MAGAZINE CEN

 

Junho 2012

Edição de Carlos Leite Ribeiro

- 15º Bloco -

pág. 16

- FINAL -

 

 

 

 

Hilda Persiani
Curitiba/BR

 

Envelhecer Conscientemente


Mesmo depois de tantos anos ter vivido,
De haver perdido os traços, talvez belos,
No espelho os procuro, não consigo vê-los,
Sou feliz por eles terem existido...

O tempo, nosso semblante desfigura,
Recompensa-nos com traços de ternura.
A alma torna-se mais bela, mais pura
E nos deixa mais firmes, mais seguras.

A tolerância toma lugar da presunção,
O interior é mais tranquilo, temos doçura,
A empáfia deu lugar á brandura.

Nossos comentários, vem do coração.
Quando sorrimos, nosso sorriso é franco,
Não mais nos aflige, nosso cabelo branco.


Hilda Persiani

 

 

Disfarce


Quanta gente que esconde a melancolia
De uma alma acabrunhada e triste,
Disfarçando entretanto, a agonia,
Fazendo-se de forte e que a tudo resiste...

Seu sorriso muitas vezes está ocultando
A lágrima sentida que trás retida,
A chaga, que o coração está dilacerando,
De uma ingratidão que nunca foi esquecida.

Quanto sorriso que jogado a esmo,
Traz recolhido na alma a verdade,
Como se fosse uma máscara na face,

Todavia, tem no peito pena de si mesmo.
Se a realidade, essa máscara mostrasse,
Exibiria á todos a sua falsa felicidade !...


Hilda Persiani

 

 

Sueli Dutra
Florianópolis – SC.

 

VIDA EM EVIDÊNCIA


Ao romper da aurora, a vida renasce refeita dos enlaces mal resolvidos.
Pura, limpa, perfeita!
O que passou não tem mais lugar no espaço em que essa vida ocupa, pois nada preocupa o que ainda está em branco.
Há que se desenhar a mais bela das paisagens, numa feliz miragem do que ainda está por vir.
O hoje permite tudo, edificando os sonhos sem, contudo, subjugar o presente.
Este que em nossas mãos está, e mesmo assim, nos permite sonhar.
Viver o agora, sem colocar fora às reminiscências do aprendizado, que por “ontens” nos foi legado, única lembrança do passado!
Esta sim pode fazer parte do hoje, porque carrega as diversas experiências que modelam uma vida em evidência, onde não há limites.
Que pode ser editada a cada amanhecer.
Editada no tilintar das horas de um novo dia.
Desenhada em uma nova tela, em branco, vazia.


Sueli Dutra

 

 

ENGODO


A armadilha estava pronta.
O protagonista, a postos.
A presa, fácil.
Tudo começara numa longa procura, e numa longa espera.
Um ano havia passado, quando da primeira e última vez, em que esteve ao meu lado.
Não nos conhecíamos, trocamos apenas, duas ou três palavras, nada mais que isso.
Sobrara, tão-somente, a magia daquele encontro, onde algo mais brotara em meu coração.
Não sabia dele, mas sabia que viria.
Não contara que um ano já havia passado, por isso, não desisti permanecendo na espera que, um dia, estivesse aqui.
Até que esse dia chegou!
De mansinho se aproximou, com paciência esperou.
Escreveu versos de amor.
Falou de coisas, que já não acreditava mais que existissem.
Falou de uma procura descabida, movendo céu e terra pra achar sua querida.
Em nenhum momento pediu guarida, pois não havia desistência, apenas a persistência de achar esse amor, sem nenhuma prudência.
Falou de noites mal dormidas, onde o sonho trazia o aconchego do encontro, entre dois seres, com o coração em desassossego.
Falou do quanto procurou.
Trouxe o brilho para os meus olhos, levitou minh’alma, fez-me sonhar.
Acreditei.
Entreguei-me na mais pura inocência, que só às crianças é permitida.
Apareci nua, despida de qualquer defesa contra esse amor.
Mostrei-me como sou.
Nada escondi
Nada respondi, pois não havia perguntas.
Acreditei.
A vida, sarcástica, sorria pra mim.
Não consegui nesse sorriso ver, o alerta de que o amor era conciso.
Estava encantada e, por isso, não via nada!
Mas, o Altíssimo a tudo Vê, e diante das minhas súplicas, Trouxe a verdade, clara e límpida, Me deixando a mercê...
O amor que imaginara ser, não era.
Fingiu.
Mentiu.
Traiu.
Tudo não passara de um grande e vil engodo.
A vida, sarcástica, sorria pra mim.


Sueli Dutra

 

 

Moacir Lisboa da Costa
Florianópolis-SC/BR

 

BALADA AO ÓDIO


Como odeio este mundo de opressão,
no qual já não encontro uma razão
que justifique me manter em paz...
Do qual, enfim, só me sobrou mentira,
debilitando a fé que então sentira,
me transformando neste Ser mordaz.

Odeio a chuva, o vento, a tempestade...
esses arautos da temeridade...
Odeio o sol, a seca, o mar e o sal...
Odeio a tarde, a noite e o sereno...
Odeio tudo o que me faz pequeno
na imensidão do Cosmo Universal...

Ah! como odeio a vida sem sentido...
Odeio o tempo em que vivi perdido
no encantamento fútil da ilusão...
Odeio as ilusões idealistas...
Odeio as artes e os seus artistas
que pintam sonhos de irreal visão...

É que nos horizontes de aquarelas
em que se gravam, nas cores mais belas,
paisagens mil, da natureza nua...
Não se revela a aridez da vida,
que se esvai, por falta de guarida,
oculta aos traços sobre a tela crua...

Ah! como odeio essa falsidade
que se insinua, tênue, em veleidade,
sempre por trás de um sorriso aberto...
E como odeio essa irrealidade
que se traveste na sinceridade
de quem afirma que ser bom é o certo...

Como odeio o poder na mão errada,
que oprime e pune a massa desgraçada
e a mantém na vil escravidão...
Odeio a apatia desse povo
que nada faz... não cria nada novo,
baixa a cabeça e aceita esse grilhão...

Ah! como odeio a força da injustiça
que tem no sofrimento uma premissa
e na miséria a sua conseqüência...
a opulência dos privilegiados...
e a vida insana dos desajustados
que se acomodam nessa convivência...

Odeio a insensatez desses ateus,
pobres coitados que não vêem a Deus
onipresente em toda a natureza...
Também odeio o que os profetas vendem,
pregando coisas que nem mesmo entendem
e distorcendo a Divinal Grandeza.

Odeio os vendedores de esperança!
Prometem coisas que ninguém alcança...
Dão ilusões... recebem homenagens...
Odeio os que mentem pra viver,
se abrigando à sombra do poder,
vendendo a honra em troca de vantagens.

Odeio, enfim, o ódio que me assalta...
Esta visão de vida que me falta...
Odeio ver o mundo agonizante...
Odeio, enfim, tudo o que eu vejo em mim...
Odeio a vida que me fez assim
tão indeciso, fraco e intolerante.


Moacir Lisboa da Costa

 

 

VOZES DO SILÊNCIO


Ninguém consegue ouvir os sons das explosões do sol.
Alguns até nem podem ver a luz que ele irradia!
Mas todos recebemos o calor e a energia,
seu jeito de falar-nos... da aurora ao arrebol.

Ninguém jamais ouviu um som qualquer vindo da lua.
Alguns jamais puderam ver o encanto do luar!
Mas todos percebemos sua força sobre o mar,
e a força que, em magia, traz amor à alma nua.

Ninguém ouviu os sons das águas mansas do oceano,
que pairam no silêncio do abismo mais profundo
mas que fomentam vida, no equilíbrio do mundo,
mister tão complicado no entender do profano.

Quem já ouviu os sons do abrir da flor na primavera?
Alguns nem podem ver os nossos vales coloridos!
Mas quando elas exalam, a excitar nossos sentidos,
os seus perfumes falam, a embalar nossa quimera.

Como falar àqueles que não ouvem nossa voz?
Como mostrar sorriso a quem não vê nossas imagens?
Se a natureza é sábia em nos enviar suas mensagens
falemos com o amor... que entenderão a todos nós.


Moacir Lisboa da Costa

 

 

Itana Goulart
Rio de Janeiro - Brasil

 

A ÚLTIMA DANÇA


Tanto tempo passado...
Nosso romance inacabado,
a lembrança a me atormentar...
Não posso mais esperar...
Volto ao nosso lugar preferido
para tentar te encontrar...

Ansiosa e com esperanças
entro na casa de dança...
Naquela mesa do canto...
Vejo o rosto querido,
com olhar meio perdido...
Estarias a me esperar?

Atravesso o salão
indo em sua direção...
Nossos olhos se cruzaram...
Os corpos se aproximaram,
envolve-me em teus braços,
silentes fomos dançar...

O mesmo bolero que um dia
dançamos com alegria,
hoje é só pesar....
Falávamos com o olhar...
Sabíamos que era a última vez
que estávamos a dançar...

Para definitivamente esquecer...
Era necessário relembrar.


Itana Goulart

 

 

ENTREGO-ME


Totalmente dispersa da realidade
Num momento de perplexidade
Na mente sòmente confusão
Na agonia da procura me aprofundo
no universo submerso
desse meu estranho mundo...
Abro os braços numa entrega total
que vai além do bem e do mal...
Nessa viagem de introspecção
recebo de Deus a energia
que meu corpo e minh'alma precisam,
para renascer no novo dia...


Itana Goulart

 

 

Odone António Silveira Neves

 

TEORIA DA AUTORIA


Nos estudos da Teoria da Literatura, afirma Antoine Compagnon, um dos pontos mais discutidos é o lugar que neles ocupa o autor. Nesse contexto o que mais interessa é o papel do autor, a relação entre o texto e a autoria e a responsabilidade do escritor pelo significado do texto. Nessa situação há duas correntes a considerar: a tradicional e a moderna. Na primeira, a intenção do autor estava ligada ao sentido da obra; essa tendência foi comum na época do historicismo e do positivismo. Na moderna, por outro lado, a atenção à intenção do autor é deslocada para a descrição da obra. Para fugir a essa polêmica, é visualizada uma terceira solução: o leitor como crítico que decide sobre a significação da literariedade.

Por muito tempo o autor foi execrado pela crítica, por simbolizar o individualismo e humanismo que a teoria literária queria eliminar dos estudos literários. Assim, o fulcro da questão que estava no autor transitou para o leitor. Os formalistas russos já haviam excluído o autor dessa responsabilidade para defender a independência dos estudos literários em relação à história e à psicologia. Por outro lado, porém, tanto para os freudianos, como para os marxistas, o texto não passaria de um veículo para chegar até o autor e o centro da questão seria a intenção do autor e seus contrapontos.

Dessa forma, no século XX, observou-se o abandono da questão da autoria para dar espaço aos estudos sobre a teoria que oportunizava ao autor um lugar ímpar nos estudos sobre a literariedade. Contudo, ao considerar-se que o autor é indiferente à significação do texto, a teoria não teria exagerado ao valorizar tanto a lógica do texto atual, interpretar um texto não é conjeturar sobre a intenção humana? São questões que Compagnon resenha para analisar posteriormente.

A tese da morte do autor

Considerando-se a intenção do autor o critério básico para estabelecer-se o sentido literário e explicar um texto, há duas hipóteses a considerar:

a- A intencionalista é a mais conhecida. É o critério mais difundido para analisar-se o sentido de literalidade. Seu resgate é básico para obter-se a explicação do texto. Conforme o preconceito ainda vigente, o sentido do texto é o que seu autor quis lhe dar.

Na verdade , o significado de literariedade simplesmente pela intenção faz com que a crítica literária não possua sentido. Aliás, era o que queria a história literária. Nesse caso, até a própria teoria da literatura tornar-se-ia prescindível, pois sendo o significado apenas uma intenção, não haveria necessidade da existência da crítica, nem tão pouco a crítica da crítica.

b) Outra hipótese a levar-se em consideração é a do próprio autor, ponto de partida habitual da explicação do texto.

Ora, desde o século XIX na autoria e sua intenção está contida a explicitação literária, sendo esse exatamente o conflito entre antigos e modernos. A decretação da desvalorização do autor cabendo a Foucault que pronuncia em uma polêmica conferência cujo título foi: “Qu est- ce u´ un Auteur?” Barthes, nos seus passos, publica um célebre artigo “La mort de l’ Auteur”, em 1968, que se tornaria o slogan anti-humanista da teoria como ciência.

Nesse sentido afirmava Barthes:

O autor é um personagem moderno, produto, sem dúvida, da nossa sociedade, na medida em que, ao sair da Idade Média, com o empirismo inglês, o racionalismo francês, e a fé pessoal da Reforma, ela descobriu o prestígio do indivíduo, ou como se diz mais nobremente, da pessoa humana.¹

Nessa altura baseava-se a crítica no autor, sendo apenas considerado como tal o burguês, representação da ideologia capitalista. Segundo Barthes, a partir do autor organizavam-se os manuais da história literária e do ensino da literatura.“ A explicação da obra é sempre procurada do lado de quem a produziu” ²,como se a obra fosse uma confissão ou confidência, sendo o auto o princípio e fim da literatura.

Para Barthes, convém substituir a linguagem solicitada como exclusiva da literatura, citando como exemplo, Proust, primeiro pelo surrealismo e depois pela lingüística para a qual o autor nunca é mais senão aquele que simplesmente escreve, ou seja, apenas pronome o “eu”. Sobre isso publica Emile Benveniste La nature des Pronons” 1956, obra que muito repercutiu na nova crítica francesa. Dessa forma, o autor dá lugar ao texto, cabendo-lhe somente o lugar de um “sujeito” no sentido que lhe confere a gramática, isso é, uma caricatura e não uma pessoa na sua essência psicológica.

Disso que se deduz que a escritura não pode “representar” nada antes de sua enunciação e que não tem origem e sem origem o texto é apenas um tecido de citações. “a noção de intertextualidade se infere também da morte do autor.”³ Daí deriva a noção da intertextualidade e também a de que é no leitor, e não no autor, que se encontra a unidade do texto. Seu destino, seu fim e não sua origem. Todavia esse leitor, não é mais “pessoa” que o autor execrado. Ele, o leito, é em lugar lógico mantém interligados todos os elementos de que é constituída a escrita.

– 1968, continua Compagnon, o ano da “a queda do autor, um ano cabalístico para a literatura, que assinala a passagem do estruturalismo sistemático ao pós- estruturalismo desconstrutor, acompanha a rebelião anti-autoritária da primavera” em Paris.

Convém relembrar que anteriormente à execução do autor foi preciso identificá-lo ao burguês, reduzindo a autoria à explicação do texto pela simples biografia.

_____________________________

COMPAGNON, Antoine O Demônio da teoria literatura e senso comum.Belo Horizonte, editora UFMG. 1999, p.50.
BARTHES, Roland. La mort de l’ auteur. Paris: Ed. du Semil, 1984. p.62

Foucault, na obra O que é um Autor? parece aliar a história da literatura ao positivismo, donde lhe vieram críticas sobre como tratava os nomes próprios e os nomes de autores em Les mots et les choses, definindo a “ função do autor” como uma construção histórica e ideológica. Claro está que a execução do autor revela o aspecto polissêmico do texto, a valorização do leitor e uma críticidade até então desconhecida, mesmo considerando a questão da intenção e da interpretação.

Na verdade, a questão da intenção foi substantivamente renovada pela fenomenologia e hermenêutica, entretanto o debate sobre a intenção do autor é muito antigo.Atualmente, diz Compagnon a tendência é reduzir a reflexão sobre a intenção à tese do dualismo do pensamento e da linguagem.

Dois argumentos contra a intenção.

Há dois enfoques polêmicos na questão da interpretação intencionalista e anti-intencionalista relacionadas aos pontos de vista de Barthes e Picard:

1) Para o último, é fundamental buscar no texto o que o autor se propõe escrever, segundo esse, o único critério que valida a interpretação.

2) Para o primeiro, nada há no texto senão o que ele nos diz, independente das intenções do autor.

Essa é uma armadilha incoerente e dicotômica entre objetivismo e subjetivismo ou entre determinismo e relativismo. Na verdade a intenção é o único critério que há para validar a interpretação. Dessa forma, conforme Antoine Compagnon, a alternativa citada, poderia ser assim reformulado:

“Pode-se procurar no texto aquilo que ele diz com referência ao seu próprio.
contexto de origem( lingüístico, histórico, cultural)”.

“Pode-se procurar no texto aquilo que ele diz com referência ao contexto contemporâneo do leitor.

Essas duas assertivas não se excluem, ao contrário, complementam-se, levando-nos à hermenêutica, unindo à pré-compreensão a compreensão, postulando que não se pode desvendar inteiramente o outro, podendo este, no entanto, em parte ser compreendido.

Os argumentos normais contra a intenção do autor, como critério de validade da interpretação, são:

“A intenção do autor não é pertinente.”

“A obra sobrevive à intenção do autor”.



COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria- literatura e senso comum. Belo Horizonte: editora UFMG. 1999, p51

Odone António Silveira Neves

 

 

Bianca Furtado

 

No ventre da Terra


O sol já despontava, nascendo por detrás da ponte Hercílio Luz, tornando-se pintura, quadro perfeito. A mulher com dificuldades levantou-se da cama carregando um ventre pesado, já trazia o fruto quase maduro. Enquanto fervia o leite, arrumava os dois meninos agitados, sempre agitados. O do meio trazia a cor do sol nos cabelos como os da mulher. Nos traços do mais velho, delineavam a família do pai; cabelos negros, nariz perfeito.
Era agosto, o mês dos aflitos, do mau-agouro, da chuva que germina a terra. A mulher pousou o olhar na folhinha do calendário, que se mantinha no canto da cozinha. Certificou-se de que era tempo de colher as cenouras. Tomou a enxada e se foi com seu imenso ventre à plantaçãozinha. Já se passava das 17 horas, mas a luz do dia permanecia no terreno em frente à casa.
A chuva da noite deixará a terra cheirosa e macia, nem o sol do dia todo lhe tirou a maciez. As cenouras saíram tenras, exibindo uma coloração suculenta. Limpou uma delas na barra do vestido e saboreou-a.
A mulher juntou as raízes alaranjadas num cesto, já ia voltando para a casa quando a dor doída, esperada, conhecida se anunciou em seu ventre. Segurou-se na enxada, mas a dor curvou seu corpo até o chão, afundando seus joelhos na terra negra. A terra fértil, cheirosa e macia. Levou uma das mãos ao ventre e com a outra se apoiou na enxada. Recuperou forças e com seus olhos fixos na sua casa, ergueu-se. Faltavam poucos passos até cruzar a rua.
As lembranças vieram sem permissão. As tentativas frustradas entre chás e remédios, o marido veio com uma baga esquisita, “toma, mulher, me perdoa, mas toma este comprimido logo. Não podemos ter mais um filho agora, a vida tá dura, tá difícil.” A mulher baixa os olhos, procura pela terra negra das cenouras, “olha, depois a gente tenta de novo, mas agora toma isso de uma vez”. Ele colocou a “baga esquisita” na mesa, “olha, eu nem consigo comprar mais vestidos pra ti, tu só tem dois”. “Eu não ligo, não me importo com isso”, retrucou a mulher com seu jeito manso. Ela abriu lentamente a boca, os lábios carnudos não sabiam dizer não. A baga esquisita rodopiou na boca fechada enquanto o pensamento da mulher tecia um plano. A baga foi parar embaixo da língua. “Tu engoliste?”, preocupado o marido perguntou. Ela levantou os olhos e confirmou com a cabeça.
A dor soou com força, e dissipou as lembranças. Mas mesmo assim a mulher sorri a segurar o fruto no seu ventre. É uma menina, ela vai nascer, a filha da terra macia e cheirosa.
Um chorinho miúdo, igual de gato desmamado se ouviu do quarto da maternidade. “É uma menina”, disse o médico. A mulher não disse nada, já sabia. Cansada, ela sorriu ao ver aquele pequeno ser sem pêlos, de pele rosada pelo sangue morno. Tirou o peito encharcado de leite para fora da camisola, e a pequenina sugou o líquido da vida.
Ela esperou o marido. Ele não veio.
“É por causa do trabalho”, pensou.
A enfermeira chega e pergunta se alguém vem buscá-la. A mulher responde que ninguém vem. “Tem dinheiro para o táxi?”, pergunta uma outra.
“Não”, seus olhos estão voltados para o bebê.
O pessoal do hospital faz uma vaquinha e entregam o dinheiro ao taxista.
A mulher pouco entrou num carro na sua vida. Agradece a todos antes de partir. Partir para sua casa, para a terra fofa e cheirosa. E precisa ser ligeiro, tem que esquentar a janta do marido e há os meninos para cuidar.
Lá fora, entre espaços nunca vistos, os prédios luxuosos, a Beira-mar iluminada, um magnífico veleiro no trapiche, as pessoas bem vestidas, com seus cachorros humanizados, correm, se exercitam numa pressa doente de querer algo que nunca irão sentir.
Mas a mulher sequer da conta da vida que corre apressada lá fora, nada a faz tirar os olhos da pequenina em seu colo. Neste momento, é para ela que sua a alma está voltada.
O taxista estaciona bem em frente ao casebre, tira o dinheiro do bolso e entrega à mulher.
“Ah... não precisa, fica com o senhor. A gasolina tá cara”, ela não mexe sua mão que segura a pequenina.
“Toma, senhora, é de coração, é o presente para o bebezinho”, ele exprime compaixão.
Ela agradece, mas insiste em pegar somente a metade. Ele retruca, mas aceita. À frente da casa, já estão os dois pequenos. Estão com fome, hoje não teve merenda na escola. Antes de entrar ela mostra a pequenina a eles, um deles já a coloca no colo. Na terra, a lua sorri para o céu.

Bianca Furtado

 

 

Ethel Carvalho Araujo

 

CAMÕES


Os versos de Camões me devoram
Com dentes engolem o inimaginável
De sua poesia.

Não mais flores mortas
Mas vidas bravias,singrando os mares,
Aventureiros e desbravadores.

Rejeita o efémero,conduz à eternidade,
Para sempre,
Em todas as partes da Terra.


Ethel Carvalho Araujo

 

 

Heloisa Igreja
Rio de Janeiro/BR

 

O SOL E A POESIA


Enquanto o Sol
brilha
ilumina
aquece

A Poesia
aquece a emoção
ilumina a mente
brilha no coração

tanto o Sol
quanto a Poesia
remetem o Homem

ao encantamento
à visão do sublime
ao divino


Heloisa Igreja

 

 

"NATO" AZEVEDO
ANANINDEUA, Pará (Brasil)

 

A ÚLTIMA VONTADE


Só burgo humilde, a fazenda com gado,
pastagens, aves, rio e até moinhos
era um colosso e seu dono apontado
-- se a cavalo saía -- nos caminhos.

No fim da vida o velho, espezinhado,
para apagar seus gestos tão mesquinhos,
em documento a cada empregado
doa quinhão de terra, lotezinhos.

Para a Igreja vai, por seu vigário,
considerável gleba, coisa boa
e o povo, em passeata, ao milionário

a cruel sovinice então perdoa.
Aberto o testamento, vê o notário:
-- "Tudo está sob as águas, na lagoa"!


"NATO" Azevedo

 

 

O IMPASSE


Era um tempo muito antigo e, meninote ainda, de muito pouco me recordo. As lembranças, qual plangente carro de boi, transpõem as barreiras do Tempo, transportando o Passado para diante de meu translúcido olhar.
Lá está nossa família reunida ao redor da modesta fogueira, rostos brilhantes sorvendo ansiosos cada palavra do vovô, portento negro que já fôra escravo e trazia à vida os muitos "causos" soterrados pelo caminhar das eras. O gélido ventos das "geraes" os mantém atentos e até os seres noturnos da mãe-natureza parecem calar para não atrapalhar o relato.

Belos tempos aqueles... a cavalhada e as Folias de Reis eram agradáveis obrigações e o cavalo o meio mais comum de transporte. Esse nosso século de guerras & outras tragédias mal começara e o lampião iluminava casas e ruas. Juiz de Fora era pouco mais que um vilarejo e o modesto caminho do ouro que outrora fez a fortuna (ou a desgraça) de tantos metamorfoseara-se na esplendorosa Avenida Rio Branco.
.........................................................................

Eis-me ao pé do lume, de rosto afogueado, a interpelar vovô como surgira o nome da Cidade, onde nasceu tal título. Êle esquivou-se do encargo e, ademais, já passara de muiro a hora de criança ir para a cama mas, diante da insistência geral, rendeu-se a meu pedido. E começou a narrar lá do seu jeito negro, apostrofando verbos, "comendo" sílabas, reinventando palavras.
-- "É uma história muito longa... Juiz de Fora era só um pedaço de terra sem nome sob as vistas de Deus-Pai Todo Poderoso, pelos idos de 1800 e tal, um sitiozinho, um distrito ou comarca, sei lá, de Barbacena ou de outra cidade próxima. A igrejinha local era o centro de tudo, numa época (que não volta mais) onde o vigário era a um só tempo pai, juiz, advogado, professor e até coveiro, fazia leis, distribuía justiça e resolvia ou decidia quase tudo na vida dos paroquianos.
Mas, como um dia a casa cai, apesar da respeitosa insistência de suas beatas esposas, dois fazendeiros decidiram dar às costas aos palp..., digo, aos conselhos do sr. vigário, sexagenário europeu de sotaque carregado e cumprimentos em latim.
O motivo da contenda era o Brejo das Almas, um charco de pouca valia bem por detrás da Matriz e que se alongava entre as propriedades do abastado fazendeiro "Zé Rico" e do modesto sitiante João "Tutu", apelido este herdado a partir das prendas culinárias da esposa.
Por razões diversas ambos queriam a área, espécie de terra de ninguém. O vigário sonhara intermediar a questão justo para pleitear dos dois uma nêsga de chão para a Igreja, um pátio interno, quem sabe. Agora, a vaca fôra literalmente pro brejo, pois os "condenados" exigiam, de per si, um... juiz de fora.
Estava armado o impasse... os litigantes bateram pé e não houve reza, novena ou promessa que os demovesse daquele propósito.
-- "Juiz de fora"... bradava "Zé Rico", com um sorriso esperto e a idéia fixa de subornar o dito-cujo.
-- "Ôme, pr1arresorvê esse angú só mêrmo um joiz de fora, sô"!, retrucava João "Tutu", imaginando que sua honrada pobreza traria o juiz para o seu lado.
Tanto a comunidade fofocou, tanto se comentou o assunto que a notícia do arranca-rabo espalhou-se e, eis que num belo dia, aporta ao vilarejo nada mais nada menos que... um juiz de paz.
Veio em luxuoso cabriolé de cavalo ajaezado, vestido com cerimônia, de fraque, vistosa cartola, polainas sobre lustroso calçado e portando um Roskoph de ouro puro, preso com estudada displiscência ao cinto (na época, correia) da calça de linho inglês. Como de praxe, visitou o Vigário, autoridade mor da região e, na rápida troca de olhares, o vivido sacerdote estremeceu. Já o precavido homem da lei abaixou convenientemente a aba da cartola até a ponta do nariz e despediu-se do pároco, sem mais delongas.
Visitou em separado cada um dos contendores, reuniu-se depois com ambos, regalou-se à farta, repousou na casa de um e de outro e, após alguns ótimos dias, pediu 48 horas para dar a decisão final. Precisava analisar cada lado, o problema era delicado. Mal acabou de falar, sumiu.
"Zé Rico" e João "Tutu" passaram várias noites em claro antes de ter novamente notícias do doutor Kaff Aggesti P. Lantra -- assim se chamava o "janota" de mãos bem cuidadas e olhar ladino -- só que êle traziauma escritura de posse de terras devolutas do Império (era 1835 !) em seu próprio nome e referente justamente ao Brejo das Almas.
Para acalmar os ânimos e evitar uma verdadeira batalha campal o pároco viu-se obrigado, muito a contragôsto, a acompanhar o espertalhão até a casa dos desolados fazendeiros, quando estes tomaram pé da inusitada situação. Por fim, o visitante, dono legítimo e inconteste da gleba, propoz vendê-la aos dois conforme suas posses, o qual foi aceito.
Desde então "Zé Rico" e João "Tutu" viraram motivo de chacota de velhos e jovens que, logo que os viam, gritavam à sorrelfa:
-- "Juiz de fora... juiz de fora" !
Sendo assim, quando tempos depois fundou-se a cidade, não ocorreu a ninguém outro nome. Eis como nasceu... JUIZ DE FORA !
-- "Bem, minha gente, é tarde... com sua licença ru vou dormir, que amanhã é dia de branco"! E vovô, apoiando-se em sua inseparável bengala, sumiu na penumbra do varandão mal iluminado.

"NATO" Azevedo

(NOTA: o Autor agradece penhoradamente a prestimosa colaboração do sr, ANTÔNIO CARLOS DUARTE, do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora/MG.)
O texto acima foi Vencedor (Medalha de Prata) no I Concurso de Contos da Academia de Letras da Manchester Mineira, em setembro de 1999.

 

 

 

Heloisio Alonso

 

Fragmentos

Veleiro teimoso singra o oceano banhado de Sol ardente...
cansado de lutas, o casco rasgado, o mastro quebrado,não pode aportar...
o vento que sopra sacode seu corpo,muda seu rumo, bate na proa,
visita o convés...
o Sol que lhe queima não sabe a idade do velho veleiro e sem piedade
aquece bastante sua âncora parada...
a estrela cadente,sem pena,
deixa a noite chegar e com ela, a solidão é mais forte, é parente da morte
e a bombordo não há coração...
não tarda, a tormenta que agita o veleiro lhe beija primeiro como um
!Judas" do mar para depois,com certeza, engulir sua presa
que não vai voltar...
a onda que bate, o trovão que ensurdece, o raio que risca
a intimidade do mundo,visitam o chão mais profundo
e vão raivosos juntar suas forças terríveis às forças incríveis
das serpentes do mar...
e voltam arrasando o que há pela frente e não tarda,
o veleiro se arrebenta em pedaços e seus
fragmentos permanecem no mar...
porém se algum dia estiveres na praia e
perceberes destroços,pensa que não
estás sozinho e que de repente sumiu a
serpente e o trovão se calou...
porque na verdade o pedaço que
chega atingiu o apogeu...
é um pedaço de barco
destruído no mar que vem
te beijar, meu filho...

sou eu!

Heloisio Alonso

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