CONSELHO DE VIDA

Dermeval Pereira Neves

 

Aquele dia prometia ser muito feliz!

Uma bela e clara manhã de domingo. O sol brilhava quente e radioso através da janela daquela casa simples de uma pequena vila no interior do Brasil. Um bem-te-ví amarelo dava sonoros piados do alto de um eucalipto, um pássaro preto cantava alegre no topo da mangueira cheia de frutos maduros e o canário do reino da pequena gaiola trinava alegremente seu solitário canto por liberdade.

O garotinho alegre e feliz, acabara de chegar da missa dominical, deu um beijo na mamãe e com sua bicicleta correu para a casa da vovó. Era dia de macarronada com frango feito à moda italiana pela querida matriarca, Angelina, e era também o dia em que aquele menino iria se deliciar com as aventuras contidas no “Cofre do Tesouro”...

 Chegou esbaforido na casa da avó, deu-lhe um grande beijo, pulou no colo do avô com um abraço tão apertado que lhe fez cair o pequeno chapéu de feltro. Da mesma forma que chegou, correu para o quarto do tio “Du” fechou a porta, puxou uma velha caixa de madeira que estava embaixo da cama e abriu sofregamente o “Cofre do Tesouro” onde estavam as mais belas edições de gibis e revistinhas de aventura daquela época.

É lógico que no início dessa descoberta o tio Du ficava muito bravo, pois adorava aquelas jóias. Depois de muitas promessas de cuidar daquele tesouro com muito carinho, ele acabou concordando em dividir aquelas preciosidades, desde que não deixasse ninguém mais brincar com o tesouro. Esse era o pacto e segredo entre eles. Tinham um lugar secreto para esconder o velho baú e o chamavam de Cofre do Tesouro, numa amizade cúmplice e amorosa como jamais haviam experimentado em suas vidas.

Com seus dez anos e muita imaginação, saboreava as maravilhosas viagens inter-galáticas do Flash Gordon, voava com o Superman pelo mundo afora, brigava com os bandidos junto com o Zorro e com o Tex, e assim várias outras personagens povoavam sua infância com histórias mirabolantes e aventuras sem fim.

Naquele dia em especial, o querido avô Francisco, o Seu Chico Peixeiro, como era conhecido, chegou de mansinho por traz do menino, afagou-lhe a farta cabeleira com muito carinho e lhe deu o melhor conselho de vida que alguém poderia receber:

- Filho, você gosta muito destas revistas. Certo?

- Sim, vovô... muito... respondeu o menino ainda envolto em suas aventuras

- Então faz uma coisa: pegue uma caixa e guarda tudo que você mais gostar, revistas, brinquedos, escreva tudo que você ouvir, pensar e ler, recorte jornais, revistas, leia muito, guarde livros, escreva as conversas com seus amigos, encontre um trabalho que gosta, trabalhe em todo e qualquer tipo de serviço que puder, estude e aprenda tudo que tiver chance, saiba sempre mais do que precisar para se dar bem nos estudos e muito mais do que precisa para seu trabalho, junte tudo que for bom, interessante e bonito e guarde tudo com muito carinho.

O menino virou a cabeça e perguntou:

- Por quê, vovô? Para que guardar tudo em uma caixa?

E o avô, com aquele olhar inconfundível de paz e amor, respondeu:

- Ora, para você mesmo. Quando você chegar aos cinqüenta anos terá muita história para contar a seus filhos, netos, amigos, e além disso, vai saber tanta coisa que poderá até mesmo ensinar aos outros ou até mesmo escrever vários livros.

Afagou novamente a cabecinha do netinho e saiu com seu andar trôpego em direção à cozinha, de onde o aroma saboroso da macarronada da “nona” fez o menino interromper suas fantasias.

Aquele dia ficou para sempre na memória e hoje, revirando o meu Cofre do Tesouro, 50 anos completos e muita história para contar, com carinho dedico as minhas obras a meu avô Francisco e meu tio Dualter, as duas pessoas que mais influenciaram minha vida e que acompanham meu sucesso, lá do céu, ao lado de Deus, onde eles estão há muitos e saudosos anos...


 

 

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