Conto de Natal

 

 

 

 

 
 

 

COITADO  DO  ZÉ  ALVES...

Conto de Natal de Carlos Leite Ribeiro

 

“O senhor quer vir trabalhar para Portugal mas, não pode. Não tem autorização”.
A cena passa-se no aeroporto de Lisboa. Zé Alves tinha saído horas antes da Bahia com destino a Lisboa para trabalhar na construção civil. Tinha chegado no dia 23 de Dezembro e, na mala trazia muitas ilusões de poder trabalhar muito e, um dia regressar ao Brasil com uma quantia que lhe desse para endireitar a vida. Já há muito na pequena terra onde vivia ouvia dizer que em Portugal se ganhava bom dinheiro. Um dia meteu-se ao caminho para a cidade mais próxima para falar ao Sr. Francisco, um conhecido engajador que logo o levou a uma agência de viagem. Era possível arranjar-lhe uma viagem para Portugal e mais, até trabalho. Era preciso era dinheiro...

 


O nosso bom Zé Alves regressou a sua terra e conversou com a mulher. Esta não se mostrava nada interessada que o marido fosse para outro país trabalhar, embora, na sua região o trabalho não abundasse. Mas ele tinha de ganhar dinheiro para que seus ainda pequenos filhos pudessem um dia estudar. Com esta argumentação lá conseguiu convencer (quase) a esposa. Vendeu a casa e com o dinheiro pagou a quantia acordada com o tal Sr. Francisco,

Foi à agência encomendar seu passaporte e logo comprou um bilhete de avião. E eis o Zé Alves a atravessar o Oceano Atlântico em direção a Lisboa. Quantos projetos ele desenvolveu durante as horas de voo?

 


Já no aeroporto é que viu o logro em que tinha caído – em que vigarices o tinham metido. Quando da apresentação do passaporte o funcionário do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras lhe perguntou pela autorização para poder trabalhar em Portugal ou noutro país comunitário. Não tinha nem sabia que era preciso...
- Olhe lá – repetia o funcionário alfandegário – Quem é que lhe meteu na cabeça para você vir trabalhar para Portugal?
Muito trémulo o nosso amigo lá lhe foi respondendo conforme podia:
- Foi o Sr. Francisco lá da minha terra que me prometeu trabalho em Lisboa, e mais, que estava cá à minha espera o Sr. João dessa firma…
O funcionário ia perdendo a paciência:
- Ho amigo, mas quem é esse Sr. João, e qual é o nome da firma que supostamente você ia trabalhar?
Zé Alves encolheu os ombros, ao dizer:
- Não sei! O Sr. Francisco só me disse que tinha aqui à minha espera o Sr. João que me ia apresentar ao patrão. Não sei de mais nada. Eu só sei trabalhar na construção civil e não percebo nada dessas coisas...
Era triste ver um homem já a chorar, revoltado por ter sido enganado pelo tal Sr. Francisco. Tinha até vendido a casa para  pagar o “seu trabalho no estrangeiro”, e, assim poder vir trabalhar para a Europa e ganhar dinheiro para a sua família. Quase que deu um salto quando o funcionário lhe disse:
- Vai ficar aqui retido no aeroporto até apanhar o primeiro avião e voltar à sua terra.
Embora protestasse, alegando que conhecia muitos amigos que viviam em Lisboa, mas não sabiam aonde, lá foi levado para o recinto de espera, onde já lá estavam vários estrangeiros à espera de serem repatriados para seus países.
No dia seguinte, às 21 horas, foi metido num avião que o fazia regressar ao Brasil.

 

 

Com que cara ia chegar a casa (que já não era a sua) e enfrentar a mulher, os dois filhos pequenitos, a família e os amigos? 

Que cabeça a sua não se ter informado antes com as autoridades competentes...

Já era pobre e mais pobre ficou!
Isso acontece todos os dias enquanto no mundo existirem Srs. Franciscos...
Ao atravessar o Oceano Atlântico, lembrou-se daquela mensagem de Deus:
 
“GLÓRIA  A  DEUS  NAS  ALTURAS  E  PAZ  NA TERRA  AOS  HOMENS  DE  BOA  VONTADE”
 
E, humildemente, acrescentamos:
 
“E  TRABALHO  AOS  HOMENS  QUE  AQUI  NA  TERRA  TÊM  VONTADE  DE  TRABALHAR”.
 
FIM
 
Nota: É um trabalho de ficção, embora baseado num facto real. Mas quando quer, Deus escreve direito por linhas tortas. Tanto assim que Zé Alves (não é seu nome verdadeiro), voltou a Portugal, com um contrato de trabalho e hoje, é encarregado de obras de uma grande
empresa. Vive na região de Leiria com sua mulher e filhos.
 
Autor: CARLOS  LEITE  RIBEIRO   -  Marinha  Grande   -    PORTUGAL

 

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