
MAGAZINE CEN


Especial Natal 1º BLOCO – PROSA
Edição Especial Natal/ 2011 “Cá Estamos Nós” – Editor:
Carlos Leite Ribeiro

Queridos Amigos (as), os meus cumprimentos e agradecimentos
pela vossa Colaboração muito amiga. Seguidamente, serão
publicados mais BLOCOS de PROSA.
Do vosso amigo, Carlos Leite Ribeiro (Fundador e responsável
do “Cá Estamos Nós”.

NATAL
TRADICIONAL PORTUGUÊS
de CARLOS LEITE RIBEIRO
Ainda hoje, em muitas
localidades de Portugal, é assim:
Tudo começa no primeiro Domingo do Avento, ou seja, o
período das quatro semanas anteriores ao Natal.
Já é Advento - o
Menino Jesus está à porta!
É isto que é dito
quase como um pregão, é como uma semente de ternura, de
tolerância, de alegria discreta. Nasce a solidariedade em
torno do Natal - pois o Menino Jesus está à porta!
Espera-se pela novena (*), para se começar os cantares, e,
nestes dias, começa a azáfama do presépio, com muito musgo e
palhinhas para deitar o Menino Jesus. Enfeita-se um pequeno
pinheiro (a que chamam "árvore de Natal") com bolinhas
brilhantes, fitas de várias cores e uns bonequitos, com uma
série de lampadazinhas também de várias cores que piscam
durante a noite.
Procura-se o melhor bacalhau para a ceia, como se procura e
guarda-se a melhor couve da horta. Já há azeite novo e vai
haver bom café. Em alguns casos, também se junta o peru
assado no forno, acompanhado por batatas cortadas aos
quadrados e muito molho.
Depois, e antes da Missa do Galo, aparecem as guloseimas: o
arroz doce (ou aletria), as filhós, as rabanadas, o bolo de
rei, etc.
Depois a Missa do Galo, com a igreja enfeitada para a época
e muito bem iluminada, numa impressionante interioridade de
luzes.
Em algumas localidades, ainda hoje, depois da Missa do Galo,
usa-se acender uma enorme fogueira, e quase ninguém regressa
a casa sem antes passar o seu bocado em amena cavaqueira com
familiares, amigos e vizinhos, à volta da fogueira.
Na manhã do outro dia - o dia de Natal - a festa é dos mais
novos, que logo de manhã muito cedo vão à procura dos seus
presentes (uns na chaminé outros junto à árvore), presentes
estes que o "Pai Natal" lhes trouxe.
Natal, tempo de
ternura e de solidariedade.
O Menino Jesus já nasceu!
*Novena: período de
devoção e oração pública ou particular com a duração de nove
dias. É empregada no catolicismo como um período no qual se
obtêm graças especiais. Origina-se do fato de os apóstolos
terem-se reunido para rezar durante os nove dias entre a
Ascensão e Pentecostes.

Para compreender o
NATAL
O ano litúrgico divide-se em ciclos:
Natal, Páscoa, Tempo Comum. Em cada ciclo tem o seu tempo de
preparação e um tempo de repercussão, chamemos-lhe assim,
que forma uma unidade com a festa que o motiva, excepto o
tempo comum, que não tem preparação nem repercussão. Assim:
Advento – Natal – Epifania; Quaresma – Páscoa – Pentecostes;
O Tempo comum aparece intercalado entre estes tempos. O
Natal, vive-se na expectativa porque o Natal traz consigo
coisas, sempre as mesmas e sempre novas: É o Menino que vai
nascer, é tudo o que gira à volta do presépio, é a
expectativa das crianças (e adultos) frente à possibilidade
dos tradicionais presentes de Natal, é a expectativa do
bacalhau e das couves que, não se sabe porquê, nesse dia têm
outro sabor, é a expectativa de reunir toda a família.
Reencontro, solidariedade, partilha, ternura, são valores
que se vivem numa festa verdadeira de família. Se Deus fez
connosco uma família, porque não fazemos nós família entre
nós?.
Reporto-me aos meus tempos de meninice em que passava o
Natal na terra de minha família materna, perto de Aveiro.
Ali, a Missa do Galo e a fogueira de Natal, tinham lugar
importante. Tudo começava no primeiro Domingo do Advento,
onde se gritava: “Já é Advento, o Menino está à porta!”. Era
dito quase como um pregão, como uma semente de ternura, de
tolerância, de alegria discreta. Nasce a solidariedade em
torno da espera do Natal. Começa a azáfama do presépio.
Musgo e palhinhas para deitar o Menino, fitas de muitas
cores e luzinhas. O bacalhau do melhor procura-se para a
ceia, como se procura e se guarda a melhor couve da horta.
Já há azeite e vai haver café (se for brasileiro é melhor).
Que saboroso é aquele café da noite de Natal, feito num
púcaro de barro e bebido ao calor da lareira. Era preciso
estar acordado durante a Missa do Galo. E a refeição começa,
num ambiente de mistério, aluminada pela chama do grosso
cepo de azinheiro, já há muito guardado para a “noite da
Consoada”. Bacalhau, batatas, a melhor couve, tudo regado
com o mais fino azeite. No fim, rabanadas, as filhós e café.
Pouco depois começavam a passar as primeiras pessoas para a
Missa, muitas embrulhadas em grossos cobertores, já que o
frio não se compadece. Depois da Missa começavam os cânticos
ao Menino Jesus, cantados com tanto mais ternura, quantas as
saudades do Menino.
"Era meia-noite
Meia-noite em pino,
Cantavam os galos
Chorava o Menino”
Com toda a história
do Menino, contada e cantada. Melopeia, quase litania, que
data de séculos passados (talvez do séc. XV). No largo
principal da localidade, amontoava-se a lenha armazenada
durante dias pela “malta” (pessoal) esforçada. Logo a
fogueira era acesa. Ninguém vai para casa antes de passar o
seu bocado de amena cavaqueira à volta da enorme fogueira.
Mas a garotada tinha pressa de chegar a casa para ir pôs os
sapatinhos junta à lareira à espera dos presentes que os
familiares mais chegados iam lá colocar.
Que saudades daqueles tempos de
menino e dos Natais que passei lá por terras do concelho de
Albergaria-a-Velha Aveiro).
A todos, UM BOM, FELIZ E SANTO NATAL
Texto de Carlos Leite
Ribeiro - Marinha Grande - Portugal

ANTÓNIO LARANJEIRA
- Leiria Portugal -
A menina que gostava de
estrelas - Noite de Natal
Era uma vez uma menina que
gostava muito de estrelas.
Pois, eu sei que tu também gostas muito de estrelas, mas
esta menina gostava muito, muito, muito de estrelas, como só
podem gostar as meninas das histórias.
Esta menina gostava tanto de estrelas que todos os seus
vestidos eram às estrelas, os seus cadernos eram às
estrelas, os seus brinquedos eram estrelas de brincar e até
a sua gata se chamava… Estrela, pois claro. E que achas que
ela queria ser quando fosse grande? Astronauta, para poder
visitar as estrelas.
Esta era, aliás, a conversa da menina para a sua mãe. Que
queria ir visitar as estrelas, queria conhecer as estrelas,
falar com elas, brincar com elas.
A mãe da menina que gostava de estrelas, um dia, quando a
foi deitar e quando, mais uma vez, a menina lhe disse que
gostava muito, muito, de ir visitar as estrelas,
respondeu-lhe que quando ela adormecesse, se desejasse
muito, muito, ir visitar as estrelas, iria.
Porque quando nós queremos muito, muito, uma coisa qualquer,
conseguimos,
explicou-lhe a mãe. E que ela já tinha idade para querer
muito, porque
Todas as idades são boas para querer muito.
A menina que gostava de estrelas não perdeu tempo e
adormeceu o mais depressa que pôde, pensando com toda a
força que queria ir visitar as estrelas.
Logo, logo, surgiu no quarto uma luz suave e uma senhora
linda, mais linda do que as barbies da televisão, e com umas
asas grandes e brancas como os cavalos alados dos livros de
histórias do irmão, que lhe estendeu a mão e disse-lhe
Anda, vem comigo ver as estrelas.
E antes da menina pensar, como se as coisas acontecessem
porque tinha de ser, a menina que gostava de estrelas viu-se
rodeada de estrelas. E como eram bonitas, as estrelas. Muito
mais bonitas do que ela alguma vez tinha imaginado – e ela
tinha-as imaginado muito, mas mesmo muito bonitas.
E que diferentes, eram elas todas. Uma era de rebuçado de
coca-cola. Outra feita com sugus de muitos sabores. Outra
parecia um cão sorridente, com uma estrela branca no peito.
Outra tinha o aspecto de uma estrelita daquelas que se comem
com leite. Outra sabia a pêssego com muito molho. E outra
igualzinha ao leite com chocolate. E havia-as também em
lego, e feitas de areia branca de ao pé do mar. E outra, tão
linda, parecia as ondas que molham os pés. Uma outra era
mesmo o abraço mais apertado do mundo que o pai lhe dava
sempre. E outra tal e qual o beijo da mãe quando chegava do
trabalho. E aquela, olha aquela, era uma festinha ao bébé, e
ao lado, tão gira, um abraço do mano. E aquela, ali, ao
fundo, é mesmo o riso da Ema.
A menina que gostava de estrelas estava encantada. Por muito
que tivesse imaginado, nunca lhe tinha passado pela cabeça
que as estrelas de que ela tanto gostava eram, afinal, tão
parecidas com todas as coisas de que ela gostava.
Pela mão da fada de asas brancas e grandes (ainda não
tínhamos visto que aquela senhora mais bonita que as barbies
da televisão era uma fada, mas se era linda, boa, tinha asas
brancas e voava, que outra coisa podia ser, senão uma
fada?), a menina que gostava de estrelas ia percorrendo todo
o céu, e ia descobrindo, em cada canto, uma estrela
surpreendente.
Até que, depois de muito terem voado, e de muitas estrelas
terem visto, a menina que gostava de estrelas ouviu um
assobio.
Um assobio? No céu? Nas estrelas? Que estranho!
Ora, é a estrela galanteadora, disse a fada. E explicou que
aquela estrela gostava tanto de meninas e meninos como a
menina gostava de estrelas. E por isso, sempre que passava
uma menina, ou um menino, ela assobiava, para poder
conversar um bocadinho.
Quero lá ir,
disse a menina.
Vamos, depressa, que temos de regressar,
condescendeu a fada.
E quando lá chegaram, a estrela galanteadora, que tinha um
sorriso eterno, disse à menina que ela era a menina mais
linda do mundo.
Eu, a menina mais linda do mundo?,
estranhou a menina que gostava de estrelas.
Sim, claro, a menina mais linda do mundo é aquela que gosta
muito, muito, de estrelas
respondeu a estrela galanteadora,
E para nunca te esqueceres disso, toma um pouco de areia
amarela de fazer as pessoas felizes.
E colocou-lhe na palma da mão um punhado de areia amarela,
muito amarela e muito fina, e disse-lhe
Guarda-a, guarda-a sempre contigo.
Nisto, já a fada levava pela mão a menina que gostava de
estrelas, e ela de repente levantou-se da cama e gritou
Mãe, mãe, eu fui às estrelas, eu fui às estrelas, eu fui às
estrelas.
A mãe, acabada de chegar ao quarto, deu-lhe os bons dias e
disse-lhe, sorrindo,
Eu não te dizia, filha, ainda bem que tiveste um sonho bom
.A menina levantou-se e, sem saber porquê, meteu a mão ao
bolso do seu pijama às estrelas e agarrou um punhado de
areia amarela, muito amarela e muito fina. Ergueu os olhos
e, num canto do quarto, ainda brilhante, a fada fazia-lhe «shiu»
com um dedo em cima dos lábios, para logo depois se afastar,
num bater luminoso das asas brancas e grandes.
Olha o sol, tão lindo e tão brilhante,
exclamou a mãe da menina que gostava de estrelas, quando,
nesse momento, abriu a janela e um clarão de luz inundou o
quarto.
António Laranjeira

AGOSTINHO
RODRIGUES
- Rio de Janeiro/RJ Brasil -
Feliz Natal
Um cidadão de
renomado respeito e admiração e visivelmente apaixonado
pela sua noiva, resolve casar. Assim e feito. Após cinco
anos de feliz convivência, com filhos, surgiu atrito por
ciúmes e intriga entre os dois, criando um avassalador
desentendimento, obrigando-o, mesmo nutrindo grande amor
pela esposa, a pedir separação.
Anos se passaram e tantos foram às desventuras amorosas
que teve, incrível que pareça, ficou totalmente pobre
e alcoólatra, vivendo de esmolas nas periferias da
cidade. Assim, acabou sendo necessário atendimento em
hospital e tomando conhecimento de que sua doença era
irreversível, com poucos meses de vida.
Cabisbaixo e pensativo dirigiu-se a praça, local que
costumava pedir esmola e observou um casal acompanhado
dos filhos se divertirem. Sente um arrepio seguido do
mediato desejo de que pelo pelos menos, como seu último
desejo, pudesse rever a família.
Seus amigos de esmolas e simpatizantes do grupo, cientes
do estado de espírito, se cotizam com o propósito de que
além de um banho de aparência, ele pudesse comprar a
passagem para retornar a sua cidade. Ao chegar, é
antevéspera de Natal.
De barba feita e cabelo cortado, com vestimenta e
sapatos adequados, chega à residência da ex-esposa e
paulatinamente se aproxima da janela da casa e vê seus
filhos já crescidos, acompanhados das respectivas
esposas e sua linda e amada como sempre, já ao lado de
novo companheiro, deixando-o com os olhos lacrimados.
No dia seguinte, véspera de Natal resolve voltar de
novo, para ver mais de perto, a família pela última vez
e estando no centro da cidade, resolve comprar uma roupa
de Papai Noel; considerado um disfarce ideal e com a
sobra de seus últimos trocados, pelo menos comprar
presentes para sua amada ex-esposa e filhos.
Dia 24 de dezembro, meia-noite, vestido de Papai Noel,
bate a porta da casa. É aberta por uma linda menina, sua
neta por excelência, que anuncia:
- Gente!... É Papai Noel!
Todos se dirigem à porta e ao vê-lo, convida-o a entrar.
Reunidos na sala é feita uma oração pela sua ex-esposa
que ressalta a sua fiel lembrança dos bons momentos que
tivera juntado ao seu primeiro marido. Sensibilizado e
com os olhos marejados de lágrimas, após as
confraternizações, beija-a na testa e dirigindo-se a
todos, conclama em voz alta:
- Foi uma linda noite... Feliz Natal para todos!
Retirando-se acenando com reciprocidade o sinal de
adeus.

ISABEL VASCONCELLOS
- São Paulo, SP, Brasil -
ROBERTO JESUS
Estava sozinha na cidade grande e sentia-se
enjoada, tão enjoada como se todas as suas vísceras
fossem saltar pela boca. Pegou um ônibus e, tonta de tão
mal, foi ao pronto socorro de um hospital público. Uma
médica muito gorda estava de plantão e examinou-a,
enquanto ela vomitava a alma. Deu uma risadinha e um
comprimido para ela tomar. Ficou lá, jogada numa das
macas do corredor, enquanto a doutora saiu um instante,
dizendo que ia fazer um teste.
Voltou alguns minutos depois, com um sorriso nos lábios.
Maria olhou para ela e pensou, no meio do seu sedado
delírio, que a médica era um anjo, de asas muito largas
e brancas. Havia uma luz sobre a cabeça dela, que
parecia tornar brilhante seu traje branco e já meio
sujo, depois de um dia de plantão. Então a doutora
falou:
- Você não tem nada demais, minha filha. Está tudo
normal, considerando que você já deve estar, há uns dois
ou três meses, carregando um bebê em seu útero.
Maria pulou da maca, assustada.
A médica, compreensiva e acostumada aos muitos dramas da
vida que todos os dias circulavam pelo Pronto Socorro,
disse:
- Você sabe quem é o pai?
Maria, ainda atônita pela notícia, balançou a cabeça
numa negativa.
- Nem desconfia? – insistiu a médica.
Maria pensou que a médica estava enganada. Ela não podia
estar grávida. Ela não fizera amor com ninguém...
Saiu do PS ainda zonza e foi para casa, imaginando que
aquilo que não passasse de um engano. Ela decidamente
não poderia estar grávida. Mas, à medida que passava o
tempo, sua barriga crescia e seu pavor também. Como
poderia ela carregar uma criança se ainda era virgem?
Procurou um ginecologista no posto de saúde, explicou a
ele, ele a examinou e confirmou: estava de quatro meses.
- Mas doutor – perguntou ela – como pode ser se o senhor
mesmo viu que eu ainda sou virgem?
- Sabe, Maria, às vezes não é preciso penetração para
engravidar. Se você esteve com seu namorado e ele
ejaculou próximo à sua vagina...bem, é raro... mas o
espermatozóide pode ter entrado e atingido um
óvulo...Não existe outra explicação.
Mas ela sabia que não acontecera nada disso. Tivera
apenas dois namorados e tudo não passara de uma troca de
beijos e abraços, nada parecido com um clímax sexual,
com ejaculação e tudo... O médico balançou a cabeça, sem
saber o que dizer, quando ela lhe explicou. Era um homem
experiente, imaginou que a menina pudesse ter sido
vítima de violência sexual e tivesse, por um mecanismo
psicológico de defesa, apagado da memória a
experiência.
- Escute, procure lembrar-se...- começou ele com muito
cuidado – Ninguém nunca tentou abusar sexualmente de
você? Algum parente, em sua casa? Ou mesmo um
desconhecido, no ônibus , que tenha se aproximado demais
(se esfregado...pensou ele, mas não disse) do seu corpo?
Não. Ela tinha certeza que não.
- Bom, de qualquer maneira, vou pedir uns exames, você
faça e volte daqui a um mês para acompanharmos o
andamento de sua gestação.
Maria não sabia o que fazer. Seus tios, na casa de quem
morava, a haviam recebido tão bem em S.Paulo e ficariam
absolutamente consternados com a gravidez da sobrinha e,
além disso, jamais acreditariam que ela tivesse
engravidado virgem. Seus pais viriam certamente, loucos
da vida e cobertos de vergonha, para levá-la de volta à
cidadezinha do interior e todos os sonhos dela, de
cursar uma faculdade e fazer carreira na capital,
estavam agora fadados ao esquecimento. E pensando em
tudo isso, ela chorou. Caminhava em direção a casa dos
tios, passou em frente ao bar mais concorrido da região
e José, o dono do boteco, que tinha acabado de abrir o
estabelecimento e estava na calçada, contemplando o por
do sol, viu aquela menina bonita com lágrimas nos olhos
e disse:
- Por que choras, Maria? Venha, entre, tome um
refrigerante e acalme-se, não vá para casa assim...
Sem saber bem porque ela entrou e sentou-se numa mesa.
Meia hora depois tinha contado a José todo o seu drama.
Ele coçou a longa barba negra e disse:
- Olha, Maria. Sou bem mais velho que tu. Quantos anos
tens mesmo?
- Quinze.
- Eu tenho o dobro. Mas quis o destino que a minha
Maria, que era Maria de Fátima, diferente de ti, que és
Maria da Glória, me deixasse, morrendo em apenas seis
meses, daquela doença maldita. Se queres mesmo ficar em
S.Paulo, se queres estudar, eu te proponho um negócio:
caso-me contigo, tu cuidas da minha casa e estudas,
cuidas de mim, das minhas coisas, e eu fico sendo o pai
de teu filho, não importa quem seja ele.
Maria levantou os olhos para ele, assustada.
- Mas por que você faria isso?
- Porque sou um português louco e sempre gostei de ti e
porque tudo o que precisas agora é de um marido e tudo o
que eu preciso é de uma esposa.
Assim, um mês depois, Maria e José casaram-se numa
cerimônia simples, com a presença dos pais dela, que,
indignados por sua gravidez, vieram do interior mas
acabaram gostando daquele portugues falante e simpático
apesar de que ele, julgavam, havia feito mal para a sua
filha.
O casamento deu certo. No começo, Maria era grata a José
por tê-la amparado naquele momento difícil, por
proporcionar-lhe a continuidade de seus sonhos, mas logo
descobriu que o marido era um amante hábil e, quando se
deu conta, estava de fato apaixonada por ele.
José herdara dos pais uma pequena panificadora que
tratara de transformar em bar, já que gostava da vida
noturna e que o boteco era muito conveniente para
esconder a sua militância política. Estavam vivendo
tempos duros naquele 1970, no Brasil. A ditadura
mostrava suas garras e José abrigava, no porão de seu
estabelecimento, aqueles rapazes e moças heróicos que se
escondiam da repressão e até mesmo aquele monte de
livros e panfletos considerados subversivos pelo poder
militar.
Na véspera do natal daquele ano, quando Maria estava
prestes a dar a luz, estavam fechando o bar mais cedo,
já que iam cear na casa dos tios dela, quando um dos
contatos de José, um universitário e líder estudantil,
entrou correndo no bar, ofegante e muito nervoso e
disse:
- Portuga, temos que dar o fora. Um dos nossos caiu e
conhece bem esse ponto. Estou com uma kombi da empresa
do meu pai e posso levar todos vocês para bem longe.
- Acalma-te, ó menino de Deus – respondeu José – levas
os teus companheiros e fico aqui para esperar os homens.
Nós já estávamos mesmo fechando e pretendemos ir passar
o Natal na casa dos...
- Que Natal, portuga? Você pirou? Se os macacos vêm
aqui, arrastam você e a tua mulher para o Dops e vocês
vão passar o natal mas é pendurados num pau-de-arara
para que contem o que sabem...
- Maria está prestes a dar a luz! – protestou José.
- Vamos logo, portuga. Tira os meninos lá de baixo e vem
vocês dois com a gente. Vamos sair da cidade. Vou levar
vocês para um sítio do meu pai. Pendura aí na porta de
ferro uma placa dizendo que o bar está de férias e
depois a gente vê o que faz. O pessoal se dispersa, você
pode ficar com a Maria no sítio...
- Mas e o meu negócio? E o dinheiro? Pensas que vamos
viver de brisa?
- Na kombi tem um monte de dinheiro que o pessoal do
movimento me deu para garantir a sobrevivência dos
companheiros. Não discute. Vamos embora. Eles podem
chegar a qualquer momento!
E assim se foram todos, espremidos na Kombi, para fora
da cidade. Três dos militantes desceram em cidades
próximas à S.Paulo pois iam se abrigar em aparelhos que
a organização clandestina mantinha por ali.
Quando já se iam mais de 100 kms de estrada, Maria
começou a sentir fortes dores e logo o chão da kombi se
encharcou com a sua bolsa rompida.
Claudio, o líder estudantil, que dirigia o carro, não
pensou duas vezes. Viu uma porteira, parou o carro. Por
sorte, estava fechada apenas com uma corrente, sem
cadeado. Ele foi dirigindo pela estreita trilha,no meio
do mato, imaginando que encontrariam uma casa mais
adiante. Os gritos de Maria doíam-lhe na alma. Adiante,
avistou uma construção. Era um estábulo. Parou a kombi,
de frente para a porta, iluminando o interior com os
faróis.
Assim, deitada num monte de feno, com o auxílio das duas
militantes fugitivas, deu à luz a um menino forte e
bonito, exatamente à meia noite.
Nesse momento, quando as moças improvisavam tudo para
limpar e envolver o bebê, três homens se aproximaram. Um
deles trazia uma espingarda e outro, uma lanterna.
Claudio explicou a eles que estavam viajando e que Maria
entrara em trabalho de parto e que, portanto, não
tiveram outra alternativa senão invadir a fazenda. Eles
aceitaram a explicação, cumprimentaram José e se
afastaram. Quinze minutos depois voltaram, com uma
caminhonete, trazendo uma cesta com frutas e um pouco de
carne, muitos pães, algumas garrafas de vinho, garrafões
de água, uma enorme bacia e lençois e toalhas.
- Meu Deus! – exclamou Cláudio – Isso, na nossa
situação, é um verdadeiro presente de rei! Quanta
generosidade dos senhores!
- Não é nada – disse o mais velho deles – afinal já
passa da meia noite e é natal. Esse menino, nascido no
estábulo, está repetindo uma história muito antiga...
Foi interrompido pelo grito de uma das moças:
- Olhem! O que é aquilo no céu? Tão brilhante! Parece um
disco voador!
Olharam todos, espantados, para aquele brilho intenso
que aparecera, de repente, no estrelado firmamento.
Ficou ali por alguns instantes e depois partiu com
incrível velocidade, deixando um rastro luminoso no céu.
Maria, deitada no feno, mal refeita ainda das dores do
parto, mas carregando feliz nos braços o seu filho,
disse a José:
- Ele vai chamar-se Jesus, já que nasceu no Natal.
Roberto Jesus, em homenagem ao Roberto Carlos e ao
natal.
Partiram no dia seguinte, mal nasceu o sol, não sem
antes agradecer pela hospedagem e se refugiaram no sítio
do pai do Cláudio. Um mês depois, Maria, José e o menino
Roberto Jesus voltaram à cidade. A polícia política
andou aparecendo no bar, fazendo perguntas, incomodando,
mas logo desistiu. José era esperto e sempre negou
qualquer conhecimento dos movimentos subversivos.
Tres anos depois, Maria engravidou de novo e nasceu
Thiago Carlos.
Roberto, desde ainda muito bebê, se revelou uma criança
dócil, fácil de cuidar e educar. Ia bem na escola, era
amável e gentil, generoso mesmo, tanto com o irmão
quanto com os amiguinhos.
Maria pode terminar os estudos, aprendeu inglês e, um
dia, ouvindo um sucesso de Billy Paul no rádio, viu seus
olhos encherem-se de lágrimas ao se deparar com um verso
que traduzia exatamente o que ela sentiu, naquele
estábulo, quando lhe nascera o primeiro filho: “How
wonderful life is, now you’re in the world” (que
maravilhosa é a vida, agora que você está no mundo).
Hoje, dia 25 de dezembro de 2003, Roberto Jesus recebe
seus parentes e amigos para um grande almoço de natal,
onde se comemora também o seu trigésimo terceiro
aniversário. Maria e José, seus pais, estarão lá,
felizes como sempre. Thiago, seu irmão, está trabalhando
em Londres e veio especialmente para a festa. Roberto
ainda está solteiro, mas namora uma moça muito bonita e
inteligente e pretende casar-se com ela. Ele e José hoje
administram um pequeno império de supermercados, que
construíram na última década. São conhecidos por sua
imensa generosidade para com os empregados. Roberto é um
jovem bem sucedido, que acredita na distribuição de
lucros, que pauta sua vida pelos mais nobres
sentimentos, crendo sempre que o trabalho e a tolerância
são os maiores dons do ser humano. Um dia, numa reunião
da associação comercial, um colega empresário, assustado
com as teorias daquele jovem, lhe perguntou:
- Mas, amigo, por que tanta generosidade assim?
E Roberto Jesus respondeu:
- Ora, porque somos todos filhos de Deus.


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