ADEUS, MEU GATTO
Henrique Lacerda Ramalho
Um dia, apareceu sobre o muro de divisória da vivenda ao
lado, um gato esquálido, pele e osso.
Estranhamente, ele aceitou um pequeno pedaço de comida... dia a dia, ele se foi
aproximando mais, sem receio dos dois cães ...
Me via e vinha logo correndo, saltando do muro para o chão, tendo eu de afastar
os cachorros, de seu hábito matarem todos os felinos que entrassem no quintal.
E o gato, de cor clara, parecendo com sangue de siamês, mais manso se mostrou:
indiferente aos cães, de vez em quando uma sapatada sem unhas afastava os
focinhos.
Veio entrando em casa, com sua malga com a figura de mikey com sua ração sobre a
arca frigorífica para que o Apolo e Ringo não a esvaziassem.
Sentado, em fracos miados frente ao frigorífico, pedia seu leite, deixando o
Apolo aguardando que ele terminasse para avançar.
Passou a ser hábito: "queres leitinho?" e lá vinham os dois, Gatto e Apolo, para
a cozinha. O Gatto, maneando as ancas e cauda bem levantada e Apolo sempre
olhando onde estava o pequenino compincha para se aproveitar dos mimos: a fatia
de mortadela, o fiambre, o chouriço, o bocado de carne crua.
Se o Ringo era ciumento da sua tijela para com o Apolo, o Gatto verificava o
conteúdo de cada comedouro, ou muitas vezes afastava a cabeçorra do Apolo que
tinha seu tamanho.
Muitas vezes, o Apolo empurrava o Gatto para ansiosamente comer, ou até os dois
bebiam ao mesmo tempo da malga da água.
Como passou a casa a ser fechada toda a noite para não ir dormir na rua,
brigando com os outros da sua espécie; de manhã, bastava a dona colocar os pés
no chão para os três caminharem para a porta a fim de se lhes abrir o portão
para darem sua voltinha higiénica no bairro. Tamanho não importava: cada um
"impunha" seu peso para passar à frente dos outros, o Ringo sempre mais
expansivo ao se pôr em pé e nas suas corridinhas.
O Gatto conquistou seu lugar na família: numa estranha devoção, me escolhia para
seu pedido de ir fazer o xi-xi ao quintal (nunca conspurcou a casa), miando
virado para a janela do quarto de um modo mais aflitivo. Noites passou a meu
lado, na cadeira de plástico, me fazendo companhia ao longo da madrugada. Para
chamar a atenção, unhava a cadeira, sossegando nas festas, virando para ser
coçado no ponto que ele desejava, ou até lhe ser passado o pente no queixo, nas
faces, no pescoço. Muitas vezes se pisou a cauda, tanto por nós como o Apolo com
seus 60 quilos: miava na dor mas nunca tomou qualquer atitude agressiva: nunca
mordeu, arranhou ou "cardou" se mexido na barriga.
Farejava de muito longe quando a Elaine mexia em carne ou peixe: logo ia para o
lado dela em miados fraquinhos, esperando que se lhe dessem na boca em
pequeninos pedaços, porque não apanhava do chão, ficando para o Apolo.
Apolo, se sentava, esperando que o Gatto satisfeito se afastasse com sua
preguiça a esticar todo o corpo.
Mas tinha seu defeito: o manso em casa se mostrava de total agressividade para
qualquer gato que invadisse seu território: se algum até trepasse numa árvore,
ele o puxava para o chão para se lançar como fera; todos os dias, mais uma
cicatriz, uma ferida, uma unha partida e lá vinha a água oxigenada, o
desifectante.
De banho, não gostava: se debaixo de duche com água morna, esbugalhava os olhos
e berrava como se tivesse chegado o último dia de sua vida; mas isso se
resolveu, quando passou a ser numa bacia já com a espuma de shampu.
Tentava sempre fugir, mas sem nunca ser agressivo, depois esfregado numa toalha
felpuda e absorvente.
Fazia a sua vida programada: de manhã deitado na área de serviço, à tarde
desaparecia para ao anoitecer ser detido quando me vinha pedir para o levar à
ração, lhe pegar ao colo para não ter o trabalho de saltar cerca de 80cm em
altura.
Ontem, noite escura, ouvi seus dois miados aflitos à entrada da porta da sala.
Seu ventre descaído, olhos semi-cerrados. Levei-o para o sofá, onde soltou
vómito amarelado. Suas unhas estavam desfiadas de tentar saltar o muro e sem
forças descair, mas tinha conseguido regressar. Tinha conseguido vencer o
obstáculo e vir me procurar para o socorrer. Procurou a companhia quer do Ringo,
quer do Apolo, se chegando a eles na sua perda consecutiva de forças.
De manhã, começou a correria em encontrar um veterinário que soubesse sobre
felinos. Primeira clínica, segunda clínica onde poderia ser radiografado ou até
operado. No meu colo, seu miado solto quando se passava sobre algum quebra-molas,
sua boca salivando, aberta ...
Se ficou, de agulha de soro no braço listrado, numa morte calma, como se tivesse
apagado por interruptor vagaroso.
Olhei para ele, me recordando que nunca tivera qualquer gato, na minha
preferência por cachorros.
Revivi o que ele nos 3 ou 4 meses fora meu amigo, dos cachorros, da dona, à sua
maneira independente-dependente.
Com ódio de mim mesmo, por saber que nunca me deveria agarrar ao que quer que
seja, mas com a consciência que tudo lhe fiz para ele se sentisse feliz.
Vontade de o chamar ao portão da rua: "onde está o Gatto?" e como que visão já
passada, o ver a correr para casa ou a fingir nada ouvir olhando ou se coçando
de focinho virado para o lado contrário.
Esvaziar a tigela, arrumar a lata colorida da ração, guardar no depósito do
quintal a sua cesta almofadada, esvaziar o plástico com fundo coberto de areia,
me libertando de olhar para as coisas que lhe tinham servido.
Sinto a falta dele, sinto sua ausente presença na casa, no quintal onde ele
sempre me acompanhava quando regava ou tratava da orquídeas e das roseiras:
ficava deitado, de mãos recolhidas no peito, me olhando curioso.
Me é doloroso, ver a carrada de areia espalhada lá no fundo do terreno onde ele
adorava fazer suas higiénicas necessidades; onde ele esfregava o focinho na
esquina; onde ele cheirava delicadamente a grama para retardar a entrada na
casa, passando por baixo do lento Apolo, empurrando suavemente o Ringo na porta
da cozinha.
Fica a lembrança de quem mostrou humilde amizade, subentender seu reconhecimento
por deixar a fome e o desamparo, a sua ternura de ao passar por mim, esfregar
levemente a cabeça nos meus pés pendurados do sofá, como que dizendo: "pronto!
cheguei, estou aqui!"
Fica descansado, meu Gatto: dentro de mim fica o rasgão da perda da tua
companhia.
***

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