HISTÓRIA de P O R T U G A L

(Resumo)

 

 

 

INTERREGNO

 (espaço de tempo entre dois reinados)

1383 – 1385

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 
 
 

 

Regência de D. Leonor Teles

 Crise e Guerra da Independência

 

 

 

(1383-1385)

D. Leonor Teles -

Rei de Portugal e do Algarve

 

Logo que D. Fernando faleceu, assumiu a regência do Reino D. Leonor Teles. Um dos seus primeiros actos foi proclamar rainha de Portugal sua filha D. Beatriz, casada com João l, rei de Castela. Assim, a independência de Portugal estava em perigo. Mas o povo português, sempre decidido para os grandes cometimentos, logo reagiu contra as decisões da rainha regente, que desde há muito vinha sendo mal vista e até odiada por todos.
Alguns fidalgos, nomeadamente Álvaro Pais e o conde de Barcelos, prepararam, por isso, uma conjuntura, sentenciando à morte o fidalgo castelhano João Fernandes Andeiro, favorito da rainha, que era, na verdade, quem tudo mandava e governava. Da execução do plano, deveras arriscado, foi incumbido D. João, Mestre de Avis, fidalgo de muitas simpatias populares, filho bastardo de D. Pedro l e de D. Teresa Lourenço. Correndo, num momento, com os seus apoiantes aos Paços de São Martinho; o Mestre de Avis, em nome da Pátria, ali mesmo apunhalou o Conde Andeiro, em 1383.
D. Leonor Teles, em face dos acontecimentos. Fugiu para Alenquer e dali para Santarém, donde solicitou auxílio a seu genro, rei de Castela. Entretanto, o Mestre de Avis era aclamado Regedor e Defensor do Reino.
João l de Castela, a par de tudo que passava em Portugal e a pedido de sua sogra, invadiu Portugal, avançando sobre o Alentejo, onde se encontrava D. Nuno Álvares Pereira, que, pela valentia do seu braço, inteireza de vontade e misticismo da sua fé, era, acaso, no momento difícil, a maior figura de herói e de guerreiro.
Conhecedor dos manejos do inimigo, D. Nuno esperou os adversários em Atoleiros, perto da vila de Fronteira, O embate foi terrível, mas a vitória foi dos portugueses, em 6 de Abril de 1384.
Em seguida, o rei de Castela cercou Lisboa por terra e por mar. A capital, sobre o comando de D. João (ainda Mestre de Avis), resistiu heroicamente durante meses, até que as tropas castelhanas levantaram o cerco e sair de Portugal.
Em 6 de Abril de 1385, reuniram as Cortes de Coimbra, para a escolha do novo rei. Esta questão não era, também das mais fáceis de resolver, porque apareceram com direitos de legitimidade vários pretendentes ao trono. Esses candidatos foram: D. Beatriz, casada com João l de Castela, e filha de D. Fernando l e de D. Leonor Teles; D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro l e de D. Inês de Castro; e D. João, Mestre de Avis.
Ora, como os procuradores às Cortes se conservassem indecisos, o grande homem de leis, Dr. João das Regras, mostrou ali, com boas razões jurídicas, que só o Mestre de Avis reunia as precisas condições para ocupar o trono.
(João das Regras demonstrou que D. Beatriz era filha ilegítima, pois D. Fernando não poderia ter casado com D. Leonor Teles; demonstrou ainda que os dois filhos de D. Inês de Castro, D. João e D. Dinis, também eram ilegítimos, porque D. Pedro, apesar de o afirmar sob juramento, não casou com ela; sendo forçoso escolher um filho bastardo para rei, o Mestre de Avis era o que mais convinha, o que melhores provas tinha dado, o que oferecia maiores garantias. Não deixa de ser estranho que o clero não interferiu decisivamente numa questão que tinha muito de natureza religiosa).
Nada mais foi necessário, pois logo o Mestre foi aclamado rei de Portugal, com o nome de D. João l, dando origem à 2º Dinastia, chamada Joanina ou de Avis.
 

Lusíadas - Canto IV


2 -  Dom João I
     "Porque, se muito os nossos desejaram
     Quem os danos e ofensas vá vingando
     Naqueles que tão bem se aproveitaram
     Do descuido remisso de Fernando,
     Depois de pouco tempo o alcançaram,
     Joane, sempre ilustre, alevantando
     Por Rei, como de Pedro único herdeiro,
     (Ainda que bastardo) verdadeiro.


    3
     "Ser isto ordenação dos céus divina,
     Por sinais muito claros se mostrou,
     Quando em Évora a voz de uma menina,
     Ante tempo falando o nomeou;
     E como cousa enfim que o Céu destina,
     No berço o corpo e a voz alevantou:
     — "Portugal!  Portugal!" alçando a mão
     Disse "pelo Rei novo, Dom João." —


    4 -  Motins. Morte do conde Andeiro, amante da rainha Leonor Teles
     "Alteradas então do Reino as gentes
     Co'o ódio, que ocupado os peitos tinha,
     Absolutas cruezas e evidentes
     Faz do povo o furor por onde vinha;
     Matando vão amigos e parentes
     Do adúltero Conde e da Rainha,
     Com quem sua incontinência desonesta
     Mais (depois de viúva) manifesta.


    5
     "Mas ele enfim, com causa desonrado,
     Diante dela a ferro frio morre,
     De outros muitos na morte acompanhado,
     Que tudo o fogo erguido queima e corre:
     Quem, como Astianás, precipitado,
     (Sem lhe valerem ordens) de alta torre,
     A quem ordens, nem aras, nem respeito;
     Quem nu por ruas, e em pedaços feito.


    6 -  Leonor Teles chama em seu socorro o genro, D. João I de Castela
     "Podem-se pôr em longo esquecimento
     As cruezas mortais que Roma viu
     Feitas do feroz Mário e do cruento
     Sila, quando o contrário lhe fugiu.
     Por isso Lianor, que o sentimento
     Do morto Conde ao mundo descobriu,
     Faz contra Lusitânia vir Castela,
     Dizendo ser sua filha herdeira dela.


    7 -  Prepara-se o rei de Castela para invadir Portugal
     "Beatriz era a filha, que casada
     Co'o Castelhano está, que o Reino pede,
     Por filha de Fernando reputada,
     Se a corrompida fama lhe concede.
     Com esta voz Castela alevantada,
     Dizendo que esta filha ao pai sucede,
     Suas forças ajunta para as guerras
     De várias regiões e várias terras.


    8 -  Descrição da Espanha
     Vem de toda a província que de um Brigo
     (Se foi) já teve o nome derivado;
     Das terras que Fernando e que Rodrigo
     Ganharam do tirano e Mauro estado.
     Não estimam das armas o perigo
     Os que cortando vão co'o duro arado
     Os campos Lioneses, cuja gente
     C'os Mouros foi nas armas excelente.


    9 -  Províncias de Espanha
     "Os Vândalos, na antiga valentia
     Ainda confiados, se ajuntavam
     Da cabeça de toda Andaluzia,
     Que do Guadalquibir as águas lavam.
     A nobre Ilha também se apercebia,
     Que antigamente os Tírios habitavam,
     Trazendo por insígnias verdadeiras
     As Hercúleas colunas nas bandeiras.


    10
     "Também vem lá do Reino de Toledo,
     Cidade nobre e antiga, a quem cercando
     O Tejo em torno vai suave e ledo
     Que das serras de Conca vem manando.
     A vós outros também não tolhe o medo,
     Ó sórdidos Galegos, duro bando,
     Que para resistirdes vos armastes,
     Aqueles, cujos golpes já provasses.


    11
     "Também movem da guerra as negras fúrias
     A gente Biscainha, que carece
     De polidas razões, e que as injúrias
     Muito mal dos estranhos compadece.
     A terra de Guipúscua e das Astúrias,
     Que com minas de ferro se enobrece,
     Armou dele os soberbos moradores,
     Para ajudar na guerra a seus senhores.


    12 -  Aconselha-se o rei de Portugal com os principais do reino
     "Joane, a quem do peito o esforço cresce,
     Como a Sansão Hebréio da guedelha,
     Posto que tudo pouco lhe parece,
     Co'os poucos de seu Reino se aparelha;
     E não porque conselho lhe falece,
     Co'os principais senhores se aconselha,
     Mas só por ver das gentes as sentenças:
     Que sempre houve entre muitos diferenças.


    13
     "Não falta com razões quem desconcerte
     Da opinião de todos, na vontade,
     Em quem o esforço antigo se converte
     Em desusada e má deslealdade;
     Podendo o temor mais, gelado, inerte,
     Que a própria e natural fidelidade:
     Negam o Rei e a pátria, e, se convém,
     Negarão (como Pedro) o Deus que têm.
 


João das Regras
Jurisconsulto, nascido em data desconhecida em Lisboa, onde faleceu em 3 de Maio de 1404. Filho de João Afonso das Regras e de Sentil Esteves e, após o segundo casamento da sua mãe, enteado de Álvaro Pais, perpetuou o seu nome em virtude da magistral representação da causa do mestre de Avis nas cortes de Coimbra de 1385, cujo corolário foi a aclamação de D. João I como rei de Portugal.
De acordo com Fernão Lopes esteve em Bolonha, e é verosímil que tenha estudado na universidade daquela cidade de Itália. Foi professor da Universidade de Lisboa, onde mais tarde desempenhou o alto cargo de encarregado ou protector, equivalente, segundo alguns, ao cargo de reitor (Carta Régia de 25 de Outubro de 1400). Tal como o seu padrasto, teve uma acção importante no levantamento de Lisboa que alçou o mestre de Avis por regedor e defensor do Reino. Conselheiro e chanceler do mestre, a sua acção na crise de 1383-1385 culminou na inteligente argumentação em que, omitindo o nome do mestre, negou validade às pretensões dos outros candidatos ao trono.
A D. Beatriz, filha do falecido rei de Portugal, nega o Dr. João das Regras quaisquer direitos por nulidade do casamento de D. Fernando com Leonor Teles, que era já casada com João Lourenço da Cunha quando o rei a desposou; por incerteza quanto paternidade de D. Fernando, dado o comportamento irregular de Leonor Teles; por haver contraído um casamento com o rei D. João I de Castela, seu parente (a mãe do rei de Castela era tia-avó de D. Beatriz) sem a dispensa do papa legítimo Urbano IV, em vez do antipapa Clemente VII;
Ao rei de Castela, por ser herege, refuta João das Regras o direito a ser rei de Portugal pois reconhecera o antipapa e fora excomungado pelo legítimo papa; porque o seu parentesco com o rei D. Fernando se dava pela linha feminina (as suas mães eram irmãs), o que pelo direito consuetudinário hispânico não dava direitos de sucessão.
Os infantes D. Dinis e D. João, filhos de el-rei D. Pedro I e de Inês de Castro, portanto, irmãos de D. Fernando, não podiam ter direito ao trono porque eram ilegítimos: D. Pedro nunca casara com Inês de Castro; além disso fizeram guerra contra Portugal aliados a Henrique II e a D. João I de Castela.
Inteligentemente, a sua estratégia demonstrara que o trono estava vago pois nenhum dos pretendentes tinha direito ele. Pertencia assim às cortes escolher livremente um novo rei, sendo o mestre, «per unida concordança de todolos grandes e comum poboo» aclamado rei de Portugal.
O rei concedeu muitas mercês ao Dr. João das Regras: fê-lo cavaleiro de sua casa, senhor das vilas de Castelo Rodrigo, Tarouca e Beldigem; senhor de Cascais e seu termo, do reguengo de Oeiras, das dízimas das sentenças condenatórias de Évora, da jurisdição da Lourinhã e das rendas da portagem de Beja. Fernão Lopes refere-se a ele «como notável barom, comprido de ciência [e] mui grande letrado em leis[...]». Seus restos mortais encontram-se na igreja de S. Domingos de Benfica, em Lisboa.



Batalha dos Atoleiros
 



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A batalha foi travada em 6 de Abril de 1384 no local pantanoso dos Atoleiros, entre Sousel e Fronteira.
Foi a primeira aplicação, em Portugal, da nova táctica do quadrado introduzida na Europa durante a Guerra dos Cem Anos, que evidenciou o valor da defensiva para parar o avanço do inimigo, desgastá-lo e conseguir equilíbrio de forças favorável à passagem à ofensiva. Ao mesmo tempo esta táctica permite a supremacia da infantaria no campo de batalha.
Invadido o País pelo rei castelhano e nomeado o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, com poderes especiais, fronteiro do Alentejo, onde diversos lugares estavam por Castela, reuniu cerca de 300 lanças e 1500 homens, dos quais 100 besteiros, marchando de Estremoz ao encontro do invasor, com o efectivo de 1000 lanças e 5.000 homens.
Nuno Álvares Pereira, em inferioridade numérica, decidiu esperar o inimigo em posição favorável à defensiva, tirando vantagem da adaptação das armas ao terreno, e adoptou um dispositivo rectangular, escalonado, e constituído por vanguarda, próprio para enfrentar uma acção de envolvimento da numerosa cavalaria adversa, com todos os seus efectivos apeados, em que as sucessivas filas das compridas lanças eram cravadas no chão, inclinadas para a frente e aguentadas pela firmeza do braço dos combatentes, formando uma sebe eriçada de pontas.
Os besteiros foram distribuídos adequadamente para crivarem o inimigo com os seus tiros.
Menosprezando os castelhanos a pequena hoste portuguesa, confiados na potência do choque, vieram cravar-se nas lanças, caindo de roldão cava-los e cavaleiros, enquanto os besteiros e fileiras da retaguarda alvejavam com nuvens de virotões e dardos as vagas sucessivas, que se embaraçavam nos seus próprios combatentes caídos, tombando por sua vez.
Pouco durou a refrega, terminando pela fuga dos castelhanos, que sofreram perdas qualitativamente graves, que influíram no seu desânimo.
Dos portugueses não houve mortos nem feridos.
D. Nuno ainda ordenou a perseguição durante uma légua, e o certo é que a Batalha dos Atoleiros muito contribuiu para a vitória da causa da independência.
(adaptado de Baptista Barreiros, E.L.B.C.)

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro