magazine especial Natal

3º -Bloco Prosa

 

 



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Especial Natal 3º BLOCO – PROSA

Edição Especial Natal/ 2011 “Cá Estamos Nós” – Editor: Carlos Leite Ribeiro

           

Queridos Amigos (as), os meus cumprimentos e agradecimentos pela vossa Colaboração muito amiga. Seguidamente, serão publicados mais BLOCOS de PROSA.

Do vosso amigo, Carlos Leite Ribeiro (Fundador e responsável do “Cá Estamos Nós”.




 

 

TCHELLO D´BARROS
- Belém - PA - Brasil -

 

O LEGADO E O PRESENTE

 

Estavam algumas deidades de terceiro escalão reunidas em um quadrante próximo à Alfa Centauro, em um recente 24 de dezembro, como fazem todo ano, desta vez tramando sobre o destino de uma certa cidade provinciana do sul do Brasil, quando o assunto se encaminhava para a constatação de que o projeto foi inviável, que foram mais de 150 anos perdidos e não valeria a pena continuar com aquele nome no mapa.
Claro que isso gerou muito calor na discussão, pois as divindades andavam sobre a Terra e tinham lá suas convicções, algumas bem disparatadas, é verdade, pois tudo se tratava de distribuir bençãos ou castigos aos que tinham feito boas ações o ano todo. E aquela cidade estava na corda bamba.
Os mais otimistas argumentavam que não, que deveriam deixar a cidade como está pra ver como é que fica, pois é um povo trabalhador, muito trabalhador, trabalham 24 horas por dia, são um exemplo para o país. Mas aí um deusinho meio comunista levantou a mão e disse que isso não quer dizer nada, que são como formigas, que trabalham demais e a vida não é feita só de trabalho. Então, um terceiro entrou na parada, lembrando que não era verdade, que lá o povo gosta de festa também, promovem grandes festanças esvaziando tantos barris de chope quanto possível. Logo, entraram na discussão mais alguns, lembrando que além de tudo, é a terra que mais tem mulheres bonitas no país, que lá se fazem cristais maravilhosos, que se faz roupa bonita como ninguém, que as bandinhas são as mais animadas, e assim debatiam, cada vez botando mais lenha na fogueira da discussão.
Nisso a ala pessimista entrou na briga, lembrando que apesar de tudo, era um povo meio frio, desconfiado com visitantes, que não se abraçavam com freqüência, que muitos nem queriam saber de falar português, que no time de futebol da cidade só tinha pernas-de-pau, que no inverno não caía neve, que o rio fazia uma curva, que o chucrute estava azedo e assim por diante. Foi o que bastou para que quase caíssem na porrada, cada um reverberando suas certezas e proposições.
Foi nesse momento que entrou na cena um grupo de uns deuses esquisitos, com cada de mau, que pediram a palavra, imediatamente concedida, e contaram que a tarefa não era tão simples quanto se pensava, e que eles mesmos já tinham feito tentativas individuais nesse sentido, mas sem grandes resultados, que era preciso entrar em consenso e somente com uma ação coletiva poderiam efetivar seu intento, pois destruir uma cidade inteira como aquela não é tarefa fácil, ainda mais com aquelas casas em estilo enxaimel, resistentes a tudo. A turma toda ficou surpresa com esse depoimento e pediram mais explicações.
Um deles contou que tentou riscar a cidade do mapa, com algumas inundações, que isso incomodou de fato o povo, mas sempre deram um jeito de tirar tudo de letra. Isso causou certo pavor em alguns participantes da reunião, mas outro apartou logo e contou que tinha tentado pelo fogo, mas o máximo que conseguiu foi queimar o tampo de um morro das redondezas. Outro disse então que por muitas vezes espalhou pela cidade políticos corruptos, gente consumista, empresários fominhas, poetas ruins e toda uma laia de gente maledicente, invejosa e mesquinha. Lamuriou então que não adiantou de nada, esses apenas trataram de se miscigenar com os habitantes e o resultado está aí. Outros ainda quiseram enumerar suas tentativas, pra contar das favelas, capivaras, academias, argentinos, pagodeiros e outras presepadas, mas o conselho superior interrompeu.
Estavam para concluir e tomar uma decisão que resultasse numa ação conjunta, pois estava visto que somente um esforço coletivo poderia levar a cabo tão importante tarefa, quando de repente, um deusinho que até estava meio escondido, lendo absorto qualquer coisa num livro, pediu a palavra, ou melhor, interrompeu o conselho e foi logo dizendo que sabia de algo na cidade que justificaria sua continuidade, sua permanência. Todos ficaram espantados e queriam saber do que se tratava, sendo que um já foi logo dizendo que era o apfelstrudel, que faziam num bairro da periferia. Outro perguntou se por acaso se tratava dos ipês-amarelos que na primavera enfeitavam de ouro a cidade. E já estavam todos animadinhos para darem seus pitacos quando ele mostrou à todos o livro que tinha descoberto e trouxe da biblioteca pública da cidade: um livro de poemas haicais. Todos ficaram estupefatos a princípio, mas em seguida ele lhes contou que naquela cidade viveu um grande poeta e que este escreveu inúmeros poemas nesse estilo e até publicou vários livros e que esses livros hoje estão à disposição do povo na biblioteca.
Já era quase meia noite, quase 25 de dezembro, e então os deuses ouviram a leitura dos poemas, causando comoção à todos. E foi assim que decidiram naquela noite que a cidade deveria permanecer no mapa. Todos deram sua benção antes de dormir.

 

 

 

 

TITO OLÍVIO
- Faro  Portugal -

 

NATAL NA ENCRUZILHADA
 

Quando, à noite, o sol, morrendo, se escondia no horizonte, sempre vinha a ventania, que surgia por trás do monte e fazia correr à desfilada os rolos de nuvens do vermelho pó da estrada, como atletas em competição. Em Dezembro, porém, vinha o frio também, um frio gélido, que cortava as orelhas e obrigava a levantar a gola do capote. Dizia o povo que «ande o frio por onde andar, no Natal há-de chegar». Fazia, pois, um frio de rachar, puxado pelo vento incómodo.
A estalagem, à beira da estrada, naquela encruzilhada, que parecia levar a toda a parte do mundo e em todas as direcções, era um edifício, parecendo uma antiga igreja, que tivesse sido adaptada à vida laica. Paredes caiadas e cunhais de cantaria aparelhada. Por cima da larga porta dupla, havia um óculo, daqueles onde as igrejas têm uma rosácea, mas que, ali, tinha apenas vidro branco. À roda, não se via qualquer outra casa e somente algumas árvores raquíticas enfeitavam a paisagem árida.
Todo o viajante fazia uma paragem para comer ou também dormir e do estalajadeiro era conhecida a fama de nunca negar comida e cama, mesmo que o passante não tivesse algum dinheiro. Chamava-se o anfitrião Serafim e sua mulher tinha o nome de Ester. Tinham perdido seu único filho numa noite de Natal, ainda criança, numa queda fatal do muro do jardim, por descuido da criada. É indescritível a dor de pais que perdem um filho. O casal bem tentou arranjar outro, mas Deus não lhes concedeu um descendente, alguém que deles cuidasse na adiantada velhice. Talvez por isso, ambos dedicaram o resto de suas vidas a servir os outros e a ajudar quem precisava. Pobre que pedisse esmola tinha de se sentar e comer uma sopa de hortaliça. Se precisasse de dormir, havia palha na cavalariça para descansar os ossos.
Desde aquele dia fatídico, na estalagem da encruzilhada, cada noite de Natal tinha uma consoada, uma lauta ceia bem servida, com sopa quente, pão, queijo, chouriços e vinho à discrição, terminando com as rabanadas, que eram uma especialidade da D. Ester. Era para quem estivesse presente, em lembrança da memória da criança falecida, e ninguém pagava nada. Então, para além dos passantes, os mendigos das cercanias, duas léguas em redor, aproveitavam aquela noite para tirarem a barriga de misérias, aquecer os corpos na atmosfera morna do comprido salão abobadado, que o calor da grande lareira bafejava. As paredes eram de pedra à vista, a que se encostavam os barris de madeira, a atestar que aquele lugar era a adega da estalagem. Todos comiam e bebiam e o estalajadeiro apenas exigia que, no final, cantassem hinos em louvor do Deus feito Menino, que veio ao mundo na noite de Natal para ensinar o amor. Serafim e D. Ester eram profundamente piedosos e, por isso, nunca se haviam revoltado com a morte prematura do seu filho único, crentes que estavam de que o Senhor o tinha chamado ao seu bendito Reino para fazer dele um anjinho da Sua corte.
Há muitos anos já, tantos que o bom do Serafim a conta lhe perdera, naquela noite sagrada aparecia lá, infalivelmente, um grupo de homens, para o qual era reservada uma mesa comprida. Ninguém sabia donde vinham, nem para onde iam, mas também nunca isso lhes tinha sido perguntado, porque, na consoada, a única coisa que interessava era cear e depois cantar. Não eram mendigos, certamente, tendo em conta as suas amplas túnicas muito limpas, coloridas, em que o tempo parecia não tocar, pois estavam sempre novas.
Um era o Simão, o que chegava primeiro, talvez por perto morar. Abraçava o estalajadeiro e pegava na mão da mulher para a beijar com admiração.
– Lindo é o nome Ester, que foi o daquela rainha boa e bela que libertou o povo do Senhor da servidão no reino do Imperador da Pérsia!
E cada ano, como se fosse a vez primeira, era sempre esta a saudação à estalajadeira, que lhe retribuía também com o mesmo sorriso.
Outro, era André, irmão de Simão, mais moço e mais belo, com longo cabelo e brilho no olhar; e outro, o Tiago, alto, espadaúdo, mais o seu irmão, de nome João, quase uma criança, do grupo o delfim, um louro semblante que trazia ao Serafim a doce lembrança do seu filho infante; e outro, o Filipe, com graça no andar, e o Bartolomeu, um homem barbudo, e outro, o Tomé, sempre a olhar de lado, curioso, desconfiado; e Mateus, o Publicano, culto homem da escrita, que dominava o grego e o romano, e trazia uma fita onde assentava tudo; e mais um Tiago, baixote e pançudo, que, para se distinguir do outro Tiago, alto, espadaúdo, usava também o nome do pai, que era Alfeu; por fim, o Tadeu, de alcunha o Iscariote. Eram doze ao todo e quem os visse ali, na doçura do trato, em suave harmonia, por certo diria que eram todos irmãos.
Depois de lavados os pés e as mãos, sentavam-se à roda da grande mesa, cada um em frente da sua malga de louça, enquanto as criadas, limpas e arranjadas, traziam com presteza o caldeirão da sopa quente. De pé, braços cruzados sobre o avental, como um modesto serviçal de todos os comensais, o anfitrião olhava embevecido e sorria, contente.
Naquele ano, algo de novo se passou. Quando os doze já estavam sentados, o largo portão rangeu, como se fosse a ventania, mas foi um desconhecido que apareceu entre os umbrais e, suavemente, entrou. Tão suavemente, que parecia não tocar o chão com as sandálias. Não disse nada; porém, foi como se tivesse chegado a madrugada em todo o seu esplendor, se tivesse feito claro dia e o sol entrasse pela janela. Fosse da face amarela, sem rubor, do brilho do olhar ou dos lábios descorados; fosse da tez morena, dos cabelos ondulados, do seu aspecto sereno, da leveza do andar, toda a gente estremeceu e, de repente, se calou.
O homem não disse nada, nem mesmo pronunciou um nome. Dirigiu-se à mesa dos doze e tomou o lugar central que os outros lhe fizeram, chegando-se para os lados. Sentou-se, mas não comeu. Fitava o anfitrião com o sorriso de um rei e um olhar franco e bondoso. Depois de alguma espera, disse-lhe então:
– Só hoje vim, mas conheço a tua vida; sei desta ceia, servida cada ano no Natal, sinal da tua bondade, e sei com que intenção a ofereces, sem distinção das pessoas, sejam elas quem forem. Podes crer que o teu filho está no Céu, na formação dos anjinhos, e irás vê-lo brevemente! Estes, à roda de mim, são os meus doze amigos e de há muito não nos víamos. A ensinar a verdade eles o mundo percorrem. Serafim, tua bondade a tua alma salvou, deves pois estar contente. Chegou o dia, enfim, nesta noite de Natal, e foi por isso que eu vim. Há para ti um abrigo, onde a vida é só ventura, não existe sofrimento, nem tortura ou amargor, nem vaidade ou presunção; não tem ricos, não tem pobres, não tem plebeus nem tem nobres, porque são todos iguais; não tem labor nem preguiça, nem prisão nem injustiça, não tem lutas nem rivais; não tem homens poderosos, sequiosos de ambição, vingativos e raivosos; não tem doença malvada, nem morte que meta medo; não tem sina mal fadada, nem intrigas nem enredo; não tem luto, não tem pranto, olhos abertos de espanto, dia a dia em correria; não tem filhos nem cadilhos, maus patrões para aturar, nem vida que não é vida ou pesos de carregar; só tem paz e harmonia, só tem amor e perdão. Será lá o teu lugar. No fim desta refeição comigo te vou levar.
– Mas quem és tu, afinal? – o pobre estalajadeiro não sabia se devia sorrir ou chorar. Era o seu dia derradeiro, era a hora de partir. Não tinha medo da morte. Desde há muito que estava preparado.
O outro não respondeu. Pegou num pouco de pão e, elevando-o no ar, disse:
– Isto é meu corpo. Comei todos!
Ergueu o copo também:
– Isto é meu sangue. Bebei todos!
Os doze se alevantaram e de mãos postas cantaram:
– Amen. Para sempre amen.

 

 

 

 

 

VIRGÍNIA FULBER
- Novo Hamburgo RS Brasil -

 

PRESENTES - breve reflexão - * virgínia fulber

 

Ouvindo pessoas falando sobre sugestões de presentes para o Natal que se aproxima e a grande ansiedade gerada entorno das festividades, lembrei-me de  compartilhar como costumo lidar com esta questão. 


Na data propriamente do  Natal, não costumo presentear com objetos, apraz-me faze-lo através de uma boa conversa seja por telefone, carta ou pessoalmente se possível, acompanhada de um grande e respirado abraço e uma ceia compartilhada com os mais chegados. Mudei o meu paradigma sobre esta data  quando meu filho nasceu a 32 anos, para que ele viesse a compreender que o  Natal e outros momentos importantes, são celebrações  de sentimentos. Presentes materiais, pouco valor possuem diante ao compromissa-se com os afetos e reconhece-los como tal. 

Infelizmente o comercio facilmente, com nossa conivência,  apropriou-se além das datas comemorativas religiosas como de quase tudo que envolve as  emoções humanas. Deixamo-nos conduzir como cordeiros e, o que é pior  pelos lobos de pastores disfarçados. A insensatez é ainda mais cruel quando faz sofrer os desprovidos não só de racionalidade e capacidade de reflexão mas também de recursos financeiros para dar conta da demanda dos desejos e sentimentos de abandono ante as grandes e luminosas edificações e manifestações da matéria em detrimento do contato afetivo. Lembrando que os festejos natalinos com seus adereços artesanais, teve início na cultura alemã, esta que sabemos tem imensa dificuldade de manifestar o amor através  contato físico; abraços, beijos, carícias. Nesta cultura amor demonstra-se com trabalho =  técnica = artefatos= indústria.

O Natal Cristão é  um momento, oportunidade, de renovar a fraterna comunhão e tendo sido  a data escolhida para festejar o nascimento do grande e nobre sábio que entre nós viveu; um incansável idealista pela igualdade, justiça e liberdade. Jesus Cristo deixou-nos a mensagem de compartilharmos o pão e aprendermos que o perdão é essencial, perdoar a nós mesmos e seguir em frente fazendo-o com o outro, que  enquanto humano é passível de falhas, que sinceramente reconhecidas, podem ser remediadas e, a partir de então outros modos de conduta, tentativas de acerto possíveis. 
Promover encontros e reencontros, significativos entre os seres humanos não é fácil, mas algumas vezes conseguimos reescrever algumas  histórias. Corpos encontram e se reencontram em abraços, enlaçam-se olhares, entrelaçam-se palavras na busca de algum sentido que transcenda o convencional, redimensionando espaço-tempo, cozendo lentamente novas e mais acertivas, afirmativas e pacíficas formas de existência...  

Desejo um ótimo tempo de advento aos Cristãos e que este culmine numa celebração à vida.  Que cada um consiga manifestar seus afetos; presentear; dar  de si  e receber para si livremente, o que implica numa  intimidade e harmonia consigo mesmo inicialmente.
Que haja criatividade, menor nível de ansiedade possível, nestes tempos que se destinam principalmente à reflexão e a renovação.
Presentes são surpresas, aberturas a outras perspectivas...


A seguir 4º BLOCO, que tal como outos Blocos, vão ficar alojados no Portal CEN – “Cá Estamos Nós”. Se ainda não mandou seu trabalho, ainda o pode fazer até à data limite que é 10 de Dezembro de 2011.

Carlos Leite Ribeiro


 

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