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Henrique
Lacerda Ramalho
Henrique, O Escritor...

... Gosto de escrever para mim... dentro do silencio da noite, as palavras
flúem mais rápidas que a mão.. escrevo, fico depois admirado pelo que escrevi e
como descrevi e... deleto!
Cada escrito tem um frangalho da alma... há sempre algo pungente que está nas
entrelinhas, o mais escondido possível para não me dar a prescrustar. Aprendi
desde a infância que mostrar o que verdadeiramente se pensa é abrir fresta na
armadura.
Pequenos e o mais possível desgarrados contos, tenho escrito... mas desgarrados
para não haver continuidade, para não haver um "arrancar" da máscara de que nos
devemos manter...
Há muitas "chagas", há ainda feridas que não sararam, nem sararão... há
pesadelos, há ranger de dentes, há ódios transformados em indiferenças, há busca
interminável, há inadaptação, há nomadismo cerceado, há muito mais...
A noite é como o uivo de trem ribombando dentro de escuro túnel, num uivo
prolongado e cortante... é o rolar das rodas nos carris que nos levam em frente
mesmo não cumprindo nossos desejos... o final se prevê na união dos carris no
infinito, num mundo que não existe, num Deus que se acredita para fugir ao
limite de duração como animal...
talvez seja um mamute esperando o grande glaciar, a locomoção dos continentes
para dar por findo.
Talvez seja a pedra bruta que se soltando da margem, rola até ser areia...
porque o tempo é areia que mesmo na força da mão, escorre, desaparece, nada
deixa de recordação; areia de que constrói castelos mas que a próxima onda
derruba e aplana...
* E-mail escrito a
Ligia Tomarchio e a Iara Melo em setembro de 2006

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