na gravidade das circunstâncias, nem se
mostrava receosa da opinião pública no Brasil, mas depressa se desenganou com as
notícias chegadas de Portugal e a sublevação da Baía. Só então é que D. João VI,
aceitando os conselhos de Palmela, se determinou a mandar a Portugal o príncipe
D. Pedro, para outorgar a base duma constituição, e a convocar no Rio de Janeiro
uma assembleia de notáveis, de todas as províncias, para se assentar na forma de
governo, que se havia de dar ao Brasil. 0 príncipe, porém, recusou-se a partir,
por conselho de maus conselheiros, e por andar secretamente conivente nas
intrigas que se armavam para se conseguir a independência do Brasil. Nestas
circunstâncias, D. João VI foi forçado a regressar a Portugal. Deixou no Brasil
como seu lugar-tenente o príncipe D. Pedro, e embarcando com o resto da família
real para a Europa, entrou no Tejo a 3 de Julho de 1821.
Feita a Constituição, foi jurada pelo soberano no dia 1.º de Outubro de 1822. No
Brasil, no dia 7 de Setembro do mesmo ano de 1822, D. Pedro, no conflito que se
erguera entre o Brasil e as cortes portuguesas onde os deputados brasileiros
tinham sido até ali acolhidos dum modo hostil, optava pelo Brasil, e a
independência brasileira ficou de facto proclamada, tomando o príncipe real D.
Pedro o título de imperador. Assim ficou constituído o império do Brasil. 0
monarca reconheceu com bastante mágoa aquela independência, pelo decreto de 29
de Agosto de 1825, reservando para si o tratamento de imperador titular do
Brasil, e desde então, todos os diplomas se passavam em nome Sua Majestade o
Imperador e Rei. D. João VI exercia as suas funções de rei constitucional, ao
passo que a rainha D. Carlota Joaquina continuava a levantar-lhe obstáculos,
manifestando um ódio entranhado ás instituições constitucionais, contra as quais
conspirou. Esta forma de governo prevaleceu até ao ano de 1823, em que se formou
uma insurreição, tendo à frente o infante D. Miguel, filho predilecto da rainha.
A contra-revolução rebentou em Lisboa no dia 27 de Maio; o infante D. Miguel foi
para Vila Franca, e ali se lhe reuniu o regimento de infantaria n.º 23, e
aclamou-se em Vila Franca o absolutismo. Esta contra-revolução ficou conhecida
pelo nome de Vilafrancada (V. este nome).
0 infante e a rainha queriam ir mais adiante e alcançar a abdicação do rei, que,
fiel ao seu juramento, queria manter a Constituição, apesar das numerosas
adesões que a causa do absolutismo continuava a receber em ViIa Franca, mas a
revolta do regimento de infantaria n.º 18, que, reunido com magotes de povo, foi
ao paço da Bemposta aclamar o rei absoluto, decidiu D. João VI a tomar a
direcção de movimento absolutista, e partindo para Vila Franca, voltou dali em
triunfo a Lisboa, acompanhado de muitos fidalgos entusiasmados pela reacção. As
cortes dispersaram-se, depois de protestarem contra quaisquer alterações que se
fizessem na Constituição, o regime absoluto ficou restabelecido novamente em
Portugal. No entretanto D. Carlota Joaquina e o infante D. Miguel continuavam
nas suas intrigas. Nos fins do ano de 1823 a polícia descobriu uma conspiração
planeada pela rainha e o infante seu filho, que fora nomeado comandante em chefe
do exército, para forçar D. João VI a uma abdicação. Prevenidas a tempo as
autoridades, ficou malograda a conspiração, que poucos meses depois de novo se
animou. Os motivos de queixa alegados pelos partidários da rainha contra o rei
era a demasiada benevolência que ele mostrava com os liberais, e a promessa que
lhes fizera, e parecia desejar cumprir, de outorgar uma constituição no reino. A
28 do Fevereiro de 1824 foi assassinado o marquês de Loulé em Salvaterra, crime
que a voz publica atribuiu ao infante D. Miguel ou aos seus apaniguados, e que
veio revelar como o partido miguelista se queria livrar dos homens mais afectos
ao rei, e que poderiam aconselhá-lo bem ou defende-lo em críticas
circunstâncias. A 30 de Abril de 1824, D. Miguel, como comandante em chefe do
exército, chamava as tropas às armas, prendia diversos ministros e personagens
importantes, conservava seu pai guardado à vista e incomunicável no paço da
Bemposta, e proclamava ao povo, dizendo-lhe que uma conspiração de pedreiros
livres tramava o assassínio do rei, e que ele infante se erguera para o
proteger; o que ele tentava, porém, era obrigar seu pai a abdicar, quando o
corpo diplomático, tendo à sua frente o ministro de França Hyde de Neuville,
entrou no Paço, obrigando as sentinelas que tinham ordens em contrário a
deixarem-no passar, protestando todos os ministros contra qualquer violação à,
autoridade real. Isto obrigou a rainha e o infante a serem mais moderados. Ficou
conhecida esta revolta pela designação de Abrilada (V. este nome). El-rei, no
dia 9 de Maio, por conselho dos embaixadores da França e da Inglaterra, simulou
um passeio a Caxias, e foi recolher-se a bordo da nau Windsor Castle. Mandou
então chamar o filho, repreendeu-o asperamente, demitiu-o do seu cargo de
comandante em chefe do exército, e exilou-o para o estrangeiro. No dia 14 do
referido mês voltou para o paço da Bemposta, restabeleceu o ministério,
mostrando-se muito benevolente para com os revoltosos da Abrilada. A polícia
descobriu nova conspiração, que devia rebentar no dia 26 de Outubro do mesmo ano
de 1824. Tomaram-se então algumas medidas enérgicas, e D. Carlota Joaquina foi
presa para Queluz.
Todos estes desgostos, e o pesar que lhe causou o ver-se obrigado a reconhecer a
independência do Brasil, lhe alteraram a saúde, abreviando-lhe a morte. Antes de
falecer, nomeou uma Junta de Regência, pelo decreto de 6 de Março de 1826, a
qual seria presidida por sua filha, a infanta D. Isabel Maria, e composta do
cardeal patriarca, duque de Cadaval, marquês de Valada, conde dos Arcos e 6
ministros de Estado. D. João VI animou as letras, as artes, o comércio e a
agricultura; fundou alguns estabelecimentos, em que se conta o Instituto dos
Surdos-Mudos e Cegos.
Do seu matrimónio, houve os seguintes filhos: D. Maria Teresa, casada em
primeiras núpcias com o infante de Espanha D. Pedro Carlos de Bourbon, e pela
segunda vez com D. Carlos Maria Isidoro, também infante de Espanha e seu
cunhado; D. António, príncipe da Beira, que faleceu com 6 anos, em 1801; D.
Maria Isabel, que casou com o rei de Espanha, Fernando VII; D. Pedro IV; D.
Maria Francisca de Assis, casada com o príncipe de Espanha, já citado, D. Carlos
Maria Isidoro, o qual por morte desta sua primeira mulher, passou a segundas
núpcias com sua cunhada, a infanta D. Maria Teresa; D. Isabel Maria, que se
conservou solteira, e foi regente do reino; o infante D. Miguel; D. Maria da
Assunção, que também faleceu solteira; D. Ana de Jesus Maria, que casou com o
marquês de Loulé, Nuno José de Mendonça Barreto.
D. João VI foi o 8.º príncipe da Beira e do Brasil, o 21.º duque de Bragança,
18.º de Guimarães, 16.º de Barcelos, 20.º marquês de Vila Viçosa, 24.º conde de
Arraiolos; 22.º conde de Ourém e de Barcelos, de Faria e de Neiva; grão‑prior do
Crato e senhor da Casa do Infantado; grão-mestre das ordens militares de Cristo,
Avis, S. Tiago da Espada, da Torre e Espada, restaurada em Maio de 1808, à qual
deu nova forma e regulamento pela lei de 29 de Novembro do mesmo ano, ampliado
pelo alvará de 5 de Julho de 1809; da ordem de S. João de Jerusalém, e
grão‑prior em Portugal; grã-cruz da ordem de N. Sr.ª da Conceição, que ele
instituiu a 6 de Fevereiro de 1818; cavaleiro da ordem do Tosão de Ouro, e
grã-cruz das ordens de Carlos III, S. Fernando e Isabel a Católica, em Espanha;
do Santo Espírito, S. Luís, S. Miguel e da Legião de Honra, em França; de
Leopoldo da Áustria, e de Santo Estêvão da Hungria, da Coroa de Ferro, de
Itália; das de S. André, S. Alexandre Nevsky e de Sant’Ana da Rússia, cavaleiro
da ordem da Jarreteira em Inglaterra; grã-cruz da do Elefante, de Dinamarca; do
Leão Neerlandês, dos Países Baixos; da Águia Negra, na Prússia. Serviu de
condestável no acto da aclamação de sua mãe, a rainha D. Maria I.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 1051-1055.
D. Carlota Joaquina de Bourbon - Princesa espanhola e rainha de Portugal.
Nasceu em Aranjuez a 25 de Abril de 1775; faleceu em Queluz a 7 de Janeiro de
1830. Era filha primogénita do rei Carlos IV de Espanha e da rainha sua mulher;
D. Maria Luísa Teresa de Bourbon.
Tendo apenas 10 anos de idade, casou em 8 de Maio de 1785 com o príncipe D.
João, filho de D. Maria I, o qual, em 1788, por morte de seu irmão primogénito
D. José, foi declarado príncipe herdeiro, sendo mais tarde regente do reino,
pela interdição de sua mãe, e finalmente rei de Portugal, com o nome de D. João
VI. D. Carlota Joaquina passava geralmente por ser de ânimo perspicaz e de dotes
elevados de espírito, porém, as suas qualidades morais não mereceram igual
apreço. Ambiciosa, violenta, pretendeu logo dominar a vontade de seu marido, e
dirigi-lo nos negócios internos e nos do Estado. Não se submetendo o regente,
começou D. Carlota a olhá-lo com desprezo e desdém, convertendo o lar doméstico
em continua luta, cujos menores incidentes eram discutidos e comentados nas
praças públicas.
D. Carlota dispôs as coisas de forma, que criou um partido seu, e em 1805
divulgou-se que o regente descobrira uma conspiração tramada contra ele por sua
própria esposa. Dizia-se que ela, tendo a seu lado vários nobres e
eclesiásticos, projectava tirar o governo a seu marido, e prende-lo,
declarando-o incapaz de gerir os negócios públicos. O conde de Vila Verde
dispunha-se a abrir uma devassa e castigar os criminosos, porém o regente,
desejando evitar maior escândalo, não consentiu, limitando-se a separar-se de
sua mulher, dando-lhe para residência o palácio de Queluz, onde antes viviam
juntos, passando ele a residir em Mafra, e a exilar alguns fidalgos que mais se
manifestavam afectos à princesa. A desgraçada situação a que chegou Portugal, em
1807, fez com que os dois esposos se reunissem por algum tempo, e a esquadra,
que em Novembro deste ano conduziu o príncipe regente e D. Maria I ao Brasil,
levava também a seu bordo a astuciosa princesa. No Rio de Janeiro continuaram
vivendo separados, cada um em seu palácio, reunindo-se apenas, quando eram
obrigados a comparecer nalguma solenidade pública. D. Carlota Joaquina é que se
não resignava à inacção política a que se via condenada, decidida, como estava,
a dominar como soberana; e começando a lavrar no Rio da Prata os primeiros
sintomas de emancipação, concebeu o projecto de levantar para si um trono nas
províncias espanholas da América, ou pelo menos, de governar como regente em
nome de seu irmão Fernando VII. Auxiliada pelo vice-almirante inglês Sydney
Smith, e não encontrando oposição em seu marido, foram enviados agentes ao Rio
da Prata, onde formaram um grande partido. As intrigas principiaram então a
desenvolver-se mais cruéis e enredadoras. O ministro inglês, lorde Strangford,
insinuou a D. João que o vice-almirante lhe desonrava o tálamo conjugal. D. João
pediu logo para Londres transferência do vice-almirante. Satisfeito o seu
pedido, Sydney Smith retirou-se, vindo substitui-lo o almirante de Courcy. No
entretanto, as divergências eram enormes. No próprio governo havia correntes
muito opostas. D. João, cada vez mais abatido e com medo da mulher, pedia que
não a contrariassem sempre que as suas exigências não fossem impossíveis de
satisfazer. Anulados afinal os planos da rainha, nem assim ela esmoreceu.
Procurou ser agradável aos castelhanos, e conseguir, na falta de seu pai e
irmão, prisioneiros em Franca, ser nomeada regente de Espanha, e vir talvez a
ser a herdeira de Carlos IV, abolindo-se a lei sálica que vigorava na monarquia.
Para realizar o seu projecto, teve de sustentar uma acerba luta com o embaixador
inglês, tendo a astúcia de alcançar que o governo da regência lhe permitisse
enviar secretamente ao general Elio, que estava em Montevideu, víveres e
dinheiro, para o que não hesitou em vender as suas próprias jóias. Afinal, e
visto não ser possível narrar detidamente as variadas peripécias desta luta de
orgulhos e de ambições, o sonho que tanto seduzira D. Carlota Joaquina
dissipou-se. Viveu alguns anos afastada da política, sempre separada de seu
marido, que então, já havia sido aclamado rei, por ter falecido D. Maria I em
1816, até que a revolução do Porto em 1820, que trouxe para a Europa a família
real, pôs novamente em evidência a rainha, reunindo algum tempo os dois esposos.
Aliada aos frades, aos nobres, aos que se mostravam pouco simpáticos ao novo
regime, urdia a conspiração chamada da rua Formosa, destinada a obrigar o rei a
abdicar e a destruir a Constituição. Falhando esse plano, as cortes de 15 de
Maio de 1822 decidiram deportar a rainha para o palácio do Ramalhão, por ela se
recusar a jurar a Constituição, alvitre que ela aceitou com júbilo, pois lhe
permitia continuar a sua obra perturbadora. Neste retiro tramou ainda a queda da
Constituição; e servindo-se do infante D. Miguel, que ela educara, e com quem
vivia intimamente, conseguiu realizar o movimento conhecido por Vilafrancada (V.
este nome) em 26 do referido mês de Maio. Derrubada a Constituição e dissolvidas
as cortes, foi levantado o desterro da rainha, e o próprio D. João VI a foi
buscar à quinta do Ramalhão, conduzindo-a ao paço da Bemposta. Pouco tempo,
porém, durou a harmonia entre os dois esposos, porque a rainha mudou a sua
residência para Queluz, e tornou-se cabeça do partido absolutista que dentro em
pouco promoveu a Abrilada (V. este nome) a 30 de Abril de 1824. Tendo a rainha
tomado parte activa e manifesta nesse movimento, quando D. João VI, apoiado nos
embaixadores francês e inglês, se decidiu a mandar sair do reino o infante D.
Miguel, ordenou que sua mulher se recolhesse ao paço de Queluz, e nunca mais
aparecesse na corte. A 10 de Março de 18211 faleceu D. João VI, tendo
previamente nomeado uma regência presidida por sua filha, a infanta D. Isabel
Maria, e composta do cardeal patriarca, duque de Cadaval, marquês de Valada,
conde dos Arcos e os seus ministros de Estado. D. Carlota Joaquina durante o
governo de D. Miguel, que se seguiu, auxiliou-o quanto pôde, vindo a falecer
pouco tempo depois.
Instituiu uma ordem exclusivamente destinada às senhoras, com a autorização do
príncipe regente, seu marido, por decreto de 4 de Novembro de 1801, com a
designação de Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel, cujos estatutos foram
confirmados pelo alvará de 25 de Abril de 1804.
Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume II, págs. 760 -761.
Gomes Freire de Andrade
http://semiramis.weblog.com.pt/
O período que mediou entre as invasões francesas, a fuga da Casa Real e o
estabelecimento da sede da monarquia no Brasil e a Revolução de 1820 tem sido
bastante controverso do ponto de vista da análise histórica e das explicações
para os acontecimentos.
Oliveira Martins, por exemplo, escreve que Portugal se tinha tornado numa
colónia do Brasil. A historiografia francesa, por sua vez, acentua a dependência
de Portugal face à Inglaterra. Esta tese tem motivações simples. Após a rendição
de Junot, Portugal era o único país da Europa continental fora do controlo
francês. Parte da Europa continental estava sob o império de Napoleão e outra
parte era aliada à força. Os franceses foram sistematicamente batidos pelas
tropas anglo-lusas e atribuir uma derrota a um país pequeno é humilhante. Assim,
o papel dos portugueses no exército de Welligton foi sempre desvalorizado pelos
historiadores franceses, embora os protagonistas dos acontecimentos, como Marbot
e Foy, dêem nas respectivas memórias bastante importância à acção dos
portugueses.
Em Portugal, a apreciação do papel dos ingleses no nosso país, naquele período,
também tem variado, nomeadamente durante a primeira metade do século XX, ao
sabor da luta entre germanófilos e anglófilos, em suporte das suas teses durante
os conflitos mundiais.
Um dos casos mais controversos é o do julgamento e execução de Gomes Freire de
Andrade e dos restantes “Mártires da Pátria” e do papel dos ingleses nesse caso.
É essa questão que abordarei em seguida.
A política tem coisas estranhas. Foram partidários do liberalismo que promoveram
a iniciação maçónica da viscondessa de Juromenha, iniciada na Maçonaria, loja
Virtude, em 1814. O marido era secretário militar do Comandante em Chefe do
exército português, o Marechal Beresford, Marquês de Campo Maior. Ela era amante
de Beresford com a complacência do marido (a exemplo do que já sucedera com
Junot e a Condessa de Ega, 7 anos antes). Era um ménage à trois que a todos
aproveitava, nomeadamente ao marido, agraciado com o título de visconde e mais
tarde promovido a general. O casal e a prole vivia, convenientemente, no Palácio
Junqueira, residência de Beresford, onde anteriormente residira Junot.
Interessantes, estes acontecimentos que se repetem na história…
Com a iniciação da viscondessa, pretendiam os liberais averiguar os sentimentos
de Beresford face à Regência, a Junta dos Governadores que governava o país em
nome de D. João VI, e as possibilidades de o trazerem para o campo liberal.
Por sua vez, Gomes Freire de Andrade havia feito um percurso sinuoso. Quando
Junot tomou Lisboa e se tornou “rei” de Portugal, obteve o concurso de Gomes
Freire de Andrade que, integrado na Legião Portuguesa, comandada pelo Marquês da
Alorna, partiu ao serviço de Napoleão e da França.
Um dos problemas que há com os heróis … é que ninguém é perfeito. Gomes Freire
de Andrade serviu entre 1807 e 1814 o país que tinha ocupado o seu, que o
invadira e invadiria por 3 vezes, que o saqueava e que lhe movia uma guerra de
grande crueldade que se saldou por um terrível sacrifício e enorme mortandade da
população portuguesa.
Com a primeira abdicação de Napoleão, Gomes Freire de Andrade pediu autorização
para regressar ao seu país. A autorização demorou e valeu-lhe então o seu primo
direito, D. Miguel Forjaz, um dos secretários da Junta, que pelo seu talento era
talvez o elemento mais poderoso da Junta. Sujeitou-se então a um processo de
reabilitação que o declarou “livre de toda e qualquer mácula”.
Aquele dificuldade era normal: objectivamente, Gomes Freire de Andrade podia ser
considerado traidor à pátria, visto ter servido o país com que Portugal estivera
em guerra, e durante o período em que essa guerra durou. Regressou em meados de
1815.
Em Portugal levedava a revolta. Os liberais contra os absolutistas; Beresford
contra a Regência; a oficialidade portuguesa contra a chefia de um inglês; a
Casa de Cadaval contra a Casa de Bragança, acusada de deixar o país pelo Brasil.
Um conjunto de oficiais movidos por diversos desígnios, desde o sentimento
liberal, os atrasos de pagamentos do pré, atrasos de pagamentos de reformas,
descontentamento pela ausência do Rei e o ódio ao comando inglês, integraram um
movimento, para o qual conseguiram o patrocínio de Gomes Freire de Andrade, e
que denominaram “Supremo Conselho Regenerador de Portugal, Brasil e Algarves”.
Gomes Freire de Andrade tinha todas as características que concorrem para obter
carisma popular: Impetuoso, de grande coragem, arrebatado, impulsivo, de grande
frontalidade e franqueza, indisciplinado por vezes, mas justo. Má cabeça e bom
coração, como alguns diziam.
Gomes Freire de Andrade manteve-se como figura de referência dos conjurados,
embora a sua participação, para além da eventual colaboração na redacção das
proclamações, fosse pouco activa. Os conjurados pretendiam o seu nome de oficial
distinto como figura de proa, para fortalecer o seu movimento.
As proclamações daquele Conselho, divulgadas clandestinamente, parecem-nos hoje
de uma retórica algo vazia. A leitura da “proclamação-manifesto” mostra que o
principal acusado é o Rei, por nos “ter vendido aos nossos inimigos naturais, ao
Rey de Hespanha”, nos pretender sujeitar “à tirania dos Hespanhois como dote da
filha ou presente de escravatura”, “o Déspota que … nos chama ao açougue do
precário Império” referindo-se ao recrutamento de tropas para os combates que se
travavam, no sul do Brasil, pela posse de Montevideu e para combater a
insurreição republicana no Pernambuco (*). A referência a Beresford é chamar-lhe
o “ridículo aventureiro que em desabono nosso é Commandante em Cheffe do
Exercito”.
Esta proclamação enumerava uma série de motivos de agravo, disparava em todas as
direcções: Rei, Regência, Beresford, Espanha, mas não propunha nada em concreto
senão “vencer ou morrer pele plena satisfação da fé jurada”. Um movimento que
pretende triunfar tem que escolher os alvos principais e poupar os secundários,
ou mesmo estabelecer alianças com estes, senão tem todos contra ele (**). O teor
desta proclamação mostrava a fragilidade e a falta de maturidade política do
movimento.
A viscondessa de Juromenha, ao contrário do que os liberais tinham pretendido,
tornou-se a principal figura na liquidação da conspiração. Estava exacerbada
pela raiva contra os pasquins que a insultavam. Quando o marido foi promovido a
general, vieram a lume papéis que rezavam:
De um corno fazer um tinteiro
Isso faz qualquer estrangeiro
Mas de um corno fazer general
Isso só o Senhor Marechal
O reduzido número dos conjurados, a ligeireza com que muitos se conduziram, a
sua pouca implantação fora do exército e a incontinência de alguns deles,
fizeram com que rapidamente se soubesse da trama. Na sua tentativa de aliciarem
gente, os conjurados empolavam em muito a força do seu movimento. Haveria gente
ligada à conjura por motivos diversos da causa liberal. Aliás, alguns dos
conjurados eram agentes provocadores que mantinham informada D. Maria da Luz, a
viscondessa de Juromenha e, por via desta, o Marechal Beresford, ou mesmo
directamente este.
O Marechal Beresford estava de partida para o Rio de Janeiro (D.João VI tinha
acabado de ser aclamado rei) onde ia tentar conseguir apoio do rei na sua luta
contra a Regência. Mas não queria partir deixando a conspiração a desenvolver-se
na sua ausência. Os agentes provocadores foram incumbidos de agirem rapidamente
e de fazerem uma lista exaustiva dos conjurados, graus e tipo de adesão e das
suas intenções e desígnios.
Beresford convocou algumas personalidades da sua confiança, entre elas o
Visconde de Santarém, a quem foram apresentados os documentos que tinham sido
coligidos relativos à conspiração. Esses documentos mostravam que estava em
marcha um movimento, ainda incipiente, cuja primeira fase seria a criação de
núcleos por todo o país. A decisão foi a de apresentar a documentação à
Regência, o que ocorreu em 23 de Maio de 1817. A Regência imediatamente se
assegurou da posição do exército e do apoio do General Paula Leite, encarregado
do governo das Armas da Corte e província da Estremadura, elemento fundamental
para a segurança da região de Lisboa, e emitiu ordens de prisão contra Gomes
Freire e diversos oficiais e civis.
A falta de coordenação entre os conjurados era tal que Gomes Freire de Andrade,
ao notar a movimentação de tropas, o ruído das armas e das patas dos cavalos,
pensou tratar-se da revolução em marcha, fardou-se, esmaltou o peito das
condecorações e esperou. Esperou até que a sua porta foi arrombada, a casa
invadida pela tropa e lhe foi dada ordem de prisão.
A devassa que se seguiu foi típica de um processo num regime absoluto. Os
agentes provocadores fizeram as suas deposições em segredo, alguns dos
conjurados passaram a delatores e como o maior alvo era Gomes Freire de Andrade,
os testemunhos foram orientados para avolumar a importância da conspiração e
para o tornar o principal culpado. Aliás, nunca se soube qual foi o real
envolvimento de Gomes Freire na conjura, como também não se conhecem exactamente
os objectivos dos conspiradores, se é que havia um objectivo comum, ou se parte
dos conjurados não teria sido manipulada para objectivos que desconheciam.
A rapidez de actuação da Regência e a forma como o processo se desenrolou causou
surpresa a Beresford e reforçou a ideia que este teria, de que havia gente
ligada à regência metida na conspiração. Uma teoria refere que havia a tentativa
de depor D, João VI, substituindo a Casa de Bragança pela Casa do Cadaval
(aliás, um dos denunciados era o Duque do Cadaval). Uma outra teoria falava de
que havia na regência traidor ou traidores favoráveis à anexação de Portugal
pela Espanha, na sequência do conflito que então se travava no Uruguay e que
haveria uma tentativa de encobrir esse facto. Essa teoria baseava-se na visita,
2 meses antes, do general Cabanes, enviado de Fernando VII, a Portugal por
razões que nunca foram claras. Segundo esta teoria Gomes Freire, que privou com
Cabanes durante a estada deste em Lisboa, e outros estariam a ser manipulados
para um processo que lhes escaparia das mãos e cuja primeira fase seria a
desorganização do exército português e a quebra da sua cadeia hierárquica, para
deixar o país inerme face à Espanha.
Gomes Freire foi condenado à morte “com baraço e pregão” e executado em S.
Julião da Barra. Os restantes 11 sentenciados foram executados no então Campo
Santana, hoje Campo dos Mártires da Pátria, a 18 de Outubro de 1817. A lentidão
do suplício, e o ter-se prolongado pela noite, deu origem à frase macabra
“felizmente há luar” de Miguel Pereira Forjaz. Este tinha mostrado, durante todo
o processo e na execução, um surpreendente afã em se ver livre do incómodo primo
direito.
Espanta a severidade das sentenças, quando comparadas com as sentenças dos
insurrectos de Pernambuco, o que reforça a ideia de que a regência se queria ver
livre de forma definitiva dos conjurados. E surpreende igualmente que
personalidades da nobreza denunciadas como fazendo parte da conjura, como o
Duque do Cadaval, o Marquês de Ponte de Lima e outros, não tenham sido
incomodados.
Um dos conjurados, o Barão de Eben, prussiano e amigo pessoal do Duque de Sussex
(de que também Gomes Freire era conhecido), irmão do Rei da Inglaterra, foi
expulso do país. O facto do Barão de Eben aparecer ligado a esta conspiração
como um dos principais conjurados foi extremamente embaraçoso para a família
real inglesa.
O papel da maçonaria não foi claro. Gomes Freire era Grão-Mestre da Loja Militar
dos Cavaleiros da Cruz da Legião Portuguesa. Alguns membros desta loja foram
denunciados, como o Marquês de Ponte de Lima, mas nenhum condenado. Mas havia
mais lojas e não se conhece que alguma estivesse envolvida. A própria
viscondessa de Juromenha era da maçonaria e um dos principais delatores era da
mesma loja, a Virtude. Muitos oficiais ingleses estavam ligados a lojas
maçónicas. Haveria maçons ligados à conjura e outros indiferentes, ou que se lhe
opunham.
Esta conspiração e o seu desfecho trágico é um dos episódios sangrentos da luta
entre liberais e absolutistas. Para aliciarem o exército os liberais utilizaram,
como uma das armas, a humilhação que consistia no Comandante em Chefe ser inglês
e de continuarem a haver oficiais ingleses em situações consideradas imerecidas
na hierarquia militar. É falso dizer que Portugal estava então ocupado pelos
ingleses, embora fosse verdade que a política portuguesa estava bastante
influenciada pela política inglesa. Mas continuaria a estar quer houvesse ou não
Beresford, como se verificou posteriormente. Beresford não representava a
Inglaterra, mas sim a ele próprio. Aliás, a proclamação do “Supremo Conselho
Regenerador” refere-o como um “ridículo aventureiro que em desabono nosso é
Commandante em Cheffe do Exercito” e não como o procônsul britânico em Portugal,
como bastante mais tarde alguns o designaram.
Beresford agiu sempre por conta própria e chegou a pensar-se, no tempo da
regência de D. Isabel Maria, na sua reintegração no cargo de Comandante em Chefe
do exército português, que não foi avante por motivos óbvios: apesar de militar
capaz e disciplinador, o facto de ser estrangeiro iria torná-lo um alvo
desnecessário e enfraquecer politicamente a posição da regente, em vez de a
reforçar.
A fragilidade desta conspiração, e a confusão que paira sobre os seus reais
objectivos e o grau de envolvimento dos conjurados, mostrou que o exército ainda
não estava maduro para a insurreição. Mas a execução de um oficial cheio de
prestígio, e a forma bárbara como foram supliciados os conjurados ajudaram ao
levedar da insurreição que iria eclodir menos de 3 anos depois.
No início do ano seguinte, 3 meses após as execuções, instalava-se no Porto o
denominado Synhedrio (Sinédrio), por iniciativa de Manuel Fernandes Thomaz e
Ferreira Borges. O movimento liberal adquiriu maior consistência e coerência. Em
face da degradação da situação, Beresford foi ao Rio de Janeiro reclamar maior
latitude de poderes. D. João VI concedeu-lhos por Carta Patente de 29 de Julho
de 1820, quase em simultâneo com o ofício que a regência (Junta dos
Governadores) enviava ao rei, deplorando o estado das finanças públicas e as
exorbitantes despesas militares e a ”considerável soma a que montam o soldo,
gratificações a ajuda de custo, que recebe o Marechal-General, Marquês de Campo
Maior (Beresford)”. Regressou a Portugal, mas já não pôde desembarcar. Tinha
havido o pronunciamento de 24 de Agosto de 1820 e a Junta Provisional de Lisboa,
que entretanto substituíra a Junta dos Governadores, não lhe permitiu que
desembarcasse. Regressou em 1826, com as tropas do General Clinton, a pedido da
Regente D. Isabel Maria, para proteger o cambaleante regime liberal, mas o seu
protagonismo na política portuguesa acabara.
O facto do exército ser chefiado por um estrangeiro, que teve, perante a opinião
pública, um papel importante na liquidação na alegada conjura de Gomes Freire de
Andrade, foi um elemento decisivo de fermentação da revolta. Foi por isso que o
papel dos ingleses quer no exército português, quer na política portuguesa da
época foi bastante empolado. Esse empolamento servia então os interesses do
partido liberal no sentido de ampliar a sua base de apoio dentro do exército e
na burguesia urbana. Foi também um elemento que uniu, inicialmente, os vintistas
aos conservadores. Gomes Freire tornou-se um herói nacional porque "queria
correr com os ingleses", tornou-se um "Mártir da Pátria".
Todavia, após a revolução de 1820, a Inglaterra teve uma influência muito
positiva, contrariando as intenções da Santa Aliança e de Metternich de
intervirem em Portugal para derrubar o regime liberal. E com a contra-revolução
e a subida ao poder de D. Miguel, foi em Inglaterra que os liberais encontraram
abrigo e se reorganizaram. É bom que não se esqueça isso.
(*) Aliás, Beresford estava igualmente contra a partida de tropas para a guerra
no Uruguay, por questões de perda de poder pessoal, pois diminuiriam as forças
sob o seu comando, mas também em virtude do reforço dos efectivos espanhóis
junto às fronteiras portuguesas, e pretendia o regresso do Rei, porque estava em
permanente conflito com a Regência e sabia que tinha a confiança de D. João VI.
A ameaça espanhola não era despicienda. Havia um conflito entre os dois países
por causa da colónia do Sacramento (actual Uruguay) e se não fosse a existência
então de um exército disciplinado e eficiente, adestrado nas campanhas contra os
franceses, e considerado de valor militar incomparavelmente superior às forças
espanholas, era natural que as forças espanholas, muito mais numerosas,
tentassem uma invasão. Nesse entendimento, qualquer acção espanhola teria que
ser precedida da desorganização e enfraquecimento do exército português
De notar que a Espanha se estribou então no conflito do Uruguay para não cumprir
a decisão do Congresso de Viena da devolução de Olivença.
(**) As proclamações de 24 de Agosto de 1820, que apelavam à criação de um
governo provisório e à eleição das Côrtes, como o órgão da nação que preparasse
uma constituição que assegurasse os direitos dos portugueses, continham um
rasgado panegírico a D. João VI: “O nosso rei, o senhor D. João VI, como bom,
como benigno e como amante de um povo que o idolatra, ha de abençoar nossas
fadigas. Viva o nosso bom rei!”. Este “nosso bom rei” era o mesmo que tinha
acabado de decretar o aumento de poderes de Beresford, justamente para combater
o movimento liberal. Manter a religião, o trono e salvar a pátria e a
independência nacional eram as aspirações que a Junta Provisional apresentava
como suas, o que mostrava que esta soubera distinguir o alvo principal dos alvos
secundários.
Nota: Usei indiferentemente regência ou Junta dos Governadores, visto a Junta
estar encarregada da regência na ausência de D. João VI. Era então presidida
pelo Marquês de Borba. Miguel Pereira Forjaz estava encarregado da secretaria da
guerra. Era hostil à presença de ingleses à frente do exército e o principal
adversário de Beresford na junta.
A Revolução de 1820
http://pt.wikipedia.org/wiki/
Revolução liberal do Porto
A chamada Revolução do Porto foi um movimento liberal que acarretou
consequências tanto na História de Portugal como na História do Brasil.
Iniciado na cidade do Porto no dia 24 de Agosto de 1820, cuja burguesia
mercantil se ressentia dos efeitos do Decreto de Abertura dos Portos às Nações
Amigas (1808), que deslocara para o Brasil parte expressiva da vida econômica
metropolitana, o movimento reivindicatório logo se espalhou, sem resistências,
para outros centros urbanos de Portugal, consolidando-se com a adesão de Lisboa.
Iniciado pela guarnição do Porto, irritada com a falta de pagamento, e por
comerciantes descontentes daquela cidade, conseguiu o apoio de quase todas as
camadas sociais: o Clero, a Nobreza e o Exército português. Entre as suas
reivindicações, exigiu:
o imediato retorno da Corte para o reino, visto como forma de restaurar a
dignidade metropolitana;
o estabelecimento, em Portugal, de uma Monarquia constitucional; e
a restauração da exclusividade de comércio com o Brasil (reinstauração do Pacto
Colonial).
A junta governativa de Lord Beresford foi substituída por uma junta provisória,
que convocou as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação
Portuguesa para elaborar uma Constituição para Portugal. Enquanto esta carta
magna estava sendo redigida, entrou em vigor uma Constituição provisória, que
seguia o modelo espanhol.
O movimento, vitorioso, ficaria conhecido como Revolução do Porto ou Revolução
Liberal do Porto. Como consequências, a Corte, à exceção de Dom Pedro I que aqui
permaneceu na condição de Príncipe Regente, retornou a Portugal no ano de 1821
e, diante do progressivo aumento da pressão para a recolonização do Brasil, este
proclamou a sua independência em 1822.
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A 27 de Maio de 1823, com o país mergulhado em clima de instabilidade e de
confronto entre os sectores liberais e absolutistas, D. Miguel revolta-se em
Vila Franca de Xira à frente de um regimento de infantaria, pretendendo a
reposição do absolutismo. As Cortes tentam dominar a situação mas a 29 de Maio,
todas as unidades militares da capital, com excepção de uma que permanece de
guarda ao rei, partem também para Vila Franca, onde o próprio rei chega no dia
seguinte. Procurando uma solução para a situação, D. Miguel é nomeado
comandante-chefe do Exército e é constituído um governo de liberais moderados,
sendo ainda prometida à Nação uma nova Carta Constitucional que todavia, não
viria ser promulgada.
Acentuavam-se os sinais de uma séria clivagem social e política que, a breve
trecho, iria precipitar o país no caos e horrores da Guerra Civil.
«A força dos males nacionais, já sem limites, não me deixou escolher: a honra
não me permitiu ver por mais tempo em vergonhosa inércia a majestade real,
ultrajada e feita ludíbrio dos facciosos, todas as classes da nação com
diabólico estudo deprimidas, e todos nós o desprezo da Europa e do mundo, por um
sofrimento que passaria a cobardia; e em lugar dos primitivos direitos nacionais
que vos prometeram recobrar em 24 de Agosto de 1820, deram-vos a sua ruína, o
rei reduzido a um mero fantasma; a magistratura diáriamente despojada e
ultrajada; a nobreza, à qual se agregaram sucessivamente os cidadãos beneméritos
e à qual deveis vossa glória nas terras de África e nos mares da Ásia, reduzida
ao abatimento, despojada do lustre que outrora obtivera do reconhecimento real;
a religião e seus ministros objecto de mofa e escárnio.
Que é uma nação quando sofre ver-se assim aviltada? Eia, portugueses, uma mais
longa prudência seria infâmia. Já os generosos transmontanos nos precederam na
luta; vinde juntar-vos ao estandarte real que levo em minhas mãos; libertemos o
rei e Sua Majestade livre dê uma Constituição a seus povos; fiemo-nos em seus
paternais sentimentos; e ela será tão alheia do despotismo como da licença;
assim reconciliará a nação consigo mesmo e com a Europa civilizada.
Acho-me no meio de valentes e briosos portugueses, decididos como eu a morrer ou
a restituir Sua Majestade à sua liberdade e autoridade, e a todas as classes
seus direitos. Não hesiteis, eclesiásticos e cidadãos de todas as classes, vinde
auxiliar a causa da religião, da realeza e de vós todos: e juremos não tornar a
beijar a real mão senão depois de Sua Majestade estar restituído à sua
autoridade.
Não acrediteis que queremos restaurar o despotismo, operar reacções ou tomar
vinganças; juremos pela religião e pela honra que só queremos a união de todos
os portugueses e um total esquecimento das opiniões passadas.»
Fonte: MARQUES, A. H. Oliveira, "História de Portugal", Palas Editores, Lisboa
1986.
A Abrilada
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A 30 de Abril de 1824, menos de um ano após a Vilafrancada, D. Miguel revolta-se
mais uma vez, fazendo reunir as tropas de Lisboa, no Rossio. Na proclamação que
então foi lida às tropas, e que apresentamos transcrita na sua grafia original,
referiam-se tentativas de assassínio da família real por parte dos liberais e a
necessidade de os destruir para conseguir a pacificação do reino.
Embora com dificuldade, D. João VI, conseguiria, retomar o controle da situação,
exonerando D. Miguel do cargo de comandante-chefe do Exército e afastando-o para
o exílio em Viena, para onde partiu a 13 de Maio desse mesmo ano.
«Soldados! se o dia 27 de Maio de 1823 raiou sobremaneira maravilhoso, não será
menos o de 30 de Abril de 1824; antes hum e outro irão tomar distincto lugar nas
paginas da história Lusitana; naquelle deixei a Capital para derribar huma
Facção desorganizadora, salvando o Throno, e o Excelso Rei, a Real Família, e a
Nação inteira, dando mais hum exemplo de virtude á Sagrada Religião, que
professamos, como verdadeiro sustentáculo da Realeza, e da Justiça; e neste
farei triumfar a grande obra começada, dando-lhe segura estabilidade, esmagando
de huma vez a pestilente cáfila dos Pedreiros Livres, que aleivosamente
projectava alçar a mortifera fouce para àcabar, e de todo extinguir a Reinante
Casa de Bragança.
Soldados! foi para este fim que vos chamei ás armas, plenamente convencido da
firmeza do vosso carácter, da vossa lealdade, e do decidido amor pela Causa do
Rei.
Soldados! sejais dignos de Mim, que o Infante D. Miguel, Vosso Commandante em
Chefe, o será de vós. Viva ElRrei Nosso Senhor, Viva a Religião Catholica
Romana, Viva a Rainha Fidelíssima, Viva a Real Família, Viva o Briozo Exercito
Portuguez, Viva a Nação, Morram os malvados Pedreiros Livres.
Palácio da Bemposta 30 de Abril de 1824.
Infante C. em C.»
Fonte: Fac-símile publicado na "Nova Enciclopédia Larousse", Círculo de
Leitores, Lisboa, 1997.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande -
Portugal

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