MAGAZINE CEN

 

Junho 2012

Edição de Carlos Leite Ribeiro

- 10º Bloco -

pág. 11

 

 

 

 

Marisa Cajado
Guarujá SP/BR

 

 

Ao som de uma viola
A minha alma evola
Flutuando pelo ar.
E empreende a subida
Levando com ela a vida
Em sinfonia a soar

Então eu entoo o canto
E enquanto a voz levanto
As mágoas se vão embora.
Firmemente eu continuo
Em sonhos que possuo
De amor e paz, cada hora.

Marisa Cajado

 

 

POETA E POESIA


O poeta é como a fonte
Sua poesia brota e segue
Como a água a deslizar
Quando atinge outro horizonte
Ele perde seu alcance
Não sabe onde vai parar

Ele fica com saudade da poesia
Que dele nasceu um dia
Mas conserva a ligação
Este fio que a liga a nascente
É luz formando corrente
Pra aquecer seu coração.

Marisa Cajado

 

 

Mónica Serra Silveira

 

PELOS DEDOS


Meu amor transborda
Não cabe no peito
Escorre pelos dedos
Que querem
Mais que tudo
Descaradamente te tocar
E como não desejariam?
Essa tua pele mágica
Com uma vontade trágica
Esse santo calor!
Ah, esse meu amor...

Monica Silveira

 

 

Nan Hoelzle
Belo Horizonte-MG/BR

 

Você Esta Feliz?


Você esta feliz?
O que é que você tem para ser feliz?
"Eu tenho a mim mesma."
A felicidade começa é assim,
com a compreensão de que "Eu tenho a mim mesma."

Nossa felicidade e o nosso modo de ser
são proporcionais a esta verdade.
A nossa felicidade esta refletida a um espelho
em que vemos o reflexo daquilo que acreditamos ser.

Nós refletimos o que vemos dentro de nós,
refletimos pensamentos, amores, alegrias...até tristezas
e mesmo assim quando refletimos tudo isso
a nossa luz permanece acessa.

Somos o centro onde essa força começa, o ponto focal.
Quanto mais tentamos ser outra pessoa,
que não nós mesmos, menos nos sentiremos felizes.

Felicidade significa equilíbrio na vida.
Ela esta sempre ao alcance de nossas mãos,
esperando o momento presente, viajando ao nosso lado, no eterno.

É como se Deus estivesse lhe dizendo:
O que você quer verdadeiramente?
Qual é o seu desejo mais profundo?
Realize-o!

A felicidade é tão simples
quantos aos fogos de artifícios no céu.
Deus abraça tudo.
O bom e o mal, a beleza e a feiura, a verdade e a falsidade,
a felicidade e a tristeza.
tudo é aninhado em seu peito.

Deus é poder e amor que, enquanto abraça tudo,
cria tudo, faz progredir e desenvolver.
Tudo Deus transforma, o mal em verdade,
a desenvoltura em felicidade.

Você se torna feliz quando faz outras pessoas felizes
isto é o seu conceito de felicidade,
não importa sua posição, importa que dentro de você
existe felicidade que possa ser passada para alguém.

Para a nossa felicidade ser completa,
não podemos deixar que a emoção nos governe.
Encare as situações sem preconceito,
não existe alegria, felicidade quando se copia uma ação anterior,
existe felicidade e alegria de viver
quando somos capazes de adicionar sempre um toque novo
criativo e fazer as coisas de uma maneira diferente.

Sua família, seus amigos(estes quando verdadeiros)
tudo isso nos traz a felicidade.
Em saber que podemos contar sempre com eles.

Na verdade, eu nunca compreendi o segredo do Carisma,
algumas pessoas o tem outras não,
podemos carregar o espelho do reflexo carismático
dentro de nós mesmos, mais profundamente do que pensamos.
Seja com quem for, seja como for gerado o carisma,
algumas pessoas o tem e quem esta ao seu redor
o sente como todos sentem a luz do sol e o calor,
mesmo quem é cego.

O carisma estou certa, é gerado em parte pelo toque
universal de amor, felicidade interior.

Como é abundante a felicidade interna
daqueles que dão a impressão de que a sua felicidade é interminável.
Como é compadecida a compaixão daqueles que andam
pelo mundo tocando corações como se sentissem
a mais profunda necessidade, a dor secreta,
a mais alta esperança e, através de um toque carismático
e dissessem: Eu compreendo tudo...a felicidade existe!

Sem um coração grato,
não vivemos nunca uma verdadeira vida feliz.
"Eu tenho a mim mesma."
E você tem a você.
Todos nós somos manifestações de Deus,
será que precisamos de mais alguma coisa para ser-mos felizes?

Nan Hoelzle

 

 

Te Amo


Te amo assim... de mansinho...
Como este entardecer...
Amo vê-lo chegando devagarinho
Com passos firmes se aproximando
Olhar serio e penetrante
Como se fitando a minha alma!

Amo...
Amo-o, mesmo quando desvias o olhar
E se coloca em algum lugar distante
Ai, então, torna-se uma ilha noturna
Coberta pela vegetação fechada
De nada adianta
Perante o meu olhar de lua
Que Vê refletido em mim mesma!

E quando a sombra se dissipa
Lá esta você translúcido de tanto amor!

Amo vê-lo gargalhar
E quando o sorriso se oculta
Amo enxugar o seu olhar
Beber suas emoções mais profundas e sufocadas!

Amo vê-lo se embargar... se dissolver
E, lentamente, se purifica...
Lentamente como a flor que desabrocha
Oferecendo-me um espetáculo tão particular!

Amo escrever que te amo, te amo, te amo
Amo a tortura de tentar expressar
Nestas ultimas palavras
Que ninguém, nem o tempo,
Me impedirá de te amar eternamente!

Nan Hoelzle

 

 

Zélia Chamusca
Lisboa/PORTUGAL

 

VOO INSUSTENTAVEL


Meu ser insaciável,
No voo insustentável,
Não encontrou
Espaço mensurável
Para poisar
E, caiu…

Bateu,
Com impacto,
No gélido frio
Da psicológica luta
Na busca
Do Inacessível,
Da Luz
Inteligível
Que conduz
A vida,
A força de viver
E de ser.


Zélia Chamusca
Lisboa/PORTUGAL

 

 

PORQUE É A FELICIDADE INACESSIVEL?


Lembrei-me de conversar com todos os meus amigos, aqui, sobre este interessante tema, a Felicidade.
Todos nós procuramos, permanentemente, a felicidade. Essa busca é uma necessidade inerente ao nosso ser, mas, ela cada vez mais se torna inacessível e porquê?
Penso, como Santo Agostinho que não a encontramos porque nos enganamos no caminho. Conhecemos o caminho do Bem mas desviamo-nos dele.
Porquê? Porque somos humanos, não somos perfeitos, não somos deuses.
Mas, onde reside a felicidade?
É este o problema.
A felicidade é um estado de espírito, não um objecto que se procura.
Ela está dentro de nós. É aí que teremos que a procurar.
Comecemos por nos amar a nós próprios para depois pudermos amar os outros.
Se não nos amarmos a nós próprios nunca poderemos amar alguém.
Ou seja, se não tivermos auto-estima nunca encontraremos a felicidade.
É necessário que, permanentemente, na nossa vida, incentivemos e reforcemos a nossa auto-estima através de pensamentos positivos, que conduzam a sentimentos, emoções, sensações positivos.
Esta atitude exige uma aprendizagem permanente, um aperfeiçoamento.
Se adotarmos uma atitude positiva perante a vida, reforçando os nossos pensamentos positivos e evitando os negativos, a nossa auto-estima será cada vez mais forte e, consequentemente, seremos muito mais felizes e comunicaremos aos outros a nossa própria felicidade.
Se nós próprios não nos sentirmos felizes nunca poderemos transmitir felicidade a alguém.
Hoje, levantei-me e comecei a escrever este texto para vos desejar a todos um muito bom dia.
Saibamos ser felizes!

Zélia Camusca

 

 

PAULO ROBERTO DE OLIVEIRA CARUSO
NITERÓI (RJ)

 

Água com açúcar


Afonso foi criado por seus pais, Otaviano e Marialva, de forma sempre atenciosa e blandiciosa, recebendo tudo o que desejava. Sempre foi rebento único, motivo que fez seus genitores se dedicarem a ele de modo a ceder a todos os seus caprichos, na medida do possível e mesmo do impossível (isto sempre relativizado). Dedicavam todo o seu amor ao menino. Diferente não se pode dizer que foi sua alimentação, a qual sempre se fez recheada de guloseimas repletas de açúcar e gordura (os tão conhecidos carboidratos). Como exemplo, não raro o casal mergulhava a chupeta do guri em mel, com o fito de cessar o choro constante do pequenino.
Em sua dieta, alimentos como verduras, legumes e frutas saudáveis, ou seja, ricos em nutrientes se faziam sempre ausentes. Mostravam-se presentes não raro sanduíches, hambúrgueres, sorvetes, frios, refrigerantes, doces, salgadinhos fritos, entre outras delícias nada aconselháveis de forma descontrolada.
Ao chegar à escola, este diariamente se via ridicularizado por seus colegas de turma, ao receber alcunhas humilhantes diversas, devido a seu notório excesso de peso. Ademais, quando se dirigia ao banheiro, as provocações se faziam gélidas por parte de muitos colegas de escola, já que, antes que este cruzasse a porta para entrar no recinto, ouvia piadas dizendo que ele passaria o dia no estabelecimento de ensino por não conseguir se levantar do vaso sanitário.
O menino então cresceu, atingindo peso amplamente desproporcional à sua baixa estatura. Além da gulodice notória do menino, outro fator que não permitia a ele melhorar o seu estado era a total indiferença do mesmo frente aos exercícios físicos, por mínimo esforço que estes despendessem. Não tardaram enfim a chegar, com o decorrer da idade, alguns sintomas como sede excessiva, fadiga ainda maior do que a normal e vontade quase incontrolável de urinar.
Seus pais, percebendo os sintomas apresentados pelo filho, após conversarem com um médico endocrinologista amigo, levaram Afonso para a realização de uma bateria de exames, sendo que o resultado destes apontou não somente diabetes (altíssimo índice de glicose), mas também altos índices de colesterol LDL e de triglicerídeos, baixo índice de colesterol HDL, entre outros problemas sérios de saúde. Por conseguinte, o médico prescreveu um remédio para a redução de apetite, uma dieta balanceada (obviamente oposta à tradicional do rapaz) e exercícios físicos (estes com acompanhamento de profissional, um personal trainer). O rapaz soluçou incomensuravelmente e derramou rios de lágrimas em pleno consultório médico, visto que deveria deixar completamente seus hábitos alimentares de quase trinta anos. Ademais, nunca praticara exercícios físicos! Quiçá em academias equipadas com aparelhos e repletas de gente musculosa que poderia humilhá-lo, mesmo sem nada vir a dizer a ele. Bastaria o olhar...
Tão logo deixaram o consultório, Otaviano e Marialva, de modo coercitivo, levaram-no a uma academia dotada de excelente reputação no mercado, recheada com excelentes profissionais, aparelhos de última geração e equipe médica à disposição. O cachopo deixava suas lágrimas fluírem como refrigerante a até poucos minutos escorrer livremente por sua garganta.
O gajo considerava ridícula a obsessão dos companheiros de academia em busca do tão almejado e famoso corpo perfeito. Eles eram fúteis, segundo concebia o rapaz, uma vez que não pareciam conhecer o sabor dos petiscos variados que a vida oferece de bom grado. Não adiantava algum profissional chegar a ele solicitando que este começasse com leves caminhadas na esteira, indo depois aos aparelhos; tampouco adiantava dizer-lhe que sua saúde era quem clamava por mudanças drásticas de atitude. Nem seus pais pareciam lhe propiciar motivação.
Em átimo algum Afonso cogitou enfrentar seriamente as esteiras, as bicicletas ergométricas, a piscina ou os aparelhos de educação física. Sua vontade era a de unicamente se manter em torno de duas horas sentado à frente de um dos computadores da academia postos à disposição dos alunos. O máximo que ele se dedicaria às atividades físicas seria em torno de dez minutos de caminhada simples na esteira, o suficiente para retornar deveras suado ao lar, o que disfarçaria a sua inércia.
Afonso, alguns meses após a consulta médica e a matrícula na academia, já morava solitário num apartamento da família, em virtude de haver severamente discutido com seus pais. O orgulho era o sentir mais presente em sua vida, o que se mostrou evidente quando, mesmo cego (devido ao diabetes), preferiu contratar profissionais da saúde a contar com os próprios pais.
Aos trinta e um anos, Afonso, já cego devido ao avançado estágio de diabetes, resolveu visitar a sua terra natal, com o intento de sentir o que pudesse da atmosfera local, inclusive tendo contato com indígenas. Fazia mais de vinte anos que ele não se encontrava na região. Ocorre que, no momento de deixar uma canoa sobre a qual Afonso cruzara o rio Amazonas (sito próximo à região em que ele crescera), ele se desequilibrou e despencou neste, sendo imediatamente transformado em banquete para as piranhas, como se ele fosse um boi gordo indo ao abate. Exatamente em água doce como o açúcar, a única água que ele bebera quando em vida.

Paulo Roberto de Oliveira Caruso

 

 

Jocosidade perigosa com a morte


Uma banda de Heavy Metal extremo, denominada Podridão Absoluta, com dez anos de atividade, adota como temática letras sangrentas e com pomposas referências à Medicina Legal. Há anos almejava conseguir lançar seu disco por Brasil e exterior, seguindo os passos de outros grupos nacionais. Entretanto, não conseguia que os interesses de gravadoras especializadas se voltassem para ela, visto que havia uma quantidade realmente vultosa de bandas com o mesmo estilo disputando as vagas existentes.
Agora, porém, a produção do aludido disco dar-se-ia de modo independente, graças aos infindáveis avanços tecnológicos alcançados na área de gravação ao longo dos anos. Sabiam os jovens que muita coisa é possível quando se tem à disposição um estúdio de gravação caseiro, no modo digital, a exemplo do que incontáveis artistas realizam mundo afora. Sabiam ademais que hodiernamente sítios virtuais se voltam para a mostra de vídeos os mais diversos e que estes mesmos constituem-se uma valiosa ferramenta rumo ao sucesso, devido à exposição gratuita e razoavelmente popularizada, mormente entre os mais jovens, os quais formam de fato seu público-alvo.
Resolveram os cavalheiros por conseguinte combinar a seção de fotos com vistas ao cada vez mais próximo lançamento de seu pioneiro álbum, há alguns anos engavetado de modo forçoso. Eis que deu-se a discussão acerca do local apropriado para a captação das fotografias a se dirigirem à capa do disco. Cogitaram-se: ruínas de algum lugar conhecido por eles; o açougue do pai de um dos rapazes; uma sala vazia que eles tinham à disposição na faculdade; o Instituto Médico-Legal da região. Enfim, Dagoberto, o guitarrista do trio, concebe a ideia acerca do cenário ideal para a capa do álbum: o cemitério daquela pequena cidade onde moravam. Após alguma discordância do baixista e vocalista Rivadávia, que considerou nada criativa a ideia vencedora, chegou-se ao acordo no sentido de se aceitar a sugestão.
Dado isso, o trio marcou com o fotógrafo contratado, Bento, o encontro para a quinta-feira seguinte na Administração do cemitério, depois de esta não criar empecilhos para a captação das imagens, afora que não se criasse nenhum tipo de furdunço ou algazarra no local, o que poderia espantar os demais visitantes que viriam pacificamente para homenagear seus entes queridos mortos. Contudo, Herminiano, baterista do Podridão Absoluta, tendo levantado uma quantia suficiente com seus colegas, conseguira, junto à referida Administração, marcar para as onze horas da noite, horário em que o cemitério já haveria encerrado a sua visitação normal. O portão seria aberto para que a banda, com exclusividade, pudesse realizar o seu trabalho; outrossim, ninguém seria perturbado com isso, visto que somente os três, o fotógrafo, a Administração e os mortos estariam por lá. O sossego seria garantido, principalmente para aqueles já em descanso sempiterno.
Chegados o dia e o horário marcados para a captação das ilustrações que se adequariam à sangria carniceira das letras, instrumentais e vocal, todos os cúmplices faziam-se presentes. Até mesmo o pessoal da Administração e dois coveiros ainda a zanzar por lá, feito almas penadas, se mantinham curiosos, ávidos para saber que tipo de fotografias decentes poderiam ser captadas num cemitério, mesmo para um conjunto a dedicar-se ao Heavy Metal.
Pedaços diversos de órgãos bovinos e de suínos banhados em sangue; uma serra elétrica antiga, porém em bom estado; uma caveira em tamanho real, mas falsa; sapatos e farrapos de roupas – tudo para simular um cadáver humano em decomposição – estavam lá nos plenos conformes, o que fazia a Administração não saber ao certo se havia acertado ao concordar com o inesquecível evento. Afinal, além de ser terminantemente vedada a entrada de estranhos (e, no caso, deveras estranhos), ter-se-ia de deixar tudo limpo na medida do possível para um cemitério decente.
Acertada a posição das luzes, o grupo se estabeleceu então em posição para o início das fotografias. Fez poses diversas, mas sempre com a temática sanguinolenta e maldita à qual se haviam proposto. Seguiu-se a sessão e, dada uma pausa, logo os integrantes começaram a verificar o trabalho do fotógrafo. Os administradores se mantinham incrédulos perante as imagens expostas e combinaram que jamais se daria este tipo de coisa por lá novamente, por dinheiro algum, apesar da quantidade grande de gargalhadas abafadas dos funcionários. Afinal, o medo se justificava porque eles temiam que maus fluidos pudessem se interessar por suas almas.
De repente, o guitarrista Dagoberto, que aproveitara para fumar um cigarro alucinógeno seu, percebeu um vulto se deslocando entre os esquifes que guardavam os restos humanos de diversos tipos de personalidades. Ele, curioso como sempre, para descobrir o que lhe fustigava a alma, deixou imediatamente os colegas. Pensara que seria alígera a sua escapada e que eles nem perceberiam. Sentia-se completamente atraído pelo que acabara de ver; sua curiosidade o inquietava, de tal monta que se olvidou dos colegas que o aguardavam.
Dago, como era carinhosamente chamado por eles, caminhava gelidamente entre uma aparente infinidade de féretros e lápides. Adentrava mais e mais e ouvia ruídos. À medida que se aproximava do ponto onde acreditava ter visto algo, seu nome era sussurrado vagarosamente pelo vento: “Daaaago, Daaaaaago”. Aquilo o excitava, até que o rapaz finalmente chegou ao local que atraíra sua atenção. Pensara ter visto Elvis...
A brisa se transformava em ventania. Seus olhos lacrimejavam, de tanta poeira e cinzas e, em sua respiração e tosses, justamente estas cinzas invadiram seus pulmões de forma tenebrosa e irascível. Dago se sentia sufocado e começou a caminhar de volta ao grupo de amigos, mas de modo trôpego. Quando finalmente chegou a eles, explicou-lhes o ocorrido. Entre gargalhadas gerais e mais tosses do guitarrista, findaram-se as fotografias.
A banda comemorou o feito com muita bebida alcoólica gelada junto ao pessoal do cemitério (os vivos, obviamente) e ao fotógrafo. Entre os músicos as garrafas se faziam compartilhadas, para que todos ingerissem o líquido pelo gargalo, como forma de demonstração de amizade, fraternidade; onde passava a boca de Dago passavam igualmente as bocas dos demais companheiros.
Dois meses depois saiu o disco, que obteve de imediato resenhas e vendas bastante satisfatórias para uma iniciante banda underground. Era tudo o que eles sempre haviam sonhado para um início promissor de sua carreira musical. Era tudo o que estava a seu alcance, devido à produção independente e, com isso, à falta de patrocinador que pudesse divulgar melhor o nome do conjunto por América do Sul, Europa, Estados Unidos e Japão, centros normalmente mais adeptos a tal estilo musical.
Dias se seguiram. Espirros, tosses e pigarros se sucederam entre os integrantes, que resolveram manter sua digressão pelos arredores brasileiros. O estado de saúde dos artistas se manteve inalterado. Médicos os haviam advertido a permanecer em repouso, o que foi tão prometido quanto descumprido por todos, pois preferiam dar seguimento à sua carreira de músicos, com o intento de aproveitar a tão propalada “boa fase”.
Chegou o momento de se lançar o segundo petardo. Desta vez a banda resolveu se maquiar de forma a parecerem todos cadáveres. Utilizaram-se ketchup e sangue falso em grandes quantidades. Tripas de porcos também não faltaram. Atrasado apenas estava Bento, o fotógrafo novamente contratado, há um bom tempo retido no caótico trânsito daquela pequena cidade.
Passadas duas horas de maquiagem, apenas faltando utilizarem-se as tripas suínas, os integrantes começaram a sentir intenso calor. Abanaram-se e ligaram ventiladores, mas tudo o que conseguiram foi um incremento da temperatura corporal, que os fez suar e arruinar sua maquiagem sangrenta. Toda ela derreteu e se dissolveu.
Conquanto todos estivessem apavorados com o mal-estar, o pior ainda viria. A começar por Dagoberto, o qual já se sentira muito mal antes dos dois companheiros. Começaram a jorrar vômitos ensanguentados para todos os lados. Os três expeliam lágrimas de sangue como em córregos; sua pele começou a descascar e sua carne principiou um terrível estado de necrose. Ninguém resistiu então às cinzas; a morte os abraçou afetuosamente.
Eis que chegou correndo e suando o fotógrafo Bento, já sacando sua potente câmera, a fim de captar toda aquela magnífica encenação. Mesmo moscas havia aos montes pelo lugar. Clicks e mais clicks dispararam-se com todos deitados ao chão em avançado estado de putrefação. Bento pensava se tratar de mera encenação daqueles jucundos e excêntricos músicos, vindo a aplaudi-los efusivamente por sua fulgurante performance. Já que pareciam não desejar falar, decerto simplesmente com o fito de se manter o clima, tudo bem. Depois ele telefonaria quando estivessem recompostos... Afinal, as fotos estavam garantidas.
Pensando em fazer uma bela surpresa, visto já haver se apegado aos três rapazes, agora o fotógrafo sai da casa em disparada para a revelação dos negativos originários da mais fácil capa do Podridão Absoluta. Mal sabe ele que transporta em si o germe mortal da eternidade, o qual vários outros brincalhões aguardam sem saber.

Paulo Roberto de Oliveira Caruso

 

 

Priscila de Loureiro Coelho

 

Alma silenciosa
Como se fosse brisa
Vibra minha alma
Ao redor de teus braços
A atmosfera improvisa
Uma luminosidade calma
Rastreando os teus passos...

Há um espaço infinito
Entre eu e o pensamento
Que busca a sensação
Coração que vive aflito
Pulsa quase pachorrento
Acolhendo a paixão...

Só o silêncio agora
Embala nossas emoções
Que se perderam no ar
Teu vulto vem sem demora
Provocando reações
Pondo-se a me cortejar

Chego quase de repente
De mansinho, encantada...
Buscando sentir teu sabor
A alma está silente
Sentindo-se emocionada
Cativa de teu amor!

Priscila de Loureiro Coelho

 

 

Estrada de São Luiz do Paraitinga


Conheço um caminho perfeito
Que nos convida a cismar
Repleto de beleza, e, com efeito,
Encanta quem por lá passar...

Uma trilha de terra batida
De tanto ser caminhada
Enfeitada com pedras, retidas
Entre águas, que caminham sossegadas...

Ladeada de barrancos e folhagens
É digna de num quadro, figurar
Convidativa, as suas passagens
São poesias para se guardar...

Inspira cânticos, sonhos, devaneios
Mexe com a alma, de quem a percorrer
É na verdade, o melhor dos passeios
Pra quem deseja ir se conhecer

Estrada, atalho ligeiro
Sereno e acolhedor
Envolve cada estrangeiro
Na extensão visível de seu esplendor

Seu destino é o encontro que alivia
Céu e terra, corpo e alma e coração
Nela se encerra a verdadeira harmonia
Entre o homem e a civilização!

Priscila de Loureiro Coelho

 

 

Eduardo de Almeida Farias

 

MUSA ENTRISTECIDA


Naquele tempo tu me sorrias e, era sublime o sentir as suaves ondulações de teu corpo. Cantava contigo na voz dos passarinhos nos seus púlpitos alados, e os arrebóis tinham vestes feitos de sonhos azuis.
Tinhas muitas e divinas faces e as escondias sob o teu diáfano manto e, por mais perto que te sentisse não te conseguia decifrar;eras música, sonho, eras a brisa que ondulava sobre o verde dos campos carregada de mil aromas das multicoloridas flores que te cingiam a fronte.
Sim era um tempo bom, o tempo quando ainda as açucenas tinham um sentido; quando tu minha doce musa ainda me cantavas canções de fazer sonhar, doces como o mel silvestre, e tinhas aromas das madressilvas e do rosmaninho que enfeitavam as bordas dos caminhos e o chão por onde andavas distraída.
Menina, travessa, zagala, corrias por montes e vales, trepavas alcantis, depois já cansada colhias um malmequer e, beijada pelos zéfiros adormecias sobre a relva.
Mas, o tempo também tem suas muitas caras. A gente torna-se irremediavelmente adulto, e estranhamente estranho. E, a tua fronte angelical, já às vezes se carrega de sombras, de repente sinto teu peito arfar e tristemente suspiras. E este sentir é como um torpor
lúcido, um sonho ferinamente lúcido. Desço às profundezas de mim e quase sufoco nas águas deste oceano revolto que me cerca. Mas, logo tu vens, diáfana, sutil, mas já fugidia como a água que corre entre os dedos, e tua face se transmuda e me falas de cataclismos e choras pela insensatez dos humanos que parece terem perdido o rumo, mergulhados no obscurantismo.
Oh, doce Poesia, tu és a face de Deus quando para nós sorri?...
Ah como era bela a vida sem esta pressa doentia de viver, pois o tempo tinha a verdadeira dimensão de tempo, não esta mesquinhez atrofiada dos dias já tão descoloridos, sem a beleza e o sentido de viver. Uma fonte para matar a sede que não era uma sede de alma, me bastava, à sombra de um salgueiro nas tardes quentes quando as aves se vinham aquietar e não me espreitavam com olhos de espanto.
Para lá daqueles montes que gostavam de beijar as nuvens,haveria alguma coisa de real, merecedor de alguma atenção que valesse a pena da minha inquietação? Hoje, dói-me o ter gozado daquele mundo,e minha tristeza fica mais triste, por o não poder transplantar para
este quadrante de sonhos sem sonho, pois, a doce musa já ao longe se apresta talvez para seu derradeiro adeus.

Eduardo de Almeida Farias

 

 

 

Maria João Brito de Sousa
Oeiras/PORTUGAL

 

NAS TEIAS QUE O LUAR TECE


Nas teias que o luar tece
Por cima dos pinheirais,
Vez por outra me acontece
Ver longe e ver muito mais,
Mas, de quanto me aparece,
Nunca vi – nunca, jamais! –,
Nessas visões que ele m`oferece,
Razões que fossem normais…

Vi segredos bem guardados
De vontades por escrever
Atrás de mil cadeados
Qu`inda estão por conceber
Nos traços desencontrados
De enigmas por resolver,
Tão estranhamente esboçados
Que eu nunca pude entender
Por que me foram mostrados
Se não pedira pr`ós ver…

Vi, nessas teias benditas
Que o luar teceu pr`a mim,
As mil coisas nunca escritas
Por mãos que fossem assim…

Vi verdades, nessas teias
Que o luar me quis mostrar
E, depois de as ler, deixei-as
Pr`alguém que as soubesse achar…

Vi letras de prata pura
Descrevendo esses pinheiros
Com a toda a casta ternura
Dos seus rebentos primeiros…

Vi a vida que começa
No recomeço da vida!
Vi puzzles, peça por peça,
Sem me apressar na partida
E, como alguém que tropeça
Em causa desconhecida,
Vi tudo a crescer sem pressa
Ou foi-me a vista traída
Tal qual fosse apenas essa
A razão de eu estar perdida,
Sem certezas nem promessa
De encontrar uma saída…

Nas teias que o luar tece
À noite, sobre os pinhais,
Vez por outra me acontece
Ver longe e ver muito mais,
Mas, de quanto me aparece,
Não pude encontrar, jamais,
Nas transgressões que fornece,
Questões que fossem banais…

Maria João Brito de Sousa

 

 

O COMBOIO


Que ser era aquele? Imenso, ruidoso como um interminável trovão, atacou-me com a rapidez do raio e não parou, sequer, para me dar o golpe de misericórdia. Atirou-se a mim com a voracidade do tigre e, incompreensivelmente, não ficou para se alimentar da carne que destroçara. Que estranho ser era aquele?
Levava no ventre muitos outros seres. Seres com olhos, ouvidos e mãos. Seres conflituosos, agarrados a coisas que não fazem sentido, indiferentes à dor que então me consumia.
Que ser tão estranho...
Não ameacei as suas crias. Não tentei conquistar as suas fêmeas. Se, acaso, invadi o seu território, fi-lo por absoluta necessidade. Procurava um desses seres que ele levava no ventre e a quem dediquei toda a minha vida.
Sei que estou velho e pouco atraente. Durante esta minha insana busca, raras vezes encontrei alimento. Emagreci. Vivi muitos sóis e muitas luas alimentado, unicamente, pela certeza de voltar a encontrar o meu amigo. Aquele por quem daria - e dei - a vida. Aquele que um dia partilhou comigo habitação e alimento, aquele que me pôs ao pescoço esta coleira, agora velha e sem brilho como eu, que selou entre nós um pacto sagrado e irreversível.
Eu era então um cão jovem e -perdoa-me a vaidade - bonito como poucos. Ajudei-o a educar as suas crias. Não havia cão, gato ou ser humano mal intencionado que se aproximasse delas. Guardei-lhe a porta com o meu rosnido mais assustador e mostrei-lhe a minha imensa gratidão a cada segundo do dia e da noite. Velei-lhe o sono. quando o tempo, lá fora, gelava até aos ossos, aqueci-lhe os pés com o calor do meu corpo e, com toda a energia que me foi concedida pelo universo em que nasci, zelei e rezei pela sua saúde e alegria. Pela abundância no seu pequeno território. Multipliquei-me em carinhos e brincadeiras sempre que a tristeza lhe invadia o olhar. Lambi cada uma das suas pequenas feridas até estar seguro da sua completa cicatrização. Cacei para que nunca lhe faltasse o alimento.
Sei que também ele me amou à sua maneira... dessa forma inacabada e insólita com que vocês amam. Eu era património seu e, forte e bonito exemplar que era, orgulhava-se de me mostrar aos seus amigos. Garantia que a ele ninguém assaltaria a casa... e tinha razão. Garantia que não havia melhor cobridor do que eu, e também estava certo.
Tu, que agora me vês agonizar, hás-de encontrar o brilho dos meus olhos em muitos outros cães que encontrarás pelas ruas. Deixei, como era meu dever, semente de vida no ventre de muitas companheiras. Agora que estou de partida, evoco esses filhos da minha carne com a certeza de me ter perpetuado neles pelas muitas luas que estão por vir.
Sabes que me surpreendeste? Eras um dos seres que viajavam dentro do demónio que me trucidou. Vi-te chegar carregada de coisas estranhamente inúteis. Sacos e saquinhos contendo pequenas coisas que não amas, mas proteges. Vinhas suada e arquejante, como eu velha e gasta e, no entanto, olhaste-me com a doçura com que me olhou a minha mãe quando me pôs no mundo. No teu olhar uivaste a minha dor. agradeço-te por isso. Não o poderia fazer com estes maxilares fracturados que pingam sangue e nesse mesmo sangue afogam o meu justificado lamento.
Pegaste num estranho artefacto que estava no teu bolso e falaste para ele. Estavas entre zangada e mansa. Mas estavas, sobretudo, determinada.
Não sei exactamente o que queres, mas sei que não desistirás. Sei, acima de tudo, que não me abandonarás até que a morte venha aliviar-me desta imensa dor. A dor que partilhas comigo e , portanto, se torna mais suportável. Cobres o meu corpo com o teu sempre que um demónio de ferro percorre, rugindo, o temível espaço que ousei pisar. De tal forma sentes o que eu sinto que espantas os meus medos e vais anulando a tremenda vontade que me impele a continuar à procura do "dono". Mesmo sem membros. Mesmo sem sangue.
Passa uma eternidade. Cantas baixinho para mim, nessa estranha língua cheia de modulações idênticas às do meu dono. Vou-te compreendendo a pouco e pouco. Já me não doem tanto os ossos triturados, já se não impõe a necessidade de encontrar aquele que, um dia, se esqueceu de mim, algures, na Marginal. Tu amas tão profunda e incondicionalmente como eu e tudo recomeça a fazer sentido. Até os estranhos artefactos que trazes contigo parecem ganhar alma e se me tornam familiares.Como se fossem prolongamentos de mim. De nós. De tudo aquilo que continuamos a ser quando ultrapassamos as fronteiras do corpo e nos diluímos na infinita serenidade de uma força que apenas vislumbrávamos. Para além do beijo que me deste no focinho no momento da libertação.

Maria João Brito de Sousa

 

 

Candy Saad
Jundiaí-São Paulo/BR

 

Anjos


Eu creio que Deus nos dá tudo,
tudo mesmo!!!
Dá anjos também,
Anjos protetores, benfeitores, consoladores...
Basta pedir e sermos merecedores.

Eu creio que Deus nos dá tudo:
Anjos amigos,
Anjos familiares,
Anjos vizinhos,
Anjos colegas de trabalho
Anjos internautas

Eu creio que Deus nós dá tudo:
Aquele socorro que chega emcima da hora ...um anjo;
Aquele livramento ...um anjo;
Aquele consolo...um anjo;
Aquele ombro amigo...um anjo;
Aquela idéia brilhante...um anjo!

Eu creio que Deus nos dá tudo!
Nos dá a união...
A união faz a força;
Inconsciente coletivo
orando juntos,
pedindo a Deus, pelos que não O conhecem,
Que tenham o privilégio
de ter esse Deus,
e com ele andar
rodeados de anjos.

Eu creio que Deus nos dá tudo:
Nos dá amor para dividirmos,
Amor para doarmos,
Amor para com o próximo
Nos dá a oportunidade de sermos
Para alguém...anjos também!

Candy Saad

 

 

A Chuva


Existem várias maneiras de contemplar a chuva. A maneira mais bela é a do poeta.
O poeta não enxerga ali as nuvens carregadas nem as enxurradas enlameadas.
Mas vê milhares de flores que em breve irão desabrochar colorindo os campos e enchendo-os de perfume.
Assim são as chuvas que caem sobre nós e que parecem além de nossa capacidade de suportar
a chuva do desapontamento,da falsidade, da destruição de nossos planos, das grandes decepções, fazendo o coração temer e estremecer de tanto sofrimento.
As nuvens escuras que pairam sobre nós trazem consigo chuvas de bênçãos quando cessarem trarão para nós as flores do enriquecimento do espírito, experimentaremos fragrâncias e belezas que nunca havíamos conhecido, coisas que não imaginávamos possível antes que estas águas caíssem sobre nós.
É certo que sempre veremos as nuvens e as águas que delas caem, mas precisamos enxergar as flores,antever seu desabrochar e as fragrâncias que virão com elas.
Esta chuva vai abrandar nossos corações,vai nos preparar para o ressurgir do sol,vai nos lembrar que precisamos ter entre nossos sentimentos,a serenidade para ver o cair da chuva e a conseqüente compaixão por outros que são acoitados pelas águas por falta de entendimento.
Não tiremos dai lições de aflição,mas da brandura vindoura, de compaixão, paciência,
serenidade, amor, da esperança divina;e, mil outras flores e frutos que nascem de nossa fé em Deus.
Sê como o poeta e durante a chuva, enxergue as flores.

Candy Saad

 

 

RICARDO DE BENEDICTIS

 

 

CANTOR E AMANTE DA POESIA!


Nasci na Rua da Itália
Na cidade da Bahia!
Meus pais, o Conto e o Romance
Nos tempos da fantasia...

Na minha infância a leitura
Era a grande distração
Por isso ganhei altura
Cantando ao meu violão...

Aos 25, escritor
Aos 40, produtor
Aos 60, utopia...

A mulher, musa querida
Cantei por toda uma vida
Minha amante, a Poesia...

Ricardo de Benedictis

 

 

50 ANOS DE "O PAGADOR DE PROMESSAS" (cronica)


Fui testemunha de parte das filmagens de “O Pagador de Promessas”, filme dirigido pelo ator e diretor Anselmo Duarte, em 1962 e que ganharia “A Palma de Ouro” no Festival de Cannes, na França. Pela primeira vez um filme nacional arrebataria a Palma de Ouro no principal festival de cinema da época.
Nos meus 21 anos de idade, assisti parte das filmagens de cenas fortes do filme que levou Anselmo Duarte, então ator da Atlântida Filmes, a trazer a primeira Palma de Ouro para o cinema brasileiro. Ficava horas a fio assistindo tais filmagens e logo que o filme veio a ser exibido, tive o prazer de assisti-lo por umas três vezes.
Baseado na obra teatral do mesmo nome do baiano Dias Gomes, o filme conta a saga do sertanejo, Zé do burro, que fez uma promessa no candomblé para curar seu jumento e veio do interior, carregando uma pesada cruz, acompanhado por sua esposa Rosa. Não vou contar o enredo do filme para não tirar o gosto do leitor. Trata-se de um clássico que honra o cinema nacional e deve ser exibido este ano para fazer valer a comemoração dos cinqüenta anos da inédita conquista. Ou não? De repente, os invejosos de plantão podem colocar barreiras para tais comemorações. Lembro-me que à época do lançamento do filme, o diretor Anselmo Duarte recebeu toda a sorte de impropérios dos cineastas da extrema esquerda que acharam que diretores comunistas é que teriam de ganhar tais prêmios. Inventaram que uma atriz francesa, namorada de Anselmo fazia parte do júri do festival e outras barbaridades, posteriormente desmentidas.
O Brasil tem complexo de vira-latas e tal doença acomete principalmente os incompetentes, os invejosos, aqueles que se juntam a formar ‘igrejinhas’ ridículas de auto-ajuda, onde só eles deverão existir. Este mal é uma praga que corrói o nosso país e é tão nociva quanto a corrupção, pois é uma forma de corrupção mais difícil de se combater. Ou o artista entra no esquema ou é marginalizado por toda a vida. Mas isso é outra história e, para não fugir ao exercício que faço de homenagear Anselmo Duarte, que merece busto em praça pública, mas não tem, porque nunca quis participar de ‘panelinhas’ ou de ‘igrejinhas’, deixo para outras oportunidades tais comentários mais gerais.

Caro leitor: se você tiver oportunidade de assistir, vale a pena ver "O Pagador de Promessas". Se não me engano, no Youtube tem este filme e você pode vê-lo de graça.

R
cardo de Benedictis

 

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