
TCHELLO D´BARROS
- Belém - PA - Brasil -
O LEGADO E O PRESENTE
Estavam algumas deidades de terceiro escalão
reunidas em um quadrante próximo à Alfa
Centauro, em um recente 24 de dezembro, como
fazem todo ano, desta vez tramando sobre o
destino de uma certa cidade provinciana do
sul do Brasil, quando o assunto se
encaminhava para a constatação de que o
projeto foi inviável, que foram mais de 150
anos perdidos e não valeria a pena continuar
com aquele nome no mapa.
Claro que isso gerou muito calor na
discussão, pois as divindades andavam sobre
a Terra e tinham lá suas convicções, algumas
bem disparatadas, é verdade, pois tudo se
tratava de distribuir bençãos ou castigos
aos que tinham feito boas ações o ano todo.
E aquela cidade estava na corda bamba.
Os mais otimistas argumentavam que não, que
deveriam deixar a cidade como está pra ver
como é que fica, pois é um povo trabalhador,
muito trabalhador, trabalham 24 horas por
dia, são um exemplo para o país. Mas aí um
deusinho meio comunista levantou a mão e
disse que isso não quer dizer nada, que são
como formigas, que trabalham demais e a vida
não é feita só de trabalho. Então, um
terceiro entrou na parada, lembrando que não
era verdade, que lá o povo gosta de festa
também, promovem grandes festanças
esvaziando tantos barris de chope quanto
possível. Logo, entraram na discussão mais
alguns, lembrando que além de tudo, é a
terra que mais tem mulheres bonitas no país,
que lá se fazem cristais maravilhosos, que
se faz roupa bonita como ninguém, que as
bandinhas são as mais animadas, e assim
debatiam, cada vez botando mais lenha na
fogueira da discussão.
Nisso a ala pessimista entrou na briga,
lembrando que apesar de tudo, era um povo
meio frio, desconfiado com visitantes, que
não se abraçavam com freqüência, que muitos
nem queriam saber de falar português, que no
time de futebol da cidade só tinha
pernas-de-pau, que no inverno não caía neve,
que o rio fazia uma curva, que o chucrute
estava azedo e assim por diante. Foi o que
bastou para que quase caíssem na porrada,
cada um reverberando suas certezas e
proposições.
Foi nesse momento que entrou na cena um
grupo de uns deuses esquisitos, com cada de
mau, que pediram a palavra, imediatamente
concedida, e contaram que a tarefa não era
tão simples quanto se pensava, e que eles
mesmos já tinham feito tentativas
individuais nesse sentido, mas sem grandes
resultados, que era preciso entrar em
consenso e somente com uma ação coletiva
poderiam efetivar seu intento, pois destruir
uma cidade inteira como aquela não é tarefa
fácil, ainda mais com aquelas casas em
estilo enxaimel, resistentes a tudo. A turma
toda ficou surpresa com esse depoimento e
pediram mais explicações.
Um deles contou que tentou riscar a cidade
do mapa, com algumas inundações, que isso
incomodou de fato o povo, mas sempre deram
um jeito de tirar tudo de letra. Isso causou
certo pavor em alguns participantes da
reunião, mas outro apartou logo e contou que
tinha tentado pelo fogo, mas o máximo que
conseguiu foi queimar o tampo de um morro
das redondezas. Outro disse então que por
muitas vezes espalhou pela cidade políticos
corruptos, gente consumista, empresários
fominhas, poetas ruins e toda uma laia de
gente maledicente, invejosa e mesquinha.
Lamuriou então que não adiantou de nada,
esses apenas trataram de se miscigenar com
os habitantes e o resultado está aí. Outros
ainda quiseram enumerar suas tentativas, pra
contar das favelas, capivaras, academias,
argentinos, pagodeiros e outras presepadas,
mas o conselho superior interrompeu.
Estavam para concluir e tomar uma decisão
que resultasse numa ação conjunta, pois
estava visto que somente um esforço coletivo
poderia levar a cabo tão importante tarefa,
quando de repente, um deusinho que até
estava meio escondido, lendo absorto
qualquer coisa num livro, pediu a palavra,
ou melhor, interrompeu o conselho e foi logo
dizendo que sabia de algo na cidade que
justificaria sua continuidade, sua
permanência. Todos ficaram espantados e
queriam saber do que se tratava, sendo que
um já foi logo dizendo que era o
apfelstrudel, que faziam num bairro da
periferia. Outro perguntou se por acaso se
tratava dos ipês-amarelos que na primavera
enfeitavam de ouro a cidade. E já estavam
todos animadinhos para darem seus pitacos
quando ele mostrou à todos o livro que tinha
descoberto e trouxe da biblioteca pública da
cidade: um livro de poemas haicais. Todos
ficaram estupefatos a princípio, mas em
seguida ele lhes contou que naquela cidade
viveu um grande poeta e que este escreveu
inúmeros poemas nesse estilo e até publicou
vários livros e que esses livros hoje estão
à disposição do povo na biblioteca.
Já era quase meia noite, quase 25 de
dezembro, e então os deuses ouviram a
leitura dos poemas, causando comoção à
todos. E foi assim que decidiram naquela
noite que a cidade deveria permanecer no
mapa. Todos deram sua benção antes de
dormir.

TITO OLÍVIO
- Faro Portugal -
NATAL NA ENCRUZILHADA
Quando, à noite, o sol, morrendo, se
escondia no horizonte, sempre vinha a
ventania, que surgia por trás do monte e
fazia correr à desfilada os rolos de nuvens
do vermelho pó da estrada, como atletas em
competição. Em Dezembro, porém, vinha o frio
também, um frio gélido, que cortava as
orelhas e obrigava a levantar a gola do
capote. Dizia o povo que «ande o frio por
onde andar, no Natal há-de chegar». Fazia,
pois, um frio de rachar, puxado pelo vento
incómodo.
A estalagem, à beira da estrada, naquela
encruzilhada, que parecia levar a toda a
parte do mundo e em todas as direcções, era
um edifício, parecendo uma antiga igreja,
que tivesse sido adaptada à vida laica.
Paredes caiadas e cunhais de cantaria
aparelhada. Por cima da larga porta dupla,
havia um óculo, daqueles onde as igrejas têm
uma rosácea, mas que, ali, tinha apenas
vidro branco. À roda, não se via qualquer
outra casa e somente algumas árvores
raquíticas enfeitavam a paisagem árida.
Todo o viajante fazia uma paragem para comer
ou também dormir e do estalajadeiro era
conhecida a fama de nunca negar comida e
cama, mesmo que o passante não tivesse algum
dinheiro. Chamava-se o anfitrião Serafim e
sua mulher tinha o nome de Ester. Tinham
perdido seu único filho numa noite de Natal,
ainda criança, numa queda fatal do muro do
jardim, por descuido da criada. É
indescritível a dor de pais que perdem um
filho. O casal bem tentou arranjar outro,
mas Deus não lhes concedeu um descendente,
alguém que deles cuidasse na adiantada
velhice. Talvez por isso, ambos dedicaram o
resto de suas vidas a servir os outros e a
ajudar quem precisava. Pobre que pedisse
esmola tinha de se sentar e comer uma sopa
de hortaliça. Se precisasse de dormir, havia
palha na cavalariça para descansar os ossos.
Desde aquele dia fatídico, na estalagem da
encruzilhada, cada noite de Natal tinha uma
consoada, uma lauta ceia bem servida, com
sopa quente, pão, queijo, chouriços e vinho
à discrição, terminando com as rabanadas,
que eram uma especialidade da D. Ester. Era
para quem estivesse presente, em lembrança
da memória da criança falecida, e ninguém
pagava nada. Então, para além dos passantes,
os mendigos das cercanias, duas léguas em
redor, aproveitavam aquela noite para
tirarem a barriga de misérias, aquecer os
corpos na atmosfera morna do comprido salão
abobadado, que o calor da grande lareira
bafejava. As paredes eram de pedra à vista,
a que se encostavam os barris de madeira, a
atestar que aquele lugar era a adega da
estalagem. Todos comiam e bebiam e o
estalajadeiro apenas exigia que, no final,
cantassem hinos em louvor do Deus feito
Menino, que veio ao mundo na noite de Natal
para ensinar o amor. Serafim e D. Ester eram
profundamente piedosos e, por isso, nunca se
haviam revoltado com a morte prematura do
seu filho único, crentes que estavam de que
o Senhor o tinha chamado ao seu bendito
Reino para fazer dele um anjinho da Sua
corte.
Há muitos anos já, tantos que o bom do
Serafim a conta lhe perdera, naquela noite
sagrada aparecia lá, infalivelmente, um
grupo de homens, para o qual era reservada
uma mesa comprida. Ninguém sabia donde
vinham, nem para onde iam, mas também nunca
isso lhes tinha sido perguntado, porque, na
consoada, a única coisa que interessava era
cear e depois cantar. Não eram mendigos,
certamente, tendo em conta as suas amplas
túnicas muito limpas, coloridas, em que o
tempo parecia não tocar, pois estavam sempre
novas.
Um era o Simão, o que chegava primeiro,
talvez por perto morar. Abraçava o
estalajadeiro e pegava na mão da mulher para
a beijar com admiração.
– Lindo é o nome Ester, que foi o daquela
rainha boa e bela que libertou o povo do
Senhor da servidão no reino do Imperador da
Pérsia!
E cada ano, como se fosse a vez primeira,
era sempre esta a saudação à estalajadeira,
que lhe retribuía também com o mesmo
sorriso.
Outro, era André, irmão de Simão, mais moço
e mais belo, com longo cabelo e brilho no
olhar; e outro, o Tiago, alto, espadaúdo,
mais o seu irmão, de nome João, quase uma
criança, do grupo o delfim, um louro
semblante que trazia ao Serafim a doce
lembrança do seu filho infante; e outro, o
Filipe, com graça no andar, e o Bartolomeu,
um homem barbudo, e outro, o Tomé, sempre a
olhar de lado, curioso, desconfiado; e
Mateus, o Publicano, culto homem da escrita,
que dominava o grego e o romano, e trazia
uma fita onde assentava tudo; e mais um
Tiago, baixote e pançudo, que, para se
distinguir do outro Tiago, alto, espadaúdo,
usava também o nome do pai, que era Alfeu;
por fim, o Tadeu, de alcunha o Iscariote.
Eram doze ao todo e quem os visse ali, na
doçura do trato, em suave harmonia, por
certo diria que eram todos irmãos.
Depois de lavados os pés e as mãos,
sentavam-se à roda da grande mesa, cada um
em frente da sua malga de louça, enquanto as
criadas, limpas e arranjadas, traziam com
presteza o caldeirão da sopa quente. De pé,
braços cruzados sobre o avental, como um
modesto serviçal de todos os comensais, o
anfitrião olhava embevecido e sorria,
contente.
Naquele ano, algo de novo se passou. Quando
os doze já estavam sentados, o largo portão
rangeu, como se fosse a ventania, mas foi um
desconhecido que apareceu entre os umbrais
e, suavemente, entrou. Tão suavemente, que
parecia não tocar o chão com as sandálias.
Não disse nada; porém, foi como se tivesse
chegado a madrugada em todo o seu esplendor,
se tivesse feito claro dia e o sol entrasse
pela janela. Fosse da face amarela, sem
rubor, do brilho do olhar ou dos lábios
descorados; fosse da tez morena, dos cabelos
ondulados, do seu aspecto sereno, da leveza
do andar, toda a gente estremeceu e, de
repente, se calou.
O homem não disse nada, nem mesmo pronunciou
um nome. Dirigiu-se à mesa dos doze e tomou
o lugar central que os outros lhe fizeram,
chegando-se para os lados. Sentou-se, mas
não comeu. Fitava o anfitrião com o sorriso
de um rei e um olhar franco e bondoso.
Depois de alguma espera, disse-lhe então:
– Só hoje vim, mas conheço a tua vida; sei
desta ceia, servida cada ano no Natal, sinal
da tua bondade, e sei com que intenção a
ofereces, sem distinção das pessoas, sejam
elas quem forem. Podes crer que o teu filho
está no Céu, na formação dos anjinhos, e
irás vê-lo brevemente! Estes, à roda de mim,
são os meus doze amigos e de há muito não
nos víamos. A ensinar a verdade eles o mundo
percorrem. Serafim, tua bondade a tua alma
salvou, deves pois estar contente. Chegou o
dia, enfim, nesta noite de Natal, e foi por
isso que eu vim. Há para ti um abrigo, onde
a vida é só ventura, não existe sofrimento,
nem tortura ou amargor, nem vaidade ou
presunção; não tem ricos, não tem pobres,
não tem plebeus nem tem nobres, porque são
todos iguais; não tem labor nem preguiça,
nem prisão nem injustiça, não tem lutas nem
rivais; não tem homens poderosos, sequiosos
de ambição, vingativos e raivosos; não tem
doença malvada, nem morte que meta medo; não
tem sina mal fadada, nem intrigas nem
enredo; não tem luto, não tem pranto, olhos
abertos de espanto, dia a dia em correria;
não tem filhos nem cadilhos, maus patrões
para aturar, nem vida que não é vida ou
pesos de carregar; só tem paz e harmonia, só
tem amor e perdão. Será lá o teu lugar. No
fim desta refeição comigo te vou levar.
– Mas quem és tu, afinal? – o pobre
estalajadeiro não sabia se devia sorrir ou
chorar. Era o seu dia derradeiro, era a hora
de partir. Não tinha medo da morte. Desde há
muito que estava preparado.
O outro não respondeu. Pegou num pouco de
pão e, elevando-o no ar, disse:
– Isto é meu corpo. Comei todos!
Ergueu o copo também:
– Isto é meu sangue. Bebei todos!
Os doze se alevantaram e de mãos postas
cantaram:
– Amen. Para sempre amen.

VIRGÍNIA FULBER
- Novo Hamburgo RS Brasil -
PRESENTES - breve reflexão - * virgínia
fulber
Ouvindo pessoas falando sobre sugestões de
presentes para o Natal que se aproxima e a
grande ansiedade gerada entorno das
festividades, lembrei-me de compartilhar
como costumo lidar com esta questão.
Na data
propriamente do Natal, não costumo
presentear com objetos, apraz-me faze-lo
através de uma boa conversa seja por
telefone, carta ou pessoalmente se possível,
acompanhada de um grande e respirado abraço
e uma ceia compartilhada com os mais
chegados. Mudei o meu paradigma sobre esta
data quando meu filho nasceu a 32 anos,
para que ele viesse a compreender que o
Natal e outros momentos importantes, são
celebrações de sentimentos. Presentes
materiais, pouco valor possuem diante ao
compromissa-se com os afetos e reconhece-los
como tal.
Infelizmente o comercio facilmente, com
nossa conivência, apropriou-se além das
datas comemorativas religiosas como de quase
tudo que envolve as emoções humanas.
Deixamo-nos conduzir como cordeiros e, o que
é pior pelos lobos de pastores disfarçados.
A insensatez é ainda mais cruel quando faz
sofrer os desprovidos não só de
racionalidade e capacidade de reflexão mas
também de recursos financeiros para dar
conta da demanda dos desejos e sentimentos
de abandono ante as grandes e luminosas
edificações e manifestações da matéria em
detrimento do contato afetivo. Lembrando que
os festejos natalinos com seus adereços
artesanais, teve início na cultura alemã,
esta que sabemos tem imensa dificuldade de
manifestar o amor através contato físico;
abraços, beijos, carícias. Nesta cultura
amor demonstra-se com trabalho = técnica =
artefatos= indústria.
O Natal Cristão é um momento, oportunidade,
de renovar a fraterna comunhão e tendo sido
a data escolhida para festejar o nascimento
do grande e nobre sábio que entre nós viveu;
um incansável idealista pela igualdade,
justiça e liberdade. Jesus Cristo deixou-nos
a mensagem de compartilharmos o pão e
aprendermos que o perdão é essencial,
perdoar a nós mesmos e seguir em frente
fazendo-o com o outro, que enquanto humano
é passível de falhas, que sinceramente
reconhecidas, podem ser remediadas e, a
partir de então outros modos de conduta,
tentativas de acerto possíveis.
Promover encontros e reencontros,
significativos entre os seres humanos não é
fácil, mas algumas vezes conseguimos
reescrever algumas histórias. Corpos
encontram e se reencontram em abraços,
enlaçam-se olhares, entrelaçam-se palavras
na busca de algum sentido que transcenda o
convencional, redimensionando espaço-tempo,
cozendo lentamente novas e mais acertivas,
afirmativas e pacíficas formas de
existência...
Desejo um ótimo tempo de advento aos
Cristãos e que este culmine numa celebração
à vida. Que cada um consiga manifestar seus
afetos; presentear; dar de si e receber
para si livremente, o que implica numa
intimidade e harmonia consigo mesmo
inicialmente.
Que haja criatividade, menor nível de
ansiedade possível, nestes tempos que se
destinam principalmente à reflexão e a
renovação.
Presentes são surpresas, aberturas a outras
perspectivas...
