
A Prenda de
Natal
- de Carlos Leite Ribeiro

Não posso deixar de sorrir quando penso
neste episódio, real, da minha vida.
Era ainda uma criança, o Natal aproximava-se
e com ele a euforia desta quadra. Nessa
época, os papás avisavam as crianças que
deviam ser boazinhas, para que o Pai Natal
de trouxe-se uma prendinha na Noite da
Consoada.
Estávamos no final da 2ª Grande Guerra, e os
meus pais, à semelhança de outros, também me
começaram a avisar que eu devia de ser “mais
bonzinho” do que até aí tinha sido, porque
senão o Pai Natal me castigaria. Claro que
eu prometia a pés juntos que ia me tornar um
menino mais bonzinho, que não voltava a
salpicar o meu irmão com água, alegadamente
para ele crescer mais rápido, para poder
brincar comigo.
A minha avó paterna ria a ouvir estas
recomendações, e entredentes murmurava :
“estão a atiçar o diabinho …”.
Nessa altura já sabia que não era o Pai
Natal que descia pela chaminés para pôr as
prendas nos sapatinhos dos meninos. Para não
contrariar os papás, fingia que acreditava

Depois da Ceia de Natal, em que não faltou o
bom e verdadeiro bacalhau (não o “escamudo”
que hoje para aí vendem), fomos deitar com a
convicção que o Pai Natal ia descer essa
noite pela chaminé abaixo para nos deixar
umas prendinhas nos nosso sapatos que, quase
religiosamente, os fomos pôr na chaminé.
Fingia que estava a dormir quando os papás
se levantaram e se dirigiram para a cozinha
para distribuírem as prendas. A curiosidade
de saber o que me tinha calhado, era enorme.
Depois dos meus pais voltarem para a cama,
deixem passar algum tempo até eles
adormecerem. Levantei-me então e,
cautelosamente, dirigi-me à chaminé da
cozinha, onde já estavam depositadas a
prendas.
A luz era de duas velas que ficavam toda a
noite a arder. Era fraca mas dava para eu
ver o que queria. Dos meu padrinhos, tinha o
“Dicionário Complementar” de Augusto Moreno,
e a “Tomada de Lisboa aos Mouros” de Leite
Vasconcelos (livros que guardo ainda hoje e
religiosamente; dos papás “Um Conto de
Natal” de Charles Dickens (também guardado),
e vários lápis, borrachas de apagar, aparos,
tinteiros e uma bolsa nova para a escola.
Imaginem, nem um docinho!
Para o meu “irmãozinho”, como os padrinhos
eram proprietários de uma conhecida
confeitaria, ofereceram alguns pacotes de
bolachas, drops (no Brasil balas),
chocolates em tabletes, etc.
Fiquei furioso por nem sequer ter um
docinho. “Isto não se faz ao Carlitos! –
Pensei eu.
Durante alguns momentos, fiquei sei saber o
que poderia fazer para remediar aquela
“anomalia”. Mas a inspiração veio rápida.
Dividi as bolachas, os drops e os
chocolates, e transferi metade para o meu
sapatinho. E transferi para o sapatinho de
meu irmão, os lápis, as borrachas, os aparos
e até uma régua e um esquadro de madeira.
Com o “serviço” concluído, regressei à cama
onde adormeci profundamente.
Logo pela manhã, minha mãe trazendo meu
irmão ao colo, acordou-me para irmos ver se
o Pai Natal nos tinha trazido alguma prenda
…
Quando chegámos junto da chaminé, bem …
Minha mãe exclamou um enorme “hanhan”.
Entretanto, meu Pai também tinha chegado à
cozinha e ao ver aquele “trabalho” ficou de
boca aberta – e o caso não era para menos!
- Quem se atreveu a fazer estas mudanças? –
Perguntou ele virando-se para mim.
Com a cara de “mais inocente” que na altura
pude armar, balbuciei: - “Não sei o que se
estão a referir, mas, se houve alguma
“mudança”, devia ter sido o Pai Natal, que
foi o único que desceu pela chaminé abaixo
…”.
Embora bastante zangados, “escangalham-se” a
ri, juntamente com minha avó, que entretanto
tinha entrado na cozinha.
Eu estava bastante “encavado” (com medo).
- Carlitos, vai já para a cama – gritou-me
minha mãe, que continuou – este ano, não
tens nenhuma prenda!
E só recebi as minhas prendas uma semana
depois – e também bolachas, drops e
chocolates.
No ano seguinte, depois da Ceia, meu Pai
levantou-se da mesa para nos dizer: “Este
ano, o Pai Natal, entregou-me pessoalmente,
as vossas prendas. Isto para evitar as
“confusões” do ano passado …
E a partir desse ano, nunca mais houve
sapatinhos na chaminé nem Pai Natal a descer
pela chaminé abaixo …
Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande –
Portugal
A Todos Um Bom Natal
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
No Natal pela manhã
Ouvem-se os sinos tocar
E há uma grande alegria, no ar
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Nesta manhã de Natal
Há em todos os países
Muitos milhões de meninos, felizes
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Vão aos saltos pela casa
Descalças ou com chinelos
Procurar suas prendas, tão belas
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Depois há danças de roda
As crianças dão as mãos
No Natal todos se sentem irmãos
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Se isto fosse verdade
Para todos os Meninos
Era bom ouvir os sinos tocar.
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
(Letra de Lúcia Carvalho)
Texto de Carlos Leite Ribeiro - Marinha
Grande - Portugal.