António Óscar de Fragoso Carmona
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Nasceu em Lisboa em 1869. Morreu em Lisboa, a 18 de Abril de 1951.
Pais: Inácio Maria Machado de Morais Carmona (general do Exército); Maria Inês
de Fragoso Corte-Real.
Cônjuge: Maria do Carmo Ferreira da Silva.
Formação: Colégio Militar (1882-1888); Escola do Exército (1889-1892).
CARREIRA
Profissão: oficial de Cavalaria - aspirante (1892), alferes (1894), capitão
(1910), major (1910), tenente-coronel (1916), coronel (1919), general (1922);
marechal (1947).
Cargos: membro da Comissão de Reforma do Exército (1911); instrutor da Escola
Central de Oficiais (1913-1914); director da Escola Prática de Cavalaria de
Torres Novas (1918-1922); comandante da IVª Divisão - Évora (1922-1925);
ministro da Guerra (1923); presidente do Ministério (1926-1928); ministro dos
Negócios Estrangeiros (1926).
ELEIÇÕES E PERÍODO PRESIDENCIAL
Era-o, implicitamente, como presidente do Ministério, desde 9.7.1926, já que não
existia presidente; foi nomeado, interinamente, por decreto, para o cargo a
16.11.1926; foi eleito, por sufrágio directo, presidente (25.3.1928); e
sucessivamente reeleito sem opositor (17.2.1935, 8.2.1942, 13.2.1949), no
entanto nesta última data, a oposição chegou a apresentar a candidatura do
general Norton de Matos, que se retirou antes da votação. Foi portanto
Presidente de 16.11.1926 a 18.4.1951.
OBRAS PUBLICADAS
O novo regulamento para a Instrução Táctica de Cavalaria in Revista Militar, n.º
11, Novembro 1913; "Prefácio", in Leopoldo Nunes, A Ditadura Militar, Lisboa,
1928.
Era o oposto de Gomes da Costa, onde este era o africanista herói de campanha,
Carmona fora o oficial de secretária, à vontade nos corredores do poder, o
general da "espada virgem", que quando a sua unidade seguiu para a Flandres
mandou a comandá-la o seu segundo em comando. Afirmou-se pela sua habilidade
política, facilidade de relacionamento, prestígio da família - avô herói da
Guerra Peninsular - , mas também pela sua competência técnica.
Tendo sido dos típicos oficiais que aproveitaram as carências republicanas na
oficialidade para, colocando-se - não sem reservas e óbvio cálculo - ao serviço
do novo regime, ascender rapidamente na carreira. Na sua primeira passagem pelo
poder - ministro da Guerra - reprimiu a "intentona radical" (13.12.1923). Mas
foi o seu papel como promotor militar no julgamento da "Sala do Risco" dos
responsáveis pelo 18.4.1925, que lhe deu uma projecção nacional, já que pediu e
obteve a absolvição dos implicados, com base no argumento de que a "pátria
estava doente" e precisava portanto de cirurgiões de espada.
Prudente quanto ao 28.5.1926, a sua adesão de última hora, obtida por Sinel de
Cordes, foi importante na consolidação do movimento. A sua demissão de ministro
dos Estrangeiros (em que sem grandes dificuldades, e portanto sem grande mérito,
tinha obtido o, em todo caso fundamental, reconhecimento inglês à nova situação)
pela reacção que provocou foi o catalisador do afastamento de Gomes da Costa.
Passa então a acumular a chefia do Estado e a chefia do Ministério. A sua
nomeação por decreto para a Presidência marca a ruptura clara com o ténue fio
que - pela renúncia de Bernardino Machado e pela cláusula de substituição do
Presidente da República pelo presidente do Ministério no decreto de renúncia - a
nova situação, ainda, poderia parecer manter com a legalidade republicana, e que
aliás a deposição de Gomes da Costa sem que este aceitasse transmitir poderes
tinha tornado ainda mais duvidosa.
A sua eleição directa para a Presidência - como Sidónio - consagrou e procurou
legitimar essa ruptura.
Foi fundamental o seu papel durante o conturbado processo político-militar que,
muito por intervenção sua a favor de Salazar, levou à institucionalização do
Estado Novo. Não mantinha com ele relações pessoais aquando da nomeação para
ministro das Finanças (27.4.1928), mas desde muito cedo este ganha a sua
confiança. Foi já graças a Carmona que conseguiu, sendo civil, ser nomeado
presidente do Ministério (5.5.1932). E se depois da institucionalização do
regime com a aprovação da nova Constituição (11.4.1933) a intervenção activa de
Carmona nos assuntos correntes passou a ser escassa ou nula, o que alguns
observadores estrangeiros - e.g. o embaixador americano - associam à doença que
o teria afectado (1935), a verdade é que tal se ajustava ao seu perfil, e
continuava a ser figura fundamental para a solidificação do regime a nível do
seu pilar militar.
A concentração de todas as pastas-chave em Salazar, que Carmona teve de aceitar
devido à situação extremamente complexa criada pela Guerra Civil de Espanha
(1936-1939) e a II Grande Guerra (1939-1945), acabou por levar a um conflito
entre os dois. Carmona terá mesmo referido então, sentir-se coacto, e
desenrolam-se contactos com figuras da oposição - agrupada no MUNAF (Movimento
Unitário Antifascista) e no MUD (Movimento de Unidade Democrática) - militares
como M. Cabeçadas, N. de Matos, C. Soares -; mas também civis como J. Magalhães
Godinho. Chegou a perguntar, segundo afirmam, que pastas quereriam num
ministério; e envia uma petição da oposição, pedindo a democratização (Janeiro
de 1946), ao Governo, com a indicação de que a "estudassem". Quanto aos
militares conspiradores - conspirações várias desde 1943 até 1947 - estes
afirmam, como argumento de defesa nos seus julgamentos, terem recebido
encorajamento do chefe de Estado para a sua acção. De facto, os contactos
resultam de pressões inglesas sobre Carmona e encorajamentos destes aos
conspiradores para o utilizarem no putsch, em contextos e com objectivos muito
definidos - primeiro, a questão da demora na cedência de bases nos Açores, e
depois a da exigência da cessação da exportação de volfrâmio para a Alemanha
nazi (entre meados de 1943 e os finais de 1944). Tendo essas questões sido
resolvidas por Salazar, satisfatoriamente para os Aliados, tal como estes,
também Carmona se desvincula de tais iniciativas de sucesso muito remoto.
Esta ambiguidade de Carmona face à oposição e da oposição face a ele, neste
período, parece marcar a imagem que dele tem o próprio Salazar, presente na
forma como o descreve a Franco Nogueira (Um Político Confessa-se, p. 179): "Um
príncipe. Uma figura muito aliciante, atraente e insinuante [...] Nunca tive a
certeza durante o muito tempo que trabalhámos juntos, que ele estivesse comigo.
Estou mesmo convencido de que não estava comigo a maior parte desse tempo." E de
facto, Carmona não esteve incondicionalmente com ele, que era o que Salazar
pretendia dizer com "estar com ele". No entanto, mesmo após esta crise, a
relação continua a oferecer vantagens mútuas. Assim, após o afastamento público
- ausência de Salazar de todas as cerimónias em que o Presidente estava presente
- vem a reconciliação, com a atribuição por Santos Costa do bastão de marechal,
que Carmona - ao contrário de- 1935 - aceita (19.4.1947) e com o apoio da União
Nacional (18.12.1948) a uma nova candidatura presidencial para as eleições de
1949.
Será a primeira de três ocasiões (1949, 1951, 1958) em que a oposição,
aproveitando a abertura relativa do pós-guerra, apresentou candidato (9.7.1948).
O escolhido foi um dos militares envolvidos nas conspirações referidas da
oposição - aliás tema embaraçoso utilizado na campanha eleitoral, contra Carmona
- o general Norton de Matos (n. 1887-m. 1955). A campanha "livre" foi fixada
oficialmente (1.1 a 11.2.1949). Norton de Matos protestou por telegrama e por
carta junto de Salazar quanto à fiscalização independente dos cadastros
eleitorais e da própria votação, referindo na sua última carta (30.12.1948) -
"nas actuais condições só o [concorrer ao acto eleitoral] poderão fazer com
candidatos que se prestem a colaborar no fingimento de eleições livres" - e
acabou por desistir da candidatura (7.2.1949).
Carmona surgia como a solução ideal para três questões fundamentais para o
regime: as relações entre os militares; as relações entre os militares e os
políticos; e as relações entre monárquicos e republicanos. Exercendo um poder
simbólico, arbitral e criador de consensos. Parece fora de dúvida que Salazar
não teria podido afastar Carmona da forma que fez com Craveiro Lopes. Mas também
parece pouco provável que Carmona se empenhasse, em algum ponto - e mesmo, que
nos anos 40 tivesse, num Exército cada vez mais dominado por Santos Costa, a
força - para afastar Salazar, a não ser no curto período (1943-1944) em que
contaria com o apoio aliado. Não conclui o seu quarto mandato, pois morreu no
cargo, apenas dois anos após a sua eleição, tendo sido enterrado no Panteão
Nacional em funeral oficial com toda a pompa. Tinha sido Presidente da República
durante um quarto de século. É por isso o Presidente da República que mais tempo
permaneceu em funções, e previsivelmente continuará a sê-lo, tendo em conta a
actual legislação sobre o limite de mandatos sucessivos.