Vinte anos na vida de uma pessoa é muito
tempo.
Recordou-se dos momentos difíceis que passou
quando a morte de seus pais. Primeiro
morreu-lhe a mãe e, um mês depois, foi a vez
do pai deixar este mundo. A situação
financeira tornou-se então insustentável. A
vida assim era impossível.
Foi então que resolveu escrever a um velho
tio, que há muitos anos vivia na Venezuela.
Contou-lhe tudo e, na resposta, o bondoso
homem mandou-a ir ter com ele. O tio era
dono de um moderno e bem frequentado
restaurante dos arredores de Caracas.
A Rosa, a Rosita, como carinhosamente era
tratada por todos, conseguiu que o casal
Gomes, que tinha uma pequena mercearia, lhe
emprestasse o dinheiro necessário para a
viagem e, assim, num belo dia meteu-se a
caminho e só parou em Caracas.
Conforme lhe ia sendo possível, ia mandando
dinheiro para pagar a sua dívida, que em
menos de dois anos, estava completamente
saldada.
Já há muito tempo que não devia nada a
ninguém, além da gratidão àqueles que a
tinham ajudado, numa hora tão crítica.
- Precisa de um táxi?... Virou-se
lentamente e encarou o homem que a
interpelava, e, que novamente repetiu:
- Precisa de um táxi?
Rosa, como saísse de um sonho,
respondeu-lhe:
- Sim, preciso de um táxi.
O motorista pegou então na bagagem e
enquanto a arrumava, Rosa foi sentar-se
dentro do táxi. Parecia um sonho estra na
sua terra. Vinte anos depois, regressava.
- É para São Pedro que a senhora deseja ir?
- Perguntou-lhe o taxista.
- Não, leve-me ao centro da cidade a uma
pastelaria, pois ainda não tomei o
pequeno-almoço.
Como a cidade tinha mudado, como estava
diferente, como estava bonita!
Ainda absorta nos seus pensamentos, chegou
quase sem dar por isso ao centro da urbe.
- Há pouco, disse-me que queria tomar o
pequeno-almoço? - Lembrou-lhe o motorista.
- Pois disse. É aqui a pastelaria?
- É sim.
- Pode-me levar a bagagem para o hotel, que
fica ali naquelas esquina? Já tenho aposento
reservado.
- É um prazer, minha senhora. Desculpe a
minha curiosidade, mas a senhora é natural
daqui desta terra? Desculpe-me...
- Sou. Nasci nesta terra há 36 anos mas, já
há vinte anos que não vivo cá.
- Desculpe-me. Vou já pôr a sua bagagem no
hotel.
Rosa, antes de entrar na pastelaria,
hesitou, mas por fim resolveu entrar.
Era um estabelecimento moderno, agradável,
onde outrora existia um belo quintal de uma
casa que, entretanto, fora demolida.
Pediu o pequeno-almoço enquanto acendia um
cigarro.
Vinte anos... Quantas recordações lhe vinham
à mente. Parecia um filme que lentamente se
desenrolava na sua cabeça, em que ela, a
Rosa, era ao mesmo tempo a argumentista, a
realizadora e a intérprete.
Lembrou-se do simpático casal Gomes, que
confiara nela e lhe proporcionaram a sua ida
para a Venezuela.
O que teria sido feito deles?
Com a pressa de vir passar férias a
Portugal. Até se tinha esquecido de lhes
trazer uma prenda.
Mas que esquecimento o seu!
Entretanto, começou a ouvir a sirene dos
Bombeiros, e, tal como outrora, os nervos
começaram a encrespar-se.
Não tardou a começar a ouvir o barulho dos
Soldados da Paz que fazem a apagar um fogo.
E também ouviu um popular exclamar:
- A mercearia dos Gomes está a arder!
Ficou atónica com o que ouvira.
Levantou-se e correu até chegar à loja
daqueles amigos que um dia a tinham ajudado.
A loja, nessa altura já era um mar de
chamas. Nada se podia aproveitar de seu
recheio.
No passeio em frente, rodeados por muitos
populares, estavam os velhotes que, com ar
apavorado olhavam para o que tinha sido a
sua loja, o seu ganha-pão.
Para eles, mais parecia um pesadelo do que a
realidade.
- Com o negócio tão mau como tem estado, e
ainda por cima nos acontece uma desgraça
destas... Sem termos seguro, estamos
desgraçados! - lamentavam-se os velhotes.
Foi então que a Rosa se abeirou deles, que
não a conheceram, e a moça aproveitou para
lhes dizer:
- Senhor Gomes, acabo de chegar da Venezuela
e, uma amiga minha incumbiu-me de vos
entregar este cheque, já visado para a Caixa
Geral de Depósitos.
O velhote, maquinalmente agarrou o cheque e
apenas balbuciou:
- Da Venezuela? Será da Rosa, da Rosita? Há,
mas eu não posso aceitar este dinheiro
todo...
- Aceite - retorquiu-lhe a jovem - pois,
senão a Rosita ficava muito zangada comigo,
e isso eu não quero. E agora, desculpem-me,
mas tenho que me ir embora. Apesar do que
vos aconteceu, eu desejo-vos muita saúde e
muitas felicidades. Até à próxima amigos!
E a Rosa afastou-se rapidamente, sem esperar
que os velhotes lhes respondessem.
Naquele cheque tinha entregado ao casal
Gomes o dinheiro que tinha posto de parte
para passar férias em Portugal. E o mais
engraçado é que, por essa entrega, tinha
terminado as suas férias mesmo antes de as
ter começado.