
"Mensagem Natalícia"
-
Conto
de Natal de
Carlos Leite Ribeiro

Naquela
véspera de Natal, o senhor Freitas
regressava a casa, sozinho como sempre,
pois, já há muito tempo que não convivia com
ninguém, pois tinha um feitio muito especial
que afastava os amigos.
Um saco de plástico na mão esquerda,
chapéu-de-chuva no braço direito, uma
gabardina muito comprida e muito usada;
botas gastas e a "comerem" a bainha das
calças já muito coçadas; óculos
encarrapitados no seu grosso nariz, e uma
boina muito velha na cabeça. Corpo vergado
pelo peso de muitos anos - era assim o
senhor Freitas!
O dia estava a findar e, o movimento
nas ruas era enorme, pois, toda a gente
queria chegar a casa o mais cedo possível,
com os presentes para os seus familiares e
amigos. Chuviscava.
Ninguém parecia reparar naquela personagem,
nem este, parecia notar a presença de
outros.
Uma criança se abeirou dele:
- Senhor, uma esmolinha por favor... Senhor,
uma esmolinha por favor...
- Eu não dou nada a ninguém - vai-te embora
daqui!" - Respondeu-lhe com mau modo o
velhote.
Mas a pequena insistia
- Hoje é Natal - dê-me uma esmolinha por
favor...
- O Natal é só para os outros, garota! O
Natal para mim é um dia igual aos outros...
... Ai, ai que eu caio, ai...aiii…
E o senhor Freitas escorregou numa casca de
banana e caiu mesmo. Logo a criança, muito
aflita, gritou-lhe:
- Cuidado, senhor...
- Ai...ai, meu braço. Maldita casca de
banana!...
- O senhor magoou-se? Terá algum osso
partido? coitadinho... - Não se cansava de
perguntar, muito aflita, a garotinha. O
velhote parecia que nem a ouvia:
- Ai, o meu braço que me dói tanto... Ó
garota, apanha-me essas maçãs e também o
pão. Ajuda-me a levantar. Mas cuidado,
cuidado... Ai, ai o meu braço...
- Tenha calma, eu ajudo o senhor a
levantar-se... Vá lá, com muito cuidadinho;
vá, vá, pronto. Agora, vou levá-lo ao
hospital.
O senhor Freitas, teimosamente, tentava
prescindir dos seus préstimos:
- Não preciso de nada, garota! Eu vou
sozinho... Mas, ai, ai... O meu braço...
Carinhosamente, a garota tentava convencê-lo
a ir tratar-se:
- Está a ver?... o senhor precisa da minha
ajuda. Não seja teimoso, nem mauzinho. O
senhor até tem cara de homem bom!
- Eu cara de homem bom? Eu bom? Tu estás
enganada - ou pretendes enganar-me... Ai…
- Olhe que é preciso ter uma grande
paciência para lidar consigo! Você tem cara
de homem bom e pronto - é a minha opinião!
Como sempre, o senhor Freitas estava
desconfiado:
- Deixa-te disso garoto, que a mim não me
consegues convencer com essa cara de anjo.
Tu queres é o meu dinheiro, nada mais. Ai, o
meu rico braço que cada vez me dói mais!
Já revoltada, a garota respondeu-lhe: -
- Sou muito pobrezinha e não tenho ninguém
que me dê de comer, mas juro que não quero o
seu dinheiro, como diz...
- Tretas! É só lérias, pois todos que de mim
se abeiram, só querem o meu dinheiro! E vens
tu agora, com falinhas mansas, a dizeres que
não o queres! E isto só por eu ter cara de
homem bom!... Ai... O meu braço que me dói
tanto...
A garota revoltada e já com lágrimas nos
olhos, retorquiu-lhe: -
- O senhor está a ser injusto para
comigo!... Por acaso nunca ouviu falar em
solidariedade humana?
Embora com muitas dores, o senhor Freitas
não desarmava:
- Puuff, sei lá o que é que isso! A única
coisa que conheço é o valor do dinheiro!
Mas não ficou sem resposta: -
- Então, meu senhor, enrole todo o seu
dinheiro em volta do seu braço que deve
estar partido, e, talvez assim fique sem
dores e com o braço curado! Por acaso o
senhor não compreende o significado do
Natal?!
- Lá jeito para discursos, tens tu, garota!
- Comentou o velho "resmungão".
- Vou-me embora. Como vê, eu não quero o seu
dinheiro. Simplesmente, estava a tentar
ajudá-lo.
Dando meia-volta, ia-se a afastar, deixando
o senhor Freitas muito estupefacto.
- Como assim?! Vais-te embora? Tens coragem
de me deixares aqui sozinho? Finalmente tu
és como os outros que por aqui passam, sem
repararem neste pobre velho - que até tem
um braço partido...
Ao ouvir isto, a garota parou e
respondeu-lhe:
- Mas o senhor é que não quer a minha ajuda!
O velhote ouviu e "engoliu em seco". Mas,
logo continuou: -
- Aonde está a tal tua solidariedade que
ainda há pouco apregoavas? Sim, aonde é que
ela está? Ao deixares aqui sozinho um pobre
velho, doente e com um braço partido? Ai, ai
que me dói tanto!
A garota sorriu e já mais confiante,
retorqui-lhe: -
- Meu senhor, enrole todo o seu dinheiro em
volta do seu braço. Talvez assim se cure...
Já em tom quase suplicante, o velhote
pediu-lhe: -
- Mas o dinheiro não me vai curar! Preciso
da tua ajuda! Eu pago-te o que tu quiseres,
mas, por favor, ajuda-me a ir ao hospital!
Pois preciso de me curar. Ajuda-me,
garota!... Por favor!
- Dê cá o saco e o guarda-chuva: Agora,
encoste-se ao meu ombro e vamos ao
hospital...
««
E era bonito
de ver.
Um velho sovina, curvado pelo peso de muitos
anos, encostado ao corpo frágil de uma
criança, a caminho do hospital onde ia ser
tratado.
Naquela noite de Natal, o senhor Freitas,
finalmente, devia de ter compreendido a
mensagem de Deus:
"GLÓRIA A
DEUS NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS
DE BOA VONTADE"
F I M
(Carlos Leite Ribeiro
- Marinha Grande – PORTUGAL