

MAGAZINE CEN
Junho 2012
Edição de Carlos Leite Ribeiro
- 15º Bloco -
pág. 16
- FINAL -

Hilda Persiani
Curitiba/BR
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Envelhecer
Conscientemente
Mesmo depois de tantos anos ter vivido,
De haver perdido os traços, talvez belos,
No espelho os procuro, não consigo vê-los,
Sou feliz por eles terem existido...
O tempo, nosso semblante desfigura,
Recompensa-nos com traços de ternura.
A alma torna-se mais bela, mais pura
E nos deixa mais firmes, mais seguras.
A tolerância toma lugar da presunção,
O interior é mais tranquilo, temos doçura,
A empáfia deu lugar á brandura.
Nossos comentários, vem do coração.
Quando sorrimos, nosso sorriso é franco,
Não mais nos aflige, nosso cabelo branco.
Hilda Persiani
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Disfarce
Quanta gente que esconde a melancolia
De uma alma acabrunhada e triste,
Disfarçando entretanto, a agonia,
Fazendo-se de forte e que a tudo resiste...
Seu sorriso muitas vezes está ocultando
A lágrima sentida que trás retida,
A chaga, que o coração está dilacerando,
De uma ingratidão que nunca foi esquecida.
Quanto sorriso que jogado a esmo,
Traz recolhido na alma a verdade,
Como se fosse uma máscara na face,
Todavia, tem no peito pena de si mesmo.
Se a realidade, essa máscara mostrasse,
Exibiria á todos a sua falsa felicidade !...
Hilda Persiani
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Sueli Dutra
Florianópolis – SC.
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VIDA EM
EVIDÊNCIA
Ao romper da aurora, a vida renasce refeita dos
enlaces mal resolvidos.
Pura, limpa, perfeita!
O que passou não tem mais lugar no espaço em que
essa vida ocupa, pois nada preocupa o que ainda está
em branco.
Há que se desenhar a mais bela das paisagens, numa
feliz miragem do que ainda está por vir.
O hoje permite tudo, edificando os sonhos sem,
contudo, subjugar o presente.
Este que em nossas mãos está, e mesmo assim, nos
permite sonhar.
Viver o agora, sem colocar fora às reminiscências do
aprendizado, que por “ontens” nos foi legado, única
lembrança do passado!
Esta sim pode fazer parte do hoje, porque carrega as
diversas experiências que modelam uma vida em
evidência, onde não há limites.
Que pode ser editada a cada amanhecer.
Editada no tilintar das horas de um novo dia.
Desenhada em uma nova tela, em branco, vazia.
Sueli Dutra
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ENGODO
A armadilha estava pronta.
O protagonista, a postos.
A presa, fácil.
Tudo começara numa longa procura, e numa longa
espera.
Um ano havia passado, quando da primeira e
última vez, em que esteve ao meu lado.
Não nos conhecíamos, trocamos apenas, duas ou
três palavras, nada mais que isso.
Sobrara, tão-somente, a magia daquele encontro,
onde algo mais brotara em meu coração.
Não sabia dele, mas sabia que viria.
Não contara que um ano já havia passado, por
isso, não desisti permanecendo na espera que, um
dia, estivesse aqui.
Até que esse dia chegou!
De mansinho se aproximou, com paciência esperou.
Escreveu versos de amor.
Falou de coisas, que já não acreditava mais que
existissem.
Falou de uma procura descabida, movendo céu e
terra pra achar sua querida.
Em nenhum momento pediu guarida, pois não havia
desistência, apenas a persistência de achar esse
amor, sem nenhuma prudência.
Falou de noites mal dormidas, onde o sonho
trazia o aconchego do encontro, entre dois
seres, com o coração em desassossego.
Falou do quanto procurou.
Trouxe o brilho para os meus olhos, levitou
minh’alma, fez-me sonhar.
Acreditei.
Entreguei-me na mais pura inocência, que só às
crianças é permitida.
Apareci nua, despida de qualquer defesa contra
esse amor.
Mostrei-me como sou.
Nada escondi
Nada respondi, pois não havia perguntas.
Acreditei.
A vida, sarcástica, sorria pra mim.
Não consegui nesse sorriso ver, o alerta de que
o amor era conciso.
Estava encantada e, por isso, não via nada!
Mas, o Altíssimo a tudo Vê, e diante das minhas
súplicas, Trouxe a verdade, clara e límpida, Me
deixando a mercê...
O amor que imaginara ser, não era.
Fingiu.
Mentiu.
Traiu.
Tudo não passara de um grande e vil engodo.
A vida, sarcástica, sorria pra mim.
Sueli Dutra
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Moacir Lisboa da Costa
Florianópolis-SC/BR
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BALADA AO ÓDIO
Como odeio este mundo de opressão,
no qual já não encontro uma razão
que justifique me manter em paz...
Do qual, enfim, só me sobrou mentira,
debilitando a fé que então sentira,
me transformando neste Ser mordaz.
Odeio a chuva, o vento, a tempestade...
esses arautos da temeridade...
Odeio o sol, a seca, o mar e o sal...
Odeio a tarde, a noite e o sereno...
Odeio tudo o que me faz pequeno
na imensidão do Cosmo Universal...
Ah! como odeio a vida sem sentido...
Odeio o tempo em que vivi perdido
no encantamento fútil da ilusão...
Odeio as ilusões idealistas...
Odeio as artes e os seus artistas
que pintam sonhos de irreal visão...
É que nos horizontes de aquarelas
em que se gravam, nas cores mais belas,
paisagens mil, da natureza nua...
Não se revela a aridez da vida,
que se esvai, por falta de guarida,
oculta aos traços sobre a tela crua...
Ah! como odeio essa falsidade
que se insinua, tênue, em veleidade,
sempre por trás de um sorriso aberto...
E como odeio essa irrealidade
que se traveste na sinceridade
de quem afirma que ser bom é o certo...
Como odeio o poder na mão errada,
que oprime e pune a massa desgraçada
e a mantém na vil escravidão...
Odeio a apatia desse povo
que nada faz... não cria nada novo,
baixa a cabeça e aceita esse grilhão...
Ah! como odeio a força da injustiça
que tem no sofrimento uma premissa
e na miséria a sua conseqüência...
a opulência dos privilegiados...
e a vida insana dos desajustados
que se acomodam nessa convivência...
Odeio a insensatez desses ateus,
pobres coitados que não vêem a Deus
onipresente em toda a natureza...
Também odeio o que os profetas vendem,
pregando coisas que nem mesmo entendem
e distorcendo a Divinal Grandeza.
Odeio os vendedores de esperança!
Prometem coisas que ninguém alcança...
Dão ilusões... recebem homenagens...
Odeio os que mentem pra viver,
se abrigando à sombra do poder,
vendendo a honra em troca de vantagens.
Odeio, enfim, o ódio que me assalta...
Esta visão de vida que me falta...
Odeio ver o mundo agonizante...
Odeio, enfim, tudo o que eu vejo em mim...
Odeio a vida que me fez assim
tão indeciso, fraco e intolerante.
Moacir Lisboa da Costa
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VOZES DO
SILÊNCIO
Ninguém consegue ouvir os sons das explosões do
sol.
Alguns até nem podem ver a luz que ele irradia!
Mas todos recebemos o calor e a energia,
seu jeito de falar-nos... da aurora ao arrebol.
Ninguém jamais ouviu um som qualquer vindo da
lua.
Alguns jamais puderam ver o encanto do luar!
Mas todos percebemos sua força sobre o mar,
e a força que, em magia, traz amor à alma nua.
Ninguém ouviu os sons das águas mansas do
oceano,
que pairam no silêncio do abismo mais profundo
mas que fomentam vida, no equilíbrio do mundo,
mister tão complicado no entender do profano.
Quem já ouviu os sons do abrir da flor na
primavera?
Alguns nem podem ver os nossos vales coloridos!
Mas quando elas exalam, a excitar nossos
sentidos,
os seus perfumes falam, a embalar nossa quimera.
Como falar àqueles que não ouvem nossa voz?
Como mostrar sorriso a quem não vê nossas
imagens?
Se a natureza é sábia em nos enviar suas
mensagens
falemos com o amor... que entenderão a todos
nós.
Moacir Lisboa da Costa
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Itana Goulart
Rio de Janeiro - Brasil
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A ÚLTIMA DANÇA
Tanto tempo passado...
Nosso romance inacabado,
a lembrança a me atormentar...
Não posso mais esperar...
Volto ao nosso lugar preferido
para tentar te encontrar...
Ansiosa e com esperanças
entro na casa de dança...
Naquela mesa do canto...
Vejo o rosto querido,
com olhar meio perdido...
Estarias a me esperar?
Atravesso o salão
indo em sua direção...
Nossos olhos se cruzaram...
Os corpos se aproximaram,
envolve-me em teus braços,
silentes fomos dançar...
O mesmo bolero que um dia
dançamos com alegria,
hoje é só pesar....
Falávamos com o olhar...
Sabíamos que era a última vez
que estávamos a dançar...
Para definitivamente esquecer...
Era necessário relembrar.
Itana Goulart
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ENTREGO-ME
Totalmente dispersa da realidade
Num momento de perplexidade
Na mente sòmente confusão
Na agonia da procura me aprofundo
no universo submerso
desse meu estranho mundo...
Abro os braços numa entrega total
que vai além do bem e do mal...
Nessa viagem de introspecção
recebo de Deus a energia
que meu corpo e minh'alma precisam,
para renascer no novo dia...
Itana Goulart
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Odone António Silveira Neves
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TEORIA DA
AUTORIA
Nos estudos da Teoria da Literatura, afirma Antoine
Compagnon, um dos pontos mais discutidos é o lugar
que neles ocupa o autor. Nesse contexto o que mais
interessa é o papel do autor, a relação entre o
texto e a autoria e a responsabilidade do escritor
pelo significado do texto. Nessa situação há duas
correntes a considerar: a tradicional e a moderna.
Na primeira, a intenção do autor estava ligada ao
sentido da obra; essa tendência foi comum na época
do historicismo e do positivismo. Na moderna, por
outro lado, a atenção à intenção do autor é
deslocada para a descrição da obra. Para fugir a
essa polêmica, é visualizada uma terceira solução: o
leitor como crítico que decide sobre a significação
da literariedade.
Por muito tempo o autor foi execrado pela crítica,
por simbolizar o individualismo e humanismo que a
teoria literária queria eliminar dos estudos
literários. Assim, o fulcro da questão que estava no
autor transitou para o leitor. Os formalistas russos
já haviam excluído o autor dessa responsabilidade
para defender a independência dos estudos literários
em relação à história e à psicologia. Por outro
lado, porém, tanto para os freudianos, como para os
marxistas, o texto não passaria de um veículo para
chegar até o autor e o centro da questão seria a
intenção do autor e seus contrapontos.
Dessa forma, no século XX, observou-se o abandono da
questão da autoria para dar espaço aos estudos sobre
a teoria que oportunizava ao autor um lugar ímpar
nos estudos sobre a literariedade. Contudo, ao
considerar-se que o autor é indiferente à
significação do texto, a teoria não teria exagerado
ao valorizar tanto a lógica do texto atual,
interpretar um texto não é conjeturar sobre a
intenção humana? São questões que Compagnon resenha
para analisar posteriormente.
A tese da morte do autor
Considerando-se a intenção do autor o critério
básico para estabelecer-se o sentido literário e
explicar um texto, há duas hipóteses a considerar:
a- A intencionalista é a mais conhecida. É o
critério mais difundido para analisar-se o sentido
de literalidade. Seu resgate é básico para obter-se
a explicação do texto. Conforme o preconceito ainda
vigente, o sentido do texto é o que seu autor quis
lhe dar.
Na verdade , o significado de literariedade
simplesmente pela intenção faz com que a crítica
literária não possua sentido. Aliás, era o que
queria a história literária. Nesse caso, até a
própria teoria da literatura tornar-se-ia
prescindível, pois sendo o significado apenas uma
intenção, não haveria necessidade da existência da
crítica, nem tão pouco a crítica da crítica.
b) Outra hipótese a levar-se em consideração é a do
próprio autor, ponto de partida habitual da
explicação do texto.
Ora, desde o século XIX na autoria e sua intenção
está contida a explicitação literária, sendo esse
exatamente o conflito entre antigos e modernos. A
decretação da desvalorização do autor cabendo a
Foucault que pronuncia em uma polêmica conferência
cujo título foi: “Qu est- ce u´ un Auteur?” Barthes,
nos seus passos, publica um célebre artigo “La mort
de l’ Auteur”, em 1968, que se tornaria o slogan
anti-humanista da teoria como ciência.
Nesse sentido afirmava Barthes:
O autor é um personagem moderno, produto, sem
dúvida, da nossa sociedade, na medida em que, ao
sair da Idade Média, com o empirismo inglês, o
racionalismo francês, e a fé pessoal da Reforma, ela
descobriu o prestígio do indivíduo, ou como se diz
mais nobremente, da pessoa humana.¹
Nessa altura baseava-se a crítica no autor, sendo
apenas considerado como tal o burguês, representação
da ideologia capitalista. Segundo Barthes, a partir
do autor organizavam-se os manuais da história
literária e do ensino da literatura.“ A explicação
da obra é sempre procurada do lado de quem a
produziu” ²,como se a obra fosse uma confissão ou
confidência, sendo o auto o princípio e fim da
literatura.
Para Barthes, convém substituir a linguagem
solicitada como exclusiva da literatura, citando
como exemplo, Proust, primeiro pelo surrealismo e
depois pela lingüística para a qual o autor nunca é
mais senão aquele que simplesmente escreve, ou seja,
apenas pronome o “eu”. Sobre isso publica Emile
Benveniste La nature des Pronons” 1956, obra que
muito repercutiu na nova crítica francesa. Dessa
forma, o autor dá lugar ao texto, cabendo-lhe
somente o lugar de um “sujeito” no sentido que lhe
confere a gramática, isso é, uma caricatura e não
uma pessoa na sua essência psicológica.
Disso que se deduz que a escritura não pode
“representar” nada antes de sua enunciação e que não
tem origem e sem origem o texto é apenas um tecido
de citações. “a noção de intertextualidade se infere
também da morte do autor.”³ Daí deriva a noção da
intertextualidade e também a de que é no leitor, e
não no autor, que se encontra a unidade do texto.
Seu destino, seu fim e não sua origem. Todavia esse
leitor, não é mais “pessoa” que o autor execrado.
Ele, o leito, é em lugar lógico mantém interligados
todos os elementos de que é constituída a escrita.
– 1968, continua Compagnon, o ano da “a queda do
autor, um ano cabalístico para a literatura, que
assinala a passagem do estruturalismo sistemático ao
pós- estruturalismo desconstrutor, acompanha a
rebelião anti-autoritária da primavera” em Paris.
Convém relembrar que anteriormente à execução do
autor foi preciso identificá-lo ao burguês,
reduzindo a autoria à explicação do texto pela
simples biografia.
_____________________________
COMPAGNON, Antoine O Demônio da teoria literatura e
senso comum.Belo Horizonte, editora UFMG. 1999,
p.50.
BARTHES, Roland. La mort de l’ auteur. Paris: Ed. du
Semil, 1984. p.62
Foucault, na obra O que é um Autor? parece aliar a
história da literatura ao positivismo, donde lhe
vieram críticas sobre como tratava os nomes próprios
e os nomes de autores em Les mots et les choses,
definindo a “ função do autor” como uma construção
histórica e ideológica. Claro está que a execução do
autor revela o aspecto polissêmico do texto, a
valorização do leitor e uma críticidade até então
desconhecida, mesmo considerando a questão da
intenção e da interpretação.
Na verdade, a questão da intenção foi
substantivamente renovada pela fenomenologia e
hermenêutica, entretanto o debate sobre a intenção
do autor é muito antigo.Atualmente, diz Compagnon a
tendência é reduzir a reflexão sobre a intenção à
tese do dualismo do pensamento e da linguagem.
Dois argumentos contra a intenção.
Há dois enfoques polêmicos na questão da
interpretação intencionalista e anti-intencionalista
relacionadas aos pontos de vista de Barthes e Picard:
1) Para o último, é fundamental buscar no texto o
que o autor se propõe escrever, segundo esse, o
único critério que valida a interpretação.
2) Para o primeiro, nada há no texto senão o que ele
nos diz, independente das intenções do autor.
Essa é uma armadilha incoerente e dicotômica entre
objetivismo e subjetivismo ou entre determinismo e
relativismo. Na verdade a intenção é o único
critério que há para validar a interpretação. Dessa
forma, conforme Antoine Compagnon, a alternativa
citada, poderia ser assim reformulado:
“Pode-se procurar no texto aquilo que ele diz com
referência ao seu próprio.
contexto de origem( lingüístico, histórico,
cultural)”.
“Pode-se procurar no texto aquilo que ele diz com
referência ao contexto contemporâneo do leitor.
Essas duas assertivas não se excluem, ao contrário,
complementam-se, levando-nos à hermenêutica, unindo
à pré-compreensão a compreensão, postulando que não
se pode desvendar inteiramente o outro, podendo
este, no entanto, em parte ser compreendido.
Os argumentos normais contra a intenção do autor,
como critério de validade da interpretação, são:
“A intenção do autor não é pertinente.”
“A obra sobrevive à intenção do autor”.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria- literatura
e senso comum. Belo Horizonte: editora UFMG. 1999,
p51
Odone António Silveira Neves
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Bianca Furtado
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No ventre da
Terra
O sol já despontava, nascendo por detrás da ponte
Hercílio Luz, tornando-se pintura, quadro perfeito.
A mulher com dificuldades levantou-se da cama
carregando um ventre pesado, já trazia o fruto quase
maduro. Enquanto fervia o leite, arrumava os dois
meninos agitados, sempre agitados. O do meio trazia
a cor do sol nos cabelos como os da mulher. Nos
traços do mais velho, delineavam a família do pai;
cabelos negros, nariz perfeito.
Era agosto, o mês dos aflitos, do mau-agouro, da
chuva que germina a terra. A mulher pousou o olhar
na folhinha do calendário, que se mantinha no canto
da cozinha. Certificou-se de que era tempo de colher
as cenouras. Tomou a enxada e se foi com seu imenso
ventre à plantaçãozinha. Já se passava das 17 horas,
mas a luz do dia permanecia no terreno em frente à
casa.
A chuva da noite deixará a terra cheirosa e macia,
nem o sol do dia todo lhe tirou a maciez. As
cenouras saíram tenras, exibindo uma coloração
suculenta. Limpou uma delas na barra do vestido e
saboreou-a.
A mulher juntou as raízes alaranjadas num cesto, já
ia voltando para a casa quando a dor doída,
esperada, conhecida se anunciou em seu ventre.
Segurou-se na enxada, mas a dor curvou seu corpo até
o chão, afundando seus joelhos na terra negra. A
terra fértil, cheirosa e macia. Levou uma das mãos
ao ventre e com a outra se apoiou na enxada.
Recuperou forças e com seus olhos fixos na sua casa,
ergueu-se. Faltavam poucos passos até cruzar a rua.
As lembranças vieram sem permissão. As tentativas
frustradas entre chás e remédios, o marido veio com
uma baga esquisita, “toma, mulher, me perdoa, mas
toma este comprimido logo. Não podemos ter mais um
filho agora, a vida tá dura, tá difícil.” A mulher
baixa os olhos, procura pela terra negra das
cenouras, “olha, depois a gente tenta de novo, mas
agora toma isso de uma vez”. Ele colocou a “baga
esquisita” na mesa, “olha, eu nem consigo comprar
mais vestidos pra ti, tu só tem dois”. “Eu não ligo,
não me importo com isso”, retrucou a mulher com seu
jeito manso. Ela abriu lentamente a boca, os lábios
carnudos não sabiam dizer não. A baga esquisita
rodopiou na boca fechada enquanto o pensamento da
mulher tecia um plano. A baga foi parar embaixo da
língua. “Tu engoliste?”, preocupado o marido
perguntou. Ela levantou os olhos e confirmou com a
cabeça.
A dor soou com força, e dissipou as lembranças. Mas
mesmo assim a mulher sorri a segurar o fruto no seu
ventre. É uma menina, ela vai nascer, a filha da
terra macia e cheirosa.
Um chorinho miúdo, igual de gato desmamado se ouviu
do quarto da maternidade. “É uma menina”, disse o
médico. A mulher não disse nada, já sabia. Cansada,
ela sorriu ao ver aquele pequeno ser sem pêlos, de
pele rosada pelo sangue morno. Tirou o peito
encharcado de leite para fora da camisola, e a
pequenina sugou o líquido da vida.
Ela esperou o marido. Ele não veio.
“É por causa do trabalho”, pensou.
A enfermeira chega e pergunta se alguém vem
buscá-la. A mulher responde que ninguém vem. “Tem
dinheiro para o táxi?”, pergunta uma outra.
“Não”, seus olhos estão voltados para o bebê.
O pessoal do hospital faz uma vaquinha e entregam o
dinheiro ao taxista.
A mulher pouco entrou num carro na sua vida.
Agradece a todos antes de partir. Partir para sua
casa, para a terra fofa e cheirosa. E precisa ser
ligeiro, tem que esquentar a janta do marido e há os
meninos para cuidar.
Lá fora, entre espaços nunca vistos, os prédios
luxuosos, a Beira-mar iluminada, um magnífico
veleiro no trapiche, as pessoas bem vestidas, com
seus cachorros humanizados, correm, se exercitam
numa pressa doente de querer algo que nunca irão
sentir.
Mas a mulher sequer da conta da vida que corre
apressada lá fora, nada a faz tirar os olhos da
pequenina em seu colo. Neste momento, é para ela que
sua a alma está voltada.
O taxista estaciona bem em frente ao casebre, tira o
dinheiro do bolso e entrega à mulher.
“Ah... não precisa, fica com o senhor. A gasolina tá
cara”, ela não mexe sua mão que segura a pequenina.
“Toma, senhora, é de coração, é o presente para o
bebezinho”, ele exprime compaixão.
Ela agradece, mas insiste em pegar somente a metade.
Ele retruca, mas aceita. À frente da casa, já estão
os dois pequenos. Estão com fome, hoje não teve
merenda na escola. Antes de entrar ela mostra a
pequenina a eles, um deles já a coloca no colo. Na
terra, a lua sorri para o céu.
Bianca Furtado
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Ethel Carvalho Araujo
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CAMÕES
Os versos de Camões me devoram
Com dentes engolem o inimaginável
De sua poesia.
Não mais flores mortas
Mas vidas bravias,singrando os mares,
Aventureiros e desbravadores.
Rejeita o efémero,conduz à eternidade,
Para sempre,
Em todas as partes da Terra.
Ethel Carvalho Araujo
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Heloisa Igreja
Rio de Janeiro/BR
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O SOL E A POESIA
Enquanto o Sol
brilha
ilumina
aquece
A Poesia
aquece a emoção
ilumina a mente
brilha no coração
tanto o Sol
quanto a Poesia
remetem o Homem
ao encantamento
à visão do sublime
ao divino
Heloisa Igreja
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"NATO" AZEVEDO
ANANINDEUA, Pará (Brasil)
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A ÚLTIMA VONTADE
Só burgo humilde, a fazenda com gado,
pastagens, aves, rio e até moinhos
era um colosso e seu dono apontado
-- se a cavalo saía -- nos caminhos.
No fim da vida o velho, espezinhado,
para apagar seus gestos tão mesquinhos,
em documento a cada empregado
doa quinhão de terra, lotezinhos.
Para a Igreja vai, por seu vigário,
considerável gleba, coisa boa
e o povo, em passeata, ao milionário
a cruel sovinice então perdoa.
Aberto o testamento, vê o notário:
-- "Tudo está sob as águas, na lagoa"!
"NATO" Azevedo
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O IMPASSE
Era um tempo muito antigo e, meninote ainda, de
muito pouco me recordo. As lembranças, qual
plangente carro de boi, transpõem as barreiras
do Tempo, transportando o Passado para diante de
meu translúcido olhar.
Lá está nossa família reunida ao redor da
modesta fogueira, rostos brilhantes sorvendo
ansiosos cada palavra do vovô, portento negro
que já fôra escravo e trazia à vida os muitos
"causos" soterrados pelo caminhar das eras. O
gélido ventos das "geraes" os mantém atentos e
até os seres noturnos da mãe-natureza parecem
calar para não atrapalhar o relato.
Belos tempos aqueles... a cavalhada e as Folias
de Reis eram agradáveis obrigações e o cavalo o
meio mais comum de transporte. Esse nosso século
de guerras & outras tragédias mal começara e o
lampião iluminava casas e ruas. Juiz de Fora era
pouco mais que um vilarejo e o modesto caminho
do ouro que outrora fez a fortuna (ou a
desgraça) de tantos metamorfoseara-se na
esplendorosa Avenida Rio Branco.
.........................................................................
Eis-me ao pé do lume, de rosto afogueado, a
interpelar vovô como surgira o nome da Cidade,
onde nasceu tal título. Êle esquivou-se do
encargo e, ademais, já passara de muiro a hora
de criança ir para a cama mas, diante da
insistência geral, rendeu-se a meu pedido. E
começou a narrar lá do seu jeito negro,
apostrofando verbos, "comendo" sílabas,
reinventando palavras.
-- "É uma história muito longa... Juiz de Fora
era só um pedaço de terra sem nome sob as vistas
de Deus-Pai Todo Poderoso, pelos idos de 1800 e
tal, um sitiozinho, um distrito ou comarca, sei
lá, de Barbacena ou de outra cidade próxima. A
igrejinha local era o centro de tudo, numa época
(que não volta mais) onde o vigário era a um só
tempo pai, juiz, advogado, professor e até
coveiro, fazia leis, distribuía justiça e
resolvia ou decidia quase tudo na vida dos
paroquianos.
Mas, como um dia a casa cai, apesar da
respeitosa insistência de suas beatas esposas,
dois fazendeiros decidiram dar às costas aos
palp..., digo, aos conselhos do sr. vigário,
sexagenário europeu de sotaque carregado e
cumprimentos em latim.
O motivo da contenda era o Brejo das Almas, um
charco de pouca valia bem por detrás da Matriz e
que se alongava entre as propriedades do
abastado fazendeiro "Zé Rico" e do modesto
sitiante João "Tutu", apelido este herdado a
partir das prendas culinárias da esposa.
Por razões diversas ambos queriam a área,
espécie de terra de ninguém. O vigário sonhara
intermediar a questão justo para pleitear dos
dois uma nêsga de chão para a Igreja, um pátio
interno, quem sabe. Agora, a vaca fôra
literalmente pro brejo, pois os "condenados"
exigiam, de per si, um... juiz de fora.
Estava armado o impasse... os litigantes bateram
pé e não houve reza, novena ou promessa que os
demovesse daquele propósito.
-- "Juiz de fora"... bradava "Zé Rico", com um
sorriso esperto e a idéia fixa de subornar o
dito-cujo.
-- "Ôme, pr1arresorvê esse angú só mêrmo um joiz
de fora, sô"!, retrucava João "Tutu", imaginando
que sua honrada pobreza traria o juiz para o seu
lado.
Tanto a comunidade fofocou, tanto se comentou o
assunto que a notícia do arranca-rabo
espalhou-se e, eis que num belo dia, aporta ao
vilarejo nada mais nada menos que... um juiz de
paz.
Veio em luxuoso cabriolé de cavalo ajaezado,
vestido com cerimônia, de fraque, vistosa
cartola, polainas sobre lustroso calçado e
portando um Roskoph de ouro puro, preso com
estudada displiscência ao cinto (na época,
correia) da calça de linho inglês. Como de
praxe, visitou o Vigário, autoridade mor da
região e, na rápida troca de olhares, o vivido
sacerdote estremeceu. Já o precavido homem da
lei abaixou convenientemente a aba da cartola
até a ponta do nariz e despediu-se do pároco,
sem mais delongas.
Visitou em separado cada um dos contendores,
reuniu-se depois com ambos, regalou-se à farta,
repousou na casa de um e de outro e, após alguns
ótimos dias, pediu 48 horas para dar a decisão
final. Precisava analisar cada lado, o problema
era delicado. Mal acabou de falar, sumiu.
"Zé Rico" e João "Tutu" passaram várias noites
em claro antes de ter novamente notícias do
doutor Kaff Aggesti P. Lantra -- assim se
chamava o "janota" de mãos bem cuidadas e olhar
ladino -- só que êle traziauma escritura de
posse de terras devolutas do Império (era 1835
!) em seu próprio nome e referente justamente ao
Brejo das Almas.
Para acalmar os ânimos e evitar uma verdadeira
batalha campal o pároco viu-se obrigado, muito a
contragôsto, a acompanhar o espertalhão até a
casa dos desolados fazendeiros, quando estes
tomaram pé da inusitada situação. Por fim, o
visitante, dono legítimo e inconteste da gleba,
propoz vendê-la aos dois conforme suas posses, o
qual foi aceito.
Desde então "Zé Rico" e João "Tutu" viraram
motivo de chacota de velhos e jovens que, logo
que os viam, gritavam à sorrelfa:
-- "Juiz de fora... juiz de fora" !
Sendo assim, quando tempos depois fundou-se a
cidade, não ocorreu a ninguém outro nome. Eis
como nasceu... JUIZ DE FORA !
-- "Bem, minha gente, é tarde... com sua licença
ru vou dormir, que amanhã é dia de branco"! E
vovô, apoiando-se em sua inseparável bengala,
sumiu na penumbra do varandão mal iluminado.
"NATO" Azevedo
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(NOTA: o Autor agradece
penhoradamente a prestimosa colaboração do sr, ANTÔNIO
CARLOS DUARTE, do Museu Mariano Procópio, em Juiz de
Fora/MG.)
O texto acima foi Vencedor (Medalha de Prata) no I
Concurso de Contos da Academia de Letras da Manchester
Mineira, em setembro de 1999.

Heloisio Alonso
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Fragmentos
Veleiro teimoso
singra o oceano banhado de Sol ardente...
cansado de lutas, o casco rasgado, o mastro
quebrado,não pode aportar...
o vento que sopra sacode seu corpo,muda seu rumo,
bate na proa,
visita o convés...
o Sol que lhe queima não sabe a idade do velho
veleiro e sem piedade
aquece bastante sua âncora parada...
a estrela cadente,sem pena,
deixa a noite chegar e com ela, a solidão é mais
forte, é parente da morte
e a bombordo não há coração...
não tarda, a tormenta que agita o veleiro lhe beija
primeiro como um
!Judas" do mar para depois,com certeza, engulir sua
presa
que não vai voltar...
a onda que bate, o trovão que ensurdece, o raio que
risca
a intimidade do mundo,visitam o chão mais profundo
e vão raivosos juntar suas forças terríveis às
forças incríveis
das serpentes do mar...
e voltam arrasando o que há pela frente e não tarda,
o veleiro se arrebenta em pedaços e seus
fragmentos permanecem no mar...
porém se algum dia estiveres na praia e
perceberes destroços,pensa que não
estás sozinho e que de repente sumiu a
serpente e o trovão se calou...
porque na verdade o pedaço que
chega atingiu o apogeu...
é um pedaço de barco
destruído no mar que vem
te beijar, meu filho...
sou eu!
Heloisio Alonso |
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