Edição de Carlos Leite Ribeiro
 

Apolo e Daphne

 
 

MAGAZINE CEN

 

 AGOSTO 2012

  

 
 
 

Maria Augusta Búrigo e Silva
Criciúma/SC/Brasil

Noite de @



Eu reclamo, tu reclamas, nós reclamamos!
Um dia, meu note,
já acordas dizendo que estás mal das pernas.
No outro, sem mais nem menos, tu te vás.
Por dois dias já ficaste de mim ausente,
porque não estavas nada bem.
E eu, entendo?
Nada!
Fico "P" da vida!
E eu aqui usando e abusando de ti,
meu pobre notebook!
Ontem, levaste não sei pra onde,
todos os endereços dos meus e-mails.
Bah! É de ficar, mesmo, fora de órbita!
Outro dia desmaiaste,
deixaste minha tela no apagão!
Sempre digo que és o ar que eu respiro.
Não te dou folga.
Uso, abuso e te lambuzo....
Mas, cá pra nós...Adoras, né?
Adoras sim! Vai, revela!
Todos os dias venho aqui já cedinho te tocar.
Toco em todos os lugares,
aperto no teu enter muitas vezes.
Não te sufoco, te dou espaço, aperto tua vírgula.
Comigo não tem moleza,
toco fundo em todos os teus pontos!
Quando quero te dizer algo mais malicioso,
vou nas tuas...
Isso mesmo, nas tuas reticências...
Ai, meu note amado!
Quero-te noite e dia.
Já levanto pensando em ti.
Muitas vezes esqueço até de dormir e me nutrir.
Ontem, por exemplo, estive contigo na calada da noite
e te levei ao máximo dos prazeres.
Apalpei o que deu...Fui no +++ e pensei que ias reclamar, eu até poderia ir no deletar.
Mas sei, te conheço...Fui direto no teu ponto final.
Gemeste e eu, já não aguentava mais.
Mas fala, fala...Foi ou não foi uma noite de @?!

Maria Augusta Búrigo e Silva

 

 
Maria Beatriz Silva
(Flor da Esperança)
Lages de Muiaé - Brasil
 
NOSSA NOITE


Logo mais... Talvez!
Quando a tarde se for
O sol se pôr
Será nossa primeira vez

À noite em silêncio chegando
Brisa espalhando
Leve perfume no ar
Azul no céu bordando
E um tango para dançar

Tu chegas tão sereno assim
Trouxestes as estrelas do teu céu?
Quero teu amor em fim
Cubra-me com o teu mel

Prenda-me no teu abraço
Enquanto contemplo a noite
A lua cúmplice dos nossos segredos

Nossas mãos unidas
Dedos entrelaçados
Desejos compartilhados
Beijos demorados

Entrego-me a ti
Com todo amor que há em mim
Desejos tantos que nunca vivi

Sucessivas chuvas de estrelas cintilantes
Perco minha timidez
Olhares se cruzam num instante
Dou-te meu beijo, mais uma vez

Em teu peito adormeço
Até que chegues o raiar do dia

Num café da manhã comemoramos
Com sentença de felicidade
A noite que nos amamos
Com tanta intensidade

(Flor de Esperança)

 

 
 
 
 

Maria da Fonseca
Lisboa - Portugal

O PERFUME DA TÍLIA



Tenho uma tília adorável
Bem diante da janela,
Sentindo odor agradável
Se chego mais perto dela.

Plena de flores discretas
Pequeninas, rendilhadas,
Com o Sol luzem abertas,
Sedutoras e douradas.

A sua sombra aproveito
Em dias de mais calor,
Pois se até Deus deu o jeito
Pra bem crescer com vigor.

Mas não estão todas assim
Tão belas e tão frondosas,
Há outras no meu jardim
Vergadas e desditosas.

A brisa leva o perfume,
Com ela o meu pensamento,
Saudade sem um queixume,
Outra tília, outro vento...

Acalma-se a minha mente
Face ao suave prazer,
De um raminho presente,
Como outrora eu colher.

Maria da Fonseca

 

SOL POENTE
Maria da Fonseca


Subia os degraus do Forte, do Forte de Santa Catarina. Olhando para o lado esquerdo vi um enorme balão de fogo que procurava esconder-se atrás do casario da cidade. Recuei descendo dois degraus para poder admirar o lindo pôr-do-sol no mar. O balão rotundo, cheio dum amarelo avermelhado, ia pousar no mar, um mar brilhante que encandeava, apesar dos óculos escuros. Era tal a beleza que tinha dificuldade em desviar os olhos! Quando os desviei já o Sol tinha começado a mergulhar no horizonte e a sombra suave e persistente a envolver o mar, a praia, as casas… Um sentimento de profunda quietude envolvia-me também.
- Vamos ficar aqui? – Perguntou o meu neto, que subiu e desceu a escada não sei quantas vezes.
A magia do momento terminou.
- Não Tiago, vamos embora.
Esta visão desde sempre me tem encantado. Já admirava este pôr-do-sol quando as minhas filhas eram crianças.
Em Setembro íamos para o Algarve. Era o tempo das férias, da liberdade sem horários.
À tardinha descíamos invariavelmente a escadaria de pedra tosca do Forte.
Parávamos no primeiro miradouro ainda quente. Respirávamos a brisa que se levantava do belo mar, azul, imenso, poderoso – momentos inesquecíveis!
O pontão com o seu farol era um apelo!
Depois, o segundo lance de escadas levava-nos para o lado do Arade, que se mostrava manso, com uma ligeira ondulação na água, provocada pelos pequenos barcos a deslizar elegantes e coloridos.
Descendo os restantes degraus atingíamos o cais com o pontão diante de nós e no final o farol. Nem olhávamos para a praia. Seguíamos pontão fora com as ondas a bater dum e doutro lado, elevando-se a água feita espuma a inundar o quebra-mar. A sensação das gotículas salgadas nas faces fazia-nos acelerar o passo.
Assim chegávamos ao farol!
Aí, já só tínhamos o mar diante… O mesmo Atlântico que empolgou o Infante!

Maria da Fonseca

 

 

 

Maria de Sá

Vila Franca de Xira - Portugal

SOU UM LIVRO INCOMPLETO POR ONDE VAGUEIAM AS MINHAS LETRAS


 


umas pequenas
outras soberanas
nelas se refletem o meu dia a dia
na sombra das palavras deslizo incógnita de mim mesma
não sonho palavras
procuro letras
teço meu rosário da saudade
são o grito do que sinto
essas letras bailam serenas
o ballet de diversas poemas
de ti
de mim
para ti
para mim
dançam o calor abrasador de um querer
em delírios de prazer

Maria de Sá

 

PROSA
Maria de Sá


Voo nas asas de pegasus pelo universo/encontro hermes com uma túnica resplandecente de ouro com as sua virgens /perguntei a mim própria para onde iriam/interpelei-o sobre mim. Sofri a decepção do silencio a pairar no universo/tentei ouvir esse silencio/em vão /parti procurando-me /bati por onde bailam estrelas e cometas em competição vestidos de branco azulado/arrastam-se cheios de aragem vazia/tanta solidão/sinto-me perdida num mundo ao qual ja não pertenço /preciso de me esquecer dentro de mim/refugiu-me nas noites vadias para não esquecer do que nada daquilo que sou, apenas uma corrente de um rio/deixo-me navegar nas águas da esperança cheia de frios arrepiados das ausências e partidas/acabo por naufragar na corrente para perder-me e não reconhecer que já fui uma princesa de um reino/nesse reino deixei pedaços de vida que me afundam na solidão/ajudam a seguir o rumo de eolo /os deuses do olimpo vigiam o meu pegasus/vamos ao encontro das constelações luminosas/fazem ecoar por este universo a voz poderosa do hoje.

Maria de Sá

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa
Oeiras/Portugal

SONETO PARA… MORDER!


Em verdade só sou quando me dou,
Assim que sol e mar fervem cá dentro
Transmutando-se em fruto, em alimento,
Do poema/animal que me habitou…

As letras, coisas vivas que se comem,
São frutos que se oferecem se os procuro,
A suscitar mil fomes que não curo
Enquanto outras loucuras me não domem,

Mas é por este mundo, a que pertenço,
Que sinto, escrevo e, às vezes, também penso,
Que travo estas batalhas, que jamais

Me inibirei deste banquete imenso!
Por ele nestas palavras me condenso
E mordo… como os outros animais…

Maria João Brito de Sousa – 23.08.2012 – 19.19h
 

 

DOS MENINOS QUE NASCEM… E DOS QUE MORREM…
Maria João Brito de Sousa


O menino sentiu, quis e bateu à porta; - Truz, truz…
Era já uma decisão pessoal. Transcendia-o, mas era a mais importante das decisões que uma vida pode tomar assim que o tempo e as variáveis apontam o instante e o passo inicial do primeiro caminho…
A porta abriu-se de rompante deixando filtrar uma luminosidade vaga, macia, imperiosa. Sabia exactamente o que fazer. Foi em frente, sem hesitar um segundo. Impunha-se-lhe ser o primeiro a alcançar aquele indefinível pontinho rosado que sabia sem conhecer.
Assim se cumpria no seu primeiríssimo destino. O segundo seria o da transformação e também a esse foi cumprindo no mais pleno usufruto de todas as suas potencialidades. Cresceu no conforto morno do nicho, utilizando cada novo pedacinho de si, cada instrumento que o tempo e a vida lhe legavam no momento certo, sem questionar-se mais do que o que empenho do próprio gesto lhe poderia impor… fruindo apenas, aprendendo a cada segundo, trabalhando, sempre, na sua própria construção.
Ao cabo de uns poucos meses, aprendeu a chuchar nos deditos que acabavam de formar-se, a ensaiar os movimentos respiratórios que o futuro lhe viria a exigir, a pontapear o líquido amniótico que o envolvia por inteiro e a dar cambalhotas, como se adivinhasse que todos, mais tarde ou mais cedo, nos poderemos ver forçados a experimentá-las. Cumpriu-se, cumprindo-se assim. Simplesmente.
Ouviu sons e aprendeu a entendê-los. Reconheceu-lhes as modulações e, sem que ninguém o sonhasse, dançou as suas primeiras danças.
Descobriu que há horas estáticas, silenciosas em que o sono nos embala e seduz e horas apressadas, trepidantes, em que importa estar alerta, escutando e assimilando cada novo impulso externo. Por vezes – tantas… - respondeu aos mais ínfimos estímulos naquele morse muito pessoal, mal-amanhado na ternura da curiosidade animal que desponta. Comunicava. Sabia-SE e dava-se a conhecer, respondendo a quem o saudasse desde o lado de fora e entendeu – entendeu mesmo! – que a vida continuava para além do oco macio onde lhe coubera começar a ser.
Resmungou e chorou sem que outros ouvidos o pudessem ouvir e sorriu, sorriu muito, sem que outros olhos o pudessem ver, mas ensaiou e burilou, a cada segundo, o seu novo estatuto de ser vivo em construção.
Um dia… um dia chegou o momento da grande aventura, da assustadora viagem, do aperto, do sufoco, do rude encontro com um desconhecido que apenas pudera pressentir. Foi duro. Nada se consegue facilmente nesta vida e até os meninos que nascem têm de lutar pela sobrevivência.
Sofreu pela primeira vez e protestou gritando a plenos pulmões enquanto as mãos, desesperadamente, tentavam segurar coisa nenhuma.
Alguém lhe estendeu um dedo que agarrou com a força de quem conquista um mundo… ou um direito. Adormeceu a seguir, exausto, por um instante rendido ao novíssimo desconforto. E continuou a viver…
Assim nasceu o menino-vivo.
Em tudo o mais o meu viveu, sentiu, aprendeu e se cumpriu mas, na hora do sufoco, não teve mãos que o amparassem na inevitável aventura. A grande, grande viagem foi a primeira… e a última.


Maria João Brito de Sousa

  

Registre sua opinião no

Livro de Visitas: