"Nunca digas
NUNCA..." - de Carlos Leite
Ribeiro
Foi há muito tempo. Naquele
dia...
Último encontro de dois seres
que se amavam, mas como eram muito
teimosos e muito orgulhosos, nunca
conseguiram encontrar a fórmula que
harmonizasse as suas naturais
divergências.
Tal teimosia deu origem a um
afastamento que tudo indicava ser
definitivo.

Ela - "...tu não me apareças
mais à minha frente, nem procures
veres-me mais, porque eu para ti morri -
entendeste? Morri!... Se por acaso,
alguma vez, me encontrares na rua, por
favor, muda logo de passeio e nem de
soslaio olhes para mim! Nunca te
esqueças, disto que te digo!"
Ele - "O que disseste também se
aplica a ti, e mais, nem pensamentos em
mim te autorizo a teres, porque eu não
preciso, nem precisarei de ti para nada.
Nada - entendeste?!... Nada! Agora,
desaparece da minha vista para sempre -
mulher malvada! Para sempre!

Passados alguns meses ambos
casaram com namoros que entretanto
tinham arranjado.
Foram viver para terras
diferentes e nunca mais se encontraram.
O ódio que votaram um ao outro,
tinha surgido efeito. Mas... Há sempre
um mas...

Estávamos na véspera do Natal.
À porta de um supermercado, Ele,
hesitou mas por fim resolveu entrar para
fazer as compras que ainda lhe faltavam.
Já estava quase aviado, quando ao passar
por um corredor, avistou uma prateleira
com bolos de rei. Ergueu o braço para ir
buscar um, ao mesmo tempo que uma
senhora teve a mesma ideia e fez o mesmo
gesto. Resultado: o mesmo bolo que ambos
agarraram caiu-lhes a seus pés, e ambos,
ao tentar apanhá-lo, com a precipitação,
chocaram com as cabeças um do outro...
Ainda massajando as cabeças,
ambos olharam um para o outro.

Ela - Olha!... Que fazes tu
aqui? - perguntou-lhe muito admirada.
Ele – Faço o mesmo que tu. Mas
noto que continuas a teres a cabeça
muito rija!
Ela – Oh menino, isso pode eu
dizer de ti; olha o "galo" que me
fizeste na cabeça... – Disse-lhe Ela
enquanto afastava o cabelo para lhe
mostrar um inchaço que já começava a
notar-se - e continuou:
Ela - Com tantos
estabelecimentos que para aí existem,
tinhas que vir hoje e à mesma hora que
eu também vinha, a este... É preciso ter
azar!
Engrossando um pouco a voz,
respondeu-lhe:
Ele: - Se eu soubesse que
estavas aqui, nem nesta rua teria
passado. Nem nesta terra! Que pouca
sorte a minha! Bem, em que ficamos:
levas o bolo ou levo eu?
Olhando-o de soslaio, disse-lhe:
- Sim, eu vou tirar o meu bolo.
Quero lá saber se tu também tiras ou não
o teu! E para já, a conversa acabou.
Feliz Natal, passa muito bem, que não
foi prazer nenhum ter-te encontrado!

Ele sorriu. Apesar dos anos,
Ela, continuava "espevitada" como era
dantes. E também continuava muito
bonita... Por casualidade, tinha sabido
há pouco tempo que ela também tinha
enviuvado. Marotamente procurou a
"chateá-la” um pouco mais:
- Como esse carrito das tuas
compras, está muito pesado e a rolar
mal, eu tenho muito prazer de o te levar
até lá fora...
Ela mostrou logo o seu desacordo
com tal oferta. Mas o carrito estava de
facto muito pesado e rolava muito mal.
Fingindo-se mais zangada do que de facto
estava, lá acedeu:
- Olha que é só até à porta,
pois o meu carro está ali perto.
Tentando ser mais "gozão", do
que de facto era, Ele lá lhe foi
dizendo:
- Não te preocupes. Eu só faço
esta "gentileza" para te ver o mais
longe possível; imagina, o mais
rapidamente possível, de mim!"
Depois de passarem pela "caixa",
Ele levou-lhe o carro cheio de compras e
a rolar mal, até junto do automóvel
dela, como era o seu desejo. Ela quase
que lhe agradeceu:
- E pronto, acaba aqui o nosso
encontro - o nosso inesperado encontro.
Confesso que não tive o menor prazer em
tornar-te a ver!
Não querendo ficar por baixo das
palavras dela, logo lhe respondeu:
- Olha que estou plenamente de
acordo contigo! Mas que lá foi um enorme
prazer ter-te ajudado, isso foi. Ah
antes que me esqueça, quero pedir-te
desculpa de te ter feito,
involuntariamente, esse "galo” na tua
cabeça. Assim, talvez logo à noite,
penses em mim!
Ela ao ouvir isto, quase que o
"fuzilou" com os olhos, e disparou-lhe
em seguida:
- Não sejas convencido, porque
eu sou (e sempre serei) incapaz de
pensar em ti. Pronto, pronto, a conversa
já vai longa! Muito obrigado pela tua
(inesperada) "gentileza" e mais uma vez
um Feliz Natal para ti. Oxalá que nunca
mais nos encontraremos. Vá lá, agora,
sai da minha frente.
Dizendo-lhe isto, Ela entrou
para dentro do carro, pô-lo a trabalhar,
e, quando estava quase a arrancar,
debruçou-se para o seu lado direito, e
abrindo o vidro, perguntou-lhe:
- Olha lá, "menino", com quem
vais tu passar a noite da Consoada? E
logo rematou: Não é que me interesse,
melhor, não tenho o mínimo interesse em
ti nem da tua vida.
Ele parou, olhou-a nos olhos e,
com um sorriso algo triste,
respondeu-lhe:
- Como é já habitual há alguns
anos, vou passar esta noite sozinho.

Ao sentir a tristeza dele, Ela,
quebrou um pouco o seu ar que pretendia
ser altivo. Mas "reguila" como era, não
se conteve e disse-lhe em tom de
despedida: - Isso acontece muitas vezes
às pessoas más, de feitio irascível.
E lá seguiram o seu caminho,
cada um para seu lado...

Ele voltou a entrar novamente no
estabelecimento. Abeirou-se do carrito
que lá deixara com as suas compras.
Pensava nela:
- Porque a tinha encontrado?
Porque lhe tinha falado?
Agora seria pior, pois não
parava de pensar nela. A sua cabeça
estava feita num verdadeiro caos.
Sentiu-se revoltado. Já não lhe apetecia
comprar mais nada. Não queria estar mais
naquele ambiente do supermercado. Deu
meia-volta ao carrito para se vir
embora. Espanto seu, Ela estava
novamente na sua frente. Mal pode
balbuciar:
- Tu, novamente aqui...?!
Calmamente, Ela, altivamente,
respondeu-lhe:
- Não penses que voltei por tua
causa! Voltei, sim, porque esqueci-me de
comprar umas coisas, nada mais... Ou já
pensavas que?...
Ao encará-lo novamente, notou
que Ele tinha os olhos de quem queria
chorar. E até a sua voz era mais suave.
Sentiu um grande arrepio. Nesse momento,
por qualquer motivo ou avaria, as luzes
do estabelecimento apagaram-se. Ela
sobressaltou-se e nervosa como estava,
quase lhe suplicou:
- Com esta escuridão, é melhor
irmos embora.
Ele logo concordou:
- Talvez pela primeira vez na
vida, estou plenamente de acordo
contigo.

Dirigiram-se então para a saída.
E, Ela estava ali a seu lado. Tinha a
sensação de ouvir a sua respiração e
sentia o calor da sua mão, que estava
junto da sua. Parecia sonhar um sonho
lindo, e a meia voz, balbuciou: -
- Já vejo a luz da rua. Não será
bem uma luzinha "ao fundo de um túnel",
mas quase...
Admirada (ou talvez não) Ela
logo retorquiu-lhe:
- O que é que estás para aí a
dizer?
Embora hesitante, Ele
respondeu-lhe timidamente:
- Bem, é que... é que... como
hei-de dizer… É que gostava imenso de
cear contigo esta noite...
Ela fingiu-se muito admirada com
o que ouvira momentos antes, passando a
mão pelos ainda belos cabelos, embora já
algo grisalhos, disse-lhe:
- Ho "menino",
controla-te...pois deves de estar a
delirar! Que surpresas guardou-me o
destino para hoje! Olha cá para
mim...não, não, não ... Repara, eu já
tenho o meu programa para esta noite: o
meu filho vai a minha casa com a mulher
e o meu netinho; talvez também uns
primos, além de umas vizinhas...
Ele interrompeu-a ao
retorquir-lhe tristemente:
- Só eu é que não posso ir, não
é assim?
Ela encarou-o novamente. Sorriu
(talvez com malícia) mas notava-se algum
nervosismo:
- Ai, tu só me trazes problemas.
Como é que eu posso agora anular os
convites, não me dizes? Mas porque é que
eu te tinha que te encontrar novamente,
e logo neste dia? Tu, como sempre, só me
trazes trabalhos e problemas.

Ele até parecia que estava no
meio de um sonho. Um sonho lindo. Não,
não queria acordar. Mas desta vez, Ela,
estava ali a seu lado, compreensiva e
com uma certa doçura no olhar e na voz,
que nunca tinha imaginado que Ela seria
capaz...Ainda que timidamente,
atreveu-se a balbuciar: - Então,
"menina...Às oito horas, está bem?...
Ela ainda hesitou. Escondeu a
cara entre as suas mãos. Depois fez-lhe
uma festinha no rosto dele, dizendo por
fim:
- Mas olha que eu não vou a tua
casa!
Visivelmente satisfeito, e
porque não dize-lo, muito admirado com
Ela, também aprovou.
- Linda, não tem importância
nenhuma, posso eu ir a tua casa!
Ela, começou logo a fazer contas
à vida:
- Oito horas?... Olha menino,
vai um pouco mais cedo, pois o programa
da Televisão começa às sete, e assim
poderíamos o ver desde o princípio...
Ele, sorriu e pensou:
- Ou muito me engano, ou nunca
mais passarei outro Natal sozinho!"
