MAGAZINE CEN / Fevereiro 2012 “POESIA“

 

6º BLOCO

 

 

Edição de Carlos Leite Ribeiro

 

 

 

 

 

Maria Moreira

(Maria da Conceição Rodrigues Moreira)
Belo horizonte MG

 

Poema para o Caule


Caule, da aroeira do junco ou da mangueira
Da erva cidreira, que é planta medicinal
E nasce nas capoeiras.

Caule, de tantas plantas lá das roças
Das simpatias das mães de santo
Caule, das ervas santas das mantiqueiras
E do lenho duro de uma palmeira.

Caule, parte aérea das plantas
A coisa mais santa de uma rezadeira
Liga a raiz com as folhas
Sustenta a casa dos passarinhos
Empresta os galhos para seus ninhos.

Caule, conhece a força das tempestades
Vive ao relento muito a vontade
Faz cerca forte para reter o gado
Caule, que em noites quente enluaradas
Ouve os segredos dos apaixonados
Trocando juras enamorados.

Caule da gameleira, que tem na feiticeira a sua aliada
A feiticeira que só trabalha nas sexta-feiras
Fazendo rezas bem entoadas.
Caule, que brotou da terra antes do homen
Aqueceu o frio e aplacou a fome.

Caule, substantivo simples comum
Masculino singular! E é o nome do meu filho caçula.

Maria Moreira (Maria da Conceição Rodrigues Moreira

 


 

 

"NATO" AZEVEDO
ANANINDEUA, Pará

 

LAR, DOCE LAR


A mãe, dona de casa, se atrapalha;
entre mil afazeres vai, se agita.
Enquanto com seus filhos ela ralha,
já na mansão madame corre aflita.

As empregadas chama, mostra a falha
e com todos reclama, "picha", grita,
sem ver que lá na esquina a vil gentalha
vive sob papelão que a casa imita.

Amigo, se tu tens comida e um canto,
esquece as suas mágoas, cessa o pranto,
que a Vida nos dá mais que merecemos.

Pois há gente dormindo na calçada,
sem lar, sem pão, sem leito e fé... sem nada,
enquanto imaginamos que sofremos.

"NATO"  AZEVEDO

 

 

 

Nilton Pavin
São Paulo
 

Existe ou Não Existe?

O silêncio não existe
Mesmo calada
Minha mente fala
Às vezes grita
Com quem, não sei
Mas já a ouvi falar
Principalmente comigo
Sei que amigos ela têm
Cientes talvez
Ora inconscientes
Ora oniscientes
Mas os desejos latentes
Da delirante mente
Surgem sempre
Num repente
Num piscar d’olhos
O silêncio não existe
Nunca existiu
E jamais existirá
Pois sua mente
Nunca irá parar
De meditar e
Pensar e raciocinar
E realizar seus
Desejos repletos
De ensejos reais
Irreais, inquietos
Discretos e infinitos
Aflitos por falar
Dialogar com um par
E acordar com um ímpar
Pra ela tanto faz
O importante para ela é o
Silêncio quebrar
Logo o silêncio não existe
O que existe então?
A mente existe?
Desista, nada existe!
Inclusive você
Que paira na sonhadora vida
Perdida no tempo
Se é que o tempo existe!

Nilton Pavin

 

 

 

 

ODENIR FERRO
Rio Claro, Estado de São Paulo

NESTE FIO MAGNÉTICO,



Eu almejo para mim, tudo o que todos desejam para si mesmos:
- Tudo de bom! Independente do que seja "esse tudo de bom"!...
Eu me posiciono contínuo, reinventando-me dentro do meu interior.
Afável, nas invenções em todo o meu enredo existencial circundante.
Profuso nas rotações e nas translações do Planeta Terra! - Hein?...Psiu!
- Eu estou aqui! Também, até, nas precessões ou denutações da Terra!
 
- Ainda estou por aqui; caminhante, reinventando as minhas Histórias!
Fantasiando as minhas liberdades, sempre tão reprimidas, mas vividas.
Dando-me as guaridas para despertarem-se dentro de todas as facetas
Componentes do meu todo; que sempre se reestrutura neste fio
Magnético, que é a sequencialidade da linha existencial da Vida!
 
Eu sempre estou recomeçando dentro do pretérito mais que perfeito.
Ou, dentro do futuro do presente; neste presente, que vive querendo
Reorganizar-se dentro deste meu eu afim; num sim, eternamente,
Recomeçar-me dentro destes muitos pontos descosturados, ou,...
Inacabados. No tecido real que vai delineando as minhas trajetórias
Envolvidas dentro das Histórias deste nosso querido Planeta Terra!
 
Recomeçar,... É tudo o que, possível for, ou é, ou seja, sequencializar
Dramatizar, interpretar, revolucionar, gritar, apaziguar, dimensionar,
Tudo que até aqui, já havíamos começado; ou fazendo ou inovando,
Ou criando ou recriando, os nossos mais belos e sublimes acertos,...
Refazendo as nossas envolventes sutiliezas nas alterações do Curso!

 

 

 

 

Olympio Coutinho

 

 

TROVAS


- “Querido, diga porque
acorda sempre risonho?”
-“Um sonho lindo, você,
enfeita sempre o meu sonho”.

Tenho ciúmes da lua,
ciúmes loucos, meu bem,
que passeia em tua rua
e no teu corpo também.

Essas rosas que florescem
em jardins de casas pobres
são as mesmas que fenecem
enfeitando covas nobres?

Eu não lamento a saudade
que a tudo invade porque
é tão bom sentir saudade
quando a saudade é você.

Eram alegres os meus olhos
e tristes eram os teus,
por serem tristes teus olhos
ficaram tristes os meus.

Felicidade, um ranchinho
e, dentro dele, nós dois,
nove meses de carinho
e um molequinho depois.

Ao homem Deus deu a Terra
e veja o que o homem faz:
cria as hienas da guerra
e mata as pombas da paz.

A ciência se renova,
é a senhora da razão;
e o que melhor a comprova
é a grandeza do perdão.
 
Ao Pai implorou Jesus
para os incréus piedade;
mesmo pregado na Cruz,
deu lição à Humanidade.

O trabalho do banqueiro
está no seu jogo impuro:
tem lucro com meu dinheiro
e ainda me cobra juro.

Amor cigano, utopia,
triste  busca por alguém;
quem tem um amor por dia
não tem o amor de ninguém.

Um eremita perfeito
eu encontrei certo dia...
Era tão chato o sujeito
que de si mesmo fugia.

Eu creio na honestidade,
na justiça clara e reta,
no fim da desigualdade...
Não sou louco!... Eu sou poeta.

Na garganta ficou preso
o grito do meu desgosto
ao perceber que o desprezo
dói mais que tapa no rosto.

Desprezo eu senti de fato
ao ver em seus escaninhos
aquele nosso retrato
rasgado em mil pedacinhos.

Finges desprezo e eu não ligo,
vejo amor no teu olhar;
como diz ditado antigo:
“Quem desdenha quer comprar”.
 
Indiferença de leve
percebi nos olhos teus:
Tua boca disse: “Até breve!”
Teu coração disse: “Adeus!”

Perdida não é a bala,
que gera um medo profundo,
mas aquele que se cala
ante a violência do mundo.

Leva a palha com carinho
e, depois, leva alimento;
assim é que o passarinho
mostra seu devotamento.
 
Quem cultiva uma amizade
dentro do seu coração
pode morrer de saudade
mas nunca de solidão.

Cultive a fraternidade
como quem cultiva a terra;
quem planta grãos de amizade
não colhe os frutos da guerra.
 
O trem da vida ao destino
chega no horário marcado;
- Por que não desce o menino,
que embarcou tão animado?

Um mau negócio o turista
faz no Rio de Janeiro,
pois enquanto vê a vista
fica a prazo sem dinheiro.

Feliz de quem não permite
que o domínio da razão
seja mais forte e limite
o que sente o coração.

Nas noites claras de lua,
no desenho da calçada,
vejo a silhueta tua
à minha sombra abraçada.

Noel Rosa bem sabia
o que mata uma paixão:
A noite triste e sombria
sem luar e sem violão.

Bem malandro é o Ademar,
de “fogo”, quase caindo,
entra de costa em seu lar
pra fingir que está saindo.

A banda toca um dobrado
e o português logo diz:
- “Eta maestro apressado,
ninguém aqui pediu bis!”

Oferecendo a miragem
de uma vida sem escolta, 
o vício vende passagem
para a viagem sem volta.

“Cada vez mais pobre fico...”
diz, num lamento, o agiota;
e vai ficando mais rico
quanto mais conta lorota.

Do poeta o maior sofrer
assim pode ser descrito:
é a luta para escrever
o que nunca foi escrito.

Detento muito gabola
dá drible no seu revês:
- Eu controlo bem a bola,
mesmo com duas nos pés.

A fé que eu tenho encontrei,
depois de buscar a esmo,
naquele dia em que olhei
para dentro de mim mesmo.
 
No alpendre do casarão,
em permanente vigília,
Dirceu cantava a paixão
em versos para Marília.

 

 

 

 

 

Vinni Corrêa
Rio de Janeiro

 

 

Linguagem Universal

Teus lábios, doces almofadas onde durmo meu corpo,
Descarta qualquer brilho artificial, pois tua boca
Está cheia de estrelas falando uma língua universal:
A língua da liberdade.
Nesta linguagem meus sonhos cospem o terror da ignorância
E engolem o delírio da coragem.

 

 

 

 

 

Véra Lúcia de Campos Maggioni
Santa Rosa - RS

 

As artes são fiandeiras


 
As fiandeiras nas relíquias,
Estoques de maneiras,
Desfiam sóis da “antiqua”
E os tecem nas luas cheias!

As artes em preceitos,
Sendo céus sem conceitos:
Nas manhas as artimanhas,
Nas teias, as aranhas!

Chegam as vozes eleitas,
Prefaciando alquimia,
Dos crepúsculos e auroras,
Artistas, poetas e rosas:
- Sejam beleza, não utopia!

Véra Lúcia de Campos Maggioni®
Vera&Poesia® / VeraePoesia
Em 18 de maio de 2011.
Direitos autorais reservados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fim do 6º BLOCO

 

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